Sobre “destransição”, arrependimento e cisgeneridade

Texto de Beatriz Pagliarini Bagagli.

Discutir “destransição” sem se atentar para a discussão simultânea sobre a cisgeneridade compulsória e transfobia é leviano. Sim, tô falando sobre a matéria que saiu no Globo: Conheça a história de homens e mulheres que mudaram de gênero e, depois, voltaram atrás.

Centrar a problemática sobre as incertezas e as possibilidades de arrependimento que envolvem a transição sem antes assinalar as violências que envolvem a própria naturalização da cisgeneridade como a expectativa neutra sobre a vida das pessoas pode fazer funcionar relações de poder bastante perversas sobre pessoas trans. Isso porque é simplesmente um passo para adotar uma perspectiva que aloca a suposta origem dos sofrimentos psíquicos na identidade trans em si (o fato de alguém ter transicionado) e não nas estruturas de exclusão e estigma social que recaem sobre pessoas trans.

Exigir uma suposta “certeza” para que pessoas trans possam ter autonomia sobre seus corpos faz parte do mesmo circuito de poder que relega a certos corpos e expressões o posto de abjeção. Criar sistemas de veridição sobre a pretensa transexualidade “verdadeira” com base no argumento das “pessoas arrependidas” faz parte do mesmo sistema de poder que gera sofrimento para pessoas que se arrependem, para pessoas que vivenciam fluidez de gênero, que habitam a indeterminação em relação às suas identidades de gênero.

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