O conceito de cisgenaridade e o transfeminismo

Texto de Raissa Éris Grimm.

O conceito de cisgeneridade foi criado pelo ativismo trans
como uma forma de devolver o olhar e entender de outra forma
a posição social e política de pessoas “não-trans”, que até então eram simplesmente definidas como “bio mulheres”, “bio homens”, ou como “mulheres de verdade”, “homens de verdade”, “naturalmente mulheres”, “naturalmente homens”.

Essa definição dava a entender que pessoas cisgêneras seriam naturalmente e espontaneamente seu próprio gênero — nascides já como são — enquanto nós, pessoas trans, seríamos o efeito de uma artificialidade, de uma negação da nossa “verdadeira natureza”.

Diante desse discurso, caberia simplesmente as pessoas trans fazerem o melhor possível — a nível de comportamento, intervenções hormonais, cosméticas e cirúrgicas — para se tornarem “o mais parecido possível” com as ditas “verdadeiras mulheres” ou “verdadeiros homens”. Fomos investidas pela biomedicina para construir um culto ao seu poder de transformar o corpo num material plástico e 100% transmutável — ao sabor dos mágicos dedos dos hipercirurgiões, nossos “salvadores”
(*risos*).

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A condescendência cisgênero

Texto de Bia Pagliarini.

Os discursos de condescendência cisgênero colocam a nossa existência como passível de ser explicada — ou justificada — tendo em vista um modo de pensar cisgênero. Que coloca a cisgeneridade como escolha natural e esperada de todas as pessoas e coloca a transgeneridade como uma escolha descabida.

Então a “aceitação” das existências trans por esse viés ciscêntrico só se dá a partir de uma perspectiva que coloca a transgeneridade como um triste destino, como a última escolha do sujeito. Então, a pessoa só poderia “escolher” ser trans se ela de fato não tivesse nenhuma escolha, eis o paradoxo. Começa então a funcionar dispositivos de veridição de quem é trans de verdade, já que apenas em última instância alguém poderia escolher ser trans. Neste olhar, pessoas trans precisam ter “certeza” sobre suas escolhas, já que elas seriam tão ruins, que seria preciso estabelecer limites. Limites estes que interrogam as pessoas trans: “é isso mesmo que você quer pra você?”

Aqui entram meticulosas formas de governar as subjetividades, o poder entra como forma de estabelecer como a verdade deve emergir do sujeito, afinal, a verdade trans é uma verdade perigosa. Ela é administrada por formas de pensar que coloquem o sujeito a fazer pensar como sua forma de vida enquanto “última escolha”.

Binha, transexual, negra, praticante do candomblé e residente da comunidade de Caetés I, em Abreu e Lima, Pernambuco. Foto de Fabiane Lopes, parte do projeto fotográfico (Trans)cendência. O ensaio tem como objetivo dar espaço, vez e voz à identidade da mulher trans, através da de Binha.
Binha, transexual, negra. Foto de Fabiane Lopes, parte do projeto fotográfico (Trans)cendência. O ensaio tem como objetivo dar espaço, vez e voz à identidade da mulher trans, através da de Binha.

É preciso romper com este regime de produção de verdade. É preciso pensar a constituição da nossa subjetividade além destes sistemas de veridição de subjetividades que pressupõe escolhas ruins, impensadas, de um lado, que forçam a criações de justificativas para vidas consideradas inviáveis, incabíveis, exageradas… A vida das pessoas trans.

Não precisamos “ter certeza” do que somos para sermos. Não precisa “termos certeza” para que nossa vida seja legítima. Não precisamos inscrever na biologia a narrativa de um destino de sofrimento para que possamos ter a ousadia de viver diferentemente.

A fixidez é de ordem imaginária, eu não preciso falar que a transgeneridade está na minha essência — e aqui entram as “vontades de saber” acerca das infâncias de pessoas trans não como forma de reinventar e simbolizar uma narrativa a partir do presente, mas como forma de justificar a existência atual tida como abjeta. Eu não preciso me justificar. Colocar a minha vida nestes termos é uma forma de controle, e eu resisto a isto a partir do momento em que aponto para a sua não naturalidade.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 01/11/2015.

I Seminário Queer e os saberes subalternos

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Nos dias 9 e 10 de setembro, aconteceu o I Seminário Queer em São Paulo. Não dá para não notar a diferença entre esse evento e o II Seminário Internacional Desfazendo Gênero. O público, de forma geral, era branco, cisgênero e de classe média. É claro que essas questões interferem diretamente no próprio evento, que a meu ver teve várias discussões problemáticas.

Foto de Thayz Athayde, representante das Blogueiras Feministas no I Seminário Queer.
Foto de Thayz Athayde, representante das Blogueiras Feministas no I Seminário Queer.

No primeiro dia, houve a abertura do evento com Richard Miskolci, um dos organizadores do evento. O nome da sua palestra foi “O que é o queer?”, em que Richard fez uma contextualização de como surgiu a teoria queer e quais seus propósitos. Sua fala foi didática e acredito que possa ser importante para muitas pessoas que estão começando a entrar nesse campo. Após esse inicio, o público pode fazer perguntas e uma pessoa questionou o que ele achava sobre o conceito de cisgeneridade. A meu ver, sua resposta foi extremamente imprudente.

Richard aponta em sua fala que não sabe muito sobre o assunto e que não tem uma opinião formada, contudo, diz que a palavra cisgênero patologiza e divide, que a palavra cis pode criar discriminação da mesma forma que as pessoas trans sofrem. Ao dizer que “um gay, uma lésbica, nunca é cisgênero”, ele esquece que as pessoas trans não têm acesso a uma série de direitos básicos, por vivemos em uma sociedade feita para pessoas cisgêneras, que nega a existência de pessoas trans, fazendo com que não tenham acesso ao seu próprio nome, sendo expulsas de vários lugares e tendo que muitas vezes submeter-se a uma série de procedimento patologizantes.

Por exemplo, para a mudança de nome de registro, as pessoas trans precisam se submeter a uma série de procedimentos normativos para que possam ter direito ao próprio nome. Um desses processos é o parecer psicológico. Pessoas cisgêneras não precisam passar pelo mesmo para que possam ter acesso ao seu próprio nome. Afinal, a ideia de cisgeneridade é justamente estar de acordo com o gênero que foi designado compulsoriamente ao nascer e, portanto, pessoas cisgêneras não passam pelas mesmas violências que pessoas trans.

Richard também afirma que a palavra cisgeneridade vem para “dividir” e que não seria interessante nomear a normalidade. Ora, mas não é isso que a palavra heterossexual faz? Ela não divide pessoas heterossexuais das pessoas que não são héteros? E em relação aos termos heteronormatividade e heterossexualidade compulsória que são muito utilizados por teóricos queers? A ideia desses conceitos é justamente apontar a heterossexalidade enquanto uma norma reguladora, fazendo com que muitas pessoas gays, lésbicas e bissexuais sofram violências. Ora, por que não podemos falar das violências que perpassam as pessoas trans apontando a existência de pessoas cisgêneras?

Rever os privilégios não deve ser um ato para ser feito apenas na militância, mas também no campo acadêmico. Como disse Richard, não é possível dissociar a militância da teoria, as duas andam juntas. Nisso, Richard, concordo muito com você. Pois quando você fala que cisgeneridade não é um conceito importante e que traz uma violência parecida com a que acontece com as pessoas trans, o que você faz é despolitizar o debate. Estar no I Seminário Queer e dizer que você não é cis, que gay e lésbicas nunca serão cis, é despolitizar. Porém, quando você se reconhece cisgênero, ouve o movimento de pessoas trans e leva esse debate para o meio acadêmico, isso é político.

Butler e o movimento conservador no Brasil

No mesmo dia à tarde, ocorreu a coletiva de imprensa com a filósofa Judith Butler e, logo depois, sua palestra. Tive a oportunidade de fazer uma pergunta na coletiva de imprensa: o que você acha da palavra cisgênero? Muitas transfeministas têm feito discussões importantes sobre esse conceito. Na resposta, ela agradeceu e disse que alguém havia perguntado a mesma coisa no II Desfazendo Gênero, mas que ela não tinha entendido por conta da tradução simultânea.

Logo depois, pude conversar com Butler. Disse que muitas transfeministas estão discutindo sobre a passabilidade cis, fazendo referência ao que ela falou por último: sobre um “genderqueer”, pessoas que não são trans mas não se passariam por pessoas cis. Ela disse que, infelizmente, não consegue acompanhar essas discussões, mas fica contente em saber estão acontecendo, pois acredita que a palavra cisgênero é muito importante.

Para além da minha pergunta, muitas pessoas gostariam de saber a opinião de Butler sobre o conservadorismo no Brasil, a retirada da palavra gênero dos planos educacionais e tantos outros retrocessos. Em um certo momento, Butler disse que não seria uma pessoa norteamericana que daria a resposta para o que está acontecendo. O que ela quis dizer é que somos nós, brasileiras e brasileiros, quem devemos nos organizar e construir saídas para o momento que vivemos.

Em sua palestra, Butler falou novamente sobre vulnerabilidade e solidariedade. Contudo, foi muito mais enfática em certos assuntos, como por exemplo o racismo estrutural no Brasil que mata centenas de pessoas negras, além de falar sobre a polícia brasileira e sua violência. Destacou também a transfobia no Brasil, pois somos o país que mais mata pessoas trans. Ela tocou em um assunto, que a meu ver é muito importante, disse que se estão querendo proibir a palavra gênero, é porque ela se tornou muito poderosa. Ou seja, se a palavra gênero está incomodando tanto, é porque conseguimos importunar. Guacira Lopes Louro, uma importante autora que “trouxe” a teoria queer para o Brasil, repetiu a fala de Butler, dizendo que sim, estamos incomodando, estamos indo no caminho certo e não devemos parar agora.

Acredito que essa seja uma discussão muito importante, pois esse retrocesso que vivemos no últimos anos com pessoas falando sobre “ideologia de gênero” e “ditadura gay”, é também resultado de muita luta do movimento feminista, LGBT e do movimento negro. Ora, se avançamos nem que seja um pouco, isso deixa os conservadores em alerta e logo, eles estarão tentando nos tirar os poucos direitos conquistados. Sim, gênero tornou-se uma palavra poderosa e por isso querem proibí-la. Exatamente por isso temos que continuar existindo e resistindo. Gayle Rubin, nos anos 80, já estava discutindo sobre como a sexualidade será sempre contestada:

“A esfera da sexualidade também tem sua política interna, desigualdades, e modos de opressão. Como em outros aspectos do comportamento humano, as formas institucionais concretas da sexualidade em um determinado tempo e lugar são produto da atividade humana. São imbuídas de conflitos de interesse e manobras políticas, ambas deliberadas e incidentais. Nesse sentido, o sexo é sempre político. Mas há períodos históricos em que a sexualidade é mais nitidamente contestada e mais excessivamente politizada. Nesses períodos o domínio da vida erótica é, de fato, renegociado.” (Gayle Rubin, Pensando o Sexo: Notas para uma Teoria Radical das Políticas da Sexualidade).

Um seminário queer que insiste em colonizar saberes

No último dia do Seminário, tiveram algumas falas interessantes como a de Marie-Hélène Sam Bourcier e Berenice Bento. Bourcier, nos lembra que não é possível fazer política queer utilizando métodos neoliberais, referindo-se a suposta resistência que não é feita somente com leis, pois a própria lei cria pequenas subjetividades.

Nesse mesmo dia, Richard Miskolci e Larissa Pelúcio encerraram o evento. Por fim, o espaço foi aberto para o público fazer perguntas e questionaram sobre a falta de pessoas trans e negras no evento que, diga-se de passagem, era realmente muito higienizado. Richard respondeu de uma forma arrogante. Ele utilizou a autora Gayatri Chakravorty Spivak, que é uma grande teórica da teoria pós-colonial, para dizer que os subalternos não podem falar. Não porque não têm voz, mas por falta de vocabulário e que o trabalho dele seria de construir um vocabulário.

Bem, vamos por partes. Miskolci estava falando do livro de Spivak: “Pode o subalterno falar?” Para quem não conhece, vamos nos atentar apenas para a sinopse: “Publicado primeiramente em 1985, no periódico Wedge, com o subtítulo ‘Especulações sobre o sacrifício das viúvas’, este artigo recebeu repercussão, principalmente após ter sido republicado em 1998, na coletânea de artigos intitulada ‘Marxism and the Interpretation of Culture’. Ao relatar a história de uma jovem indiana que não pode se autorrepresentar fora do contexto patriarcal e pós-colonial, Spivak argumenta que o subalterno, neste caso a mulher, não pode falar e quando tenta fazê-lo não encontra meios para se fazer ouvir.”

O que Spivak propõe é justamente que o subalterno não pode falar porque seu saber não está dentro daquilo que é designado hegemônico. Ou seja, os saberes subalternos não teriam voz dentro da nossa sociedade que é marcada por uma cultura classista, racista, machista, transfóbica, homofóbica, lesbofóbica, bifóbica, capacitista, entre tantas outras coisas. E essa realidade não é muito distante da academia, visto que os saberes acadêmicos também vão refletir os mesmos saberes aceitos pela sociedade. Por exemplo, se uma mulher negra e pobre falar sobre sua própria experiência talvez não seja ouvida, porque ela não está inserida dentro de uma categoria hegemônica que é branca e classe média-alta. Porém, o que Richard quis dizer é que eles estão tentando construir um vocabulário para isso, ao invés de integrar os saberes não-hegemônicos.

Larissa Pelúcio tentou explicar melhor o conceito de Spivak, tentando “consertar” o que Richard havia dito. Porém, o que Richard falou é algo que precisamos conversar. Por que tantos acadêmicos insistem em reiterar os saberes hegemônicos? Quando Richard fala que está tentando construir um vocabulário e que pessoas negras e trans não estão lá porque não tem esse vocabulário, ele está mais uma vez reforçando o papel da academia: um lugar em que apenas saberes legitimados, aprovados e higienizados podem estar. O que a teoria queer e pós-colonial tentam fazer é justamente criticar e criar lugares dentro da academia para saberes subalternos. Acredito que é muito grave o fato de Richard Miskolci ser o curador do evento e fazer falas deslegitimando o conceito cisgênero, que foi trazido pelo movimento de pessoas trans para marcar politicamente vários acessos a direitos básicos que pessoas trans não tem. Por que no vocabulário a palavra cisgênero, trazida pelas pessoas trans, não pode ser aceita?

Não quero aqui fazer a simples tarefa de personalizar a crítica de que o mundo acadêmico dá muito mais lugar para saberes hegemônicos.  Ou seja, culpar apenas uma pessoa pela academia ser uma espaço hegemônico. Enquanto pesquisadora, só consigo pensar que precisamos ocupar esses espaços acadêmicos. Porque não dá mais para aguentar homem cis, branco e de classe média achando que usar pessoas negras, trans, trabalhadoras sexuais como objeto de pesquisa é bacana, mas que não quer dividir espaço com essas pessoas. Não é necessário ter doutorado ou qualquer coisa que seja para produzir conhecimento. Os saberes produzidos pela militância são de extrema importância e fazem parte da construção da própria teoria.

Estamos enfrentando sérios problemas no Brasil no que diz respeito a direitos básicos ligadas as questões de gênero e sexualidade. O conservadorismo, a violência, a tranquilidade em ver o genocídio da população negra e indígena parece não ser um problema para muitos brasileiros. Por isso, me preocupa muito quando um importante teórico queer fala que a palavra cisgênero não é importante, além de dizer que pessoas negras e trans não tem vocabulário para estar em um evento. Não me interessa muito qual sua intenção ao ter proferido esse discurso. Sua postura, sobretudo diante dos tempos em que vivemos, deveria ser de tentar construir lugares no meio acadêmico para saberes subalternos. É justamente aceitar e incluir esse vocabulário não-hegemônico, assim como o hegemônico é aceito. Ora, a academia também é um campo político em disputa e é necessário construir lugares-outros.

Em outras palavras, pergunto-me como poderemos passar por esse momento em que a sexualidade e as questões de gênero são mais uma vez colocadas como “proibidas”. Poderíamos fazer o que Butler propõe e entender que esse é um bom momento para fazer disso uma arma política: se estão proibindo, é porque estamos indo no caminho certo. Que tal continuarmos? “É tempo de reconhecer as dimensões políticas da vida erótica”, é a proposta de Gayle Rubin no final de seu texto. Porém, ao ver um evento importante como esse, reforçando saberes hegemônicos, é possível dizer que a luta é muito maior do que imaginávamos, pois a disputa não acontece apenas fora da academia, mas também dentro dela.

Termino esse texto com uma frase de Jorge Leite Júnior que gostei muito. Não apenas pelo conteúdo, mas pela sua forma de falar que causou tanto estranhamento para alguns pessoas. Pois foi um jeito de falar que não é visto muito no mundo acadêmico, de uma forma espontânea e muito política: “o preço para destruir o monstro, é nos tornarmos monstros”.

Portanto, não tenhamos medo desse lugar-outro que podemos construir. Que não tenhamos medo de sair de um lugar hegemônico, higienizado, além de reconhecer os próprios privilégios. Que possamos construir lugares, saberes e vocabulários subalternos. Ao reconhecer que existem lugares hegemônicos e privilegiados, poderemos também reconhecer a importância dos lugares e saberes subalternos, dentro e fora do campo acadêmico. Enfrentemos a monstruosidade que jogam para nós, nos tornando esse monstro e utilizando a rede de solidariedade. Podemos pensar formas de resistência que vão além das leis, formas essas que podem trazer diferentes modos de vida. Porém, para que esses lugares não-hegemônicos sejam construídos, é necessário reconhecer os nossos privilégios e essa é uma tarefa árdua, mas necessária na construção de uma aliança queer, conforme propõe Butler, uma rede de solidariedade que seja uma forma política de resistência.