A primavera secundarista será toda feminista!

Texto de Marcielly Moresco para as Blogueiras Feministas.

As adolescentes que ocupam as escolas estaduais do Paraná renovam o feminismo e avisam que sem igualdade de gênero não há democracia, nem resistência, nem luta.

Todo dia tem escola sendo ocupada no Estado, já são mais de 800 escolas, além de algumas universidades e núcleos de educação, segundo o site oficial do #OcupaParaná. Nas ocupações, o que eram para ser palestras-aula sobre feminismo, gênero, empoderamento, diversidade sexual e questões étnico-raciais se tornam, muito mais, rodas de conversas e trocas.

Assim como as ocupações de 2015 que começaram em São Paulo, as desse ano também são protagonizadas, sobretudo, por meninas e LGBTIs; e a maioria delas se intitulam feministas.

Em quase todas as ocupações, as meninas assumem a função de “líderes” ou “organizadoras”, falam com a mídia e com a comunidade escolar, organizam as comissões para limpeza, segurança, alimentação, comunicação e saúde, assumem o discurso nas assembleias e reuniões. Muitas vezes, esse protagonismo acaba acontecendo de forma muito natural quando a opressão e o machismo já são presentes no cotidiano escolar e durante o próprio processo decisório para ocupar.

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A autoestima e a coletividade

Texto de Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

Ame seu corpo. Abrace suas curvas. Liberte seus cachos.

Isso agora tá escrito em vários lugares por aí. Tá na moda dizer que você é responsável pelo seu bem estar, pela sua saúde e pela sua autoestima, como se a coletividade que nos rodeia não tivesse nenhuma relação. Só tem um pequeno detalhe: a relação com o corpo é dialética. O que significa isso?

Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio 'Nus que aqui estamos por vós esperamos'.
Imagem do Coletivo Além. Parte do ensaio ‘Nus que aqui estamos por vós esperamos’.

Significa que é impossível amar seu corpo se o tempo inteiro você é olhada na rua como aberração.

Significa que não dá pra amar seu corpo se em todas as revistas de moda não tem roupas nem sapatos que você possa usar — ou por causa do tamanho, ou por causa do preço.

Significa que é inviável amar seu corpo quando “tem roupas que pedem um salto alto” ou “mulher sem salto não é mulher” e, tchanan! O salto alto não é para você.

Significa que é complicado amar seu corpo se o corpo que tem manchas, rugas, gravidade, deformidades, cicatrizes e celulite é considerado anormal e abjeto.

Significa que fica bem difícil amar seu corpo se você usa cadeira de rodas, é careca, ou apresenta alguma deformidade e só recebe olhares paternalistas de volta.

Significa que é bem difícil abraçar suas curvas quando a gordura é demonizada, odiada e ossos são idolatrados, mesmo que você precise de um transtorno alimentar para atingir este corpo.

Significa que não há como amar suas curvas se no seu trabalho você é xingada, discriminada, excluída por ter mais gordura do que o Tribunal do Whey Protein determinou.

Significa que as suas curvas só serão aceitas se elas não forem masculinizadas, como se mulheres trans* não fossem mulheres.

Significa que não tem como amar suas curvas se lá fora dizem que quem gosta de osso é cachorro.

Significa que não é possível libertar seus cachos se eles são considerados ruins(?) e analogamente comparados a instrumentos de limpeza.

Significa que não dá para se livrar da química nos cachos quando eles são constantemente relacionados a desleixo na aparência e sujeira — e você ainda pode perder o seu emprego por causa disso.

Em suma, é fácil jogar nos ombros de cada pessoa a responsabilidade por se livrar dos quilos e quilos de absurdos que temos acesso todos os dias.

A coletividade é responsável sim pela relação que temos com o nosso corpo — seja ela de amor ou de ódio. Não dá para sermos as únicas responsáveis pelo amor que se direciona a nós mesmas e aos nossos corpos, quando ódio é tudo que recebemos como resposta.

Não dá para exigirmos que todas nos vejamos como “lindas” enquanto os corpos não tiverem o mesmo valor, inclusive estético. Gracyanne Barbosa, Beth Ditto, Lizzy Velázquez, Chantelle Winnie e Laverne Cox precisam, todas elas, nos representar de alguma forma. Essa contrapartida precisa partir do coletivo, ainda que façamos, individualmente, a nossa parte.

Amem os corpos. Abracem as curvas. Libertem os cachos. No coletivo mesmo.