Por uma não-monogamia possível

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Venho tentando escrever sobre esse assunto há algum tempo, com base em várias críticas que li e ouvi, conversas com amigas e companheiras de militância e, por conta de debates que foram surgindo criticando diversas situações problemáticas que apareceram na série de televisão Amores Livres do canal a cabo GNT. A proposta da série é apresentar pessoas em relacionamentos com dinâmicas não-monogâmicas diversas. O foco são as dinâmicas amorosas das relações, como os relacionamentos funcionam e, talvez por isso, muitas questões relacionadas à política tenham sido deixadas de lado.

Cena da série 'Amores Livres', exibida pelo canal a cabo GNT (2015).
Cena da série ‘Amores Livres’, exibida pelo canal a cabo GNT (2015).

Por não apresentar um discurso mais politizado, reforçando discursos sobre posse, mostrando dinâmicas machistas, bifóbicas e por mostrar casais muito dentro do padrão (branco, classe média, magros, etc,), a série recebeu diversas críticas no meio não-monogâmico. Porém, tenho percebido que algumas dessas críticas a série são, na verdade, críticas à comunidade não-monogâmica como um todo. Outras tem a ver com a falta de representatividade e também com a representação de diversas situações e falas que entendemos como não-saúdaveis num relacionamento desse tipo. Além, é claro, de uma cobrança feita às personagens que observo muitas vezes ocorrendo por parte de mulheres militantes que se envolvem nessas relações.

A vida seria bem mais fácil se existisse uma “receita de bolo”, se em 10 passos ou 7 dias alcançássemos os níveis máximos de inteligência emocional e maturidade política para ter um ideal de relacionamento não-monogâmico, que não fosse opressor de forma alguma. Com algum tempo de experiência alcançaríamos até uma patente que nos blindaria de críticas aos nossos posicionamentos e nos eximiria de passar por qualquer dificuldade ou violência nas relações. Por vezes fico observando que muitas mulheres parecem buscar algum tipo de guia prático de como se tornar uma feminista não-monogâmica politicamente coerente e inabalável emocionalmente.

Se relacionar de forma não-mogâmica é também mudar a forma com que você vê e vive todas suas relações. É conviver com o fantasma do modelo romântico e monogâmico de relacionamentos. Além de termos de lidar com os diversos preconceitos já tão difundidos, não vamos achar numa capa de revista aquele guia básico de como deixar de sentir ciúmes e sentir apenas compersão, ou “escolha a melhor dinâmica de relacionamento não-monogâmico para vocês”, ou “como organizar sua agenda sem negligenciar as necessidades das pessoas com quem você se relaciona”, ou “como finalmente saber separar sentimentos reais de construções sociais impostas pela sociedade”, ou ainda “descubra o momento certo de revelar sua não-monogamia para amigos, familiares e colegas de trabalho”, ou quem sabe “evite constrangimentos ao dialogar sobre novas dinâmicas ou pessoas nas relações”. Ou seja, não temos referências fáceis para buscar soluções para os nossos problemas. E, a bem da verdade, muitas dessas questões nunca serão solucionadas.

A vida, as experiências, as pessoas, os sentimentos, as relações não são tão simples ou lineares. Independente da forma de organização dos relacionamentos temos sempre desafios a enfrentar. Viver a prática dessas relações não-monogâmicas, praticando também o feminismo, é viver um processo de aprendizado contínuo. Conhecimento e experiência podem nos alertar sobre certos desafios, e aí quando possível evitamos certas dificuldades. Mas, nada nos exime de passar por certas experiências, de sofrer ou até mesmo fazer sofrer em determinados contextos.

Um relacionamento não-monogâmico não vai por si só destruir todas as estruturas de poder existentes entre as pessoas, a sociedade já está moldada dessa forma, ainda que desafiemos em algum nível essa lógica. Não vai também resolver todos os problemas emocionais ou curar desilusões de relacionamentos anteriores. Pessoas não-monogâmicas não são seres iluminados a prova de erros ou imunes à armadilhas, violência emocional ou relacionamentos abusivos. Aliás, essa postura — muitas vezes sustentada dentro de determinados grupos e por certas pessoas — só faz com que aumente nossa cobrança interna para ter uma relação tão perfeita quanto essas pessoas dizem ter e que muitas vezes (ou talvez todas) está longe da realidade.

Primeiro, o mais importante é que estamos falando de relações. Isso quer dizer que além dos fatores pessoais, estamos lidando com aquilo que está na(s) outra(s) pessoa(s). E além disso, existe esse negócio muito simples e ao mesmo tempo extremamente complexo que é a comunicação. Precisamos numa relação não-monogâmica desafiar a lógica do silêncio que permeia a sociedade e se abrir para a(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos, para falar sobre coisas que aprendemos durante toda a vida que deveríamos ignorar ou sentirmos culpa de sentir.

Não quero dizer com isso tudo que devemos parar de buscar melhores arranjos de relações, melhores formas de diálogo, desconstruir sentimentos e opressões (como o racismo, o machismo, o ciúme, a carência, dependência emocional, etc.). Ou ainda que é ok negligenciar as demandas ou os sentimentos das pessoas que vivem opressões que nós não vivemos. Pelo contrário. Mas, observo muito a cobrança para que um relacionamento não-monogâmico atinja um ideal político e essa pressão acaba caindo muito mais em cima das mulheres envolvidas. Isso nos expõe (e quanto mais opressões sofremos mais expostas ficamos) e nos traz ainda mais desgaste, além do que já existe dentro de um relacionamento fora da norma.

Não é a toa que tantas críticas tem sido feitas sobre quão privilegiadas costumam ser as pessoas praticantes da não-monogamia. Para as mais oprimidas o peso é maior, e as cobranças são maiores ao se assumir um relacionamento fora do padrão. É muito importante buscar uma forma não-opressora de se relacionar, e essa busca deve vir principalmente das pessoas mais privilegiadas (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média, etc). São essas pessoas que devem ser cobradas. Porém, o que tenho observado é exatamente o contrário. Aliás, já vi muitas mulheres extremamente oprimidas sendo colocadas na fogueira por escolhas que seus parceiros impuseram nas relações. Precisamos mudar esse cenário.

+ Sobre o assunto:

[+] Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade.

[+] Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia.

[+] “Amores Livres”: escolhas possíveis.

[+] A violência de gênero e o amor romântico.

[+] Monogamia, Liberdade e Feminismo.

[+] Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia.

[+] Sin tiempo para el amor: el capitalismo romántico.

[+] El poliamor ‘is the new black’*.

[+] 9 Strategies For Non-Oppressive Polyamory.

Maria de quê? E as memórias de uma “filha da puta”

Texto de Monalisa Ribeiro Gama para as Blogueiras Feministas.

As linhas que se seguem relatam não somente minha experiência, como a de inúmeras “Marias sem nome” — mães solteiras que, não sendo casadas, estão despossuídas do valor social conferido ao sobrenome herdado do marido — e de suas filhas, ambas bastardas de uma sociedade cuja herança patriarcalista e misógina “acha feio tudo que não é espelho”. Vítimas de um tempo que ainda se repete às margens do modelo de família cristã burguesa, onde mulher, grávida e solteira, era (é) a “puta”, e sua prole de “filhas da puta” são desde o nascimento duplamente estigmatizadas. O medo de ter uma filha mulher está acrescido ao da ausência de uma figura paterna. Medo de vê-la repetir os mesmos passos, como um relógio dado corda, o tic tac consumindo o curto tempo da inocência.

A memória que tenho dessa experiência já não tão nítida tem as cores esmaecidas pelo tempo. A primeira imagem ainda viva me remete sempre aos Retirantes de Portinari, não só pelas cores frias e mórbidas, mas, e, sobretudo, pela tristeza de deixar os seus. Nesta imagem eu e minha avó, caminhávamos a pé do bairro do Cruzeiro até sua casa no bairro da Catingueira. Às ruas enlameadas nos contavam sobre a chuva da noite passada, as minhas roupas dobradas numa bolsa de náilon, antes usada para carregar farinha de mandioca, da feira central. Eu tinha cinco anos e não podia mais morar com minha mãe. Ela trabalhava 14 horas por dia, e era perigoso para uma menina ficar tanto tempo só, já sabia andar e falar, “tava ficando esperta”, tic tac. Ao preço de ser criada “solta” com meu irmão mais velho e meus primos que moravam perto, precisei ser protegida do mesmo destino de minha mãe: encontrar um cara malandro, bom de conversa, que me usasse e ganhasse o mundo, deixando para trás apenas mais um fruto proibido. E sobre a promessa de que teria um futuro que ela não teve, passei minha infância encarcerada num mundo 10 x 17, no quintal da minha avó.

Quadro 'Os Retirantes' de Cândido Portinari (1944).
Quadro ‘Os Retirantes’ de Cândido Portinari (1944).

“Maria de quê?” Foi um dos meus primeiros diálogos na escola. Uma coleguinha me perguntou o sobrenome da minha mãe. Se para Matta (1) o nome no Ocidente reforça a individualidade dos sujeitos, o sobrenome informa algo ainda mais simbólico e até mesmo distintivo, o capital social familiar.  A dela tinha dois sobrenomes – a mãe da coleguinha – um por parte do pai e outro por parte do marido. Eu não sabia como responder e pensei: “ela deve ter só um”. Quando disse que não conhecia meu pai foram várias as especulações: “ele morreu?” “Mora fora”? “São separados?” etc, etc. Para aquelas crianças não conhecer o pai, era tão estranho. Enquanto que para mim, até ali, pai era uma figura inexistente e inofensiva. Infelizmente para mim nenhuma das opções colava. Ele estava vivo, morava na mesma cidade, era casado, tinha filhos, mas não com minha mãe. Não é fácil quando se é criança compreender o que isso significa, e quando se compreende isso não melhora em nada. Mas as crianças podem ser cruéis, embora ingenuamente cruéis, já que só repetem, sem os freios da boa etiqueta, aquilo que os adultos segredam entre os seus. “Ah!”, disse uma das crianças, “ela é a filha da puta”. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava, mas sabia que não era algo bom de ser chamada, é como ser chamada de “sangue ruim” em Harry Potter, só para comparar.

A puta neste sentido, não era a profissional do sexo, que comercializa o prazer, a puta, era a “outra”, a mulher amante, a companheira oculta das madrugadas errantes. Eu nunca contei isso a minha mãe. Mas depois de um tempo eu soube que o tal “pai” era noivo de outra mulher – e estava grávida – quando estava com minha mãe, e ao saber da gravidez da minha mãe, contou tudo para ela (sobre o noivado), o que levou ao fim do relacionamento. E depois disso minha mãe tornou-se uma mulher “sem nome”, seu valor social estava fragilizado por ter um filho e não ter marido, e eu, “sem nome”, nem pai, era o fruto proibido que a sociedade precisava expurgar.

Então veio meu padrasto. Aos meus 6 anos minha mãe conheceu meu padrasto, era uma forma dela se redimir consigo e com os outros que a chamavam de “mãe solteira”, dando-nos, a mim e meu irmão, um pai. Ele inicialmente era alguém que para mim desempenhava bem a figura do pai postiço dos dias de domingo, dias que eu costumava visitar minha mãe porque eram os dias em que ela estava de folga.  Depois de um tempo eu soube que ele estava chantageando minha mãe para ter um filho, sob ameaça de deixá-la por outra mais disposta. Ele sempre quis ter um filho dele com ela, ele nunca foi capaz de ser nosso pai, afinal não éramos filho dele, ele precisava ter essa experiência como manda o figurino.

Com a morte da minha avó, fui morar com minha mãe, meu irmão e meu padrasto. Aos 12 anos a inocência escoava em seus últimos grãos, e já não havia tempo de ser a “menininha da mamãe”. Todos me observavam. Qualquer passo em falso, e o estigma da “filha da puta” recaia sobre mim.

E os anos passaram tão rápido, vieram os 13, 14, 15, 16 anos. Minha mãe, meu irmão e meu padrasto, na vigilância permanente: “Não saia tarde!” “Não use essa roupa!” “Não converse com homens!” “Se dê respeito!”. A sensação de medo tornou-se uma companhia constante, mas eu cometi muitos dos deslizes, sofrendo por cada um a retaliação correspondente. E não somente eu sofria como a minha mãe também. A dor que ela me infligia nos machucava mutualmente. Enquanto ela tentava consertar meus vacilos, reprimindo minha “rebeldia”, tentava consertar a si mesma, tentava conter sua própria rebeldia revolta que à fez, outrora, “errar”. Sofríamos não por nós mesmas – suas repressões ou meus vacilos –  mas senão por aquilo que nós toleramos ser chamadas, rotuladas, discriminadas, anuladas e a necessidade constante de remediar-se dessa condição.

Para combatermos sofrimentos desnecessários como estes que acometem a tantas “Marias sem nome” e a “filhas da puta”, é preciso desestigmatizar os rótulos, desempoderar a capacidade que estes nomes têm de classificar pessoas. Seja as “Marias sem nome” pela ausência de um homem legalmente casado com a mãe, ou as “filhas da puta”, que são vigiadas durante toda a vida a não seguir os mesmos passos da mãe solteira. Depois do nome, o segundo passo importante para a desestigmatização é a reterritorialização desses personagens na cultura através da conscientização que nossa própria existência tem sobre esta mesma cultura. Nós, “filhas da puta”, somos as bastardas do modelo cultural de família cristã burguesa, o “outro” dos filhos concedidos no santo matrimônio. O choque que nossa existência causa, aqueles defensores desse modelo de família, é sua própria falência. Talvez, aquela coleguinha do primário, tenha chegado em casa e perguntado aos pais o que era ser uma “filha da puta”. Eu fico imaginando seus semblantes de espanto e asco, reprimindo a curiosidade da filha, na luta pela preservação da insígnia da boa família, no horror ao tabu.

Outro modo de romper com o estigma é alcançando espaços de prestígio antes impensados à trajetória de vida dos “bastardos”, fragilizando os pilares do ideal de família cristã burguesa, expondo as estratégias de estigmatização e desempoderando discursos misóginos e patriarcalistas. No entanto, estes espaços não estão à disposição, e sua conquista geralmente está acompanhada de um alto preço já tabelado pelos mesmos grupos dominantes, tornando este um processo lento e dificultoso. Até hoje, aos 25 anos, eu vejo expressões tristes, quando falo que não tenho pai, e surpresos dizem: “Nossa, mesmo sem pai você conseguiu!”. Eu fico sempre me perguntando: “Consegui o quê? O que eles esperavam?” Até hoje minha mãe é casada com meu padrasto, e me diz em segredo que só não se separa para não deixar meu irmão mais novo – filho dele – sem pai. Meu irmão mais velho sustenta seu casamento sobre o mesmo pilar do medo da rejeição que sua esposa sente após ter tido um filho.

A mulher é desde tenra idade ensinada, disciplinada, docilizada a vir a ser uma boa filha, esposa e mãe. Burlar estes papéis, ou até mesmo esta ordem ainda é um problema para muitas sociedades, assim como para muitas mulheres. A mulher que antes de esposa tornar-se mãe, que não segue esse script de virtude e valor social, sofre constrangimentos explícitos e sutis, uma vez que estas construções operam não somente no plano objetivo das relações entre os sujeitos, como no plano subjetivo, dos afetos e emoções dos indivíduos. Romper com essa visão da sagrada família que é culturalmente construída e socialmente ovacionada, que nos coagi e que ostraciza os que não se “adequam”, não é nada fácil. E o que pensamos ser “só culturalmente construído”, – como que, falsamente, inofensivo – pode sempre reaparecer como instrumento de opressão, estigma e deslegitimação, disfarçado de um assunto banal numa conversa qualquer entre desconhecidos.

– Filha de quem? – Perguntarão eles.

– Pois sou filha da puta e da hipocrisia. Sou filha da puta e do abandono.  Sou filha da puta e de um Zé ninguém.

Referência

(1) DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987.

Autora

Monalisa Ribeiro Gama é formada em História e graduanda em Ciências Sociais. Mestre em Ciências Sociais e Doutoranda na UFCG. Natural de Campina Grande, PB.

Manhattan: onde os maridos ricos pagam bônus a suas esposas

Texto de Karen Polaz para as Blogueiras Feministas.

Num sistema capitalista de produção, fruir de uma condição socioeconômica considerada favorável significa, na maior parte das vezes, ter uma vida de inúmeras vantagens. No embalo dos privilégios de classe vivenciados pelos grupos mais ricos, outras formas de opressões também costumam ser abrandadas, como as de gênero e raça.

Só para citar um exemplo, jogadores de futebol negros que fizeram fortunas através do esporte conseguem se esquivar de algumas situações de racismo, comum à maioria dos homens negros jovens e pobres do Brasil, como serem parados por blitz policiais em espaços públicos, já que podem pagar para circular por ambientes sociais blindados da atuação policial mais truculenta, inclusive dentro de carros luxuosos e caríssimos — literalmente blindados.

No caso das mulheres, o fator classe social faz uma diferença imensa quando falamos de opressões de gênero. As opressões de gênero vivenciadas por mulheres ricas, definitivamente, não são as mesmas daquelas vivenciadas por mulheres pobres. Como já discutimos em outros textos, dinheiro costuma trazer poder e maior autonomia relativa às mulheres — digo relativa, pois quaisquer conceitos, como o de autonomia, não podem ser avaliados fora do contexto social em que são produzidos.

No entanto, mais e mais riqueza não significa, necessariamente, maior independência proporcional. Em um estudo ainda inédito sobre as riquíssimas mulheres do Upper East Side, um bairro nobre do condado de Manhattan em Nova York, a antropóloga Wednesday Martin mostra que, num país como os Estados Unidos, onde as mulheres avançam cada vez mais na direção da igualdade de direitos em relação aos homens, o estrato da mais alta elite ainda permanece num estágio de estagnação.

Em artigo publicado no The New York Times, Wednesday conta seu choque cultural ao conhecer as mulheres que ela veio a chamar de “glamorous stay-at-home-moms“, algo como “mães-donas-de-casa glamourosas”. Em sua maioria, essas mulheres são brancas, têm 30 e poucos anos e diplomas avançados em universidades de prestígio e famosas escolas de negócios. Elas são casadas com homens ricos e poderosos e têm, em média, de três a quatro filhos com idade inferior a 10 anos. Elas não trabalham fora de casa.

Em vez disso, elas se ocupam do que a socióloga Sharon Hays chama de “intensive mothering” ou “maternidade intensiva”, que se caracteriza pela dedicação exaustiva das mães em cuidar de todos os aspectos da vida de seus filhos, com o objetivo de enriquecer a vida deles e melhor prepará-los para o competitivo futuro que os espera.

Contudo, os cuidados com elas próprias não são deixados de lado. Pelo contrário, vestem roupas caras e requintadas e costumam parecer uma década mais jovens do que são. Wednesday conta que, assim, foi fácil cair na crença de que todas essas ricas, competentes e belas mulheres, muitas delas com ironia, inteligência e um senso de humor sobre sua própria “tribo”, também eram poderosas.

Homem coloca um colar no pescoço de uma mulher. Imagem de Stock4B/Corbis.
Homem coloca um colar no pescoço de uma mulher. Imagem de Stock4B/Corbis.

A antropóloga percebeu, rapidamente, uma inegável segregação sexual que definia a vida dessas mulheres, uma espécie de “enclausuramento” dos homens. Por exemplo, havia almoços e cafés-da-manhã só para esposas, saídas noturnas movidas a álcool apenas para as “meninas”, eventos de “compras por uma causa” (“shopping for a cause”) e festas “só para as namoradas” em aviões privados, onde todas usavam roupas da mesma cor. Eram comuns os jantares em que maridos e esposas se sentavam em mesas diferentes em salas completamente separadas.

Quando perguntados sobre essa evidente segregação sexual, tanto maridos quanto esposas afirmavam que se trata de uma questão de “preferência” e de “escolha”, como preferir/escolher não trabalhar fora de casa.

Até que, um dia, Wednesday ouviu falar dos “bônus de esposa”.

Os “bônus de esposa”, acordados antes ou depois do casamento, são distribuídos com base não só na quantidade de dinheiro que o marido consegue acumular, mas também no desempenho da esposa, isto é, em quão bem ela administrou o orçamento doméstico ou em que medida as crianças frequentam ou não uma boa escola. Num processo bastante similar ao que seus maridos são recompensados em bancos de investimento de acordo com suas performances no mundo dos negócios, podemos observar a reprodução, em casa, desta lógica corporativa pelo prisma da desigualdade de gênero.

Por sua vez, estes “prêmios”, concedidos às esposas por seus maridos, dão acesso a um mínimo de independência financeira e participação em uma esfera social na qual não basta apenas você ir a um almoço, você tem que comprar uma mesa de 10.000 dólares no almoço beneficente onde um amigo é o anfitrião.

Enquanto os maridos fazem milhões, suas esposas privilegiadas com filhos tendem a abrir mão de habilidades adquiridas na pós-graduação e em suas profissões para se dedicarem aos cuidados da família e à “aparência” de sucesso familiar, como quando organizam festas de gala, por exemplo. Tudo de forma não remunerada.

Para a antropóloga, os dados etnográficos em todo o mundo não deixam dúvidas: quanto mais estratificada e hierárquica, e mais segregada sexualmente uma sociedade é, menor é o status das mulheres. Comparando diferentes comunidades em diferentes contextos e países, parece ser recorrente o fato de que mulheres que contribuem com recursos para o grupo ou o bem-estar da família, trazendo comida, por exemplo, são mais empoderadas em relação àquelas em sociedades onde as mulheres não contribuem desta maneira. Segundo Wednesday, como em comunidades do Deserto do Kalahari e da floresta tropical amazônica, os recursos também são o ponto de partida no Upper East Side, em Nova York: se você não trouxer “tubérculos” e “raízes” para casa, seu poder é enfraquecido em seu casamento. E no mundo.

Wednesday conclui que, mesmo sendo parceiros no casamento, sob esse arranjo as mulheres ainda são dependentes de seus maridos — ele pode dar um bônus a sua esposa ou simplesmente não dar, ignorando, a qualquer momento, o compromisso prévio com essa ideia abstrata. Assim, um abismo separa a versão de poder dessas mulheres da versão de poder dos seus maridos: o acesso ao dinheiro do parceiro pode trazer uma sensação confortável à esposa, mas, para Wednesday, não pode comprar o poder que uma pessoa adquire por ser aquela a ganhar e a juntar o próprio dinheiro.

Por ser um grupo de difícil acesso, entre outros fatores, ainda faltam estudos mais aprofundados sobre os modos de vida das minorias mais ricas do mundo, inclusive no contexto brasileiro. Para além do que é propagado na mídia, como uma vida de luxo e ostentação, confirmada pelos bens materiais, pouco sabemos sobre eles. Pouco sabemos sobre elas, as mulheres ricas.

Enquanto inúmeras pesquisas apontam a relação direta entre autonomia financeira das mulheres e outros tipos de independência, ainda são as mulheres que mostram maior probabilidade de abdicar de suas carreiras para se dedicarem exclusivamente à família e aos filhos, mesmo quando têm origem social privilegiada ou são altamente graduadas em profissões de prestígio. Como sabido, as que não têm condições financeiras de abandonar seus empregos costumam sujeitar-se à dupla e até tripla jornada, trabalhando dentro e fora de casa numa rotina, em geral, demasiado estafante.

Embora as justificativas para as desigualdades de gênero aleguem tratar-se de “preferências” e “escolhas pessoais”, por que ainda são as mulheres que, na grande maioria das vezes, renunciam a suas carreiras? Apesar dos progressos, isso indica uma situação de menor poder dentro do casamento e maior vulnerabilidade social, no caso em que venham a se divorciar, por exemplo, e se vejam pressionadas a voltar para o mercado de trabalho depois de anos fora dele.

Num país como os Estados Unidos, onde as diretorias das grandes empresas têm mais homens chamados John do que mulheres, não surpreende que no topo da elite econômica estejam as esposas ricas e diplomadas de Manhattan que recebem bônus de seus maridos de acordo com suas performances no ambiente familiar. Como se percebe, ainda há muito que se avançar tanto no entendimento sobre os estilos de vida dos estratos sociais mais abastados, quanto nos direitos das mulheres.