Viral ou violência: como fica a cidadania das pessoas com deficiência?

Texto de Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

No início desta semana, fomos surpreendidos com a campanha promovida pelo Movimento pela Revisão de Direitos (MRD), que propõe o fim de supostos privilégios concedidos a pessoas com deficiência, como a reserva de vagas em estacionamentos e cotas em concursos públicos.

Atualização: Placa contra ‘privilégio’ de deficientes é ação da prefeitura de Curitiba.

Outdoor colocado em Curitiba. Divulgado na página do Facebook da Radio Banda B.
Outdoor colocado em Curitiba. Divulgado na página do Facebook da Radio Banda B.

Num primeiro momento, pode ser tentador considerar conquistas históricas meras concessões estatais, de cunho paternalista e assistencialista. Esse tipo de análise rasa ocorre quando ignoramos o contexto que motivou a luta por direitos. No caso dos direitos das pessoas com deficiência, as cotas para concursos não servem apenas para inclusão no mercado de trabalho. Também é uma compensação a todas as vagas pelas quais pessoas com deficiência não podem concorrer, como por exemplo, vagas em corporações militares (Forças Armadas, Bombeiros, etc).

As vagas reservadas em estacionamentos parecem ultrajantes para quem não possui uma deficiência. Isso acontece, em grande parte, pelo fato de que a cidade, em todas as suas instâncias, é meramente um cenário estático para as pessoas que têm corpos em conformidade com o espaço construído. Para quem tem uma deficiência, a cidade é um espaço dinâmico de disputa e opressão, uma arena edificada onde cada centímetro quadrado pode ser subtraído. É o espaço que agride, rejeita, aparta e exclui. Nesse contexto, pessoas com deficiência são considerados invasores de um espaço ao qual não pertencem. Portanto, ainda que a campanha gere indignação em um primeiro momento, ela não é nada mais do que um reflexo verbal do cotidiano. Ser excluído do espaço urbano — e, consequentemente, de suas atividades — é o dia a dia de quem tem mobilidade reduzida. Apesar do choque visual, a violência da exclusão é uma realidade diária capaz de surpreender apenas as pessoas que não possuem deficiência.

Algumas horas depois, surgiu a informação de que a campanha teria cunho publicitário, com a finalidade de promover a conscientização para a inclusão de pessoas com deficiência. Ainda que se pense nas boas intenções deste tipo de iniciativa, é necessário que se reflita sobre os meios de promoção e, principalmente, difusão dessa conscientização. É execrável que se use os poucos avanços de direitos a fim de beneficiar e visibilizar terceiros. A apropriação da pauta de luta de uma forma tão violenta não se justifica, ainda que haja uma motivação nobre. Não faz sentido chamar atenção para a falta de cidadania de pessoas com deficiência utilizando-se de linguagem que ameaça a conquista de direitos de minorias. Prova disso é que não é tão óbvio que se trata de ação publicitária. Se fossem direitos assegurados e percebidos por todos, o absurdo ficaria evidente de imediato e o caráter fictício seria identificado.

Não importa se a campanha é real ou publicitária. Os efeitos resultantes de uma ação deste tipo não acrescentam em nada para o fomento da inclusão, apenas dão força à crescente onda de propagação de discursos de ódio cada vez mais forte.

+Sobre o assunto: Menos discurso de ódio, mais espaço de fala. Por Mila Correa.

Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Hoje, 06 de julho, Magdalena Carmen Frida Kahlo completaria 108 anos. Atualmente, é uma das imagens femininas mais populares. Assim como Che Guevara, Frida Kahlo está estampada em diversos produtos, é possível ver sua imagem em camisetas, editoriais de moda, festas à fantasia ou na bolsa de uma jovem grega na televisão que espera para sacar dinheiro num caixa eletrônico.

A chamada “Fridamania” está por toda parte, especialmente em sites, páginas e coletivos feministas. Há muito poder em sua imagem, mas até que ponto transformamos Frida Kahlo numa estética idealizada? Até que ponto essa imagem icônica e pop corresponde aos ideais e propostas da pintora politizada que fez de seu corpo uma ferramenta de resistência para pintar sua realidade?

Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.
Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.

Frida Kahlo: a mãe da selfie.

A pesquisadora Cátia Inês Schuh, que elaborou a tese: A prospecção pós-moderna da comunicação visual no imaginário de Frida Kahlo (.pdf), sobre a apropriação da imagem da pintora mexicana pela indústria cultural e do consumo, disse em entrevista que Frida é a mãe da selfie, já que grande parte de seu trabalho é composta por autorretratos. Essa afirmação parece explicar em parte a admiração instantânea que sentimos ao ver uma imagem de Frida. Autêntica, subversiva, intensa, provocadora. Nada em suas fotos ou em suas obras parece banal e esse me parece ser um desejo das pessoas atualmente, não parecerem comuns.

Frida Kahlo já se expunha nas redes sociais antes de isso ser modinha e, provavelmente, seria uma famosa blogueira de moda nos dias de hoje, já que desenhava e customizava suas roupas e sapatos. Cheia de dualidades, ao mesmo tempo que seu estilo presta homenagem a um vestuário feminino indígena, o que poderia ser visto como algo arcaico, sua forma de se apresentar ao mundo evidencia uma mulher contemporânea, a frente de seu tempo.

Sua individualidade e sua sexualidade estão constantemente presentes em suas representações. Frida tem como um tema central de sua obra a potência do corpo. O simples fato de seu corpo existir é uma resistência a tantas intervenções decorrentes dos acidentes que sofreu e das cirurgias que fez. E, que esse corpo seja também a ferramenta pela qual ela transforma a própria trajetória em processo de criação torna tudo mais fascinante. Então, me pergunto: por que não vemos imagens que retratam as deficiências físicas de Frida Kahlo? Por que sua feiúra é tida como algo irrelevante, quando na verdade esse aspecto parece conter toda a subversão de sua imagem?

A única aprendizagem possível: a de si mesma.

Pelos relatos(1), Frida Kahlo desde criança escondia suas deficiências. Aos 6 anos, um ataque de poliomielite a prende a cama por nove meses, o resultado é uma perna mais fina que a outra. Usa meia superpostas e botas altas para disfarçar. Seu pai, o alemão Guilhermo Kahlo, elabora um programa esportivo para ajudá-la a recuperar força e músculos: patins, bicicleta, remo, jogos com bola e lutas. Atividades pouco comuns para as meninas da época. A aproximação entre Frida e o pai fotógrafo também revela as posteriores influências em seu trabalho: luz, enquadramentos, retratos. O pai sofre de epilepsia e a solidão das doenças acaba por ser mais um ponto em comum.

Em 17 de setembro de 1925, aos 18 anos, ela sofre o grave acidente de trânsito, o ônibus em que estava bate num bonde. Segundo Frida em seu diário(2), o ônibus foi esmagado e o corrimão a transpassou como a espada transpassa o touro. Inúmeras fraturas, um mês no hospital. Quem a acompanha nesse período é Matita, a irmã mais velha que fugiu de casa aos 15 anos, com a cumplicidade de Frida, para viver com o namorado e a quem a mãe só abrirá a porta de casa após 12 anos de silêncio. Ela sai do hospital para um longo período de imobilização, em que não há como continuar os estudos e a partir daí começa a emergir sua criação:

Única aprendizagem possível: a de si mesma, captada pelo pequeno espelho das dimensões de um retrato. Único material humano: o seu, pois não pode ir ao encontro dos outros, mas sempre cercada pela expressão que os grandes retratistas alemães e italianos dão a figura humana. Desse confronto com a própria identidade nascem as problemáticas que tocam a própria essência da arte: a ilusão, o desdobramento, a relação com a morte. Bem mais que uma autobiografia, seus autorretratos se revelam como “imagens do interior” de uma mulher que se lançou em uma busca tanto existencial quanto estética, de um ser em processo de vir a ser, de uma consciência que nasce. (1 – pg. 29).

Aos 20 anos, livre do corpete de gesso, amadurecida e consciente do que precisa para lhe dar sentido, reencontra amigos e a política. Mergulha na luta comunista, onde conhece a fotógrafa-repórter, Tina Modotti. Com origem italiana e revolucionária, Tina apresenta a Frida uma representação de mulher livre que coloca sua arte a serviço da causa do povo. É também nesse período que conhece Diego Rivera, 42 anos, companheiro e colaborador, com que viveu uma relação tão intensa que nem mesmo as cartas escritas conseguem explicar toda a complexidade.

Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.
Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.

Beleza, deficiência e capacitismo

Uma mulher manca, com uma monocelha, que usa roupas extremamente coloridas e um fenótipo com fortes traços indígenas. Como pode ter virado ícone de referência estética sem que quase ninguém questione esses aspectos tão criticados nas mulheres comuns? Em seus autorretratos, Frida está sempre nos mirando. Talvez procurando uma verdade em nosso olhar ou talvez apenas indicando que ela existe, tanto quanto nós, mas que ali há uma resistência diária em viver.

É fato que a intensidade das ações de Frida Kahlo fazem com que suas deficiências físicas e limitações não sejam o que a definem. Porém, seu corpo é objeto e realização, num elo intrínseco entre vida e obra. Por três vezes, Frida desafiará a proibição dos médicos de engravidar depois do acidente, mas terá que se curvar e realizar abortos por determinação médica. Em inúmeros momentos de sua trajetória e de suas obras, o corpo é apresentado como a expressão concreta de sua consciência e militância.

O capacitismo de nossa sociedade cultua o corpo útil e aparentemente saudável. Esconder suas deficiências por meio das roupas podem indicar a maneira que Frida escolheu para enfrentar o preconceito. Vaidosa e certa de como queria ser representada, acaba por criar uma emancipação em sua forma de representação, escolhendo como gostaria de ser vista no imaginário social. Sua fragilidade, medos e receios estavam expostos em suas obras. Portanto, temos essa Frida que emerge com força, feminilidade e autenticidade nas fotografias e a Frida dos autorretratos, em que o olhar sempre marcado e o corpo exposto evidenciam suas dores.

Provavelmente, nosso capacitismo e nosso desejo de enrijecer a força desse ícone nos façam invisibilizar seu corpo físico ou vê-lo apenas como uma alegoria pictórica. Ou talvez, Frida consiga expressar tanta autonomia que cria o desejo de nos identificarmos com ela, algo que geralmente não ocorre com pessoas com deficiências, pois as vemos como incapazes, a princípio.

Pessoas que possuem deficiências nos lembram a fragilidade que queremos negar do ser humano. O pior do preconceito se dá porque não queremos que essas pessoas sejam visíveis, que sejam como nós, pois assim nos igualaríamos. Tê-los em nosso convívio funcionaria como um espelho que nos lembra que também poderíamos ser como eles. Por isso temos tanta dificuldade em tornar o mundo mais inclusivo fisicamente para quem tem limitações. A exclusão é sempre a primeira resposta para o que desafia a ideia de perfeição humana.

Exotismo, ambiguidade e excentricidade também são adjetivos usados para descrever os sentimentos que temos em relação a Frida Kahlo. Definitivamente sua imagem não nos permite ser indiferentes. Sua personalidade mostra-se em cada acessório, em cada nó da trança, na estampa dos vestidos, no detalhe dos bordados, no rosto maquiado. Há alívio em não ver a beleza perfeita? Há admiração por uma mulher ser tão autêntica e autônoma? Há o desejo de assumir essa individualidade enérgica e rejeitar qualquer forma de submissão social?

Penso que Frida Kahlo construiu esse feminismo provocativo da imagem justamente para questionarmos nossas ações e nossa forma de se ver no mundo. O que é possível criar e construir com limitações físicas num mundo tão capacitista? A arte foi sua resposta. Uma arte altamente egóica, mas que se comunica diretamente com as lutas políticas do México e com o íntimo das mulheres. Não me parece à toa que ela tenha se tornado uma figura tão popular entre as feministas, mas acho que podemos ir além da simples impressão de sua imagem em camisetas e bolsas, precisamos resgatar e amplificar sua voz e ideais que apontam para um feminismo mais inclusivo.

Referências

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

(2) KAHLO, Frida. O diário de Frida Kahlo: Um autorretrato íntimo. Tradução de Mário Pontes. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2012.

+Sobre o assunto: Frida Kahlo e a intensidade do sentir. Por Bia Cardoso no Biscate Social Club.

Imperatriz Furiosa e as mulheres feministas em Mad Max: Estrada da Fúria

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Atenção, esse texto contém spoilers!

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Quem matou o mundo? Essa é uma das perguntas feitas no filme Mad Max: Estrada da Fúria. Quem faz essa pergunta é uma mulher, ao questionar um homem sobre as verdadeiras intenções de seu líder. As críticas elogiosas tem enaltecido não apenas as cenas de ação, efeitos especiais e o enredo com vários panos de fundo, mas também o fato desse filme ser uma distopia feminista, um massacre do patriarcado. Será?

Como afirma Kate McDonough em “Mad Max: Fury Road”: where feminist revenge fantasy meets old school redemption quest: “Nós temos uma tendência cultural a analisar o feminismo de um filme por meio de uma métrica estreita (como o Teste de Bechdel), mas nunca achei esse método particularmente alegre ou politicamente útil. Há feminismo em Mad Max: Fúria na Estrada, mas a quantidade e o tipo dependem de você fazer essa análise dentro dos padrões de Hollywood ou por meio de uma ideia que reconheça que personagens femininas podem pensar, sentir, lutar e sangrar”.

Estamos falando de um blockbuster hollywoodiano. Até que ponto é possível que Hollywood, uma indústria comandada por homens brancos, ricos e conversadores, produza filmes feministas? Então, nossa base de análise será essa, afinal, o feminismo nos últimos anos passou a ser rentável em alguns aspectos, devido a “moda feminista”. Para muitas pessoas não há nenhuma revolução nisso mas, para muitas mulheres que cresceram gostando de filmes de ação, ou que na solidão nerd só tinham a Princesa Léia e Nyota Uhura, as mulheres de Mad Max podem fazer diferença para a geração atual de jovens quando pensarmos em representatividade.

Distopias feministas no cinema

Há alguns filmes de ficção científica ou de ação que contem elementos feministas. São geralmente produções com protagonistas mulheres que levantam questões sobre gênero, reprodução e poder político. Ellen Ripley da série Alien e Sarah Connor da série O Exterminador do Futuro são exemplos disso. Matrix, Jogos Vorazes e até mesmo V de Vingança são exemplos de filmes de ação recentes que também tratam essas questões. Tank Girl, apesar de não ter feito tanto sucesso, trabalha de maneira muito boa questões paralelas com relação a sexualidade das mulheres e as formas de dominação masculinas. O novo Mad Max também entra nesse conjunto e consegue ir um pouco mais além.

Na maioria desses filmes, a heroína feminista é solitária. É ela contra o mundo. Lutando para salvar a si mesma e também o mundo. No novo Mad Max somos apresentadas a Imperatriz Furiosa, que parece seguir esse mesmo roteiro. Porém, seu objetivo principal no momento é libertar mulheres e levá-las para viver em segurança num local comandado por mulheres. Em determinado momento, fica claro que Furiosa não tem um plano infalível. O que ela tem é uma oportunidade, dirigir uma máquina de guerra, a partir disso vai improvisando e aceitando ajuda de todos os lados que vierem. É aí que entra não só Mad Max, mas também Nux (um War Boy) e as cinco noivas, que tem nomes descritivos: Toast, a sábia; Angharad, a esplêndida; Cheedo, a frágil; Capable e The Dag. Está formado um comboio, que mais para frente ganhará o reforço do clã original de Furiosa, as Vuvalinis.

Portanto, temos não apenas mulheres buscando a liberdade, mas também unindo-se em torno desse objetivo em comum. Num primeiro momento, elas seguirão juntas em busca de um novo mundo. Porém, Max as convence que derrubar o império de Immortan Joe, pode ser mais efetivo e trazer resultados mais imediatos para uma população faminta e escravizada. Isso talvez seja o que de mais feminista o filme tenha, a ideia de não apenas libertar mulheres, mas construir um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas.

Como ressalta Fabiano Camilo em “Mad Max – estrada da fúria” ou A possibilidade de um mundo outro, fundado no feminino: “São os miseráveis, as crianças, as mulheres escravizadas – os oprimidos, aqueles cuja vida não tinha nenhum valor na comunidade governada totalitariamente por Immortan Joe – quem reconhecem em Furiosa e seu grupo as agentes capazes de liderarem-nos na instituição de um mundo outro, cuja comunidade política seja fundada em princípios políticos valorados como femininos”.

Novas representações da personagem feminina forte e de gêneros

Num primeiro momento, Imperatriz Furiosa é todo estereótipo de heroína forte que conhecemos: masculinizada, andrógina, assexual. Porém, novas camadas são apresentadas ao longo do filme e passamos a enxergá-la de diferentes formas. Porque, não nos interessa trocar o estereótipo da personagem feminina bibelô por uma personagem feminina forte cheia de padrões. Como diz Lady Sybylla no texto Personagem Feminina Forte: “É interessantíssimo colocar mulheres fortes na tela, mas em alguns casos parece mais um cala a boca do que representatividade. Além disso, o que é força? Como definir essa fortaleza em um personagem?”.

As cinco noivas, que num primeiro momento aparecem como anjos no meio do deserto, poderiam representar o oposto de Furiosa, mas o ponto positivo de Mad Max é que isso não acontece, não há dicotomias entre as mulheres. Furiosa nos mostra em diversos momentos que está em busca de redenção. Treinada e sabendo de suas qualidades físicas, tem como missão ajudar as cinco noivas a escapar, mas também cobra delas protagonismo, iniciativa e solidariedade. As cinco noivas, mulheres magras e com ar frágil, vão descobrindo suas aptidões, forças e como podem ser úteis ou até mesmo essenciais em momentos cruciais.

As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
As cinco noivas em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

As Vuvalinis, um clã formado só por mulheres, a maioria delas idosas, apresenta mulheres independentes que sobrevivem neste ambiente de violência sem precisar da ajuda de nenhum homem. Também não são o oposto das cinco noivas, porque o filme não busca representá-las apenas como artificio de sedução, mas expande as possibilidades de todas serem guerreiras, cada uma de seu jeito. Inclusive, tanto as idosas como as grávidas participam ativamente dos momentos de conflito, apanhando e batendo.

Ao encontrar as Vuvalinis, a noiva The Dag questiona uma das idosas sobre a razão dessas mulheres também matarem pessoas, se elas não poderiam fazer diferente. A resposta é que no passado elas não precisavam matar, mas agora o fazem para sobreviver. Se antes existia um lugar em que eram iguais, hoje já não existe mais e elas devem lutar por isso. As Vuvalinis parecem estar ali para nos lembrar que as questões de gênero precisam ser vencidas e é preciso lutar para que — quem sabe um dia — elas possam voltar a ter o mesmo lugar que tiveram. Isso fica claro quando Mad Max e Nux são avistados e elas já se sentem intimidadas, mas Furiosa logo aponta que eles são confiáveis. Isso remonta as várias vezes em que mulheres não sentem confiança em certas situações com homens cis e heterossexuais, pois muito das coisas que elas tinham, da confiança que carregavam lhes foram tiradas por alguns motivos. Furiosa vem para lembrar, de um outro lado, de uma outra posição, que ainda é possível acreditar e confiar.

Na cidadela de Immortan Joe, as mulheres são exploradas de diversas maneiras. Imperatriz Furiosa é mais uma de suas armas de guerra humanas. As noivas são escolhidas a dedo apenas para trazerem ao mundo filhos machos alfas perfeitos. Há uma idosa responsável por cuidar delas, que moram dentro de um cofre. Com a escassez de recursos, o leite materno tornou-se um dos alimentos mais valiosos, para obtê-lo, Immortan Joe escraviza mulheres presas a máquinas onde são ordenhadas.

Giza Sousa em Mad Max: Estrada da Fúria (Feminista) aponta sobre essas questões: “Como uma boa distopia deve fazer, Mad Max nos faz pensar na forma como validamos o consumo de produtos derivados dos animais. E se fôssemos nós a receber o tratamento que oferecemos aos animais? E por fim, as mulheres neste futuro distópico também são encaradas como um recurso, uma mercadoria. Mas não são também neste nosso mundo atual? A distopia de alguns é a realidade outros, a escravidão sexual é uma realidade em nosso mundo, ela acontece diariamente em todos os lugares, obviamente de forma ilegal mas acontece. Está aí uma das raízes da força feminista do filme, revelar como a objetificação das mulheres está ligada à violência propagada contra elas”.

A relação complexa entre as “noivas-parideiras” e os “filhos-soldados” também merece ser observada. Quando elas insistem que não devem haver mortes desnecessárias, afinal eles são filhos de outras delas na mesma condição e foram treinados para aquela violência. A representação da mulher como “aquela que provê a vida” está presente tanto nas noivas, como no fato de que as Vuvalinis carregam um estoque de sementes para plantar e ter comida em um novo mundo, mas isso não é essencializado ou sacralizado como a verdadeira função das mulheres.

No campo das representações de gênero, Otavio Cohen em Como a mitologia e o feminismo fizeram de Mad Max: Estrada da Fúria o melhor filme de ação do ano, destaca: “Falar de temas feministas no reboot de uma franquia que cheira a gasolina e pólvora sem nem mesmo citar o termo “feminismo” é um grande serviço social. Ao longo do filme, Max perde o cabelo, o carro, o sangue, o protagonismo – e tantos outros símbolos de virilidade. Mesmo assim, continua sendo um herói corajoso e habilidoso. Max não é menos homem por acreditar na causa de Furiosa. E ninguém na plateia será menos homem por gostar de um roteiro que resiste à tentação de tornar Furiosa e Max um casal ou de mostrar a protagonista feminina de um jeito sensual”.

Outras interseccionalidades: loucura e capacitismo

O capacitismo é tema presente no filme, tanto em aspectos relacionados a deficiências físicas como mentais. No que tange às questões físicas, vê-se duas proposições diferentes. Por um lado, a busca da perfeição física presente no discurso de Immortan Joe, que busca produzir filhos perfeitos para seu exército. Tal propósito parece se relacionar com o fato de que ele e seus dois filhos possuem deficiências físicas, escaras e doenças respiratórias, as novas gerações apresentam doenças como tumores. A manutenção do poder também passa por perpetuar o corpo físico ideal.

Por outro lado, em nítida oposição discursiva, vê-se a deficiência física apresentada pela Imperatriz Furiosa que tem um braço mecânico, mas que não depende dele. O braço mecânico é útil, porém ela pode prescindir dele e viver tranquilamente sem. Tendo só metade de um braço, ela não tem dependência da ferramenta que traria mais “normalidade” para seus movimentos ou que a ajustaria a uma padrão estético mais normalizado e aceitável. Furiosa também não demonstra estar triste ou abalada quando não está usando o braço. Não há traumas ou o desejo de ser fisicamente como os outros.

Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).
Imperatriz Furiosa em cena do filme Mad Max: Estrada da Fúria (2015).

Quanto aos aspectos relacionados à loucura e à forma de lidar com ela, também identifica-se uma certa polaridade. Os War Boys, o exército de Immortan Joe, são uma ótima representação do que um poder totalitário pode fazer com nossa racionalidade. Eles são jovens guerreiros kamikazes, que sonham com o paraíso dos “Portões de Valhalla”, gritam o tempo inteiro: testemunhem! E xingam-se de medíocres. Também carregam outros simbolismos, como a tinta prateada nos dentes, evidenciando o aspecto de caveira que já possuem. Cada um estimulando a loucura do outro, cada um celebrando a morte como o grande momento de suas vidas, numa constante adrenalina em que existem até bolsas de sangue vivas. Eles são movidos por uma esperança estéril e irrefletida, não ponderada nem personalizada.

Tal comportamento difere dos protagonizados por Mad Max que logo nas primeiras cenas se questiona se é ele quem está louco e se todo mundo está louco. Ele é um personagem perturbado por lembranças do passado que volta e meia enxerga seus fantasmas. Não segue impassível diante da morte daqueles que deveria proteger. É um personagem atormentado e nunca sabemos o que realmente o leva a fazer tudo para sobreviver. Diferente de outros protagonistas masculinos que possuem um psicológico inabalável, Max é diferente. Foi afetado por seu passado e continua seguindo.

O nome da Imperatriz Furiosa não está no título do filme, mas há uma divisão grande de protagonismo entre ela e Max. Os dois são obrigados a reconhecerem suas próprias limitações em alguns momentos e, mesmo tendo personalidades independentes e autônomas, se veem tendo que ser flexíveis em determinadas situações para sobreviver. Em determinado momento, Max diz a Furiosa que “a esperança é um erro”. Cada um busca sua redenção dentro de sua própria loucura.

Não somos objetos!

Em determinado momento, Angharad fala para uma das outras noivas que recebeu uma ordem de Max: “você não tem que obedecê-lo”. Em outro momento de fuga, uma das noivas grita a seus perseguidores: “não somos objetos!”. São exemplos de diferentes momentos em que as mulheres reivindicam seu protagonismo e sua autonomia. Outro ponto de vista feminista positivo no filme é apresentar essas mulheres como catalisadoras de suas percepções. Não é Furiosa quem dá poder as noivas, ela as tira da prisão para que corram com suas próprias pernas.

Essa agenda feminista do filme não surgiu à toa. Como descobrimos pelas notícias sobre a produção, foi pensada desde o início. Eve Ensler, autora do livro e da peça “Monólogos da Vagina” e fundadora do V-Day, uma organização que luta contra a violência a mulheres e crianças prestou consultoria ao filme, especialmente para forjar as personagens das noivas. E, o diretor George Miller contou em entrevista que pediu a Margaret Sixel — sua esposa — para editar o filme, justamente para não parecer um filme de ação qualquer. Além disso, temos importantes mensagens nas entrelinhas sobre a importância de preservar, mas também de democratizar o uso da água e de outros recursos, os efeitos da escravidão e da complexidade de certos elementos em ambientes de guerra e escassez.

Charlize Theron, que interpreta a Imperatriz Furiosa, também falou em entrevista sobre o feminismo do filme: “Eu senti isso muito forte quando terminamos de gravá-lo”, contou a atriz ao Entertainment Weekly. “O que tocou forte nele é a importância que as mulheres têm nesse mundo de sobrevivência. É perceptível como a geração mais nova de mulheres foi representada, minha geração foi representada, e essa geração de mulheres mais velhas foi representada. Fiquei feliz de ser uma garota com peitos e fazer parte disso”, explica.

Então, Mad Max: Estrada da Fúria é um blockbuster melhor do que a média que vemos surgir todo ano. Há outros tantos aspectos no filme que podem ser analisados como os detalhes do regime totalitarista de Immortan Joe, sua associação com outros líderes totalitários de outras cidades, o fato de em determinado momento alguém dizer que toda confusão foi causada por um problema de família ou o fato dos exército dos War Boys serem extremamente brancos, nos levando a pensar no conceito de raça pura. Há também análises comparativas com os filmes anteriores. Esse novo Mad Max não é uma revolução feminista, mas está trazendo bons questionamentos.

Ainda há uma série de problemas que merecem críticas como a falta de protagonistas, figurantes e coadjuvantes que não sejam brancos e heterossexuais. A diversificação étnica e racial fica restrita as noivas e as Vuvalinis, que apresentam diferentes tons de cabelo além de fenótipos negros e indígenas. Num ponto que chega a parecer estranho por não se encaixarem na falta de diversidade do resto do elenco. Por isso, apesar de ser um filme empolgante, divertido e com várias perspectivas feministas, fica aquela sensação de que ainda não existe espaço no cinema para a interseccionalidade. Quando se consegue trabalhar melhor uma diversidade as outras acabam ficando de lado. Apostamos que com mais mulheres dirigindo, produzindo e editando filmes, alcancemos cada vez mais diversidade, até mesmo em Hollywood.

+ Sobre o assunto:

[+] ‘Mad Max: Estrada da Fúria’ é o filme de ação feminista que você estava esperando. Por David Perry na Vice.

[+] O que feministas e machistas não perceberam sobre Mad Max. Por Victor Lisboa no Tempo de Consciência.

[+] Então quem matou o mundo? Por João Vítor Pessanha na Revista Fórum.

[+] “Mad Max: Estrada da Fúria” é o filme feminista que Hollywood estava precisando. Por Gustavo Abreu no IG.

[+] Entrevista em inglês com a atriz Charlize Theron: Charlize Theron on Mad Max: Fury Road, being part of a feminist action movie.

[+] The Women Pull No Punches In Fiery, Feminist ‘Mad Max’. Por Mandalit del Barco no NPR.

[+] Mad Max: Fury Road’s George Miller: “Initially, There Wasn’t a Feminist Agenda”. Por Jill Pantozzi no The Mary Sue.