Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?

Texto de Biamichelle para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Esperei bastante tempo para escrever sobre o filme Hidden Figures, intitulado no Brasil como “Estrelas além do tempo”, mesmo tendo ido assistir o filme na pré-estreia em São Paulo. A essa altura muita gente já escreveu sobre o tema, e muitos já o conhecem pelo menos após sua participação emocionante no Oscar 2017, quando as atrizes protagonistas do filme subiram ao palco com Katherine Johnson, matemática e cientista que inspirou uma das personagens.

O filme retrata a história de três mulheres negras cientistas que trabalham na NASA nos anos 60, e que tiveram um papel fundamental nesse período. Não apenas pela disputa que se dava pela corrida espacial que ocorria na época, mas também pelo enfrentamento a branquitude e o racismo permitidos durante aquele período. Talvez seja por isso que apenas quatro décadas depois o mundo pode conhecer a história de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughn.

Quando assisti o filme não consegui, por um minuto sequer durante sua exibição, sentir a sensação de felicidade sem que ela estivesse acompanhada de angústia. Desde a primeira cena… Tive angústia por conta do policial que as abordou, pelas palavras contidas na garganta diante de uma simples pergunta sobre promoção, angústia quando uma foi promovida, deusas… como o choro ficava entalado na minha garganta toda vez que uma delas ia no banheiro… e o quanto parecia sair pela minha pele o esbravejar delas diante do confronto.

Sinceramente, não tive nenhum sentimento de gratidão pelo personagem do Kevin Costner quando ele quebrou as placas do banheiro. Meu sentimento de gratidão está para essas e outras mulheres cujas as histórias são invisíveis quando se trata de empoderar e encorajar meninas, mulheres a seguirem em frente, lutar pelos seus sonhos, serem livres e felizes.

Digo isso porque em Santa Isabel, interior do Pará, todas as mulheres que me deram por referência eram esposas, boas mães, que com sorte poderiam ser professoras do ensino infantil para continuar a cuidar de outras crianças e assim exercer sua função natural. Não lembro de nenhuma mulher nas histórias que me contavam que ousaram romper com sua “função natural” e não tiveram “um final de desgraça” (como ensinavam). Ou seja, não tinham maridos, eram mães solteiras, mulheres da vida. Nem mesmo nas histórias regionais as mulheres que apareciam em diferentes. Sempre eram velhas solitárias que perturbavam a vida das pessoas. Não havia nenhuma mulher para me dizer que eu poderia tentar ser uma cientista, por exemplo.

Digo tentar porque sei que, mesmo se houvesse uma história que me servisse de inspiração ao longo da infância, sei que a caminhada para a realização não seria como é para quem não é mulher preta, do interior do norte. E como sei disso? Quando passei a não me importar para o que os outros falariam de mim, fui para a Universidade de Matemática e, em seguida, cursei Sistemas de Informação. Não foi fácil. E, quanto mais eu entendia que a dificuldade, na maioria das vezes, vinha não pelas exigências da matéria, mas por conta de ser mulher e preta, por morar longe, muuuuito longe da universidade, por ter que chegar em casa e cuidar dos afazeres domésticos, ao invés da lição da faculdade… Eu conseguia sentir em mim a angústia das personagens do filme ao chegarem em casa e ao serem intimadas a passarem mais tempo no trabalho.

Quando a personagem de Janelle Monáe foi incentivada a fazer o teste para o cargo de engenheira … putz… Eu sei o que é me sentir incapaz, toda mulher preta que foi ao longo da vida desincentivada, sabe! Uma das frases mais marcantes do filme para mim foi: “Toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a chegada”. Parece ser a canção da vida diante das oportunidades que surgem e nos sentimos motivadas a tentar.

Mesmo hoje, quando já terminei a faculdade e consegui um trabalho, o sentimento de que posso ser despejada a qualquer momento (mesmo que aparentemente eu não esteja fazendo nada para isso), é gritante e permanente. E não é à toa. A personagem de Octavia Spenser tinha, até então, um trabalho estável na NASA, mas com a entrada de novas ferramentas computacionais se viu à beira de ser descartada. Não só ela, mas também todas as demais mulheres pretas com quem trabalhava, como se fossem calculadoras. Esse sentimento, como disse, não é por acaso, infelizmente está dado que somos quando necessário (ou não) as primeiras a serem descartadas, o índice de mulheres pretas desempregadas indica isso.

Ah sim… Eu sorri, e chorei junto… quando elas se permitiram dançar juntas em meio a todo caos que viviam. Porque às vezes é preciso, sabe? E existe uma força muito grande nesses momentos de libertação. Quando saí do cinema fiquei me perguntando quantas outras histórias de mulheres pretas poderiam ter me incentivado quando criança (e que podem incentivar várias meninas agora), são desconhecidas? Ou melhor, são propositalmente escondidas?

Você pode me perguntar: se a história te trouxe tanta angústia, o que você achou de brilhante neste filme? No que diz respeito às personagens: tudo! Mesmo angustiada eu podia sentir em mim algo crescer quando Dorothy Vaughn aprendeu sobre os computadores da IBM e foi contratada a operar e treinar novos operadores. Quando Mary Jackson saiu de casa, foi ao tribunal, conseguiu o direito de estudar numa escola de brancos e, com isso, o direito de tentar a vaga para engenheira. E, por fim, quando Katherine Johnson sambou na cara dos machos brancos resolvendo o que eles não conseguiam. Mostrando para mim e para o mundo que viu suas histórias, que elas conheciam muito bem a sociedade racista em que elas viviam, mas que estavam dispostas a lutar, às suas maneiras, pelos seus espaços.

Eu cresci. Muitos anos desde a época dessa história se passaram, mas ainda vivemos numa sociedade racista marcada pelo seu histórico racista e misógino. Ainda temos muitas jovens que precisam ver essa história. A Jasmim precisa ver essa história. A juventude preta morre todos os dias com a falta de oportunidade, sejam nas periferias ou na porta de uma lanchonete Habib’s. As minas pretas ainda são vistas como a carne barata e gostosa do mercado. Musas do carnaval porém, não dignas de serem assumidas com seus filhos. A polícia só vê preto. As cadeias ainda estão lotadas de povo preto, enquanto a universidade ainda decide dentro dos seus conselhos se cotas raciais são necessárias ou não, influenciando a população a duvidar se existe necessidade da tal reparação histórica.

Talvez, se histórias como as de ‘Estrelas Além do Tempo’ fossem mais divulgadas, como forma de evidenciar que existe muito mais de história na antiguidade e na atualidade do povo preto para além dos navios negreiros, somadas as oportunidades e políticas públicas efetivas para nosso povo… Talvez, a nossa realidade fosse diferente. Não sendo puxadas para dentro da sala pela mão (como foi dado a entender no final do filme, numa cena entre Katherine Johnson e o personagem do Kevin Costner), mas sim pela nossa própria força, pois: “Liberdade nunca é dada aos oprimidos. Precisa ser conquistada, tomada”.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Winnie Bueno

[+] “Estrelas Além do Tempo”: o filme que Hollywood nos devia! Por Anne Caroline Quiangala

Autora

Biamichelle é mulher preta, ativista. Mestranda na USP e analista de infraestrutura pela Thoughtworks. Paraense papa chibé e tia da Jasmin.

Imagem: Cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).

Maria Schneider e a solidão da mulher que denuncia

Texto de Fabiana Motroni.

A violência contra a mulher não tem data de validade, não caduca, não prescreve. Não desiste nem quando suas vítimas não vivem mais. O tempo não apaga e não faz justiça. Ao contrário, o próprio tempo a emerge em suas ondas vez e outra, cadáver ocultado que reaparece boiando no rio do tempo, na linha do tempo, a denúncia, a confissão, a chance de enxergar, de se saber, a chance de se investigar, de se fazer justiça, de interromper o ciclo, de cessar a dor: a chance sempre desperdiçada, sempre negligenciada.

Semana passada a internet e as redes sociais ficaram agitadas por causa de uma notícia de bastidores sobre umas das cenas de sexo mais famosas do cinema. Só que a notícia não era nova, era notícia de 2013. E essa notícia, por sua vez, dizia respeito a outra mais antiga ainda, mais exatamente de 2007. E sobre essas contas de tempos e de silêncios, eu queria deixar com vocês umas palavras direto das minhas vísceras sobre Maria Schneider e “O Último Tango em Paris”.

Em 2007, a atriz Maria Schneider contou a imprensa que a famosa ‘cena da manteiga’ não estava no script e não tinha sido combinada com ela: ela foi literalmente pega de surpresa, humilhada, submetida, estuprada e contou o quanto aquilo foi devastador pra vida dela e pra sua carreira que se iniciava. Ponto, ela contou e isso deveria ter sido o suficiente. Mas não, nunca é suficiente uma mulher contar o que viveu, o que sentiu, o que doeu. A verdade dita por uma mulher nunca é suficiente.

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Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em meio a todas as polêmicas envolvendo Aquarius (2016), acredito que seja O filme brasileiro a ser visto esse ano. Isso não significa que achei o filme ótimo, nem que seja o melhor filme do ano, nem que deveria ter sido indicado ao Oscar. Para mim, em O Som ao Redor (2012), o diretor Kleber Mendonça trata com mais sutilezas as relações sociais desiguais brasileiras e o poder do mercado imobiliário. Porém, a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer em seu apartamento representa o atual momento político em que vivemos, em que é preciso deixar transparente de que lado estamos.

Porém, Aquarius é sobre Clara. Uma personagem feminina que foge do convencional, que junto com suas músicas apresenta uma interessante representação feminina para o cinema brasileiro. Clara convive com muitas mulheres e todas elas mostram um pouco do que é ser mulher nos dias atuais. O foco da história é Clara, uma mulher na faixa dos 60 anos, que se recusa a vender o apartamento em que viveu durante grande parte da vida para uma construtora que pretende fazer um grande prédio na orla da praia de Boa Viagem, em Recife. O filme é uma grande caixa de lembranças de Clara. Acompanhamos seus momentos no passado e também suas relações no presente com a família e amigos. Sua principal aliada é a empregada doméstica Ladjane (Zoraide Coleto).

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