O que é aborto?

Texto de Érika Pellegrino para as Blogueiras Feministas.

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A foto acima é de um embrião. Não é um bebê, não é um feto, não é um ser desenvolvido. E não é produto, nem nunca iria resultar em uma gestação, porque é o embrião de uma galinha com 72 horas de existência. Galinhas, como sabemos, não ficam gravidas.

É muito comum termos dúvidas quanto a definição de termos como: aborto, embrião, feto, gestação, etc. Na internet é comum encontrarmos definições confusas ou às vezes até propositadamente incorretas, especialmente em sites de grupos anti-aborto.

O objetivo desse texto é ser simples e informativo, por isso, peço desculpas por ter assumido o risco de ser cisnormativa com o objetivo de ser didática. Portanto, quando falo sobre mulher e feminino ou homem e masculino nesse texto, estou usando como referência pessoas cisgêneras e cissexuais. Se qualquer pessoa trans* tiver uma crítica ou questionamento, ficarei feliz em responder nos comentários.

Fecundação e gravidez

Tudo começa na formação dos gametas, que são os óvulos e espermatozoides. A mulher já nasce com os oócitos, que todo mês a partir da puberdade irão se maturar e dividir dando origem aos óvulos.

O óvulo é lançado na trompa e percorre o caminho até chegar ao útero, que está com a parede interna espessada. Não ocorrendo fecundação e implantação, essa parede vai descamar e ocorre a menstruação normal. Se acontecer de ter espermatozoides nadando por ali no período fértil, eles vão chegar até a trompa e alguns deles encontram o óvulo, em geral só um consegue penetrar na camada externa do óvulo e ocorre a fecundação.

Fecundação é uma série de reações entre duas células até que o material genético de ambos se juntem formando o zigoto.

As células então vão se dividindo e formando um aglomerado, que vai descendo pela trompa até chegar no útero, o que leva 4 dias. A implantação, do que agora é chamado blastocisto, naquela parede uterina espessada vai ocorrer por volta do 6º dia e vai se completando até o 10º dia. É a partir daí que as reações metabólicas farão o corpo produzir o HCG, que é detectado nos testes de gravidez.

Só dá para falar em gravidez ou gestação depois que ocorreu a implantação do blastocisto. Como eu disse no início, galinhas (ou peixes, ou ornitorrincos) não gestam porque o desenvolvimento do blastocisto da galinha vai acontecer dentro do ovo que é externo ao corpo dela. A gestante é parte integrante da gestação, não há potencial de desenvolvimento para fases mais maduras, pelo menos até onde a tecnologia avançou, sem que isso ocorra, e portanto só se fala em gestação depois que ocorre essa interação entre o concepto e a gestante.

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Embrião e aborto

Usamos o nome de Embrião para a fase do concepto em que ele começa a se dividir e diferenciar em partes que darão origem aos diferentes órgãos e sistemas, essa fase compreende a 3ª semana até a 8ª semana.

Do terceiro mês até o final da gestação, chamamos de período fetal.

Falei tudo isso pra dizer que, em termos científicos, zigoto é uma coisa, embrião é outra, feto é outra. E nenhuma delas é sinônimo de bebê, da mesma forma que gestação e maternidade também não são sinônimos — tem mulheres que engravidam e não são mães, tem mães que nunca engravidaram…

Aborto é a interrupção da gestação até 20 semanas, ou com feto menor que 500g de peso ou com menos de 25cm de comprimento. A definição é determinada pela impossibilidade do concepto sobreviver fora do útero, e se o feto tiver mais de 20 semanas, mais de 500g e mais de 25cm existe teoricamente autonomia biológica suficiente para que ele seja capaz de sobreviver fora do corpo da gestante, e então fala-se em parto prematuro.

Por isso nas legislações frequentemente refere-se a interrupção da gestação — não é um eufemismo, é só um jeito de englobar casos mais precoces e mais tardios. Por exemplo, a lei brasileira permite interrupção da gestação no caso de fetos anencéfalos, e o diagnóstico só pode ser feito através de ultrassonografia após as 12 semanas, então é frequente que a interrupção seja mais tardia.

O aborto como evento natural é extremamente comum: nas gestações até 20 semanas, ocorre em 8 a 20% dos casos clinicamente detectados — ou seja, nos casos em que a mulher fez um teste de sangue ou urina e descobriu estar grávida, o que como vimos só ocorre a partir de cerca de 10 dias após a fecundação, mas geralmente acaba sendo um pouco depois, quando a menstruação atrasa. Isso faz com que um número ainda maior de abortos ocorra antes de a gestação ser sequer detectada, correspondendo de 22 a 26% das gestações. Se levarmos em conta as perdas antes da implantação, cerca de 50% dos óvulos fecundados nunca vai resultar num ser humano vivo.

Ou seja, para quem encara o aborto como equivalente a morte de um ser humano e defende os direitos civis de um suposto “nascituro” a natureza é uma baita genocida; pior ainda quando pensamos nos argumentos contra o uso de células-tronco embrionárias ou fertilização in vitro por conta da ideia de que a vida começa na fecundação.

Autonomia e escolha da mulher

Não vemos nenhum dos grupos autointitulados “pró-vida” protestando por enterros e atestados de óbito pelos quase 50% de abortos espontâneos ou perdas pré-implantações, mas vemos alguns praticando atentados contra clínicas e profissionais onde o aborto é legalmente praticado, o que me faz pensar que o nome mais apropriado seria “anti-escolha” ao invés de pró-vida. Parece que o aborto só vira uma grande questão que recebe a atenção geral quando é causado pela autonomia e escolha de uma mulher.

A coisa fica ainda mais anacrônica quando consideramos que pelo menos 68 mil mulheres morrem por ano em decorrência do aborto ilegal. O aborto praticado adequadamente no primeiro trimestre, por exemplo, é efetivo em cerca de 98% das gestações, com menos de 3% de complicações, que chegam a ser graves em apenas 0,65% dos casos — contra 25% de complicações graves nos casos de abortos praticados de forma insegura. A morte por aborto realizado de forma insegura é responsável por uma em cada 8 mortes relacionadas à gestação no mundo.

Apesar de todos esses termos e definições, não é a Biologia que determina as leis e o desenvolvimento de políticas. Cada país tem sua legislação específica, mais ou menos restritiva tanto em relação ao motivo do aborto quanto em relação ao período de gestação em que ele é permitido, e não existe na Biologia uma unanimidade para quando surge a vida e até quando pode-se fazer um aborto, porque não é daí que sai o substrato ético, então utilizam-se diversos critérios.

O que me parece ser unânime é que as escolhas sobre o corpo da mulher, que deveriam caber somente a ela, viram uma questão pública e todos acham que podem e devem lhes impor restrições, mantendo-as como cidadãs de segunda classe, com direitos abaixo até de grupos de células que parecem tanto com um ser humano quanto o embrião de galinha do topo desse texto. E o que parece ser critério para manter as mulheres em condições tão precárias, sem atenção ou garantia de direitos por parte do Estado é que sejam pobres – 98% dos abortos sem condições de segurança ocorrem no terceiro mundo.

Dia 28 de setembro é dia de luta pela descriminalização do aborto na América Latina, onde cerca de 1.1 milhão de mulheres pobres se submetem a um aborto inseguro todo ano. Dizer sim para a legalização não é dizer não para os métodos anticoncepcionais, não vai fazer com que seja uma decisão fácil, não vai estimular as mulheres a fazerem um aborto. É dizer sim ao reconhecimento dos direitos e à vida dessas mulheres, é parar pra pensar se realmente acha que todas essas mulheres (incluindo muito provavelmente alguém que você conhece, ou mesmo da sua família) são assassinas e deveriam estar na cadeia.

Referências

MOORE, K.L. & PERSAUD, T.V.N. Embriologia Clínica. Rio de Janeiro, Editora Elsevier, 2008.

Aprendendo embriologia no ite de embriologia da Famema: http://www.famema.br/ensino/embriologia/

Unsafe abortion, 2014. Por Melissa L Gilliam e Sadia Haider em: http://www.uptodate.com/contents/unsafe-abortion

Spontaneous abortion: Risk factors, etiology, clinical manifestations, and diagnostic evaluation, 2014. Por Togas Tulandi e Haya M Al-Fozan em: http://www.uptodate.com/contents/spontaneous-abortion-risk-factors-etiology-clinical-manifestations-and-diagnostic-evaluation

O site Uptodate em geral não funciona sem uma assinatura pessoal ou de uma instituição acadêmica, então se alguém precisar de uma referência específica de algum dado e não conseguir acessar, pode me pedir que eu vejo os artigos e tento mandar.

Autora

Érika Pellegrino é médica, está fazendo psiquiatria e acha o máximo ser paga pra ouvir inúmeras historias interessantes todos os dias.

O que querem as mulheres? Pistas de um pletismógrafo

Texto de Binha Vidal.

Daniel Bergner em seu livro ‘What do women want? – Adventures in the science of female desire‘ relata várias pesquisas sobre a libido feminina. Achei muito interessante a abordagem do autor, que não se limitou a ler e escrever sobre artigos científicos como costumam fazer escritores de livros de divulgação científica para o público em geral.

Neste livro, ele relata conversas que teve com pesquisadores em visitas aos seus laboratórios e demonstra uma relação de amizade e afinidade com eles. Uma destas cientistas é Meredith Chivers, com quem o autor tem uma relação muito próxima. Além das conversas informais, Bergner utiliza seis artigos científicos da pesquisadora, de 2004 a 2012. Achei seus estudos reveladores e são eles que serão abordados neste texto.

Capa do livro 'What women want? Adventures in the science of female desire' de Daniel Bergner. Sem previsão de lançamento no Brasil.
Capa do livro ‘What women want? Adventures in the science of female desire’ de Daniel Bergner. Sem previsão de lançamento no Brasil.

Paralelamente às visitas aos laboratórios, Bergner entrevistou muitas mulheres. Seus relatos sinceros sobre sexualidade permeiam todo o livro. Cabe ressaltar que tanto o autor quanto a pesquisadora usaram as categorias “mulher” e “homem” como universais, não fazendo recortes específicos relativos à cisgeneridade/transgeneridade ou raça, por exemplo, apenas usando o recorte de orientação sexual. Também é interessante apontar o fato de que as pesquisas foram realizadas em cidades dos Estados Unidos e Canadá, o que não deixa de ser um recorte econômico e cultural.

Pletismógrafo. Esse é o nome — bem esquisito por sinal — de um instrumento que serve para medir alterações no volume de um órgão (ou até mesmo do corpo inteiro) resultantes de flutuações na quantidade de sangue (ou ar) que este contém.

Existe um tipo específico para medir o afluxo de sangue para o órgão sexual feminino: é o fotopletismógrafo vaginal. Nada mais é que um tubo acrílico, das dimensões de um absorvente interno, que emite luz e capta — por meio de um sensor conectado a um computador — a luz que foi refletida pela parede vaginal. A medida do fluxo sanguíneo é uma medida indireta da excitação sexual, pois é o aporte de sangue que causa a transudação, ou seja, a saída de líquido através das paredes do canal vaginal. A ideia é: quanto mais sangue, maior a lubrificação.

O objetivo de Chivers era buscar o que há de mais primitivo no desejo feminino, sempre tentando ver para além da cultura, das convenções sociais, das listas de pecados, de tudo que é aprendido. Ela queria desvendar um leque fundamental de “verdades” sexuais inerentes, aquilo que “está no coração da sexualidade feminina”. Considero o objetivo da pesquisadora bem ousado. Não é possível livrar-se de tudo o que nos cerca, dessa cultura em que nascemos e por meio da qual nos tornamos quem somos e chegar a uma “verdade” sobre a libido feminina. Porém, Chivers sabia das limitações e dificuldades de seu estudo. No entanto, havia uma luz no fim do túnel – quase literalmente.

Com a luz emitida pelo pletismógrafo seria possível observar diretamente o que excita as mulheres, o que faz com que o fluxo de sangue aumente na vagina, o que faz com que fique “molhada”. O pletismógrafo eliminaria a interferência das regiões repressoras do cérebro, descobriria o que excita as mulheres em um nível primitivo. Apesar das limitações a que toda pesquisa científica está sujeita, os resultados obtidos foram, a meu ver, extremamente interessantes.

Cada mulher que participou do estudo assistiu a uma sequência de vídeos pornográficos usando o pletismógrafo: um homem e uma mulher transando no mato, um homem nu andando na praia com o pênis sem ereção, duas mulheres transando em uma banheira, dois homens fazendo sexo oral, dois homens fazendo sexo anal, uma mulher se masturbando, um homem se masturbando, uma mulher nua se exercitando, um homem fazendo sexo oral em uma mulher, duas mulheres transando usando uma cinta com prótese peniana e, finalmente um vídeo de sexo entre dois bonobos, uma espécie de primata. Após cada clipe pornô de noventa segundos eram mostrados vídeos neutros, de paisagens, até que a leitura do pletismógrafo retornasse a níveis basais.

As mulheres testadas, tanto heterossexuais quanto lésbicas, excitaram-se com todos os vídeos, incluindo a cópula dos primatas. Os números de Chivers, que traçavam o que é tecnicamente chamado de amplitude do pulso vaginal, aumentavam, não importando quem estava na tela e independentemente do que estavam fazendo, uns com os outros ou a si próprio: “a luxúria era catalisada; o fluxo sanguíneo aumentava, capilares pulsavam indiscriminadamente.”

A força das pulsações tiveram algumas distinções, variações em grau, uma delas curiosa: os bonobos não excitaram tanto quando o pornô humano, com uma exceção. Entre todas as mulheres, hetero e lésbicas, o belo homem nu andando sozinho na praia sem ereção perdeu para os primatas. As lésbicas foram um pouco mais seletivas, a amplitude aumentava com vídeos onde figuravam mulheres. Como afirmou Bergner, olhar para os dados colhidos pelo pletismógrafo era confrontar-se com uma visão de “excitação anárquica”. Quando Chivers analisou graficamente seus resultados, a libido feminina parecia “onívora”.

O mesmo estudo foi feito com homens heterossexuais e homossexuais. Embora os homens não fossem o foco da pesquisa, foi feito o mesmo experimento como comparação. Utilizando um tipo de pletismógrafo apropriado, seus genitais responderam segundo certos padrões definidos. Homens hetero excitaram-se muito mais quando o pornô era estrelado por mulheres; gays excitaram-se quando homens protagonizavam as cenas, ficando o pletismógrafo praticamente zerado quando mulheres apareciam. Quanto aos primatas, os pênis dos homens, tanto gays quanto hetero, se comportavam da mesma forma do que quando expostos às paisagens naturais.

Enquanto assistiam aos clipes eróticos, as mulheres (e também os homens) não apenas utilizavam um plestismógrafo, mas também um teclado onde davam notas às suas próprias sensações de excitação sexual. Chivers tinha, portanto, dados fisiológicos e autodeclarados – objetivos e subjetivos. Com os homens o objetivo e o subjetivo estavam em sincronia. “Corpos e mentes contaram a mesma estória”, disse o autor. Com as mulheres os dados discordavam, não tinham nenhuma correspondência. O teclado contradisse o pletismógrafo.

As mentes negaram os corpos. As mulheres reportaram indiferença aos bonobos. Quando o filme era de mulheres se tocando ou duas mulheres se agarrando, as mulheres heterossexuais afirmaram estar muito menos excitadas do que suas vaginas declaravam. Durante os filmes de sexo masculino gay, as notas dadas pelas mulheres hetero tinham menos ainda a ver com “o que acontecia entre suas pernas.” As lésbicas também subestimaram sua excitação quando homens transavam ou se masturbavam nos filmes.

Como explicar o conflito entre o que as mulheres afirmaram e o que seus genitais disseram? Estariam as mulheres diminuindo conscientemente ou bloqueando inconscientemente o fato de que um vasto leque de coisas as atiça instantaneamente? Estariam as mulheres menos conectadas, seriam menos conhecedoras das sensações de seus corpos do que os homens? Seriam as mulheres ensinadas a manter uma distância psíquica do seu eu físico? Chivers levantou várias questões, mas não as respondeu — suas reservas de pesquisadora a impediram de declarar mais do que seus dados poderiam sustentar. Bergner concluiu que o desejo feminino — sua gama inerente e poder inato — é uma força subestimada e constrita, mesmo nos nossos dias, onde tudo parece tão sexualmente inundado.

Em outro experimento, Chivers colocou mulheres heterossexuais para ouvir áudios pornográficos. Com isso ela queria saber se estórias apenas faladas teriam um efeito diferente no fluxo sanguíneo, na mente, no abismo entre o pletismógrafo e o teclado. As situações apresentadas variaram, não apenas no sexo da figura sedutora, mas também se esta era uma pessoa desconhecida, alguém bem conhecido como um amigo ou íntimo como um amante. Mais uma vez, quando os dados foram analisados, houve uma grande discrepância: as mulheres afirmaram estar muito mais excitadas pelas cenas com homens do que pelas cenas com mulheres, mas o pletismógrafo as contradisse. A pesquisadora ficou feliz com a confirmação do seu estudo anterior com vídeos. Mas este estudo mostrou algo mais. Apesar de as mulheres terem afirmado que os desconhecidos foram os que as excitaram menos, sexo com estranhos trouxe uma “tempestade” de sangue para a vagina.

Segundo Bergner, esses dados não combinam com a premissa social de que a sexualidade da mulher floresce com a conexão emocional, com a intimidade estabelecida, com sentimentos de segurança. Pelo contrário, parece que o erotismo feminino funciona melhor com algo mais cru. Se, quando o assunto é sexo, os homens são considerados em sua natureza animal, por que não dizemos o mesmo das mulheres? Por que não consideramos que as mulheres também possuem fortes instintos sexuais?

Em um outro estudo, Chivers apresentou fotos de genitais masculinos e femininos para mulheres heterossexuais. Um pênis com uma tensa ereção e outro não ereto, uma vulva ocultada em parte e outra em um close de pernas abertas. Dessa vez o fluxo de sangue não foi indiscriminado. O sangue aportou muito mais quando a ereção tomou conta do monitor do que com qualquer das outras imagens. Parece um resultado contraditório, mas na verdade condiz com a falta de interesse das mulheres ao verem o vídeo erótico do belo homem nu com pênis flácido. E também condiz com o que disse uma das mulheres entrevistadas por Bergner, quando afirmou que não se vê como bissexual, pois prefere e gosta de namorar homens, apesar de sentir tesão por mulheres. O autor também concorda que essa pesquisa não invalida o que Chivers buscava, pelo contrário. Para ele o fato de um falo rígido isolado levar a medição do pletismógrafo às alturas sugere que o desejo feminino é, em seus alicerces, animal.

Referência

Bergner, Daniel. What do women want? Adventures in the science of female desire. 1ª edição. New York: HarperCollins Publishers, 2013.

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Binha Vidal é uma amadora: yogini amadora, montanhista amadora, feminista amadora. Ama viajar, tanto para as belas paisagens que estão no mapa quanto para os recantos mais escondidos da sua mente.”

Estatuto do Nascituro e a afronta a biologia

Texto de Karollyna Alves.

Primeiro, gostaria de fazer duas ressalvas. A primeira é agradecer a querida feminista que me motivou a escrever sobre este assunto: minha mãe. A segunda é esclarecer que sou formada em biologia, logo tenho bastante embasamento para analisar a questão do Estatuto do Nascituro (Projeto de Lei 478/2007) e o desenvolvimento científico da biologia celular.

Bem, na realidade, não tinha a ideia do que escrever sobre este tema, até porque já há várias postagens a respeito, inclusive nesse blog. Porém, depois de um diálogo com minha mãe, percebi que precisava esclarecer algumas questões que com ajuda da mídia e da nossa má formação escolar acabamos por acreditar. São muitos mitos distorcendo radicalmente a realidade.

Pois bem, conversando sobre os vários absurdos do Estatuto do Nascituro, falei à minha mãe da forma ridícula como o texto trata a fertilização in vitro e as pesquisas com céulas-tronco, referindo-se como “atrocidades”. Daí ouço de minha mãe: “Até que essa parte dos cientistas, dessas pesquisas, essas coisas eu concordo que não devam ser feitas”. Meu queixo caiu no chão, mas nada que uma conversa bem fundamentada não a fizesse mudar de ideia.

Fecundação realizada por intervenção humana. Foto de image Editor no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Fecundação realizada por intervenção humana. Foto de ‘Image Editor’ no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Quem é o nascituro?

No Projeto de Lei 478/2007, aborda-se o assunto da seguinte maneira:

Art. 2º Nascituro é o ser humano concebido, mas ainda não nascido.

Parágrafo único. O conceito de nascituro inclui os seres humanos concebidos “in vitro”, os produzidos através de clonagem ou por outro meio científica e eticamente aceito.

Dos crimes em espécie

Art. 25 Congelar, manipular ou utilizar nascituro como material de experimentação:

Pena – Detenção de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.

Justificação

A proliferação de abusos com seres humanos não nascidos, incluindo a manipulação, o congelamento, o descarte e o comércio de embriões humanos, a condenação de bebês à morte por causa de deficiências físicas ou por causa de crime cometido por seus pais, os planos de que bebês sejam clonados e mortos com o único fim de serem suas células transplantadas para adultos doentes, tudo isso requer que, a exemplo de outros países como a Itália, seja promulgada uma lei que ponha um “basta” a tamanhas atrocidades.

Quando usamos expressões como: “manipulação”, “congelamento” ou “comércio de embriões humanos”, a maioria das pessoas pensa em imagens das melhores ficções científicas, com laboratórios repletos de humanos guardados esperando a hora de “despertarem” no melhor estilo Matrix. Entretanto, essas cenas imortalizadas na mente das pessoas dão uma falsa impressão de teorias da conspiração, pessoas que foram clonadas e agora arcam com problemas existenciais, cinetistas frios e desumanos, etc. E, nos esconde uma verdade que nem percebemos existir, a de que usamos esses “experimentos macabros” no nosso dia a dia constantemente sem nem perceber.

Cena do filme “A Ilha” (2004) onde existe uma “fábrica de seres humanos”.

Clonagem e alimentos

Para início de conversa, a tão temida clonagem de seres em equipamentos de vidro já é realizada há muito tempo, através da cultura de tecidos vegetais. E, é graças a essa técnica que conseguimos produzir comida em larga escala que seja disponível para maioria dos seres humanos (infelizmente não a todos). Na cultura de tecidos in vitro, as minúsculas mudas de plantas são condicionadas em tubos de ensaio com meios de cultura propícios para que se desenvolvam e, só depois é transportada para o cultivo em campo, onde crescem como outra planta qualquer que tenha sido gerada através da semente. A clonagem também ocorre, quando separa-se céulas ou segmentos de determinada espécie que são replicadas gerando indivíduos idênticos entre si.

Lembram da Teoria Malthusiana de que a população careceria de comida num futuro não muito distante? A que dizia que a população cresceria em progressão geométrica enquanto a disponibilidade de comida cresceria em progressão aritimétrica, causando a fome por consequência? Uma das principais razões desta teoria não ter se firmado na prática foi o fato de que o então economista Thomas Malthus não levou em consideração os avanços tecnológicos, assim como a qualidade de produção da agricultura, fazendo com que fossem produzidos alimentos para grandes populações. Então, se não estamos morrendo de fome, agradeçam também à cultura de tecidos in vitro e a clonagem.

Tá, mas aí você me pergunta: por que estou falando de plantas se o Estatuto do Nascituro não dispõe de que as mulheres vão conceber jacas dentro de seus úteros? Apesar de eu rebater de que assim como seres humanos as plantas também são vida, vamos passar para as células animais.

Clonagem e animais

Talvez não seja novidade a utilização da fertilização in vitro utilizada em larga escala na pecuária. O que talvez não saibam é que, segundo a Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE), em 2005, 54,3% dos embriões foram produzidos através da técnica in vitro; enquanto 45,6% foram decorrentes de embriões in vivo. Atualmente, o Brasil é o maior produtor mundial de embriões bovinos oriundos da fertilização in vitro. Existe um imenso mercado lucrativo por conta desta técnica, o que me faz pensar ser um bom motivo para não se falar em nenhum Projeto de Lei que queira assugurar o direito das primeiras células das vaquinhas.

Ah garota, mas até agora você falou de plantas, animais e nada de seres humanos, que são o foco do Estatuto do Nascituro! Então, vamos discutir sobre os biofármacos.

Produção de Biofarmácos

Sabe quando certas pessoas que possuem diabetes e são insulino dependentes — precisam receber insulina, pois o corpo já não o produz — tomam aquelas injeções chatinhas? Ou quando se acidentam e precisam receber plasma humano? Pois é, dê graças por aquelas células bonitinhas estarem nas mãos de cientistas qualificados que realizam a produção destas drogas não-sintéticas.

Biofármacos são medicamentos produzidos através de céulas de tecido animal ou humano. Como não é incomum pessoas não se adaptarem aqueles produzidos por animais — é o caso da insulina, por exemplo — faz-se necessário produzi-las através de células humanas. Isto salva muitas vidas, todos os dias, em todos os lugares do mundo.

Agora vou chegar no “X” da questão. Os que defendem o Estatuto do Nascituro acreditam que os cientistas querem congelar bebês em laboratório e fazer malvadezas ou até mesmo vender no mercado negro para mulheres que não conseguem engravidar pelo método “natural”. E mais, vão matar as pobres criaturinhas para curar os aleijados. Se Deus os deixou daquele jeito é porque merecem!

Imagem do videoclip da banda Nirvana: “Heart shaped box”.

O que pretende o Estatuto do Nascituro?

Para escrever sobre isso preciso dar um looongo suspiro… Podem até rebater que falar sobre plantas e animais é fácil, já que são “apenas células que não possuem consciência”. Pois é, só que na fertilização in vitro de seres humanos e na utilização de células-tronco acontece a mesma coisa.

Quando há a fecundação — espermatozóide fecunda o óvulo — será iniciado o processo de divisão celular, gerando diversas células que ainda irão se “separar” para formar os tecidos e, posteriormente, os órgãos. Muito depois formará o embrião com atividades cerebrais, cardíacas, respiratórias, etc.

Como não se coleta apenas um óvulo e um espermatozóide, são feitas várias fecundações. Quando fecundado, o óvulo não é um ser vivo. São células, com material genético diferente, assim como as plantas acima mencionadas, que passam pelos processos de melhoramento genético ou as células produtoras de biofármacos. As plantas e biofármacos são fruto de células transgênicas, possuem material genético difereciado. Esta célula que está se replicando, após a fecundação, também possui um material genético diferenciado de seus genitores.

Além do mais, ninguém entra num laboratório e pega quantos óvulos fecundados der na cabeça e sai fazendo o que quiser e bem entender com eles. Existe a chamada Lei de Biossegurança (Lei 11.105/2005) para que sejam delimitadas regras especificas a fim de se determinar o que pode ou não ser realizado, o procedimento a ser utilizado, quem pode fazer e com autorização dos responsáveis (os doadores dos óvulos e espermatozóides).

Quando o Conselho Federal de Medicina diz que é favorável à prática do aborto até a 12° semana de gestação, eles sabem que a vida não começa estritamente com a fecundação. Ao contrário do que muitos imaginam, a vida não começaria nem mesmo nos primeiros batimentos cardíacos, mas sim, com as atividades cerebrais. A pulsação sanguínea começa antes da formação cerebral e, em casos de fetos anencéfalos, todos os órgãos do corpo são desenvolvidos completamente, menos a região encefálica, a qual impossibilita a vida.

No vídeo abaixo é possível ver a injeção de tinta em um embrião de galinha, com detalhes do batimento do coração e da bela complexidade dos vasos arteriais:

[youtube=http://youtu.be/H9cVgN2gOPg]

 

Portanto, além das demais atrocidades que o Estatuto do Nascituro propõe: aborto como crime hediondo, bolsa-estupro, entre outros; no que diz respeito à fertilização in vitro, experimentos com células-tronco e congelamento de céulas, o Projeto de Lei é uma verdadeira volta a Idade Média. Acredito que devemos discutir as questões de biossegurança, de melhoramento genético, dos transgênicos mas, com o objetivo de melhor regulamentar tudo — até mesmo desburocratizar — além de incentivar mais projetos bem fundamentados e embasados e conceder mais incentivos aos pesquisadores. Para que se possa haver o retorno à sociedade. Entretanto, o que o Estatuto do Nascituro propõe é justamente o contrário, é literalmente andar para trás!

Todo este “mimimi” religioso não é exclusivo das células-tronco. Os primeiros transplantes de órgãos, cirurgias, até mesmo as transfusões de sangue, foram condenadas por se estar “intervindo no curso natural das coisas”. Por natural entenda-se: aquilo que não pode ser mexido.

Pode até se argumentar: “Ah mas se deixar o óvulo fecundado lá no útero quietinho ele pode vir a se tornar um feto… ou não”. Gente, mas “se” ele se fixar na parede uterina, “se” a mãe o quiser conceber, “se” não houver nenhuma complicação de má formação, “se” o óvulo fecundado não for expelido pelo próprio corpo. São tantos “se”.

Quer dizer que “se” vou morrer um dia, não devo mais continuar vivendo? “Se” amanhã faltar água, não tomo banho hoje? “Se” não for para enriquecer, não vou mais trabalhar? “Se” vou escolher viver no mundo do “se”, o que vou fazer da minha vida de agora em diante?

Por fim, deixem a imagem dos “cientistas malvados” para os escritores talentosos, roteiristas de filmes, novelas, peças de teatro, etc. Porém, não usem como justificativa para mandar no meu útero, meu corpo e no meu direito de escolha.