Carta para Gina Weasley

Texto de Paula Carvalho.

Em novembro do ano passado o Feministig publicou uma carta de amor para a personagem Gina Weasley da série Harry Potter. Tinha me esquecido dela, até que algumas semanas atrás, fiz um teste e me vi decepcionada ao ser comparada com a personagem (sei que é só uma brincadeira). Mas depois fiquei pensando e vi que eu estava confundindo filme com livro e, que a minha decepção vinha mais da forma com que a personagem foi retratada no cinema do que com a Gina Weasley original, o que me fez lembrar da carta.

Gina Weasley, vivida pela atriz Bonnie Wright nos filmes da série Harry Potter.

Gina Weasley é forte, corajosa, excelente atleta, extrovertida, sexualmente liberada e não sente vergonha de seus desejos. Em outras palavras, ela é o exemplo perfeito para as adolescentes que cresceram com a série e puderam ver que o papel da personagem feminina não é apenas fazer par romântico com o herói.

Sou uma fã irremediável da série Harry Potter. Seus livros foram responsáveis por trazer de volta meu gosto pela leitura e marcou boa parte da minha adolescência. Mas esse amor vem misturado com algumas doses de ódio. Adoro a forma com a série traz personagens femininas tão fortes. Até mesmo as mais odiadas, como Belatriz e Rita Skeeter se sobressaem. E, embora tenha o mesmo imaginário de sempre: herói salvador, amigo idiota e garota inteligente; o livro mostra que nem sempre é o Harry Potter quem está com a razão. Quem aqui não perdeu a paciência com o menino-aborrecente-que-sobreviveu do quinto livro? E é ótimo que a principal personagem feminina não esteja lá para ficar com ele no final.

Infelizmente, a série não deixa de passar certos estereótipos de gênero, como o amor incondicional de mãe ou o fato do herói-salvador-da-pátria ser um homem. Não estou dizendo que J.K. Rowling é machista por ter escolhido um homem para seu personagem principal, mas eu gostaria de saber por que ela fez essa escolha. Principalmente se pensarmos que ela é uma mulher independente, que cresceu com o próprio esforço e que começou a escrever a série quando passava por fortes problemas financeiros e com uma filha pequena para criar sozinha. Mas daí eu me pergunto. Teria a série feito o mesmo sucesso se ela se chamasse, sei lá, Harriet Potter?

Não consigo lembrar de muitas obras de aventura que tenham mulheres como heroínas. De cabeça só me vem a mente Nancy Drew e, mesmo assim, ela não chega aos pés de Harry Potter no quesito fama.

Tem outro aspecto que me incomoda bastante na série, mas isso diz mais sobre a sociedade inglesa (e americana e de vários outros países que se dizem avançados) do que do livro em si. É essa mania dos personagens terem somente o sobrenome do pai e, das mulheres não somente adotarem o do marido, como abandonarem o delas quando se casam. Ca-ra-lho que ainda hoje esse tipo de coisa acontece? Nem a Tonks, que em minha opinião é a personagem mais feminista do livro, escapou dessa.

Aliás, tivesse tido maior visibilidade na série, a Tonks seria um modelo tão forte quanto a Gina. Esperta, independente, extrovertida, estabanada, sem papas na língua e em uma profissão majoritariamente masculina. Fico triste de saber que uma personagem tão rica não foi tão bem explorada quanto poderia. E tenho algumas críticas em relação a como ela foi retratada. Me incomoda bastante que ela tenha passado um ano inteiro em depressão porque o cara que ela gostava não queria ficar com ela, ou que ela tenha resolvido ter um filho no meio de uma guerra (e deu no que deu), ou que ela tenha aceitado de volta o cara que a abandonou grávida.

Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar de achar ótimo que, em uma sociedade que preza tanto a passividade feminina, ela não tenha tido vergonha de expressar seus sentimentos e de lutar pelo que queria. E de não ter ficado em casa cuidando do filho enquanto o marido ia lutar na guerra (principalmente se formos pensar que a profissional em lidar com bruxos das trevas era ela e, que ele sim tinha uma doença que o deixava debilitado).

Ok, estou me sentindo extremamente fútil falando sobre personagens de um livro como se fossem pessoas reais. Mas, é porque eu realmente acredito que eles podem ter uma grande influência na nossas vidas, principalmente no caso de séries como Harry Potter, destinado a pessoas com a mente ainda em formação.

E vocês, o que acham das personagens da saga? Gina e Tonks são realmente feministas ou eu estou viajando? Quais personagens vocês mais gostam? E quais personagens de outros livros marcaram as suas vidas?

The Runaways – Garotas do Rock

Texto de Bia Cardoso.

Que tal um filme totalmente #GirlPower? A dica, que está chegando em dvd e blue-ray, é The Runaways – Garotas do Rock.

Em 1975, surgiu a primeira banda de rock, que fez sucesso, formada somente por garotas. O filme The Runaways conta a história de como a guitarrista Joan Jett conheceu o produtor Kim Foley e a vocalista Cherie Curie (as três peças chaves da banda segundo o filme), e todo o trajeto da fama até o fim da parceria após inúmeras brigas.  Parece uma cinebiografia como qualqer outras mas há razões especiais para vocë ver o filme:

– A história de Joan Jett. É bacana assistir como Joan tem o sonho de ser uma rockstar e isso a persegue. Ela quer muito aprender a tocar guitarra e vai fazer isso contra tudo e contra todos. A banda e a música são sua vida e Kristen Stewart sabe nos mostrar que Joan nunca irá desistir de seu sonho.

– Dakota Fanning prova que cresceu e tem muito a mostrar como atriz. A cena de abertura é extremamente feminina e determina que o filme é sobre mulheres e, como elas se sentem deslocadas num mundo machista que não lhe abre oportunidades de ser quem querem ser. Dakota está linda, angelical, sexy e agressiva quando o papel exige. Uma pena que não teve seu talento reconhecido nas premiações. Uma atuação memorável.

– O filme foca em Joan Jett e em Cherie Currie. Infelizmente as outras meninas da banda não aparecem muito, mas dá para notar que cada uma tem personalidade própria e que fizeram história tornando-se a primeira banda famosa de garotas.

– Como toda cinebiografia rock`n roll sexo e drogas são presenças garantidas. Mas há espaço para histórias pessoais e perrengues familiares, mostrando que toda estrela do rock tem uma vida ordinária por trás.

– O show do Japão foi reproduzido com perfeição e você pode conferí-lo no youtube.

– Até hoje é difícil encontrar bandas formadas apenas por garotas. Esse já é um bom motivo para conferir The Runaways – Garotas do Rock.

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Espelho, espelho meu

Texto de Cecilia Santos.

Quando se fala em moda, as pessoas sempre pensam nas mulheres. Mas se prestarmos mais atenção, a mulher surge muito mais como consumidora do que como criadora (muitos estilistas e executivos da indústria da moda são homens). E mais importante, ao longo da história, muito do que se estabeleceu nas sociedades em termos de vestuário foi por imposição masculina, principalmente por questões morais, repressoras da sexualidade.

Pensando em termos históricos, vemos que, a partir da Idade Média e até fins do século XIX, a mulher foi obrigada a cobrir seu corpo com muitos metros de tecido, de modo a ocultar suas formas naturais. Não é possível que aqueles vestidões quentes e enormes fossem ideia das mulheres. Mesmo porque, como sabemos, a mulher não tinha voz nas sociedades.

Lembro-me de algumas passagens de E o Vento Levou… da Margareth Mitchell, que li na adolescência. A genial (e geniosa) Scarlett O’Hara estava sempre se revoltando contra as imposições sociais. Obrigada a se casar com um rapaz sem-graça, ela fica ainda mais contrariada quando ele vem a morrer logo no começo da Guerra de Secessão, sem nem mesmo haver combatido, e por conta disso a vaidosa Scarlett é obrigada a adotar o vestuário preto das viúvas e não pode mais dançar nos bailes. Quer dizer, não podia, porque ela desafia todo mundo e na primeira oportunidade sai bailando nos braços do conquistador Rhett Buttler.

Uma passagem desse livro conta que o uso de maquiagem, no caso o carmim nas faces, está associado às prostitutas. As mulheres de boa família podiam no máximo dar uns beliscões nas bochechas para ficarem mais rosadas. Isso tudo, claro, numa tez o mais alva possível, porque o menor bronzeado remetia à cor de pele dos escravos negros.

Cena do filme ‘E o vento levou…’ (1939).

E há o espartilho, claro, que nos remete à cena clássica da mucama apertando o espartilho de Scarlett, afinando sua cintura até ela mal poder respirar. Quantas mulheres desmaiavam com a pressão do espartilho, e ainda assim muitos escritores descreviam as moças de então como criaturas diáfanas, suspirosas, de sensibilidade à flor da pele. Mas é claro, com o corpo comprimido ao extremo, o que eles queriam?

Então, os valores da moeda mudam de uma época para outra, e de uma sociedade para outra, e hoje vemos objetos como o espartilho como verdadeiras ferramentas de tortura feminina. Então eu me pergunto se o vestuário feminino atual, os acessórios, os padrões, o que tudo isso representa, são mesmo escolhas nossas ou imposições culturais.

Sapatos de salto agulha e bico fino podem ser verdadeiras torturas. Será que um dia eles estarão em museus, ao lado dos espartilhos? E por mais que muitas mulheres digam que gostam de usar salto, essa é uma escolha natural, ou somos levadas a acreditar que o sapato de salto é necessário para nos tornar mais belas? E belas para quem?

Estamos constantemente sujeitas ao julgamento alheio, tanto dos homens como das próprias mulheres. Nossas escolhas pessoais, profissionais, sexuais, nossa aparência, o que dizemos, o que pensamos, tudo passa pelo crivo moral da sociedade. Até em situações de violência somos julgadas pelo que vestimos.

Numa sociedade ideal, a mulher poderá se desnudar, com o perdão do trocadilho, de todas as artificialidades que a subjugam, fazer suas próprias escolhas e se sentir feliz com elas.