Afinal, que direitos iguais as mulheres ainda querem?

Texto de Marcela Picanço.

Esse texto não é para feministas, mas sim para quem ainda não entende pelo que as mulheres estão lutando, se afinal, já temos direitos iguais perante a lei. Vejo sempre feministas esclarecendo muitas questões, mas percebi que algumas pessoas continuam sem entender por que as mulheres ainda são tão reprimidas. O problema é justamente esse: a repressão da mulher está tão inserida na nossa cultura que passa a ser invisível por muitos. Pretendo mostrar um pouco dessa diferença que sentimos no nosso dia a dia, de uma forma bem pessoal.

Desde pequenas somos ensinadas a sermos mocinhas, fecharmos as pernas, usarmos vestido e estarmos sempre apresentáveis. As filhas mulheres são criadas de um jeito diferente dos filhos homens. “Homem você solta para o mundo, mulher tem que prender mais”. Já somos criadas para não correr riscos, não ir atrás do que queremos e, a partir disso já começamos a nos perguntar se somos menos capazes de alguma coisa. Depois, a gente cresce um pouquinho e não podemos jamais pensar em sexo, porque isso é coisa de menino. Temos que nos comportar e achar muito idiota os meninos falando sobre mulher pelada.

Nos falam que se valorizar é não mostrar que pensamos demais. Mulher que fala muito a sua opinião é meio vadia, quer chamar atenção. A gente, ao contrário dos homens, pode chorar, mas nunca, jamais demonstrar nossas verdadeiras vontades e emoções. Homem não gosta de mulher histérica. Somos ensinadas que mulher é como se fosse um prêmio na vida dos homens, por isso temos que escolher muito bem para quem a gente vai “dar” a nossa buceta, porque ela vale muito e só o homem certo merece isso. E esse discurso parece ser um discurso que eleva a mulher, afinal, ela é um prêmio! Mas como toda repressão, esta também vem disfarçada de coisa boa e o que a sociedade cria é mulheres com medo de serem quem são e com medo de fazerem o que estão a fim de fazer.

Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013. Foto de Julio Cesar Guimarães/UOL.
Marcha das Vadias do Rio de Janeiro 2013. Foto de Julio Cesar Guimarães/UOL.

A gente cresce com a ideia de que se tocar é feio, descobrir seu próprio corpo é errado, descobrir o que te dá prazer é inaceitável. A gente se ilude achando que um dia vai encontrar alguém que nos dê o prazer que a gente merece. O cara certo, que a gente tem que escolher a dedo, vai ser quem vai nos ensinar a gozar. A gente acreditou que o amor nos faria ter orgasmos múltiplos, mas descobrimos mais tarde que não. E já era muito tarde porque para nos libertarmos de nós mesmas é sempre um processo difícil.

A palavra masturbação nem passa perto do vocabulário feminino, porque é uma coisa feia de se fazer. Eu lembro que com uns 12 anos, li um livro chamado “Depois daquela viagem” da autora, Valéria Polizzi, onde ela contraiu o vírus da AIDS do seu namorado, aos 16 anos. E quem pensa que esse livro é só sobre como ela lidou com a doença está muito enganado, pois com ele aprendi que se valorizar, na verdade, é se conhecer, é ter consciência de que o nosso corpo é nosso e que devemos ter controle total sobre ele. Podemos tocá-lo inteiro, porque ele é nosso. Descobri isso a tempo, ainda nova, mas fazia disso tudo um segredo. Ninguém podia saber que eu me masturbava e que pensava em sexo tanto quanto os meninos. Da primeira vez que gozei sozinha tinha 12 anos e chorei, porque achava que estava fazendo alguma coisa extremamente errada. Depois fui crescendo e conversando com algumas amigas e passei a tratar a masturbação feminina como algo cada vez mais natural, o que me deixou mais tranquila.

Ainda bem que minha mãe, apesar de estar inserida nessa sociedade machista, tem uma cabeça muito aberta e sempre me soltou o suficiente no mundo para eu aprender a tomar minhas próprias decisões, além de tratar o sexo de forma natural. Nunca me obrigou a nada, ela me dava opções e desde pequena aprendi que era responsável pelas consequências das decisões que eu mesma escolhi. Ela estava li para me ajudar a seguir, não para fazer meu caminho. Mas, na maioria das vezes não é assim que acontece e as meninas passam o tempo se culpando por decisões que não foram feitas por elas, não conseguindo sair desse labirinto. Na nossa sociedade de oprimidos e opressores a culpa está sempre nas vítimas e elas mesmas se culpam.

Depois, na adolescência, comecei a notar uma diferença que é escancarada entre homens e mulheres. Aquele velho papo de homem que come todas é o fodão e mulher que dá para todos é piranha, mulher que dá na primeira noite não presta. Notei que vários homens se sentiam no direito de invadir meu espaço e me provocar na rua se eu estivesse sozinha. Notei que muitas vezes em que falava ‘não’, os homens entendiam como ‘talvez’ e continuavam insistindo, afirmando saber o que as mulheres gostam. Fiquei com vontade de dizer que tem mulher que gosta de banana e tem mulher que gosta de maça, mas esses caras não iam entender nada sobre mulheres serem pessoas normais, com gostos diferentes.

Depois fui entender que os rapazes se comportam assim porque “mulher boa é mulher difícil”, então eles foram treinados a insistir e nós fomos ensinadas a seguir um guia onde nunca podemos fazer o que queremos de primeira. Mas esqueceram de avisar que essa regrinha não vale apra todo mundo, que a maioria das mulheres que não querem, dizem ‘não’ de primeira e esse comportamento alimenta a cultura do estupro, porque esses mesmos caras que falam que sabem do que as mulheres gostam, geralmente são os caras que estupram e afirmam saber o que elas estavam pensando.

São resquícios que ficaram da nossa sociedade machista, que vem lá de trás e que tantas mulheres vêm lutando para que isso mude. Mas agora, na nossa época, algo me preocupa muito, pois a repressão está totalmente ligada a algo que parece ser favorável às mulheres. O machismo vem mascarado de cavalheirismo e parece que valorizar a mulher é tratá-la como uma pessoa frágil, com menos capacidade, uma princesa. Desde pequenas somos ensinadas que merecemos ser tratas assim, como princesas que precisam ser resgatadas. Não nos ensinaram que a gente pode reagir contra alguém que nos obriga a fazer algo que não queremos, ou que não achamos certo. Por causa disso, crescemos, muitas vezes com a auto-estima baixa, sendo mulheres que apenas aceitam e que morrem de medo de ser o que querem ser.

Além disso, existem os dados que estão aí para nos mostrar que uma em cada cinco mulheres já sofreu violência por parte de homens. Os casos de estupro (relatados) no Rio de Janeiro aumentaram 36% no primeiro trimestre de 2013, em comparação com 2012. Dados do IBGE apontam que um homem assalariado ganha 25,7% mais, na média, do que uma mulher assalariada e de acordo com um grupo feminista de Nova Iorque, chamado Guerrilla Girls, as mulheres, nos Estados Unidos recebem 2/3 do salário que um homem recebe, e já as mulheres artistas apenas 1/3 desse valor.

E ainda me perguntam, afinal, que direitos iguais as mulheres tanto querem? Do que se trata a Marcha das Vadias? Que repressão é essa que sofremos no dia a dia? Além de falarem que as feministas são chatas e exageradas.

O feminismo não é o contrário de machismo e muito menos contra os homens. O feminismo é contra um comportamento opressor que nos é imposto desde que nascemos e enxergá-lo dá trabalho, pois é preciso olhar para si e se questionar. Não adianta não estuprar, não bater, mas continuar contribuindo com a cultura do estupro. Esta cultura que está sempre julgando a mulher e sempre justificando as violências que sofremos. Contribuir com a cultura machista é afirmar que uma mulher não vale a pena porque ela não segue o padrão de comportamento esperado. Contribuir com a cultura machista é achar que a beleza feminina é só aquela ditada pelas revistas. Contribuir com a cultura machista é não aceitar um ‘não’ de primeira, contribuir com o machismo é julgar e tratar a mulher como alguém com menos capacidade, em todos os sentidos.

Afinal, o que as mulheres querem? Queremos respeito e continuamos lutando por igualdade. Espero que num futuro próximo as gerações não precisem mais lutar por isso e tenham consciência de que as feministas de hoje contribuíram pelas mudanças de amanhã.

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Marcela Picanço é estudante de jornalismo, atriz de teatro e escreve para tentar, de alguma forma, entender o mundo. Sou louca, como todo mundo acha que é, e acredito que as histórias são as coisas mais valiosas que temos. Escreve no blog De repente dá certo.