Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

“Sai desse Facebook! Compartilhar textão feminista nas redes sociais não vai surtir efeito nenhum”, me disseram. Mas se a gente se dispor a analisar um pouco mais profundamente o quão significante é o fato de hoje nós, mulheres, ocuparmos esse espaço, fica bem fácil entender.

Antes de mais nada é sempre importante ressaltar que nenhuma de nós pode ser ingênua; a gente não pode, e nem deve pensar que a internet é algo que veio salvar e resolver todos os problemas (no entanto, ela ao menos nos abre espaço para apontar eles), porque afinal de contas: 1) ainda existe exclusão digital no brasil e no mundo; 2) todas nós estamos inseridas em uma diversidade incalculável de sistemas, e esses sistemas se mantém através de dispositivos — operadores materiais de poder — que interferem direta e indiretamente na nossa vida. Então sendo o computador — e a internet — um desses dispositivos, inevitavelmente, eles também estão inseridos em relações de poder, servindo como suporte pra algumas dessas essas relações. O poder, na atualidade, depende da tecnologia, seja no estabelecimento militar e de segurança, ou no setor financeiro, na mídia, e nas instituições de ciência e tecnologia, existe uma cultura virtual, isso é muito perceptível: a cibercultura está envolvida em todos os âmbitos da nossa vida, e isso se expandiu e alcançou a militância feminista.

Mas antes de entrar no ciberativismo feminista, um breve passeio pelo caminho trilhado desde a criação do computador até a sua ocupação pelos movimentos feministas, pois é muito significativo que a gente entenda o que existe de resistência em cada post que a gente replica, cada comentário, mensagem inbox ou até mesmo cada vez que um homem abusador é exposto nas redes sociais. Continue lendo “Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?”

Mulheres e quadrinhos: 2º Encontro Lady’s Comics

Desde 2010, o coletivo Lady’s Comics promove as mulheres nos quadrinhos. Não apenas personagens femininas, mas muitas mulheres que produzem na área.

Em 2014, organizaram por meio de financiamento coletivo seu primeiro encontro nacional com o tema: transgredindo a representação feminina nos quadrinhos. Em 2015, criaram o Banco de Mulheres Quadrinistas, o BAMQ!. Um espaço online que permite o cadastro de artistas, compondo um banco de dados. Por meio do BAMQ! é possível pesquisar de acordo com função, nome da artista, assinatura, cidade e estado. O projeto contempla não só quadrinistas, mas toda as artistas que trabalham na área: arte-finalistas, chargistas, coloristas, letristas e roteiristas.

Agora, elas partem para encontrar um público mais amplo, com apoio do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, no 2° Encontro Lady’s Comics. Porém, o objetivo continua, criar material e memória que se aprofunde na questão do gênero nos quadrinhos, bem como a representação feminina e o atual mercado para as mulheres que trabalham na área.

Para saber mais, batemos um papo com duas das Lady’s Comics: Mariamma Fonseca e Samara Horta.

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A tentativa frustrada de combate à militância feminista na internet

Texto de Talita Santos Barbosa para as Blogueiras Feministas.

Quando escrevi o texto ‘O feminismo na internet também é importante’, abordando as razões pelas quais o feminismo de internet tem tanta importância quanto os coletivos que atuam em cidades físicas, busquei uma forma de explicitar, através de teóricos da comunicação, que o que é feito na internet possui importância dentro de suas particularidades e limitações. Dessa forma, a militância feminista virtual se encontra em diversos blogs, páginas no Facebook, perfis no Instagram, no Twitter, entre outras mídias sociais, como uma ferramenta de difusão de ideias e compartilhamento de vivências, fazendo com que o feminismo seja fortalecido tanto dentro do ambiente virtual como fora.

Apesar do que pessoas machistas ou antifeministas, e até mesmo algumas feministas, dizem acerca da militância na internet não ser válida, contrariando todos os argumentos de que militância na internet é tão eficaz quanto as que são feitas fora dela, pois para essas pessoas,  militância — seja feminista ou não — só pode ser feita na rua, no corpo a corpo. A militância na internet tem crescido, se intensificado e essas pessoas ignoram que a interatividade é o que torna o ambiente virtual um espaço de troca de saberes, onde feministas compartilham experiências da militância e não apenas assistem passivamente aos acontecimentos. A militância na internet não pode ser posta num segundo plano quando várias páginas, perfis, blogs e sites são silenciados por estarem apenas denunciando crimes e a sociedade machista em que vivemos.

Os inúmeros casos recentes de machismo vão desde as mensagens de cunho pedófilo direcionadas à participante do MasterChef Junior, seguido da campanha #PrimeiroAssedio do Think Olga e também após a divulgação de questões da prova do ENEM. Além desses, houve o racismo nos insultos virtuais a atriz Taís Araújo. Esses eventos provam que o feminismo na internet incomoda e não é pouco.

Mensagem de descrição do “Think Olga”.

Foi no ambiente virtual, através de páginas e perfis feministas em variadas plataformas digitais, que casos de naturalização da violência contra a mulher, romantização de relacionamentos abusivos e relativização da pedofilia foram expostos. Foi por meio de coletivos e grupos feministas na internet que muitas mulheres, durante essas semanas, descobriram que a violência também tem força no ambiente virtual e faz-se tão presente quanto nas cidades físicas, logo foi possível perceber o porquê do feminismo também deve existir na internet.

Após a queda de algumas páginas extremamente machistas e que possuem discursos de ódio contra diversas minorias, outras páginas que denunciam casos de machismo e violência contra a mulher sofreram ataques em massa. Através da derrubada do perfil da Stephanie Ribeiro e de páginas como “Feminismo Sem Demagogia”, “Jout Jout Prazer” e a criação de blog fake em nome de Lola Aronovovich, acreditaram que dessa maneira o feminismo perderia força, mas o que se viu foi uma grande reação das pessoas, desaprovando e divulgando o quanto a intolerância precisa ser combatida.

Embora digam que o feminismo virtual não tenha relevância, as pessoas que o combatem entram num paradoxo. Quem é contra o feminismo pode até dizer que o feminismo virtual não tem efeito e acusam as feministas de serem espectadoras passivas de atos de violência, pois só sabem militar no conforto do sofá, entretanto são estas feministas que eles buscam reprimir, combater e silenciar diariamente. Então, como que este feminismo não gera efeito?

Diante deste cenário de ódio ao feminismo e às mulheres feministas, uma frase de Simone de Beauvoir nunca fez tanto sentido: “Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres” (O Segundo Sexo, pg. 18). Os homens que reagem com birra aos discursos feministas, que não questionam seus machismos, seus assédios, suas violências, homens que sequer possuem a capacidade cognitiva de interpretar uma citação da Simone de Beauvoir numa prova e já saem a chamando de “baranga francesa”, entre vários outros adjetivos depreciativos, são eles também que usam a internet para “militarem” contra nós, feministas.

Por fim, o ódio ao feminismo, às mulheres e a toda e qualquer pauta que fira o ego dos privilegiados não é exclusivo do século XXI. Mas, se ainda hoje, é necessário lutar por direitos básicos, isso só prova que o feminismo ainda é relevante. Logo, o feminismo incomoda, toca na ferida e gera tanta revolta dos machistas. E o feminismo na internet incomoda os privilegiados, incomoda tanto que preferem ameaçar, silenciar, expor e reprimir ao invés de promover um debate saudável. Por isso, volto a afirmar: o feminismo na internet também é importante.

Autora

Talita Santos Barbosa é mulher feminista, negra, baiana e estudante de Jornalismo. Escreve no blog Oito ou Oitenta.