Apoio às alunas do Curso de Direito da PUC do Rio Grande do Sul

Republicamos a carta escrita por alunas e alunos do curso de Direito da PUCRS, destinada aos coordenadores de departamentos da Faculdade de Direito, vice-diretoria e à diretoria do curso, em decorrência do caso do professor que durante uma aula afirmou que: as leis são como as mulheres, foram feitas para serem violadas.

Em seu perfil no Facebook, Marcelli Cipriani fala sobre os objetivos desse ato de protesto: Nosso propósito, mais do que a busca de bodes-expiatórios frente a situações que presenciamos coletivamente, enquanto alunos, de maneira reiterada, foi solicitar à instituição que utilizasse o episódio de forma criativa, propositiva e pedagógica — promovendo, oferecendo e estimulando capacitações em forma de debates, mesas redonda, eventos, grupos de estudos, disciplinas eletivas e demais oportunidades para que a violência, física ou simbólica, quanto a marcadores sociais da diferença no interior da academia, possa ser debatida e problematizada e para que, enfim, também seja possível enfrentá-la.

Estudantes da PUC-RS fizeram cartaz e colaram na entrada do Centro Acadêmico. Imagem: Facebook/ Reprodução.
Estudantes da PUC-RS fizeram cartaz e colaram na entrada do Centro Acadêmico. Imagem: Facebook/ Reprodução.

No dia 22 de abril do presente ano, o professor XXX, em sala de aula, afirmou que “as leis são como mulheres, foram feitas para ser violadas”. Ademais, em teor semelhante, outros alunos e alunas apontam falas como “moeda na mão, calcinha no chão” e “a prova testemunhal é a prostituta das provas”, como lugar-comum do referido educador.

No entanto, para além de encarar tais ocorrências enquanto exceções profundamente infelizes, o que percebemos é a pulverização absoluta de comentários, exemplos e “piadas” expostas por professores do curso, que frequentemente corroboram com aspectos como o machismo, o racismo e a intolerância face a diferentes sexualidades, sob o perigoso manto do humor. Relatos abordando tais eventualidades multiplicam-se por estudantes da faculdade, que apontam vários dos professores da PUCRS como seus reprodutores.

Entendemos, como acadêmicos de Direito, que para além dos inaceitáveis casos de assédio ocorridos no interior da faculdade, a violência também se perpetua de forma discursiva, especialmente se a mesma – como ocorre no presente caso – é proferida por indivíduos imbuídos de autoridade, o que entabula a naturalização e a neutralização de violações diversas, em um ambiente, por gênese, inteiramente avesso a manifestações de intolerância como as aludidas.

É evidente, face ao exposto, que incidentes como o mencionado podem não apenas gerar constrangimento em inúmeros estudantes, como também solapar sua possibilidade de problematização e de reação, na medida em que, consoante aludido, se trata de um ambiente assimétrico de poder entre professor e alunos e alunas, o que faz muitos destes discentes sentirem-se temerosos ou reticentes no que tange à efetuação de denúncias ou de reclamações.

Solicitamos, em decorrência disso, que a Faculdade de Direito da PUCRS, uma vez que configura-se como responsável pelas atitudes de seus funcionários em contextos de sala de aula, comprometa-se no sentido de orientar, de forma ampla e geral, os seus docentes. Nesse sentido, é imperativo que os professores interrompam imediata e definitivamente o reforço de discriminação histórico-sociais por meio de um aludido e ilimitado humor. Ademais, cumpre refrear a banalização de dizeres e comportamentos preconceituosos, discriminatórios, ou que instiguem qualquer forma de aversão à diversidade e à equidade entre os seres humanos.

Em razão disso, nos posicionamos por uma reação que, concomitantemente, apresente-se como força criativa – pontuando a necessidade de que sejam buscadas alternativas propositivas e materiais voltadas à mitigação da violência de gênero, raça, classe, religião e etnia dentro do âmbito acadêmico, seja ela física ou simbólica. Portanto, requer-se que sejam organizadas capacitações de professores quanto aos marcadores sociais da diferença; que se efetuem mesas redondas, eventos, congressos, por exemplo; que se organizem grupos de estudos e disciplinas eletivas que abarquem a relação do direito – e do ensinar/dizer o direito – com grupos minoritários vulneráveis historicamente, e que se lancem mão de estratégias que estimulem o diálogo e que prezem pelo respeito absoluto às particularidades e à heterogeneidade do ser humano quanto aos gêneros, às classes, às raças, às sexualidades.

É inconcebível que, face às progressivas e cada vez mais difundidas formas de minar o sectarismo ignorante que fundamenta violências múltiplas contra grupos vulneráveis, a PUCRS deixe de aproveitar essa oportunidade para reiterar os valores caros à instituição. Afinal, essa instituição é, ou deveria ser, um locus orientado para a construção do pensamento crítico, que reiteradamente destaca a ideia de justiça; uma Universidade que estima valores advindos do humanismo e do amor ao próximo.

A reticência em proferir uma mensagem clara contra investidas de professores em desfavor de gays, lésbicas, travestis e transexuais, a insistência na culpabilização feminina por violações sofridas pelas mulheres, o silenciamento quanto ao racismo institucional e sistêmico como parte da cultura nacional – dentre tantas outras alusões possíveis – constitui um contrassenso e uma resistência injustificada aos tantos avanços que minorias sociais conquistaram ao longo dos últimos anos.
A faculdade de Direito da PUCRS, portanto, não pode permanecer silente e omissa frente às atitudes dos professores que mantém contratados, sob pena de promover o completo esvaziamento daquilo que, ao menos em teoria, se predispõe a prezar com centralidade, in verbis:

[a] PUCRS, fundamentada nos direitos humanos […] tem por Missão produzir e difundir conhecimento e promover a formação humana e profissional, orientada pela qualidade e pela relevância, visando ao desenvolvimento de uma sociedade justa e fraterna.

Marcha das Vadias de Salvador contra a Transfobia

Nós, Blogueiras Feministas, apoiamos e assinamos a carta aberta da Marcha das Vadias de Salvador contra a transfobia e em apoio a Viviane V. 

Viviane V. em ensaio fotográfico para divulgação da Marcha das Vadias Salvador 2014. Foto de Juh Almeida. Edição de Dora Falcão.
Viviane V. em ensaio fotográfico para divulgação da Marcha das Vadias Salvador 2014. Foto de Juh Almeida. Edição de Dora Falcão.

Todo ano é realizada, no dia 2 de julho, a Marcha das Vadias de Salvador, que reúne dezenas de mulheres do estado para levar às ruas suas demandas e questionar as imposições do patriarcado na vida das mesmas. A marcha das Vadias é organizada por mulheres residentes em Salvador, mas também conta com o apoio de algumas companheiras do interior, que se reúnem para discutir o andamento do evento. Em uma dessas reuniões foi discutido o fato de a Marcha das Vadias precisar romper os limites da mulher branca, heterossexual, cisgênera, e de classe média e procurar trabalhar as intersecções para contemplar toda a diversidade de mulheres — sejam elas intersecções de raça, classe, orientação sexual ou identidade de gênero.

Entendemos que é necessário levar essas demandas para as ruas, visto que o fato de não evidenciarmos as especificidades de cada categoria acarretar no silenciamento e invisibilidade das mesmas. Entendemos que opressões como: racismo, elitismo, lesbofobia e bifobia, assim como transfobia são agravantes das violências as quais estas mulheres estão expostas e, por isso, enfatizamos a importância de abordar esses temas na nossa campanha. Com toda dificuldade, tocamos uma campanha para Marcha de 2014 e buscamos tentar contemplar toda a diversidade de mulheres.

viviane v., mulher trans, é nossa companheira de longa data e esteve conosco na construção da Marcha. Achamos importante que nossas companheiras tenham voz nesse espaço e que tenham o apoio de suas irmãs e assim o fizemos. Ela teve total liberdade para expressar-se. Porém, logo após a publicação de suas fotos, fazendo a divulgação da Marcha, nossa companheira foi alvo de diversos ataques transfóbicos. Seu perfil do facebook foi denunciado diversas vezes por falsidade ideológica e suspenso — uma forma de usar a transfobia cistêmica para negar a identidade de pessoas trans*.

Muitas pessoas surgiram com leituras equivocadas de sua colocação e ao menos se propuseram a reflexão e diálogo sobre o que estava sendo dito. Tomaram posturas extremamente violentas, expondo nossa companheira a uma série de agressões verbais e simbólicas graves, e dignas de todo nosso repúdio.

Queremos dizer abertamente que nós, da Marcha das Vadias de Salvador, jamais compactuaremos com a transfobia e estaremos sempre prontas para receber nossas companheiras trans*, assim como toda diversidade de mulheres, pois entendemos que apenas trabalhando as interseccionalidades destruiremos os pilares de opressões que sustentam o patriarcado e alcançaremos, de mãos dadas, a real igualdade.

Exigimos respeito as nossas companheiras trans*!

Transfobia não passará!

Como reafirmamos a necessidade de dar voz a todas as mulheres para que elas possam falar por si mesmas, segue a carta escrita por nossa companheira viviane v. em relação a sua participação na Marcha das Vadias de Salvador e em resposta aos ataques transfóbicos contra a sua pessoa e, também, a todas nós como irmandade.

Carta aberta de uma transfeminista vadia

Meu nome é viviane v., sou uma mulher transfeminista.

viviane v. O nome em letras minúsculas, por sua ilegalidade, sua deslegitimação cistêmica, por bell hooks e a energia crítica que dela procuro receber com humildade e responsabilidade. Esta responsabilidade: algo que deve incluir uma análise crítica sobre minhas implicações — ancestrais, familiares, contemporâneas, pessoais — na constituição e reprodução do cistema racista, sobre meus privilégios de acessos, sobre as possibilidades e deveres “de inventar a contra-mola que resiste” por todos os meios necessários e em solidariedades.

Mulher. Mulher trans*, “sujeito” de “divergências” nos feminismos. “Divergências” que, por muito tempo, levam a diversos graus de desinteresse e invisibilização, dentre as pautas de feminismos, em se discutirem e enfrentarem os assassinatos de pessoas trans* — em particular, de mulheres trans*, de mulheres trans* prostitutas, de mulheres trans* racializadas — nos quais o Brasil é líder mundial entre as estatísticas disponíveis (ver os relatórios ‘Transrespect versus Transphobia Worldwide’ — “Transrespeito versus transfobia pelo mundo”, em tradução livre), entre tantas outras violências dos cis+sexismos socioculturais.

Assim como meu nome, minha identidade de gênero trans* não tem a mesma importância estatística que as identidades não trans*. As identidades cisgêneras, noutras palavras. “Cisgêneras”?

As aspas têm caráter político: reconhecer criticamente minha ancestralidade (parcialmente) branca é parte da destruição do cistema racista. Dizer-me “branca”, não. Preferir “homens de verdade”, “mulher genética” e quetais ao invés do simples e elegante prefixo oposto a “trans” — cis — significa não somente reificar biologizações não científicas de gêneros atravessados por culturas e sociedades, mas também marginalizar lutas de pessoas trans* por sua dignidade humana.

Transfeminista. As lutas trans* se nutrem (apesar de tantas exclusões) de energias de feminismos, e os vêm trans*formando também. Manter e reificar perspectivas essencializantes e biologizantes de gênero não é somente uma estratégia política a se problematizar (em detrimento, por exemplo, de perspectivas sensíveis às diversidades existenciais, corporais e intersecionais que atravessam corpos auto+identificados como de mulheres), mas também uma posição política potencialmente excludente.

Historicamente excludente, aliás. E a possibilidade de trans*formar tais premissas essencializantes e biologizantes de gênero está entre as potências críticas dos trans*feminismos que vêm se formando mundo afora.

Fotografias vadias

No período recente, venho participando da construção da Marcha das Vadias de Salvador, compreendendo-a como situada em um contexto político muito importante: durante um evento de futebol violador de direitos humanos e intrinsecamente associado a projetos cissexistas, e em uma cidade negra de desigualdades e injustiças racistas, elitistas, “democratas” de coronelices e marvadezas.

Marcha das Vadias, eventos onde a presença de pessoas trans* tem sido debatida (nem sempre de maneira bacana, diga-se, mas ainda assim debates politicamente significativos), uma certa exceção à regra de invisibilizações e deslegitimações de gêneros trans* que ocorrem em diversos âmbitos no cistema. Em algumas destas Marchas das Vadias, processos importantes no sentido do fortalecimento de feminismos feitos por pessoas trans*, e particularmente por mulheres trans*, têm acontecido: em alianças e afetos com inúmeras pessoas cis, em diálogos e aprendizados intersecionais de todas nós sobre vivências trans* e cis, nas possibilidades (ainda insuficientes, mas crescentes) de solidariedades entre pessoas trans*. Alianças, diálogos e possibilidades que não se restringem aos espaços das Marchas das Vadias, mas que neles têm se viabilizado com alguma força (relativa).

A partir desta análise do contexto local e geral das Marchas das Vadias é que decidi realizar, com uma pessoa fotógrafa muito querida, algumas fotografias para divulgação da Marcha das Vadias de Salvador. Com elas, quis trazer três temas, fundamentalmente: “Vadiagens Trans*”, com a proposta de que a marcha seja um espaço seguro para que resistências trans* anticissexistas (em solidariedades com todas mulheres) possam ter a Marcha das Vadias como um lugar político interessante de contestação aos processos de culpabilização das vítimas — temas fundamentais desde a primeira ‘Slutwalk’; “Abaixo Assimilações GGGG”, por uma reflexão sobre os processos históricos de marginalização e colonização das lutas LBTQI em prol das demandas políticas de homens cis gays (de classe média, brancos, etc etc.); e “Autodefesas Contra Cis+sexismos”, como uma proposta de debate sobre as estratégias possíveis que mulheres podemos utilizar no enfrentamento a instâncias cissexistas, particularmente aquelas que nos ameaçam a integridade física e a vida, perpetradas eminentemente por homens cis.

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Esta última fotografia (abaixo) é foco das reflexões centrais deste texto.

Esta fotografia foi publicada no grupo de organização coletiva da Marcha das Vadias de Salvador, na página do evento deste ano, e em meu perfil pessoal de forma pública. Junto à fotografia, acrescentei o texto a seguir:

“Marcha das Vadias em Salvador! 2 de julho, a partir das 8h da manhã!

Art. 25 do Código Penal: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.”

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1980-1988/L7209.htm#art23

Infelizmente, sabemos que o cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero. Precisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa.

Por todos os meios necessários.”

Os assassinatos apresentados pelo relatório “Transrespeito versus transfobia pelo mundo” são, eminentemente, cometidos contra mulheres trans* e travestis. Estes crimes costumam envolver, com frequência, brutalidade da pessoa assassina e descaso+violências por parte do cistema policial militarizado, racista, elitista. Por sua vez, nas violências perpetradas contra mulheres cis, particularmente nas interseções de raça e classe social, também se repetem processos de brutalidade, descaso e violência institucional.

Estas informações sobre o contexto (de cis+sexismos racistas, cristão-cêntricos, elitistas) em que vivemos é que provocam a proposta fotográfica: se o “cistema deslegitima, culpabiliza e desampara muitas vítimas de violências de gênero” — mulheres cis e trans* e travestis, particularmente –, é importante que reflitamos sobre possibilidades de autodefesa que não sejam tão dependentes do cistema policial ou jurídico, por conta das exclusões e impunidades que institucionalmente promovem.

Cis+sexismos, aliás, talvez seja o conceito-chave para afastar quaisquer dúvidas sobre minhas propostas. Em um artigo acadêmico que escrevi no período recente, “Explorando Momentos de Gêneros Inconformes – Esboços Autoetnográficos”, sobre uma experiência profissional minha analisada autoetnograficamente, faço um esforço para contribuir às reflexões sobre o que poderia ser este conceito (uma busca simples por ‘cissexismo’ também traz, como primeiro resultado, este link que dialoga bastante com minha definição):

O termo ‘cis+sexismo’ é uma tentativa de caracterizar a complexa interseção  entre a normatividade sexista de gênero (produtora cultural das diferenças homem-mulher) e a normatividade cissexista de gênero (produtora cultural das diferenças cis-trans). A cisgeneridade, de forma bastante breve, pode ser caracterizada como as posições normativas/coerentes no segmento ‘sexo-gênero’: são as identidades de gênero binárias, definidas a partir de ilusões pré-discursivas (como a que pressupõe a existência de dois ‘sexos biológicos’ objetivamente identificáveis), e tidas como permanentes. É costume, em nosso contexto histórico, referir-se a pessoas cisgêneras como homens/mulheres ‘biológicxs’, ‘de verdade’, ‘naturais’, ‘cromossômicxs’, etc.

Neste sentido, dada a evidência de que a proposta política de minha fotografia é de que “[p]recisamos estar todas preparadas, dentro de nossas possibilidades e em solidariedades, para exercer o direito à legítima defesa”, e sabendo também que o cistema atua contra nós (ao deslegitimar nossos gêneros trans* ou os corpos negros de mulheres cis, por exemplos) inclusive neste eventual exercício de direito, o centro de minhas preocupações foi (e é) de que dialogássemos sobre que estratégias nos podem ser úteis, enquanto mulheres, para o enfrentamento de todas instâncias cis+sexistas.

As armas brancas com que faço a fotografia demarcam os limites a que esta legítima defesa pode, eventualmente, chegar. Homens cis assassinam covarde e cruelmente mulheres trans* e cis mundo afora, e é por isto que, quando penso em autodefesas, penso em CeCe McDonald, injusta e inadequadamente encarcerada pelo cistema prisional estadunidense ao se defender de violências físicas cis+sexistas e racistas, e em todas as violências de gênero contra mulheres cis que vão sendo silenciadas (às vezes até por conveniências políticas ‘de esquerda’, veja só) por um cispatriarcado normatizante.

As armas servem para nos lembrarmos de que, diante de atentados contra nossas vidas (fundamentalmente perpetrados por homens cis), não devemos excluir a possibilidade de estabelecermos formas de resistência críticas: o corpo que, se necessário/inevitável, reage e se coloca, materialmente, diante da injustiça, em suas possibilidades e limitações. CeCe, mulher trans* negra, é inspiradora neste e em tantos outros sentidos.

Finalmente, gostaria de apresentar dois pontos importantes, reflexões a partir do que venho escutando aqui e ali:

1) Às pessoas trans* que consideram que eu possa ser uma “mulher trans* elitizada”, “diferente de nós”, e que “não nos representa”: primeiramente, quero afirmar meu compromisso de vida em não procurar ‘representar’ ninguém — não no sentido reducionista e colonizatório que busca nos simplificar a todas nós a partir de supostas ‘representantes’ de um ‘grupo social’ com alguma ‘condição’ ‘esquisita/bizarra/diferente/extravagante’. É por isto que meu esforço analítico se propõe intersecional: minhas experiências de vida enquanto mulher trans* de classe média alta, branco-asiática, que teve acesso a recursos financeiros, educacionais e de saúde compõem **uma** experiência trans* entre tantas outras, que não podem ser limitadas a um ‘universo trans’ ou o que seja.

Somos mais que os estereótipos e classificações que nos fazem engolir diariamente. Somos todas diferentes entre nós: não há a travesti, a mulher transexual, a pessoa não binária ‘padrão’. Nossas múltiplas experiências dentro do cistema formam uma diversidade de estratégias de sobrevivência e de luta. Meus privilégios sociais, por sua vez, me colocaram em um cenário específico: um cenário em que, por exemplo, a chave de fenda que carrego em minha bolsa para autodefesa nunca tenha precisado ser utilizada. Para tantas outras mulheres trans* e travestis, suas armas e corpos resistem já desgastados pelas violências cistêmicas. Precisamos de autocríticas e empatias para lutarmos, aprendermos e colaborarmos umas com as outras.

É por estas razões que minha proposta é de que pensemos em solidariedades sobre nossas estratégias de autodefesa: nossa segurança pode se potencializar em coletividade, recusando o paradigma do ‘super-herói invencível’ (uma imagem e epistemologia do cispatriarcado). Quero que meus privilégios sociais sejam mais munição para as lutas contra o cistema, e que as experiências e vozes trans* mais marginalizadas também tenham como encontrar alianças de resistência e expressão: este é um de meus objetivos centrais enquanto acadêmica, e venho tentando seguir neste aprendizado e construção apesar de minhas tantas limitações, apesar das tantas distâncias que colocam entre nós.

Espero, verdadeiramente, que possamos dialogar mais e a partir de perspectivas solidárias e de coletivização dos esforços de resistência. Que façamos mais o exercício crítico de analisar que grupos políticos têm intere$$e em nos dividir e em nos cooptar para ganhar poder e influência política (ventos sopram ‘gggg’), ao mesmo tempo em que nos dão migalhas de cidadania e direitos e exigem louvações de agradecimentos acríticos.

Espero, enfim, que notemos as diversas (infinitas?) formas que o cistema/cispatriarcado nos violenta a cada dia, e vejamos nas outras pessoas trans* uma possibilidade de aliança, não uma competição pelos ‘agradinhos’ do cistema vindos das pessoas cis, brancas e cristãs.

2) Às feministas trans*-excludentes de diversos tons e matizes: espero, sinceramente, ter afastado quaisquer das hipóteses de que eu, uma mulher, estaria ameaçando outras mulheres (cis ou trans*) ao empunhar uma faca de cozinha e uma chave de fenda e ao propor autodefesas contra cis+sexismos.

Espero que tenha ficado mais explícito, por exemplo, que as violências cis+sexistas contra as quais fosse preciso utilizar uma faca de cozinha e uma chave de fenda são fundamentalmente perpetradas por homens cis. Neste sentido, enquanto proposta fotográfica, minha postura como mulher que enfrenta cis+sexismos através de autodefesas é a de refletir sobre casos como o de CeCe McDonald, avaliando criticamente possibilidades e cautelas de considerarmos estas estratégias em nossas vidas.

Finalmente, acredito que seja relevante enfatizar que quando penso que nossas estratégias devem se debruçar sobre “todos os meios necessários”, isso vale tanto para pensar nos nossos ‘limites máximos’ (a resistência armada, talvez), quanto para considerar reações proporcionais e estratégicas às violências cometidas contra nós. Ou seja: contra um cistema brutal, até as resistências armadas devem ser consideradas, mas precisamos também pensar em outras estratégias inteligentes (vídeos, posts em blogs, conversas pessoais) para enfrentar todos os tipos de violência que nos ocorrem.

Os meios necessários à destruição do cistema/cispatriarcado são inúmeros, e talvez nunca os tenhamos suficientemente. Entretanto, para argumentar contra as perspectivas trans*-excludentes de diversas feministas (várias delas autodenominadas “radicais”), bastam-nos honestidade intelectual e visão crítica.

Já estamos vencendo algumas injustiças cistêmicas, com e sem perfil de facebook. E, vencendo ou não, seguiremos resistindo. Se não por nós, pela memória das lutas de tantas de nós, trans* de tantas interseções.

Ah! Branco, dá um tempo! Carta aberta ao senhor Miguel Falabella.

Nós, Blogueiras Feministas, apoiamos e assinamos a Carta aberta das Blogueiras Negras ao autor, ator e diretor Miguel Falabella sobre suas recentes declarações em relação a nova série que estreará na Rede Globo: “O Sexo e as Nêgas”. 

As Blogueiras Negras também estão com o projeto #AsNegaReal, uma websérie que visa discutir os episódios do seriado.

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Você me pergunta se vou dizer que você é racista, me responda você!

Racismo não é polêmica, muito menos rancor ou falta de humor. Mais que ninguém, que se pensa um defensor dos direitos de seus pares negros e portanto um aliado na luta contra o racismo, deveria saber disso. Deveria saber também que cogitar tal hipótese e ainda enumerar amigos negros para se defender, é viver num mundo tal de privilégio onde se pode rebater a crítica dizendo que as vozes de mulheres negras são apenas controvérsia, ou fazer um grande esforço para esconder o próprio racismo. Quem sabe os dois.

Ah! Branco, dá um tempo! Você diz que “dói” ver luta de seus colegas negros, menosprezados e invisibilizados por sua cor. No caso da mulher negra, tudo se agrava. Você certamente tem ciência das recentes e tristes notícias sobre Neuza Borges, uma das maiores atrizes que temos, mas que por seu lugar de mulher negra não encontra lugar na televisão brasileira. Vive na carne a falta da carne em seu prato porque a próxima novela não acontecerá tão cedo. Vai depender da “boa vontade” de alguém, não do seu talento.

Você me pergunta se o problema é o sexo ou “as nega”, querendo desacreditar nossas críticas fundamentadas não em pré-julgamento, mas em fatos veiculados na mídia. Notícias essas que agora dão conta que de repente a Globo, antes tão entusiasmada com seu projeto, parece que já não está tão feliz assim. Você argumenta que se trata de uma prosódia pura e simplesmente. Alega que o título da série veio de uma mulher negra. Aliás, me pergunto se essa mesma mulher recebeu os devidos créditos e bufunfa por sua colaboração já que foi descrita por você como nada mais que um estereótipo, alguém que não merece nome, muito menos sobrenome.

Não tem problema branco, vou enegrecer tudo novamente.

As negas, volto a explicar, não é uma questão de prosódia.

Tal expressão transforma o corpo da mulher negra em peça, como eram chamados os escravizados, a ser consumido por uma sociedade racista. Nos coloca no lugar de mercadoria de segunda mão que não receberá o mesmo tratamento da carne branca e delicada, aquela que não é “suas nêga”. A expressão é embuída não apenas de pensamento escravocrata, mas também de machismo, cujas consequências sentimos na pele por sermos mulheres negras. Trata-se portanto de uma dupla violência que categoriza mulheres de acordo com sua cor de pele, qualidade que determinará qual o valor e o lugar que têm.

Ainda sobre o nome da série, temo que muitas pessoas não saibam a diferença entre um adjetivo racista e um adjetivo comum. Na Bahia, nego e nega tem conotações diferentes das que tem em Recife, por exemplo. E dependendo do uso da frase, do tom com que se fala, de quem recebe e de quem envia a mensagem, você ofende ou elogia. No entanto, a construção “não sou tuas nega” não permite outro significado possível que não o racismo num contexto hediondo de 350 anos de escravização. E se alguém perpetua adjetivo racista, que nome isso deve ter? Ah! Branco, me diga você!

Sua idéia, aos olhos poucos atentos ou interessados apenas em gerar lucro, pode até parecer de grande monta. Porém, está longe de gerar visibilidade ou dignidade. Aliás, exatamente o contrário. Como quase sempre acontece com literatura e dramaturgia feita por brancos sobre negros, nos trata como simples objeto de estudo, algo que pode ser manipulado e observado justamente como você faz, nos ensina a professora Lígia Fonseca Ferreira. Nada mais é que negrismo e não negritude, como tem insistido o escritor e jornalista Oswaldo de Camargo.

Sim, estou dizendo com todas as letras que quem deve escrever para o negro e pelo negro deve ser ele mesmo, não uma pessoa branca. Chame isso de racismo reverso se quiser. Para gente o nome disso é visibilidade, esta sim capaz de nos ter algum benefício, com poderes para mudar o modo como seremos retratadas na próxima novela, na próxima minissérie. Sem isso, nada mudará, seguiremos sendo uma sociedade estruturalmente racista e machista onde a mulher negra nada mais é que um estereótipo para racista se divertir ou entreter.

Uma sociedade em que nós, mulheres negras, não somos protagonistas nem mesmo num seriado a quem damos o nome. Sim, as notícias têm mudado, mas as primeiras davam conta de uma branca como a atriz principal. Ela que, atrás de um balcão de bar, vai nos observar como animais num zoológico, ela quem fala em nosso lugar. Nossa história, sofrimento e capacidade de discursar sobre nós mesmas são meros detalhes. A narradora da trama, nesse caso narrador, é alguém isento desse mesmo sofrimento. Não é bobagem, nem caretice, nem ditadura do politicamente correto como alguns vão afirmar. É critica e zelo por nossa memória e existência.

Você argumenta que “um programa que refletisse um pouco a dura vida daquelas pessoas, além de empregar e trazer para o protagonismo mais atores negros” seria desejável. E na verdade seria mesmo. Desde que escrito, produzido e protagonizado por negros. Não por alguém que nem se deu ao trabalho de creditar a mulher negra que deu o título à série. Esse detalhe é causa e ao mesmo tempo consequência de todos os outros: a fetichização de nossa sexualidade e corpos, a ênfase nos estereótipos, a violência simbólica que a série representa.

Como pretender que nos desumanizar é visibilidade? Desde quando nos tratar como a carne mais barata do mercado como canta Elza, a Soares, é ser aliado? Ah! Branco, dá um tempo! Suas palavras apenas enfatizaram suas intenções, a cada parágrafo tivemos a certeza de que nossas críticas são fundamentais e muito bem fundamentadas, por isso incomodam tanto. Seguiremos denunciando o racismo e o machismo daqueles que se fiam no privilégio para destilar veneno e cometer tais violências contra a mulher negra.

Isso não é sobre sexo. É sobre denunciar um sistema perverso que exclui as mulheres negras de todas as esferas e nos torna menos que humanas. Sistema esse que também incide sobre o homem negro, alvo primeiro e preferencial da violência policial e da hipersexualização do seu corpo: o “homem do pau grande” é resultado da brutal animalização do corpo negro, sempre pronto pro sexo. Onde está a crítica desse sistema na televisão brasileira? De certo não está em seu seriado, muito menos em sua fala.

Repudiamos suas palavras porque fomos estupradas nas senzalas e continuamos a ser na dramaturgia feita por brancos sobre nós através de imagens estereotipadas em seriados, novelas e minisséries. Esse é um dos mecanismos que a aliança entre o racismo usa para se perpetuar: hipersexualizando a mulher negra que se torna desprezível para outros papéis sociais. Você fala da mulata quente, gostosa, fogosa. Somos muito mais que isso. Precisamos ser mostradas como as mulheres do dia-a-dia, que trabalham, dançam, fazem festa e querem sexo sim, mas que não são apenas isso.

Não estamos aqui menosprezando nem dizendo que não somos camareiras, domésticas, cabeleireiras: também somos trabalhadoras domésticas, cuidadoras. Mas sobretudo, com as nossas conquistas e a nossa luta, galgamos lugares, posições: somos diretoras, bailarinas, advogadas, publicitárias, escritoras, professoras e médicas. Onde elas estão no seu seriado? Será que elas não moram em Cordovil? Será que elas não estão nas periferias? Duvido muito. NÃO aceitaremos mais ser caricaturas! Por isso a critica vai além do nome da série, o que por si só é deveras problemático.

Ah! Branco, dá um tempo! Nem queremos crer que você está se comparando e recorrendo a Spike Lee para credibilizar seu trabalho. Não, nos recusamos. E não é somente porque Spike Lee é preto, é porque não vemos nada, absolutamente nada de crítica racial em “Sexo e as Nega” como vemos em “Faça a coisa certa”. O gueto é paisagem, mas também é a vida, é a teia, é o sangue do autor que não está só observando e contando sua versão dos fatos: Spike Lee está no gueto, ele é o gueto. E não alguém que não é “as nega”, alguém que pretende que nosso único objetivo de vida é ter um parceiro sexual.

E por favor, respeite nossa memória e retire suas palavras ao nos chamar de capitães do mato. Não estamos perseguindo as atrizes negras desse seriado, muito menos as mulheres reais que são representadas pelas suas personagens. Quem conhece um pouquinho de história e dela faz um uso bem intencionado, sabe que existem outras versões além daquela em que fomos escravizados sem lutar, viemos sem resistência num navio negreiro. Não se faça de desentendido, quem criou capitães do mato não foram os próprios negros.

Acusar alguém de “se tornar capitão do mato” é algo muito mais complexo do que formular uma frase. É impossível que sejamos algozes de nós mesmos, isso é falácia. Retire sua fala e reflita sobre o que significa nosso boicote e critica que têm como alvo um modelo e um sistema historicamente racistas, em que nem o direito de falar, contar nossas próprias histórias e tecer criticas nós temos. Repito: isso não é uma caçada ao povo negro nem à mulher preta e pobre. É sobre o racismo enrustidamente manifesto, sem nem se sentir ou admitir.

Manifestamos profunda oposição a esse mundo, de quem bate e finge entender a dor daquele que apanha. Esse mundo onde racismo agrada, é piada pronta para gerar audiência e naturalizar o racismo. Estamos fartas do seu discurso, de programas que usam blackface, que transformam toda mulher negra em empregada doméstica ou mulata globeleza. Nossos corpos não são espaço para seu deleite, divertimento, lucro ou usufruto. Nós somos mulheres negras de pena e teclado, ciosas e autoras de nossos próprios enredos e objetivos de vida.

Ah! Branco, dá um tempo! Quem nos silencia é racista sim.