Estrelas Além do Tempo: os obstáculos das mulheres nas exatas

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Quando ouvi falar sobre ‘Estrelas Além do tempo’ (Hidden Figures, no título original) fiquei bastante intrigada, afinal são raras as histórias sobre mulheres na computação que tem visibilidade. Fui ver o filme sem ler muitas informações, pois gosto do suspense da trama, sabia apenas que era baseado em histórias reais de cientistas negras que trabalharam na Nasa.

Quando acabou, estava maravilhada enquanto pesquisadora e ativista: vi uma representação fiel de diversos desafios enfrentados pelas mulheres que buscam a carreira científica e tecnológica, alguns dos quais eu experimentei na pele e tantos outros sobre os quais eu pesquisei nos estudos de gênero na Ciência e Tecnologia.

Mas o filme vai além e traz também o recorte de raça. E foi importante me sentir identificada em algumas situações com as protagonistas, afinal são poucos os filmes com protagonismo negro. E ao mesmo tempo ver quão distante de mim elas estavam ao passar por diversas situações de racismo.

O filme busca retratar as situações de preconceito de forma leve e didática, algumas situações são tão absurdas que beiram o cômico. Mas assim como a Bia Michelle no texto ‘Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?’, o que mais senti durante o filme foi angústia… Angústia e desconforto. Não só pelos absurdos mostrados no dia-a-dia dessas mulheres em meio à segregação racial forçada nos Estados Unidos do anos 60, mas também perceber o quanto disso ainda está presente na nossa cultura. O quanto aqui no Brasil isso se mostra em situações como as citadas pela Bia Michelle, como no caso do garoto morto em frente a lanchonete Habib’s. Aqui não existem placas mas a segregação é tão cruel quanto.

Voltando a trama do filme, outra coisa que me chamou atenção foram os personagens brancos e o papel que eles tiveram no processo de emancipação dessas mulheres, que na maior parte do tempo foi de criar obstáculos.

Primeiro, eu esperava ver alguma menção às programadoras do ENIAC ou à Margaret Hamilton. As poucas referências históricas que tinha das mulheres na computação eram todas de mulheres brancas, com o filme, vi que existia toda uma equipe de mulheres negras para além das protagonistas que foram invisibilizadas na história. Fiquei pensando no quanto a emancipação feminina branca, além de não abrir espaço para a emancipação das mulheres negras, na verdade contribuiu e ainda contribui de alguma forma para atrapalhar e invisibilizar o processo delas.

No enredo do filme isso também se materializa nas personagens da secretária do Al Harisson (personagem de Kevin Costner) e da supervisora Vivian Michel (Kirsten Dunst) que quando não estão simplesmente ignorando as dificuldades sofridas pelas protagonistas do filme — Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) — estão de alguma forma atrapalhando diretamente. Já li e ouvi alguns relatos sobre esse processo, sobre como algumas mulheres que alcançam certas posições na hierarquia simplesmente não contribuem para a chegada de outras. Seja por acreditar que isso ocorreu apenas por mérito próprio e de alguma forma seria injustiça ajudar as outras, seja por ter uma postura muito competitiva e ter receio que outra ocupe seu lugar, pelo qual batalhou tanto.

Uma passagem que gerou controvérsias é a do Al Harisson quebrando a placa de segregação racial dos banheiros… vale ressaltar em primeiro lugar que essa situação não correu (detalhes no verbete do filme na Wikipédia). Não sei se a intenção era mostrar algum tipo de atitude heróica do personagem, mas a verdade é que ele só se manifestou mediante protestos e porque viu que a produtividade de sua equipe dependia disso. O astronauta que pediu a participação de Katherine também só o fez porque sua vida dependia disso. Eu acredito que é possível enxergar que essas atitudes não foram altruístas. Homens brancos privilegiados só costumam dar espaço para minorias quando de alguma forma dependem muito disso. Poucos são os casos como o chefe da Mary, que também fazia parte de alguma minoria (por ser judeu) e por isso buscava incentivar quem estava numa condição também marginal.

Paul Stafford (Jim Parsons), o personagem que ficava atrapalhando o progresso da Katherine, na verdade traz atitudes que são uma combinação de situações em que colegas de trabalho arrumam alguma forma de atrapalhar seu trabalho. Esse é outro fenômeno bem comum apontado pelos estudos de gênero e vivido por mim e por muitas colegas da área. Homens não estão acostumados a terem seus erros apontados por mulheres e se sentem ameaçados muito facilmente, pois existe algo de humilhante em ser ultrapassado por uma mulher.

Agora, ao se voltar para as personagens principais, alguns pontos precisam ser destacados: primeiro de tudo que para conseguir o espaço que tiveram (na equipe e como protagonistas desse filme que foi adaptado do livro homônimo) elas tinham que se mostrar excepcionais o tempo todo. Poder errar sem que isso seja atribuído a toda uma classe de pessoas é privilégio de homens brancos. Para alcançar e garantir o próprio espaço pessoas que fazem parte de alguma minoria social precisam apresentar padrões excepcionais de moral, produtividade, acerto, etc. Atribuições que nunca seriam cobradas de homens na mesma posição.

Ainda assim, o filme talvez falhe de certa forma por não mostrar o quão ampla é a equipe da qual as personagens principais fazem parte. Esse olhar da história que enfatiza umas poucas personalidades como grandes heroínas é prejudicial por trazer a sensação de que apenas poucas pessoas conseguiram mudar sozinhas toda realidade de um grande grupo de mulheres.

Por outro lado, é importante quando mostram a Dorothy realizando um treinamento com toda sua equipe e exigindo sua continuidade ao ser chamada para atuar na programação do mainframe da IBM. Essa passagem demonstra como a união de pessoas de um mesmo grupo é importante na busca de mais direitos.

Outros tantos desafios mostrados são rotina na vida de mulheres que buscam as carreiras de exatas, mais especificamente da computação. Não é a toa que estudos (Como de Marcel M. Maia de 2016) apontam que estamos cada vez mais para trás na quantidade de pessoas que buscam os cursos e se formam na área. Este é um ambiente muito hostil para qualquer minoria.

Ter seus conhecimentos subestimados, ter cobranças surreais em seu trabalho que inviabilizam a possibilidade de conciliar outras atividades como a vida social e o cuidado com a casa e a família, cobranças de vestimenta que os homens nunca vão experimentar, ter nossa participação abafada e invisibilizada em grandes projetos, tudo isso é rotina para nós, mas é uma rotina que precisamos transformar, juntas.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Milena Martins e Lorena Pimentel.

[+] Como “Estrelas Além do Tempo” destaca desafios ainda em voga para mulheres na ciência e na tecnologia. Por Carine Roos

[+] From Computers to Leaders: Women at NASA Langley.

Imagem: cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).

Mercado de trabalho: o que pode mudar?

Este é um post coletivo, feito a partir de reflexões dentro do nosso grupo, principalmente com idéias e falas da Iara e da Cecília, colocado em texto por Bia Cardoso e pela Barbara Lopes. A Thayz já fez um post bem bacana sobre A Mulher e o Mercado de Trabalho. Porém, sempre há o que falar.

No Parlamento Europeu, deputadas levam seus bebês para o local de trabalho. À esquerda, a deputada italiana Licia Ronzulli. À direita, a deputada dinamarquesa Hanne Dahl. Fotos de Vincent Kessler/Reuters.

O feminismo é um movimento que não se limita a lutar por melhores salários para as mulheres, mas também quer influenciar e modificar a realidade do mercado de trabalho que temos atualmente. Um mercado que foca nos indivíduos e não apóia mães e pais que precisam dedicar tempo a seus filhos.

Para a mulher sempre existiu a questão: “filhos ou carreira?” Como se as duas coisas não pudessem caminhar juntas. Como se fosse necessário fazer uma escolha entre ser uma boa mãe ou não. E quando vemos mulheres-mães saindo de um emprego formal para montar um negócio próprio com o objetivo de ter mais tempo para ficar com seus filhos, notamos como as coisas estão erradas. Pois, nem todo mundo pode sair de um trabalho, nem todo mundo pode abrir um negócio próprio e fazer seus próprios horários. E ninguém no mercado de trabalho parece pensar com quem fica a filha ou filho dessa pessoa, como irá crescer e se desenvolver.

Qualquer mudança, tanto no mercado de trabalho, como na sociedade, vai ser difícil enquanto pais e mães não forem implicados. Porque se a licença-paternidade for curta como é atualmente, passando a clara mensagem que o papel do pai é buscar mãe e bebê na maternidade, registrar a criança e voltar ao seu papel de provedor, fica muito fácil para as empresas justificarem sua discriminação com motivações da lógica capitalista.

Porém, se os homens tivessem uma licença obrigatória tão impactante pro mercado quanto a das mulheres, ninguém discriminaria mulheres por conta disso. Seria um custo alto paras empresas e a previdência? Claro que sim. Mas a sociedade precisa entender que, se querem prosperar, se querem dali a 25 anos ter gente preparada no mercado, o investimento em educação começa agora.

Imaginem se no Brasil o período de licença fosse de 3 meses para cada um? Os 3 meses iniciais para as mulheres, por conta do parto, depois 3 meses para os homens. Sabemos que muitos homens não iriam cuidar de seus filhos, iriam terceirizar o trabalho deixando com uma babá ou com a mãe/sogra. Muitas mulheres parariam de trabalhar por não confiarem na capacidade de seus companheiros, mas seria revolucionário. Porque as empresas seriam obrigadas a dar licença, então, não teriam porque não contratarem mulheres. E alguns pais que hoje se acomodam no papel social de provedor se dedicariam mais a trocar fraldas sim, porque não? Sabemos que ninguém vira pai presente por decreto, mas muitas mudanças de mentalidade dependem mesmo de estímulos externos.

Sabemos que licença maternidade, creche na “firma”, e outros benefícios são vistos como “benefícios para as mulheres”. E acabam sendo, mas é porque a mentalidade está errada. Fica parecendo que mulheres inventam de ter filho, que a criança é só um capricho. Que somos nós mulheres que demandamos políticas especiais, benefícios extras. Crianças são feitas pelo casal e são futuros cidadãos. Então, qualquer política, seja pública ou privada, que beneficie o cuidado com as crianças é para a sociedade, não apenas para as mulheres.

A mudança de mentalidade vai demorar. Com a precarização dos contratos de trabalho, muitas empresas sequer reconhecem os direitos já estabelecidos. Propostas de pagamento de apenas metade do salário durante o período da licença-maternidade não são raridade. Mesmo assim, é preciso lançar as idéias. As famílias já não são mais as mesmas. Atualmente possuem diferentes configurações que não são necessariamente as tradicionais, tipo pai e mãe, filhinho, filhinha e cachorro golden retriever.

A existência de uma rede social de proteção à mulher que é mãe e trabalha também é importante para muitas mulheres poderem se libertar de um relacionamento opressor. Porém, nada impede um homem de se afastar do trabalho pra cuidar do filho que ele teve com uma namorada. Ou com a ex-mulher. Não precisa morar na mesma casa para ser pai. A rede social de benefícios existente atualmente ajuda a mulher, mas ajuda porque socialmente aceitamos que é a mãe a principal responsável pela criança, logo ela precisa desse apoio pra poder dar conta de outras coisas.

Não fosse assim, o modelo, fosse a cobrança social sobre ambos, pai e mãe, igual, íamos dizer que são benefícios para a família, não para a mulher. Então, lutemos para que a mulher não tenha que escolher entre “filhos ou carreira?” mas sim: “quando devo voltar ao trabalho?” “quais tarefas posso dividir com o pai do meu filho?” “o que a sociedade pode fazer para que as crianças tenham acesso a educação?”

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Este post faz parte da Blogagem Coletiva “Mulher no Mercado de Trabalho”, organizada pela Carolina Pombo do What Mommy Needs.