5 Textos das Blogueiras Negras que você precisa ler!

Ontem, 25 de julho, foi Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Por muitos anos, o Brasil teve como principal data negra o 13 de maio. Porém, graças há tantas negras e negros brasileiros, essa data tornou-se um espantalho para mostrar que não houve libertação para a população negra. O dia da abolição da escravatura não conta a história do povo negro no Brasil. Então, o movimento negro reivindicou suas datas políticas, especialmente o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. E, as mulheres negras tem o dia 25 de julho como sua principal data. É com alegria que vemos mais eventos e ações nessa data com o passar dos anos.

A data foi criada em 25 de julho de 1992, durante o primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, República Dominicana, como marco internacional da luta e da resistência da mulher negra. No Brasil, a data é nacional, foi instituída por uma Lei de 2014, como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Tereza de Benguela foi uma importante líder quilombola que viveu durante o século 18.

Uma das iniciativas mais importantes que acompanhamos na internet nos últimos anos foi a criação do site e da comunidade Blogueiras Negras.

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A tentativa frustrada de combate à militância feminista na internet

Texto de Talita Santos Barbosa para as Blogueiras Feministas.

Quando escrevi o texto ‘O feminismo na internet também é importante’, abordando as razões pelas quais o feminismo de internet tem tanta importância quanto os coletivos que atuam em cidades físicas, busquei uma forma de explicitar, através de teóricos da comunicação, que o que é feito na internet possui importância dentro de suas particularidades e limitações. Dessa forma, a militância feminista virtual se encontra em diversos blogs, páginas no Facebook, perfis no Instagram, no Twitter, entre outras mídias sociais, como uma ferramenta de difusão de ideias e compartilhamento de vivências, fazendo com que o feminismo seja fortalecido tanto dentro do ambiente virtual como fora.

Apesar do que pessoas machistas ou antifeministas, e até mesmo algumas feministas, dizem acerca da militância na internet não ser válida, contrariando todos os argumentos de que militância na internet é tão eficaz quanto as que são feitas fora dela, pois para essas pessoas,  militância — seja feminista ou não — só pode ser feita na rua, no corpo a corpo. A militância na internet tem crescido, se intensificado e essas pessoas ignoram que a interatividade é o que torna o ambiente virtual um espaço de troca de saberes, onde feministas compartilham experiências da militância e não apenas assistem passivamente aos acontecimentos. A militância na internet não pode ser posta num segundo plano quando várias páginas, perfis, blogs e sites são silenciados por estarem apenas denunciando crimes e a sociedade machista em que vivemos.

Os inúmeros casos recentes de machismo vão desde as mensagens de cunho pedófilo direcionadas à participante do MasterChef Junior, seguido da campanha #PrimeiroAssedio do Think Olga e também após a divulgação de questões da prova do ENEM. Além desses, houve o racismo nos insultos virtuais a atriz Taís Araújo. Esses eventos provam que o feminismo na internet incomoda e não é pouco.

Mensagem de descrição do “Think Olga”.

Foi no ambiente virtual, através de páginas e perfis feministas em variadas plataformas digitais, que casos de naturalização da violência contra a mulher, romantização de relacionamentos abusivos e relativização da pedofilia foram expostos. Foi por meio de coletivos e grupos feministas na internet que muitas mulheres, durante essas semanas, descobriram que a violência também tem força no ambiente virtual e faz-se tão presente quanto nas cidades físicas, logo foi possível perceber o porquê do feminismo também deve existir na internet.

Após a queda de algumas páginas extremamente machistas e que possuem discursos de ódio contra diversas minorias, outras páginas que denunciam casos de machismo e violência contra a mulher sofreram ataques em massa. Através da derrubada do perfil da Stephanie Ribeiro e de páginas como “Feminismo Sem Demagogia”, “Jout Jout Prazer” e a criação de blog fake em nome de Lola Aronovovich, acreditaram que dessa maneira o feminismo perderia força, mas o que se viu foi uma grande reação das pessoas, desaprovando e divulgando o quanto a intolerância precisa ser combatida.

Embora digam que o feminismo virtual não tenha relevância, as pessoas que o combatem entram num paradoxo. Quem é contra o feminismo pode até dizer que o feminismo virtual não tem efeito e acusam as feministas de serem espectadoras passivas de atos de violência, pois só sabem militar no conforto do sofá, entretanto são estas feministas que eles buscam reprimir, combater e silenciar diariamente. Então, como que este feminismo não gera efeito?

Diante deste cenário de ódio ao feminismo e às mulheres feministas, uma frase de Simone de Beauvoir nunca fez tanto sentido: “Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres” (O Segundo Sexo, pg. 18). Os homens que reagem com birra aos discursos feministas, que não questionam seus machismos, seus assédios, suas violências, homens que sequer possuem a capacidade cognitiva de interpretar uma citação da Simone de Beauvoir numa prova e já saem a chamando de “baranga francesa”, entre vários outros adjetivos depreciativos, são eles também que usam a internet para “militarem” contra nós, feministas.

Por fim, o ódio ao feminismo, às mulheres e a toda e qualquer pauta que fira o ego dos privilegiados não é exclusivo do século XXI. Mas, se ainda hoje, é necessário lutar por direitos básicos, isso só prova que o feminismo ainda é relevante. Logo, o feminismo incomoda, toca na ferida e gera tanta revolta dos machistas. E o feminismo na internet incomoda os privilegiados, incomoda tanto que preferem ameaçar, silenciar, expor e reprimir ao invés de promover um debate saudável. Por isso, volto a afirmar: o feminismo na internet também é importante.

Autora

Talita Santos Barbosa é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo. Escreve no blog Oito ou Oitenta.

Minas Programam: uma ofensiva contra o assédio, agressões e o sexismo

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos dias, sites e perfis feministas vêm sofrendo vários ataques e vendo suas páginas no Facebook derrubadas, numa contra-ofensiva machista e misógina que parece muito bem organizada e elaborada.

Uma página fake foi criada em nome da feminista Lola Aronovich, atribuindo a ela declarações mentirosas e falaciosas, invadindo, inclusive, sua vida pessoal e profissional. O perfil da ativista Stephanie Ribeiro foi derrubado e continua sendo atacado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook. A jornalista Maria Júlia Coutinho e a atriz Taís Araújo foram vítimas de violentos ataques racistas. A página da youtuber Jout Jout ficou fora do ar por alguns dias por causa de denúncias que surgiram depois da viralização de seu vídeo “Vamos fazer um escândalo”, falando de assédio sexual. E a página “Feminismo Sem Demagogia” continua fora do ar.

Aliás, quando a página de Jout Jout foi reestabelecida, a administração do Facebook emitiu uma nota se desculpando e reconhecendo que houve um “erro de avaliação” da denúncia. Espero que esses ataques possam confrontar a própria política do Facebook, que tem adotado práticas aparentemente misóginas na avaliação de conteúdos, páginas e perfis feministas.

Além de representar uma orquestrada contra-ofensiva frente à relevância que o feminismo andou recebendo ultimamente, esses ataques demonstram o quando a web pode ser hostil para as mulheres. Hostilidade e violência que parecem ter atingido seus mais altos decibéis nos últimos dias, aliás.

Provavelmente, porque em resposta ao assédio brutal sofrido pela jovem participante de apenas 12 anos do MasterChef Júnior, a hashtag #PrimeiroAssedio teve mais de 80 mil tuites com relatos que escancaram o quanto o assedio sexual é violento e precisa ser combatido no Brasil. Ou porque questões de forte viés feminista foram parar no ENEM 2015. Ou mesmo porque milhares de mulheres saíram às ruas pela garantia de seus direitos reprodutivos e pedindo “Fora,Cunha!”.

O caso é que, constatando o quanto a web é animosa com a gente e o quanto nos vimos alijadas na construção dos progressos tecnológicos, mais cursos, oficinas e ações estão sendo desenvolvidos para estimular a participação de mulheres nas áreas de tecnologia e exatas. O Fundo Social Ellas, por exemplo, acabou de encerrar as inscrições para um edital de financiamento de projetos que estimulam alunas do ensino médio a se interessar justamente por essas áreas.

Em meio a diversas ações, as ativistas Bárbara Paes, Ariane Cor e Fernanda Balbino criaram o projeto “Minas Programam”, para ensinar a meninas e mulheres conhecimentos básicos de programação, envolvendo também questões de segurança, privacidade e ativismo.

rodadahacker_novembro

O curso, com custo baixo, começou em outubro na ONG feminista Casa de Lua (SP) e conta com 30 alunas, que passaram por um processo de seleção que privilegiou, por exemplo, menor condição financeira para pagar pelo curso, residência (moradoras de bairros periféricos foram priorizadas), maior número de filhos, deficiência física e envolvimento com ativismo.

Durante todos os dias de aula, a Casa de Lua também está aberta para estudos livres e reuniões para qualquer mulher que queira aprender a programar. O valor da inscrição foi de R$30,00 para a turma iniciante e de R$50 a R$100,00 para a turma de tutoria. Foram selecionadas também seis garotas para participarem com isenção de taxa de inscrição. Toda a verba arrecadada foi destinada à Casa de Lua.

Em recente entrevista sobre o projeto, Bárbara afirma: “muita gente que pensa igualdade de gênero em tecnologia, por exemplo, já apontou que se as redes sociais tivessem sido pensadas com e por mulheres, problemas de segurança e de assédio teriam sido previstos”. Bárbara destaca, ainda, que pensar no setor de tecnologia é lembrar que a programação é importante na forma como o mundo se estrutura e de como criamos soluções para os problemas da sociedade: “Isso significa que enquanto as mulheres não estiverem mais presentes no setor de tecnologia, nossas ideias, nossas preocupações e nossas soluções estarão menos representadas”.

Na mesma entrevista, Fernanda cita dados que exemplificam bastante essa realidade: dos 1.683 engenheiros da computação formados em 2010, apenas 161 eram mulheres, segundo o Inep (9,5%). Dos 7.339 formados em Ciências da Computação no mesmo ano, 1.091 eram programadoras (14.8%). Em 2015, de um total de 330 ingressantes dos cursos de Computação da USP, apenas 38 eram mulheres (11.5%). Dos 300 mil profissionais registrados no CREA-SP (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia de SP), apenas 49 mil são mulheres (16.3%). A participação das mulheres na Ciência da Computação caiu de quase 37%, em meados dos anos 80, para 17% atualmente (20%).

E, mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, há homens que ainda não acreditam que o problema é real. No artigo ‘Mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, homens ainda não acreditam que o problema é real’, a pesquisadora americana Laurel Raymond conta que ao serem confrontados com evidências empíricas que apontam tendências sexistas contra mulheres nas áreas de exatas, os homens dificilmente acham que os estudos são convincentes ou importantes.

O projeto “Minas Programam”, que já vinha sendo gestado nas redes socais, se concretizou mesmo em agosto desse ano, quando Bárbara, Ariane e Fernanda realizaram na Casa de Lua uma roda de conversa com várias mulheres de tecnologia. O evento contou com referências como as especialistas: Camila Achutti, Bárbara Castro, Haydeé Svab, Carolina Stary, destacando também o quanto a representatividade é importante. É preciso visibilizar as mulheres que trabalham na área para que sirvam de inspiração para outras.

Nesse encontro, Haydeé chamou atenção para o fato de que no começo dos cursos de tecnologia no Brasil, a procura era paritária, havendo equilíbrio entre homens e mulheres nas salas de aula: “Foi quando o mercado começou a crescer, movimentando mais e mais dinheiro, que o ambiente foi ficando cada vez mais agressivo pra gente, até que fomos escasseando e até sumindo dos cursos. Porque, claro, tudo aquilo que pode gerar independência financeira para mulheres, não interessa ao patriarcado”.

Para quem quiser conhecer o projeto, durante os dias 6, 7 e 8 de novembro, o “Minas Programam” e a Casa de Lua se juntam a Olabi, organização que tem como foco a apropriação de novas tecnologias, e várias outras instituições para a realização das RodAdas Hacker, em diferentes pontos da cidade, durante a São Paulo Tech Week. As oficinas desta RodAda são gratuitas e para participar em uma delas é necessário se inscrever em: http://rodadahacker.org/participe.

A RodAda Hacker é uma rede que se baseia em oficinas de programação especialmente desenhadas para meninas e mulheres e surgiu em 2012, quando a ciberativista Daniela Silva (também uma das fundadoras da Casa de Lua) constatou que existem poucas mulheres atuando nas atividades técnicas ligadas à internet, como engenharia ou programação. O nome do evento é uma homenagem a Ada Lovelace, matemática e escritora, conhecida como a primeira programadora da história.

Segue a programação:

Dias, locais e horários das RodAdas Hacker:

● Dia 06/11 – CEU Parelheiros – 9h às 12h – endereço: Rua José Pedro de Borba, 20 – Jardim Novo Parelheiros.

● Dia 07/11 – Casa de Lua – 9h às 17h – endereço: Rua Engenheiro Francisco Azevedo, 216 – próximo ao metrô Vila Madalena.

● Dia 07/11 – LabHacker – 9h às 17h – endereço: Rua Alfredo Maia, 506 – Luz – próximo ao metrô Armênia.

● Dia 07/11 – RedBull Station – 10h às 18h – Praça da Bandeira, 137 – Centro.

● Dia 08/11 – Preto Café – 9h às 17h – endereço: Rua Simão Álvares, 781 – Pinheiros.

● Dia 08/11 – Fábricas de Cultura – 9h às 17h – endereço: Rua Antônio Ramos Rosa, 651 – Jardim São Luís.

Informações atualizadas na página do evento no Facebook.

+Sobre o assunto:

[+] A internet odeia as mulheres e ninguém vê problema nisso. Por Juliana de Faria e Luise Bello.

[+] Jovem usa dinheiro de viagem de formatura para lançar app antiassédio.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.