Câmara do Rio de Janeiro rejeita projeto pela visibilidade lésbica

Texto de Camila Marins (jornalista). Revisão de Roberta Cassiano.

Por 19 votos a 17, foi rejeitado na Câmara de Vereadores, no dia 16/8, o projeto de lei que inclui o dia da visibilidade lésbica no calendário oficial do Rio de Janeiro. De autoria da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), o projeto foi construído com os movimentos e as coletivas de mulheres organizadas na Frente Lésbica do Rio de Janeiro. A rejeição acontece no mês da visibilidade lésbica, já que a data de 29 de Agosto foi eleita por militantes lésbicas brasileiras, durante o 1° Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), em 1996, como o dia da visibilidade lésbica. Para Marielle, a não aprovação da lei não significa uma derrota do movimento, mas representa o quanto essa Casa é conservadora, reacionária e, pior, fundamentalista.

“Agosto é um mês de comemoração e reivindicação e pautamos como momento de concretização e processo de uma luta pelo direito de amar, ser e existir. Tiramos a Câmara da zona de conforto e não é à toa que buscamos representatividades das mulheres, mulheres negras, mulheres lésbicas, mulheres faveladas. Vai ter muita luta e mulher lésbica na Câmara”, destacou Marielle que ainda lembrou que no mesmo dia duas mulheres lésbicas, em Rio das Ostras (RJ), foram violentadas. “Esse tema não será colocado para debaixo do tapete. Sim. Nossas vidas importam”, acrescentou a parlamentar.

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ALERTA FEMINISTA! Projetos de Lei que precisam ser barrados!

Das câmaras municipais e assembleias legislativas a Câmara Federal vemos projetos absurdos sendo propostos e aprovados. Projetos que ferem os direitos humanos, que retiram direitos das trabalhadoras e trabalhadores, que ignoram as questões ambientais. A composição do atual Congresso é a mais conservadora desde 1964 e isso tem sido muito perigoso para as mulheres. Pois, o direito ao aborto em casos especiais garantidos por lei e o atendimento de saúde a mulher estuprada estão na mira desses políticos. Importante dizer que não é apenas a bancada evangélica que está promovendo isso. Essa bancada se une a outras religiões para aprovar projetos contrários ao aborto. Essa bancada se une a bancada do agronegócio e a bancada da bala para articularem apoio a seus projetos. Todos juntos ignorando os direitos das mulheres. Por isso, estamos unidas com a Frente Nacional Pela Legalização do Aborto e outras organizações feministas que lançam esse alerta:

ALERTA FEMINISTA! Projetos de Lei que precisam ser barrados!

O poder legislativo brasileiro está tomado por uma bancada racista-machista-fundamentalista-violadora-de-direitos que se fortalece através de ataques sórdidos à autonomia das mulheres.

De maneira orquestrada, este grupo acelera a apresentação e aprovação, no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, de projetos de lei de cunho conservador e fascista. São mercadores da fé, que transformam igrejas em partidos e que usam fiéis como eleitorado. Trabalham com a concepção de que toda pessoa que não seja homem-branco-hétero é um ser inferior e indigno. Não hesitam em lançar mão de leis para controlar os comportamentos à luz desta ideologia. Intrometendo-se na política, elaboram propostas legislativas que condenam moralmente pessoas LGBTT, minimizam o problema do racismo, afastam da educação pública qualquer menção à igualdade de gênero e raça e ao feminismo, negam o acesso à arte, à filosofia e a uma pedagogia reflexiva e crítica no sistema público de educação.

Contra as mulheres os ataques são aterrorizantes e atingem os avanços conquistados pelo movimento organizado em sua luta por plena autodeterminação reprodutiva. Fazem isto condenando o aborto e enaltecendo a maternidade, como se esta fosse o destino de todas e responsabilidade exclusiva das mulheres. Esses mesmos parlamentares aprovaram a Reforma Trabalhista – que vai precarizar ainda mais o acesso das mulheres ao trabalho e rebaixar salários – e aprovaram a PEC 55, que congela por 20 anos os gastos com saúde e educação.

No tema dos direitos reprodutivos, os projetos de lei conservadores impactam negativamente as mulheres, mais intensamente as mulheres negras e dos setores populares, que tem acesso à menos direitos desde muito tempo.

Denunciamos estas investidas e estamos atentas aos Projetos de Lei que precisam ser barrados!

– PL 5069 de 2013 – Tem como autor o ex-deputado e atualmente preso por corrupção Eduardo Cunha (PMDB/ RJ). Amplia a tipificação do crime de aborto e retrocede nos direitos adquiridos sobre atendimento às vítimas de violência sexual. Esse PL tem inspirado várias propostas legislativas nos municípios e estados. Tramitou por último na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania/ CCJC da Câmara dos Deputados, onde recebeu do Relator, deputado Evandro Gussi (PV/ SP), que é advogado e católico, parecer pela aprovação da matéria. Desde então o PL encontra-se pronto para a pauta no Plenário da Câmara, de onde deve seguir para o Senado.

– PL 478 de 2007 – Tem como autores o ex-deputado Luiz Bassuma (PEN/BA) e Miguel Martini (PHS/MG). Conhecido como “Estatuto do Nascituro”, prevê o conceito do “direito à vida desde a concepção” e transforma o aborto em crime hediondo. Sua aprovação significaria retrocesso total, já que elimina até mesmo a possibilidade da interrupção da gravidez nos poucos casos hoje permitidos, como o estupro e o risco de vida da gestante. Seu mérito foi aprovado, em maio de 2010, pela Comissão de Seguridade Social e Família/ CSSF da Câmara dos Deputados, seguindo o voto da Relatora, deputada Solange Almeida (PMDB-RJ). Daí seguiu para a Comissão de Finanças e Tributação/CFT, onde Eduardo Cunha (PMDB/RJ) assumiu a relatoria em abril de 2012, e teve seu relatório, favorável ao projeto, aprovado em 05 de junho de 2013. Encontra-se desde então na CCJC, onde recentemente foi nomeado o Relator, deputado Marcos Rogério (DEM/RO) que é jurista e da Assembleia de Deus. Em 07 de junho de 2017 ele apresentou seu parecer pela aprovação da matéria. Mas no dia seguinte foi apresentado, em Plenário, Requerimento do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), pela redistribuição do PL para análise de mérito na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher/ CMULHER. O Requerimento foi aceito em 27 de junho, pela Mesa Diretora da Câmara e o PL foi direcionado à CMULHER, onde aguarda designação de relatoria.

– PEC 164 de 2012 – Também tem como autor o Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Altera a introdução do artigo 5º da Constituição Federal para estabelecer a “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção”. Foi encaminhado para a CCJC da Câmara Federal em maio de 2012. Foi desarquivado no início de 2015 e designado Relator o deputado Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), que ainda não apresentou parecer. No final de 2016, em resposta ao voto favorável à descriminalização do aborto pelo ministro do STF, Luis Roberto Barroso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ameaçou criar uma Comissão Especial para avaliar esta PEC, alegando usurpação da prerrogativa do Congresso Nacional, que é a de legislar e, neste sentido, também de ratificar ou não a decisão do Supremo. O tema está em debate, pois a matéria ainda não foi votada pela CCJC e por isto a PEC 164 de 2012 não poderia ser objeto de Comissão Especial.

– PEC 29 de 2015 (Senado) – Tem como autor o Senador Magno Malta (PR/ES) e vários outros. Idêntica à PEC 164/2012 (ver acima), também altera a introdução do artigo 5º da Constituição Federal para estabelecer a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção. Encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça do Senado pronta para a pauta, pois o Relator, Senador Eduardo Amorim (PSC/ SE) – que é investigado pelo STF por corrupção e do mesmo partido de Marco Feliciano e Bolsonaro— apresentou, em maio deste ano, seu parecer pela aprovação da PEC. No Senado não existe a regra de constituir comissões especiais para análise de PEC (Proposta de Emenda à Constituição). Apenas a CCJ e o Plenário se manifestarão, portanto, o rito tende a ser mais rápido do que na Câmara. Isto significa que, a qualquer momento, esta matéria pode entrar na pauta do Senado. Se aprovada no Plenário chegará à Câmara com bastante força, onde a ela será apensada a PEC 164 de 2012.

– PEC 58 de 2011 – Tem como autor o deputado Jorge Silva (PDT/ES), que é médico. Propõe alterar a redação de uma parte do art. 7º da Constituição Federal para estender a licença maternidade nos casos de nascimento prematuro, pelo tempo que o recém-nascido permanecer internado. O relatório do deputado Marcos Rogério (PDT-RO) foi aprovado pela CCJC da Câmara Federal em março de 2013. Na aparência é uma proposta benéfica, que amplia os direitos da mulher trabalhadora. Mas por se tratar de matéria que altera o texto constitucional, surgiu no processo uma manobra para nela inserir, através de emenda, um parágrafo a respeito da tutela do Estado sobre o embrião (óvulo fecundado), tornando-o sujeito de direito igual a qualquer pessoa nascida viva. É mais uma tentativa, entre tantas nesse sentido. Em novembro de 2016 o Plenário, sob a presidência de Rodrigo Maia, criou uma Comissão Especial para avaliar a PEC 58 e os projetos a ela apensados. Disputada pela vertente retrógrada, esta Comissão chegou a 34 membros e 34 suplentes, a maior parte dos já indicados sendo homens com ligações fortes com igrejas evangélicas ou segmentos carismáticos da igreja católica. São apenas quatro mulheres, sendo uma delas do campo conservador. Foram aprovados vários requerimentos de audiências públicas, curiosamente para tratar de temas correlatos ao aborto, o que causou estranheza até mesmo ao autor da PEC 58, deputado Jorge Silva. Mas desde dezembro de 2016 a PEC 58 passou a ser debatida em conjunto com a PEC 181-A de 2015, à qual foi posteriormente apensada. (ver a seguir).

– PEC 181 de 2015 – (originalmente PEC 99 de 2015, encaminhada pelo Senado para apreciação na Câmara dos Deputados em dezembro de 2015) Tem como autor o Senador denunciado por corrupção, Aécio Neves (PSDB/MG). A proposta tem o mesmo teor da PEC 58/2011 de 2011 (Câmara), ou seja, a ampliação da licença maternidade para mães de bebês prematuros. Em fevereiro de 2016 a PEC 181/2015 foi encaminhada à CCJC, tendo como Relatora a deputada Gorete Pereira (PR/CE), cujo parecer, favorável, foi aprovado em maio de 2017. Depois desta aprovação a Mesa Diretora determinou formalmente, em razão da correlação das matérias, a apensação da PEC 58/2011 à PEC 181/2015, determinado que a Comissão Especial destinada a apreciar a PEC 58/2011, passasse a apreciar a PEC 181/2015. Em 30 de maio foi designado Relator o deputado Jorge Tadeu Mudalen (DEM-SP). O processo permanece em fase de audiências públicas. Assessoras parlamentares consideram alto o risco de que surjam emendas desfavoráveis à pauta do direito ao aborto, como por exemplo reconhecer o direito à vida desde a concepção.

Estes são projetos de lei sustentados por um ideário conservador, racista, machista e antidireitos humanos!

– Eles defendem que aborto é crime mais grave do que estupro – Com base nesta premissa há projetos de lei que aumentam a pena para as mulheres que praticam um aborto ao mesmo tempo que amenizam a pena para os homens estupradores.

– Eles propõem que um óvulo fecundado, ou embrião, deva ser reconhecido e tutelado pelo Estado como um Sujeito de direito igual à pessoa nascida viva – Com esta ideia pretende-se extinguir o direito ao aborto nos casos hoje permitidos pelo Código Penal de 1940 (gravidez com risco de vida da gestante ou resultante de estupro) e pela recente decisão do Supremo (nos casos de anencefalia).

– Eles consideram que a vida do feto em formação é mais importante do que a vida da mulher. Esta ideia desconsidera o princípio da ponderação de direitos, através do qual mulheres gestantes têm precedência de direitos sobre o embrião, ou seja, no período inicial da gestação. Querem preservar a vida do embrião a qualquer custo, mesmo que seja em detrimento da qualidade de vida e dos direitos humanos de uma pessoa nascida e vivente como a mulher grávida (seja ela adolescente, jovem ou adulta). Esta postura nega o direito de interromper a gravidez mesmo nos casos em que esta resultou de incesto ou abuso sexual de menor.

– Eles querem equiparar aborto ao assassinato – A Lei brasileira não define assim, mas o discurso machista das forças conservadoras acusa de assassinas as mulheres que abortam. São discursos que omitem o conceito de pessoa e igualam o ser humano a um embrião. Pela Lei brasileira a vida humana se inicia no nascimento e se concretiza na vida em sociedade. A simples formação de tecidos e órgãos para um corpo de aparência humana não é o todo do significado da vida humana, mas apenas seu início.

– Eles depreciam tanto as mulheres que difundem a falsa ideia de que se o aborto for legalizado as mulheres vão matar “bebês” já formados. Esta é uma acusação enganosa e falsa. Quando uma mulher precisa abortar ela o faz nas primeiras semanas, tão logo descubra a gravidez indesejada. O aborto tardio, após 15 semanas, acontece pela ilegalidade, que dificulta o processo. Abortos tardios são responsabilidades do Estado que criminaliza a prática, não uma responsabilidade das mulheres. Nos países em que o aborto foi legalizado o aborto tardio praticamente não existe mais.

– Eles mentem e deliberadamente acusam o feminismo de querer legalizar aborto até 9 meses. As regras para interromper uma gravidez, dentro dos parâmetros da saúde pública, estabelecem o limite gestacional em que a intervenção pode ser realizada. Mesmo porque para além deste limite, o que se tem não é mais aborto, mas antecipação do parto. Ou seja, o conceito de aborto não ultrapassa o tempo gestacional no qual já se formou o sistema nervoso central, e a partir do qual há viabilidade de vida extrauterina. A legalização do aborto, em qualquer país, se dá dentro de um limite que não ultrapassa este período (em geral até 12 semanas e até 20 semanas de gestação no máximo em casos específicos, como risco de vida para a gestante).

– Eles usam de violência e defendem tortura das mulheres: Há projetos de lei que visam tornar obrigatória a visualização do ultrassom no início da gravidez, para mostrar o embrião às mulheres vitimas de estupro que buscam o serviço de aborto legal. Nesta chantagem emocional, ou tortura psicológica, há uma intenção clara de provocar o sentimento de culpa e de convencer à manutenção da gravidez. Estas são práticas que em geral vêm acompanhadas do discurso de que todas as características da criança estão ali presentes. São alvo desta perversa abordagem, inclusive gestantes de fetos anencéfalos, vítimas de estupro, ou mesmo crianças e adolescentes abusadas, estas mais vulneráveis a esse tipo de manipulação.

– Eles enaltecem a maternidade num discurso hipócrita e defendem que cuidar das crianças é principal tarefa e responsabilidade exclusiva das mulheres – As forças que apoiam esse tipo de projeto são as mesmas que, no Congresso Nacional e fora dele, apoiaram o teto de gastos para Educação e Saúde. Assim, colabora-se para que as mulheres responsabilizem-se sozinhas pelo trabalho de cuidados e ainda num contexto de dificuldades no acesso à creche e à saúde.

– Eles dizem que sexo é exclusivamente para reprodução – Em nome desta ideia setores religiosos coíbem e desestimulam o uso de métodos para evitar a gravidez e a transmissão de doenças, propondo o sexo apenas quando se deseja ter filhos, e propondo que esta deve ser uma prática exclusiva dentro casamento, obviamente casamento heterossexual, revelando o quanto a lesbofobia está articulada com seus projetos.

– Eles defendem que concepção é um milagre – Setores religiosos conservadores pregam a gravidez como dádiva divina para as mulheres, negam direito ao contracepção e ao aborto e negam o direito de adoção por casais homoafetivos. Esta postura rechaça a legitimidade de qualquer alternativa que não seja a família patriarcal, formada pelo casal hétero e sua prole, tendo o homem na chefia.

É preciso conhecer as iniciativas legislativas municipais e estaduais com base nessas visões!

É preciso barrá-los e, para isto, precisamos somar forças!

É tempo de renovar alianças para desmoralizar e derrotar essas forças perversas.

Tempo de assumir firme posição contra a criminalização das mulheres e pela legalização do aborto. É preciso construir coletivamente ações de resistência!

Julho de 2017.

Créditos da Imagem: Maio/2014, São Paulo. 12° Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais. Foto de Junior Lago/UOL

Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.