Minha cabeça não é pra isso! Da desconstrução da mentalidade acerca da inaptidão da mulher para tecnologia

Texto de Ana Rita Dutra para as Blogueiras Feministas.

Das lembranças que tenho da minha fase escolar, principalmente do ensino médio, as festas escolares marcaram bastante. Dia de festa na escola, a organização pautava por meninas decorarem a sala e meninos deveriam trazer o refrigerante. Hoje, ao olhar para este tempo, percebo que a divisão de tarefas pautada por gênero não estava presente somente nestes eventos festivos. Meninas deveriam jogar vôlei e pular corda na educação física, meninos correr e jogar futebol. Nas aulas de português e literatura meninas deveriam ler romance e escrever poesias, já os meninos deveriam ler jornal e notícias de esportes. A capacidade das meninas nas aulas de exatas eram questionáveis, pois para nosso sexo, raciocínio lógico e direto deveria ser trabalhoso.

As condições em que vivem homens e mulheres não são produtos de um destino biológico, mas, antes de tudo, construções sociais. Homens e mulheres não são uma coleção – ou duas coleções – de indivíduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que estão engajados em uma relação social específica: as relações sociais de sexo. (Kergoat, 2000, p. 55)

Estas relações sociais de sexo acabam levando meninos e meninas para caminhos distintos, ouso dizer que esta divisão não começa a ser fomentada na escola, mas muito antes no ventre materno, na maternidade, nas aquisições para um bebê já estamos imputando nesta criança papeis específicos e bem definidos de ser homem e ser mulher, juntamente com seu papel na sociedade. Para mulher lhe é delegado o sentimento, o lar, para o homem da porta para fora, o raciocínio e o mundo todo.

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Meu corpo simbolizado e ressignificado para além da sociedade cisgênera

Texto de Daniela Andrade.

Outro dia, vi uma mulher cisgênera dizendo que era um absurdo eu dizer que não tinha nascido homem ou mulher, que isso dava força para os fanáticos religiosos que falam criminosamente em ideologia de gênero, como se estivéssemos impondo aos outros quais seus gêneros. Que eu não poderia negar a realidade objetiva.

O que não entra na cabeça dessas pessoas cisgêneras é que: sexo/gênero não são dados postos, entregues à humanidade por alguma entidade mítica, mas descritos por uma sciencia sexualis criada e gerida por humanos, diga-se de passagem, humanos cisgêneros, que foram quem desde sempre tiveram acesso ao saber e fazer acadêmico-científico. As pessoas trans desde sempre estão alijadas desses espaços.

E, se formos ler Thomas Laqueur, por exemplo, vamos verificar que a divisão do mundo em absolutamente dois sexos não é algo imemorial. Laqueur debruçando-se sobre a história da sexualidade humana, como Foucault em sua trilogia, dão conta que o mundo até então era tido como tendo apenas um sexo, em que a mulher seria uma deformação do masculino, ou o sexo masculino não desenvolvido. Daí sua inferioridade considerada dentro do patriarcado.

Espelho. Foto de Christi Nielsen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Espelho. Foto de Christi Nielsen no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Pois bem, vejam que se inclusive as pessoas cisgêneras modificaram a concepção de sexo-gênero, por que eu, pessoa trans, tenho que engolir as teorias de sexo-gênero, ou ante isso, a imposição do sistema sexo-gênero sobre a minha pessoa, de forma acrítica?

O corpo é meu, eu ressignifico o meu corpo como me cabe. Não estou dizendo como ninguém tem que ver o próprio corpo, não estou impondo como as pessoas precisam simbolizar e significar o próprio genital por exemplo, de forma que não quero que façam o mesmo comigo.

Quero que parem de se intrometer no meu corpo e na forma como eu vislumbro meu corpo, isso só compete a mim. E aí que reside a leviandade e a mentira desses fanáticos religiosos. Não estou impondo nada, ao contrário do que as pessoas cisgêneras desde sempre fizeram, estou propondo às pessoas trans outras formas de significarem e simbolizarem os próprios corpos, em detrimento das pressões e imposições sociais.

Se eu quero ou necessito mudar o meu corpo, o meu genital, isso deveria dizer respeito apenas a mim. Isso não muda o mundo, isso não muda a vida de ninguém, apenas a minha. Não estou ditando que genital cada um deve ter, que corpo cada um deve ter, estou dizendo que não sou obrigada a acatar imposições que legitimam corpos cisgêneros e a identidade cisgênera como corretos, “de verdade”, “normais”, o que deve ser perseguido pelas pessoas trans. Inclusive porque as pessoas trans podem ter os mesmos corpos das pessoas cisgêneras, sem modificar absolutamente nada. Pois a identidade de gênero não é algo do aparato anatômico, mas do psíquico.

Se as pessoas cisgêneras impõem que meu genital é masculino ou feminino, eu pergunto: preciso realmente acatar o que a ciência cisgênera determinou para mim? Por conta do quê? A ciência, ou melhor, os cientistas cisgêneros ao longo da história já determinaram cada coisa absurda, por exemplo que as pessoas negras eram menos inteligentes, e diziam comprovar com estudos; que só me leva a crer que deveríamos deixar de falar em ciência como dogma ou religião.

Aliás, para além do que diz a biologia, que só pode descrever partes anatômicas dos corpos, eu não sou apenas um ser biológico, mas também um ser social e que possui subjetividade. Ou seja, não é porque alguém determinou que corpo eu tenho, que genital eu tenho, qual é meu gênero, que eu devo acatar. Estamos falando de mim, não de você.

Meu corpo pode ser simbolizado e ressignificado para além do que a sociedade cisgênera me impõe, o nome disso é resistência, é dizer não à colonização das pessoas cisgêneras sobre nossos corpos, nossas identidades, nossas subjetivações.

Meu gênero nunca esteve instalado no meu genital e na minha anatomia, e meu genital, por exemplo, só terá sentido pra mim se eu assim simbolizá-lo como uma parte de mim com significações benéficas. Sou mulher independente do meu genital, inclusive porque não saio mostrando ele por aí, as pessoas se relacionam com a Daniela e não com o genital da Daniela.

A forma como a Daniela vê o próprio corpo não deveria dizer respeito a você, mas à Daniela. Assim como a forma que você vê seu corpo não diz respeito à Daniela. Mas para além disso, tanto a Daniela precisa respeitar como você se vê e quer ser tratado ou tratada, quanto vice-versa.

Refuto as imposições do que deve ser meu corpo, do que deve ser meu genital e do que deve ser a pessoa que eu sou. É preciso respeitar as individualidades e singularidades de cada pessoa pois não somos robôs, cópias perfeitas uns dos outros.

A forma como você enxerga o mundo, enxerga seu corpo e enxerga o sistema sexo-gênero, pode não ser a forma como eu faço a mesma coisa. E daí? Qual o enorme problema na sua vida? Muda o que nos seus planos se eu vejo o mundo, meu corpo e meu genital de forma diferente da sua?

Autora

Daniela Andrade é uma mulher transexual que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou. Escreve em seu blog pessoal: Alegria Falhada. Administra a página:Transexualismo da Depressão.

Esse texto foi publicado originalmente em sua página pessoal do Facebook no dia 23/06/2015.

Amamentação: leite materno não é poção mágica

Texto de Lígia Birindelli, Maíra Nunes e Xênia Mello.

Semana passada, foram divulgados os resultados de uma pesquisa que afirma:

crianças amamentadas por mais de um ano têm escolaridade 10% superior àquelas que não completaram um mês de alimentação com leite materno. O efeito sobre a renda foi o mesmo. Crianças com maior período de amamentação tornaram-se adultos com renda 33% superior a dos que não receberam leite materno por mais de 30 dias. Referência: Tempo de amamentação afeta até renda, diz estudo

Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.
Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.

Precisamos refletir sobre o discurso científico e como ele nos forma. Ao ser elevado ao status de “verdade”, todo resultado de uma pesquisa científica molda a forma como entendemos o mundo e nos colocamos nele. Por outro lado, a colocação da ciência como “verdade absoluta” estimula a falta de discussão, no senso comum, de como o discurso científico nunca é neutro. O problema é a falta de problematização.

Nesse estudo, o resultado de uma pesquisa sobre amamentação relaciona o tempo de amamentação com o QI e com a renda de adultos. Ou seja, vamos amamentar para produzir crianças inteligentes e bem-sucedidas. É óbvio que a crítica aqui não se trata da discussão sobre os benefícios da amamentação, que sabemos serem muitos. Mas, é o peso da responsabilidade de uma mãe que TEM que amamentar para poder dar o melhor para o seu filho. Além do fato de que você tem inúmeros outros fatores que contribuem para o bom desenvolvimento da criança (numa visão bio-psico-social), como a criação não-violenta e com apego, que não são levados em consideração.

Se amamentar aumentasse renda e QI, as pessoas mamariam em seus próprios peitos ou venderiam leite. Se leite materno aumenta renda não ia ter tanta mulher na periferia amamentando. Esse discurso científico acaba sendo mais um um discurso que culpabiliza as mulheres pelo (in)sucesso na amamentação. Amamentar é um exercício que depende de inúmeras varíaveis, e boa parte delas não depende da pessoa que amamenta. Apenas para começar: acesso a licença-maternidade e remuneração garantida enquanto se está cuidando da criança, acesso a profissionais da saúde capacitados que orientem e auxiliem o processo da amamentação, acesso a uma rede comunitária que auxilie nos cuidados e que acolha a mulher, ter um companheiro, companheira ou pessoas próximas que sejam também responsáveis pelos cuidados com a criança, ter acesso a moradia digna e uma vida livre de violência.

Por que precisamos nos preocupar com o futuro das crianças para respeitá-las? Não podemos simplesmente acolher por acolher? Respeitar por respeitar? É urgente que se entenda que os filhos não pertencem aos pais, que eles farão escolhas em suas vidas que independem da vontade dos pais. Não pensamos em criar um filho com respeito porque ele será alguém melhor no futuro. Ao criar uma criança com respeito, acreditamos que todas as pessoas merecem respeito. Amamentar porque a criança se sente confortável, segura e acolhida quando mama é motivo suficiente para amamentar, independente se isso trará um QI elevado ou mais dinheiro no futuro.

Quem são as mães que conseguem uma amamentação prolongada? São aquelas que vivem num ambiente acolhedor, livre de violência, com acesso à informação? Se sim, não seriam estes fatores que levariam a criança a poder se desenvolver melhor? Uma coisa leva a outra, portanto, não seria o leite em si a poção mágica. Mulheres que precisam trabalhar geralmente também precisam desmamar as crianças mais cedo. Quem mama por mais tempo possui o privilégio de ter um adulto a disposição para isso, então a questão parece ser mais socioeconômica que fisiológica.

Problematizar o resultado do estudo significa defender a amamentação com argumentos honestos e sinceros. Não é possível pegar toda a subjetividade do ser bio-lógico e resumi-la em fórmulas prontas, deterministas no sentido de: se você fizer isso o resultado será esse. Tudo é muito mais complexo, porque mais que a gente insista em tentar simplificar. E, para finalizar, é importante pensar na constante capitalização da infância, em que a criança acaba sendo um investimento futuro, e num futuro único: o do sucesso.

Autoras

Lígia Birindelli Amenda é feminista e mãe. Vivendo uma louca paixão pela infância e pelo exercício da maternagem. Escreve no blog No princípio era a Maternidade.

Maíra Nunes é 8 ou 80. Mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Xênia Mello não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo. Vadia, socialista e capricorniana, apaixonada pelos bípedes e por gatos, insustentavelmente leve.