The Runaways – Garotas do Rock

Texto de Bia Cardoso.

Que tal um filme totalmente #GirlPower? A dica, que está chegando em dvd e blue-ray, é The Runaways – Garotas do Rock.

Em 1975, surgiu a primeira banda de rock, que fez sucesso, formada somente por garotas. O filme The Runaways conta a história de como a guitarrista Joan Jett conheceu o produtor Kim Foley e a vocalista Cherie Curie (as três peças chaves da banda segundo o filme), e todo o trajeto da fama até o fim da parceria após inúmeras brigas.  Parece uma cinebiografia como qualqer outras mas há razões especiais para vocë ver o filme:

– A história de Joan Jett. É bacana assistir como Joan tem o sonho de ser uma rockstar e isso a persegue. Ela quer muito aprender a tocar guitarra e vai fazer isso contra tudo e contra todos. A banda e a música são sua vida e Kristen Stewart sabe nos mostrar que Joan nunca irá desistir de seu sonho.

– Dakota Fanning prova que cresceu e tem muito a mostrar como atriz. A cena de abertura é extremamente feminina e determina que o filme é sobre mulheres e, como elas se sentem deslocadas num mundo machista que não lhe abre oportunidades de ser quem querem ser. Dakota está linda, angelical, sexy e agressiva quando o papel exige. Uma pena que não teve seu talento reconhecido nas premiações. Uma atuação memorável.

– O filme foca em Joan Jett e em Cherie Currie. Infelizmente as outras meninas da banda não aparecem muito, mas dá para notar que cada uma tem personalidade própria e que fizeram história tornando-se a primeira banda famosa de garotas.

– Como toda cinebiografia rock`n roll sexo e drogas são presenças garantidas. Mas há espaço para histórias pessoais e perrengues familiares, mostrando que toda estrela do rock tem uma vida ordinária por trás.

– O show do Japão foi reproduzido com perfeição e você pode conferí-lo no youtube.

– Até hoje é difícil encontrar bandas formadas apenas por garotas. Esse já é um bom motivo para conferir The Runaways – Garotas do Rock.

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Espelho, espelho meu

Texto de Cecilia Santos.

Quando se fala em moda, as pessoas sempre pensam nas mulheres. Mas se prestarmos mais atenção, a mulher surge muito mais como consumidora do que como criadora (muitos estilistas e executivos da indústria da moda são homens). E mais importante, ao longo da história, muito do que se estabeleceu nas sociedades em termos de vestuário foi por imposição masculina, principalmente por questões morais, repressoras da sexualidade.

Pensando em termos históricos, vemos que, a partir da Idade Média e até fins do século XIX, a mulher foi obrigada a cobrir seu corpo com muitos metros de tecido, de modo a ocultar suas formas naturais. Não é possível que aqueles vestidões quentes e enormes fossem ideia das mulheres. Mesmo porque, como sabemos, a mulher não tinha voz nas sociedades.

Lembro-me de algumas passagens de E o Vento Levou… da Margareth Mitchell, que li na adolescência. A genial (e geniosa) Scarlett O’Hara estava sempre se revoltando contra as imposições sociais. Obrigada a se casar com um rapaz sem-graça, ela fica ainda mais contrariada quando ele vem a morrer logo no começo da Guerra de Secessão, sem nem mesmo haver combatido, e por conta disso a vaidosa Scarlett é obrigada a adotar o vestuário preto das viúvas e não pode mais dançar nos bailes. Quer dizer, não podia, porque ela desafia todo mundo e na primeira oportunidade sai bailando nos braços do conquistador Rhett Buttler.

Uma passagem desse livro conta que o uso de maquiagem, no caso o carmim nas faces, está associado às prostitutas. As mulheres de boa família podiam no máximo dar uns beliscões nas bochechas para ficarem mais rosadas. Isso tudo, claro, numa tez o mais alva possível, porque o menor bronzeado remetia à cor de pele dos escravos negros.

Cena do filme ‘E o vento levou…’ (1939).

E há o espartilho, claro, que nos remete à cena clássica da mucama apertando o espartilho de Scarlett, afinando sua cintura até ela mal poder respirar. Quantas mulheres desmaiavam com a pressão do espartilho, e ainda assim muitos escritores descreviam as moças de então como criaturas diáfanas, suspirosas, de sensibilidade à flor da pele. Mas é claro, com o corpo comprimido ao extremo, o que eles queriam?

Então, os valores da moeda mudam de uma época para outra, e de uma sociedade para outra, e hoje vemos objetos como o espartilho como verdadeiras ferramentas de tortura feminina. Então eu me pergunto se o vestuário feminino atual, os acessórios, os padrões, o que tudo isso representa, são mesmo escolhas nossas ou imposições culturais.

Sapatos de salto agulha e bico fino podem ser verdadeiras torturas. Será que um dia eles estarão em museus, ao lado dos espartilhos? E por mais que muitas mulheres digam que gostam de usar salto, essa é uma escolha natural, ou somos levadas a acreditar que o sapato de salto é necessário para nos tornar mais belas? E belas para quem?

Estamos constantemente sujeitas ao julgamento alheio, tanto dos homens como das próprias mulheres. Nossas escolhas pessoais, profissionais, sexuais, nossa aparência, o que dizemos, o que pensamos, tudo passa pelo crivo moral da sociedade. Até em situações de violência somos julgadas pelo que vestimos.

Numa sociedade ideal, a mulher poderá se desnudar, com o perdão do trocadilho, de todas as artificialidades que a subjugam, fazer suas próprias escolhas e se sentir feliz com elas.

Por uma escola onde se aprenda justiça

Texto de Deh Capella.

Aviso importante: o post abaixo contém doses altas de pessimismo e é muito, muito baseado em experiências bastante individuais. Eu sei que existem casos de sucesso, casos positivos. Mas acho que eles não predominam, sinto muito. Em todo caso vou ficar feliz em poder debater o assunto.

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Mais algumas semanas e o ano letivo começa. Os noticiários vão fazer as reportagens costumeiras sobre o tumulto da volta às aulas, o trânsito, o material escolar, as crianças e jovens vão retornar às salas de aula com aquela expectativa legal ou a ansiedade que antecede a chegada a um ambiente desagradável onde se cumprem obrigações sofridas, alguns professores vão suspirar e se resignar a cumprir mais um ano pra chegar à sonhada aposentadoria e outros vão arregaçar mangas e aproveitar pra colocar projetos em prática, animados, esperançosos. Mais um ano letivo vai começar.

Qual será a escola que os estudantes do país vão encontrar em 2011? Os cadeirantes vão encontrar caminhos desimpedidos e acesso facilitado às instalações, os alunos portadores de quaisquer outras necessidades vão conhecer profissionais preparados para acolhê-los e atendê-los? Os alunos que sofrem bullying e os que vêm de ambientes problemático, os que são jogados no grande balaio da “indisciplina”, o que terão pela frente? E os alunos e alunas homossexuais, como será a escola deles em 2011? O que as famílias desse pessoal todo vão encontrar na escola?

Eu queria ser mais otimista e pensar coisas boas, pensar em esforços conjuntos de toda a comunidade escolar, em boa vontade e compromisso de todos os lados – famílias, poder público, equipe escolar, alunos – e queria crer que as notícias cada vez mais comuns envolvendo violência contra homossexuais e mulheres, racismo, desrespeito a direitos de portadores de necessidades especiais e intolerância em relação à diferença tivessem impacto de forma a fazer com que as pessoas passassem a reavaliar ideias, atitudes e práticas em âmbito pessoal e profissional.

Cena do filme ‘Entre os muros da escola’ (2008).

Infelizmente não foi bem isso que vi enquanto trabalhei em escola. Pra minha surpresa, apesar de o currículo seguido incluir temas como “respeito à diversidade”, “solidariedade”, “ética” e outros, cansei de ouvir colegas fazendo piadas sobre alunos homossexuais ou manifestando seu medo com “a quantidade desse povo que tá aparecendo”. Assim, na lata, zero pudores. Assisti a um monte de episódios de malhação de judas encarnados em meninas de 12 ou 13 anos fortemente sexualizadas: todo mundo tacava uma pedra desgraçada nas “biscates”, mas foram raras as vezes em que eu presenciei o mesmo nível de crítica aos meninos de mesma idade com as mesmas atitudes. “Palavrão na boca de menina é feio”, “o seu caderno nem parece de moça”, “essa aí dá pra todo mundo”, mas os meninos estavam lá passando batido. Não vou nem falar dos casos de gravidez de adolescentes – a ênfase recaindo sobre a menina e sua responsabilidade em primeiro lugar.

O racismo na escola já me pareceu bem mais sutil, surgindo nos pequenos detalhes, na vitimização d@ alun@ negr@ ou na sua invisibilidade, na inexistência de abordagens de valorização do negro e na pouca promoção de exemplos com os quais o alunado possa se identificar – talvez porque haja historicamente um pouco (pouquinho, mas existe) mais de atenção a essa questão. Conheci uma aluna que precisava ser carregada no colo para chegar à sala de aula ou ao banheiro ou a qualquer outro canto onde precisasse ir na escola, e se ela voltasse lá agora passaria exatamente pelos mesmos problemas.

Não recebi qualquer treinamento ou orientação para lidar com alunos cegos, surdos, com qualquer tipo de deficiência mental, não participei de oficinas sobre sexualidade, a questão de gênero jamais foi abordada. As duas únicas iniciativas vindas dos superiores foram um curso sobre valorização da cultura afro-brasileira e uma palestra, já no fim do ano, de uma psicóloga, parente de uma professora, que se voluntariou para falar sobre homossexualidade ao corpo docente e para coordenar um grupo de estudos no ano seguinte. Lembro de presenciar manifestações indignadas de colegas.

Escola é microcosmos. Uma das formas de pensar o ótimo filme ‘Entre os muros da escola‘ é justamente como representação de uma sociedade, e não só do ambiente escolar por si só. Os conflitos que se desenvolvem ali e as reações dos indivíduos são os mesmos que as pessoas enfrentam no ambiente externo à escola. Se a criança vem de um ambiente violento é provável que sua reação na escola reflita as situações que vivencia; o professor homofóbico não vai deixar de lado sua atitude ao conviver com alunos homossexuais em seu local de trabalho. Mas a escola é palco de outras tensões e enfrentamentos, e conflitos são potencializados justamente onde deviam ser atenuados. A injustiça acaba muitas vezes se instalando e se consolidando justamente onde devia começar a ser pensada, diluída, e de onde sua clientela devia levar exemplos que a ajudasse a modificar o mundo “de fora”.

Fico pensando também se as escolas particulares não estariam menos vulneráveis ao desrespeito, ao preconceito, por serem mais vulneráveis às reclamações das famílias “clientes”, enquanto a falta de participação das famílias no cotidiano das escolas públicas acaba as tornando um pouco “terra de ninguém”. Por outro lado penso que o machismo, o preconceito, a violência, a ignorância e a homofobia não dependem de estrato social, de renda.

Uma latinha de cerveja depois suspiro e penso que, se a Educação tem o poder de mudar vidas e mudar uma sociedade, a primeira coisa a ser feita deveria ser mudar a escola como a conhecemos.