Moralismo, racismo e misoginia na novela Verdades Secretas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

A novela Verdades Secretas terminou semana passada e poderia ficar conhecida como a “novela da família brasileira” segundo o recém aprovado Estatuto da Família. Na trama central, que envolve pessoas ricas e uma agência de modelos, Angel (Camila Queiroz) era uma jovem de 16 anos que ao entrar para a carreira acaba no ramo da prostituição, conhecida como “book rosa”. Além disso, envolve-se com Alex (Rodrigo Lombardi), um homem bem mais velho e rico. Em determinado momento da trama, Alex se casa com Carolina (Drica Moraes), mãe de Angel, para continuar seu caso com a garota.

Ao contrário da comoção negativa com os beijos lésbicos de Babilônia, não houve nenhum repúdio ou movimento conservador contra Verdades Secretas. Pelo sucesso que fez, dá vontade de decupar cada cena, mas os textos dos críticos já apontam o quanto essa foi uma novela com embalagem moderna, mas extremamente moralista. Portanto, vou comentar especificamente sobre dois episódios que aconteceram na última semana, envolvendo personagens secundárias, mas que mostram muito da misoginia presente durante toda novela. Atenção, esse texto contem spoilers!

A direita, Larissa (Grazi Massafera). A esquerda, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.
A esquerda, Larissa (Grazi Massafera). A direita, Lyris (Jessica Cores). Personagens da novela Verdades Secretas (2015) da Rede Globo.

Larissa: a puta que encontra Deus.

Larissa (Grazi Massafera), modelo que começou a perder trabalhos e tornou-se usuária de crack, teve seu ponto de virada ao sofrer um estupro coletivo na Cracolândia. Desesperada, conta o fato ao namorado, Roy (Flávio Tolezani) que, entorpecido, praticamente não esboça reação. Larissa toma consciência de seu desamparo e decide se juntar ao grupo religioso que oferece comida e pregação no local.

Assustada e impressionada com a atuação de Grazi, comecei a me perguntar: qual o sentido daquilo pra narrativa? Por que Larissa precisava ser estuprada várias vezes numa mesma sequência? Pra querer sair da Cracolândia? Ela já não teria motivos suficientes? Se não, vejamos. Algumas cenas antes, a moça tinha recusado e respondido com deboche ao oferecimento de ajuda do personagem Emanoel (Álamo Facó), missionário que a acode depois do estupro. Quando ele lhe oferece a possibilidade de sair de lá, ela ainda o provoca, dizendo que faz coisas que ele nem imagina, como transar com homens para conseguir mais pedra. A puta “agredindo” o homem de Deus.

Não queria entrar no mérito de que essa “cura” vem pela religião, mas não sei se consigo, porque parece que tudo se mistura. Obviamente, onde o Estado não entra, outra instituição ocupa o espaço. E a religião tem desempenhado o seu papel na atenção e acolhimento a usuários de drogas, mesmo com os problemas da terceirização da saúde. Sei também que, embora a novela se passe em São Paulo, onde a Prefeitura tem realizado um trabalho com resultados positivos no controle de danos e recuperação de usuários, seria mesmo bem difícil que isso fosse sequer mencionado.

Mas, tampouco consigo sublimar a cena de Larissa implorando por “salvação”, ajoelhada com os braços estendidos com uma luz por trás, como uma Madalena arrependida pronta pra receber Jesus. O estupro de Larissa foi sua chegada ao fundo do poço, segundo o próprio autor, o que parece sugerir que ela provocou a violência. Afinal, ela “procurou” por aquilo ao usar drogas, viver naquele lugar e conviver com aquelas pessoas, né? Ela “procurou” por aquilo ao concordar em ir a um lugar ermo com um desconhecido atrás da droga. A culpa pelo estupro teria sido dela, portanto. Ela foi em direção ao fundo do poço. Mas, epa! Não deveriam ser os homens que a estupraram quem teriam chegado ao fundo do poço ao cometer uma violência dessas?

E, mais, sendo essa violência o catalizador para que ela procurasse ajuda, o que podemos presumir? Que o estupro foi necessário para que ela se tornasse consciente de sua situação e, portanto, teve impacto positivo em sua vida? Seria exagero ou uma incorreção fazer uma analogia com o “estupro corretivo”, já que essa violência a teria estimulado a buscar “o lado bom da força” e uma vida dentro da norma, com Cristo, sem drogas e, possivelmente, sem prostituição? Lembrando que ela já se prostituía antes, pela agência de modelos onde trabalhava.

Larrisa sempre foi Madalena. A metáfora da violência sexual como possibilidade de remissão de pecados para uma mulher que cobrava por sexo me parece bem explícita. Assim que concorda em acompanhar o missionário, Larissa é levada direto ao culto para fazer sua conversão. Ela tinha acabado de ser estuprada, estava ferida, suja e ensanguentada, e não foi sequer fazer um exame médico e tomar um banho! Não antes do culto. E, depois, essa parte fundamental de atendimento a uma mulher violentada não apareceu. Porque não importava para narrativa. “Limpar sua alma” era a prioridade.

Lyris: a negra punida com a morte pelo book rosa.

Não satisfeito, nesse mesmo capitulo, o autor ainda nos “brindou” com mais uma cena de violência brutal contra outra personagem feminina. Depois de  participar de um grande desfile, a modelo Lyris (Jessica Cores), única personagem negra da novela, foi assassinada a facadas pelo ex-noivo, Edgard (Pedro Gabriel Tonini). na porta do local do evento, o Museu Afro Brasil — numa “coincidência” cruel e cínica que só me dei conta quando comecei a escrever esse texto.

Lá pelo meio da novela, para esconder do noivo que tinha feito book rosa com Alex, Lyris inventou que ele a teria estuprado. Edgard tenta matar Alex mas é espancado pelos seguranças do empresário. No hospital, Lyris desmente o estupro e confessa que tinha se prostituído. O noivo termina o relacionamento. Esse fato acabou servindo para precipitar uma série de acontecimentos importantes para o andamento da novela. Porém, para o autor, parece que Lyris ainda não tinha sido condenada o suficiente. Depois de tê-la “perdoado”, Edgard esperava por Lyris na porta do Museu e ao vê-la sendo abordada por um desconhecido, supôs que ela continuava se prostituindo e se aproximou com uma faca, atingindo-a várias vezes no abdômen. Horas depois, Lyris não resiste aos ferimentos e morre no hospital.

Lyris acaba sendo mais uma personagem feminina num enredo de novela que morre por razões fúteis. Que ela seja a única personagem negra, acrescenta racismo ao caldo da misoginia. O autor poderia ter usado sua morte para denunciar e derrubar o esquema de prostituição na trama, mas nada disso foi feito, a alegacão final foi que o noivo era violento e ciumento, sendo que não havia nem contexto de relação abusiva. A função narrativa dessa morte foi apenas para lembrar as mulheres que uma de nós sempre pagará pelos “erros” das outras e na, maioria das vezes, será a mulher mais oprimida socialmente. Por que Lyris teve que morrer daquela maneira se, ao contrário do esperado, seu assassinato não foi nem usado para desmascarar Fanny (Marieta Severo)? Para mostrar o que pode acontecer com mulheres comprometidas que se deitam com outros homens, especialmente por dinheiro? Para ser mais um caso de “crime passional”?

Não me parece um detalhe banal que a modelo “punida” com a morte por causa do book rosa tenha sido justamente a única personagem negra da história — outros atores negros aparecem apenas como figurantes nas cenas da Cracolândia. E nem que tenha sido ela a escolhida para concretizar um dos folclores mais usados quando se quer desqualificar uma acusação de violência sexual: ela realmente inventou um estupro numa transa consentida. Em outra novela do autor, Amor à Vida (2013), Inaiá (Raquel Vilar) vivia uma enfermeira apresentada como promíscua que descobriu ter o vírus HIV. A personagem era a única negra que aparecia desde o começo da trama. O autor a “puniu” por sua diversidade de parceiros. O que me faz pensar o quão as histórias de Walcyr Carrasco são misóginas e racistas.

Em apenas um capítulo, tivemos duas personagens femininas “punidas” de forma bárbara por suas transgressões, com atos que caracterizam muito a violência contra as mulheres: violência sexual e violência doméstica. E, com as quais costumamos ser bastante culpabilizadas: estupro (ela provocou) e assassinato (ela mereceu). Porém, também tivemos violências mais leves, embora simbolicamente agressivas.

Mulheres presas a estereótipos machistas, racistas e moralistas

Houve o episódio do aborto de Pia (Guilhermina Guinle), com muita culpa, julgamento moral e a prisão do médico que tinha feito o procedimento. Pra completar, a personagem foi apontada por todos como o símbolo da mãe relapsa, que não percebeu que o filho estava se drogando. Ela mesma assume esse papel, culminando com um discurso “a la madre Teresa” no final. E o “personal”, que desde o começo pretendia engravidá-la pra dar o golpe do baú, posando de bom moço.

Fanny foi dopada pelo amante para perder seu grande momento de conquista na carreira, o desfile final. Ao ser abandonada por Anthony (Reinaldo Gianechinni) se ajoelha e implora para ele ficar. Depois, precisa de outro boy pra levantar a autoestima. Nesse momento, vira para o telespectador e diz: – Serve. Uma cena que foi celebrada nas redes sociais, mas que é frustrante quando pensamos em sua altivez. Sua agência atingiu o topo entre as concorrentes depois do desfile, mas realização mesmo só com um homem do lado.

Finalmente, olhemos para os finais das duas mulheres principais da novela: Carolina e Angel. Ao descobrir o caso da filha com o marido, Carolina se mata, pagando com a vida a pena pela própria ingenuidade. Aliás, sua morte foi também a punição de Angel, já que depositou sobre a moça a culpa por tudo o que tinha acontecido. Além disso, Angel precisou perder a mãe de maneira tão trágica para enxergar o ciclo de abuso que vivia e se libertar de Alex, matando-o. Para coroar, ela se casa com Guilherme (Gabriel Leone) no final, pois sua busca por felicidade precisa começar com um marido, mesmo que ela tenha apenas 17 anos de idade.

E, aí, me pergunto: de que adianta a estética moderna, se o antigo continua no enredo? Aliás, é mesmo tão inovadora assim uma novela pretensamente criativa na linguagem, mas que mantém a mesma lógica machista, racista e moralista das tramas mais tradicionais?

Eu, noveleira que sou, gosto de boas tramas, boa técnica, bom elenco. Posso lidar com lugares-comuns, desde que inseridos num enredo interessante, e consigo entender as limitações de certas obras. Mas, me sinto bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituicao e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto:

[+] Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira. Por Iara Avila no Biscate Social Club.

[+] A verdade secreta é que a família brasileira não liga para abuso. Por Stephanie Ribeiro na Imprensa Feminista.

Aborto: o PL 5069/2013 e outros retrocessos no Congresso Nacional

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Hoje, 28 de setembro, é Dia de Luta Pela Descriminalização e Legalização do Aborto na América Latina. Com a atual conjuntura conservadora no Congresso Nacional está cada vez mais difícil debater e encontrar apoio a propostas que viabilizem o avanço desse direito tão fundamental para a autonomia, cidadania e segurança das pessoas que possam passar pela experiência de uma gravidez.

Panfleto explicativo abordando questões sobre o aborto feito pela Frente Nacional Pela Legalização do Aborto.
Panfleto explicativo abordando questões sobre o aborto feito pela Frente Nacional Pela Legalização do Aborto.

Recentemente, a Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal realizou a terceira audiência pública interativa para discutir a Sugestão Legislativa nº 15 de 2014, que pretende “regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação, pelo SUS – Sistema Único de Saúde”. A sugestão, foi uma iniciativa realizada por meio do Portal e-Cidadania, que com 20 mil apoios obrigou a retomada da discussão da regulamentação do aborto no legislativo federal.

Jarid Arraes (A experiência de uma audiência sobre aborto no senado), Lola Aronovich (Percepções minhas sobre audiência no Senado sobre aborto), Maíra Kubik (Um duelo sobre aborto no Senado) e Marcia Tiburi (O Círculo Cínico e as Falácias sobre a Legalização do Aborto) relataram como foi a audiência. A percepção geral é que o debate esta cada vez mais engessado com a polarização que vem marcando as discussões politicas no país. Entretanto, nesse caso temos mais problemas, pois diversos argumentos contrários ao aborto são religiosos e não há o menor respeito pela laicidade do Estado, muito menos pelos direitos violados das mulheres.

Semana passada, o Estatuto da Família foi aprovado na Comissão Especial da Câmara Federal. A proposta pretende definir na lei o que é família, impactando a vida de inúmeras pessoas que não estão inseridas nas conjunturas papai + mamãe + filhinhos. Mesmo sabendo que há grandes chances do Superior Tribunal Federal (STF) considerar essa lei inconstitucional, essa vitória do movimento conservador no Congresso é simbólica, legitimando a violência e exclusão social. Entretanto, a descriminalização e legalização do aborto tem encontrado muito mais barreiras e menos apoio da sociedade.

Durante o mês de setembro, aconteceram discussões na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados sobre o PL 5069/2013, que torna crime o anúncio de métodos abortivos e a prestação de auxílio ao aborto, especialmente por parte de profissionais de saúde. O projeto de lei é de autoria do atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Na justificativa, ha alegações do tipo: “A legalização do aborto vem sendo imposta a todo o mundo por organizações internacionais inspiradas por uma ideologia neo-maltusiana de controle populacional, e financiadas por fundações norte-americanas ligadas a interesses super-capitalistas (…) as grandes fundações enganaram também as feministas, que se prestaram a esse jogo sujo pensando que aquelas entidades estavam realmente preocupadas com a condição da mulher”.

O PL 5069/2013 impacta diretamente o atendimento as vitimas de violência sexual. No texto do relator Evandro Gussi (PV-SP), o projeto sugere que apenas seja considerada violência sexual práticas que resultam em danos físicos e psicológicos e que a prova da deverá ser realizada por exame de corpo de delito. Além disso, no voto favorável, afirma que “concordamos com o que pretende o autor da Proposição, que busca propiciar maior efetividade aos dispositivos já vigentes em nossa legislação pelo afastamento da prática do aborto, em consonância com a opinião da ampla maioria do nosso povo”. A proposta dificulta o acesso ao aborto já legalizado e o atendimento regulamentado pela Lei 12.845/2013, que dispõe sobre o atendimento obrigatório e integral de pessoas em situação de violência sexual.

A proposta foi retirada da pauta da CCJ na ultima semana, mas deve voltar a ser discutida em audiência pública no dia 1º de outubroA deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) frisou que o projeto penaliza os profissionais de saúde e faz com que mulheres que passaram por uma violência sejam ainda mais violadas. “Essa proposta afasta as mulheres do atendimento, onde elas podem receber apoio psicológico, informações, coquetéis contra doenças sexualmente transmissíveis, e a pílula do dia seguinte, inclusive para não terem de fazer um aborto”, disse.

Porém, esse não é o único projeto que pretende dificultar o acesso ao aborto legal. Eduardo Cunha também é autor do PL 1545/2011 que prevê pena de 6 a 20 anos para médico que realiza aborto, além da cassação do registro profissional. Atualmente, a pena pode ser de 3 anos, só em caso de morte a prisão máxima é de 20 anos. O PL 7443/2006 que transforma o aborto em crime hediondo. E o PL 6033/13 que revoga a Lei 12.845/2013.

Inúmeros deputados também tem apresentado propostas que criminalizam ainda mais o aborto. Estão arquivados o PL 5364/2005 que pretende eliminar no Código Penal a exceção feita aos casos de gravidez resultante de estupro; e o PL 7235/2002 que propõe revogar todo o art. 128 do referido Código, o que teria o efeito de criminalizar o aborto terapêutico, realizado para preservar a vida da gestante. O PL 1035/1991 e o PL 2423/1989, tipificam e criminalizam o aborto como crime de tortura. O PL 5166/2005 de Hidekazu Takayama (PSC-PR) determina como crime a antecipação terapêutica de parto de feto anencefálico ou inviável.

Não apenas o aborto legal está em risco, como também medidas profiláticas e de acesso a métodos contraceptivos. O PL 1413/2007 de Luiz Bassuma (PEN-BA) proíbe a distribuição, a recomendação pelo SUS e a comercialização pelas farmácias da pílula do dia seguinte. O mesmo deputado é autor do famigerado Estatuto do Nascituro (PL 478/2007), que proíbe o aborto mesmo em caso de estupro e transforma o aborto ilegal em crime hediondo.

Ao Estatuto do Nascituro estao apensados projetos de lei que: preveem pena de detenção de um a três anos para quem realizar pesquisa com célula-tronco (PL 489/2007); concede pensão à mãe que mantenha a criança nascida de gravidez decorrente de estupro (PL 3748/2008), que ficou popularmente conhecido como “bolsa-estupro”. Além de aumentar as penas para prática de aborto, incluem o aborto como crime hediondo e estabelecem penas para quem: “causar culposamente a morte de nascituro”; “anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar aborto”; “fazer publicamente apologia do aborto ou de quem o praticou, ou incitar publicamente a sua prática”; “induzir mulher grávida a praticar aborto ou oferecer-lhe ocasião para que o pratique”.

Panfleto 28 de setembro: Aborto não deve ser crime feito pela Frente Nacional Pela Legalização do Aborto.
Panfleto 28 de setembro: Aborto não deve ser crime. Feito pela Frente Nacional Pela Legalização do Aborto.

Entre os projetos que reduzem as restrições atuais ao aborto, a maioria trata de enfermidades congênitas graves que inviabilizam uma vida normal (PL 1174/1991 e apensos). Há apenas três projetos que visam liberar a prática do aborto. O PL 1135/1991 que propõe suprimir o art. 124 do Código Penal, com o efeito pretendido de descriminalizar o aborto. O PL 176/1995 que pretende não apenas a legalização do aborto sem restrições (exceto a idade gestacional “até 90 dias”), mas também que a rede hospitalar pública e conveniada seja obrigada a proceder ao aborto mediante simples manifestação de vontade da interessada. Em 2014, foi apresentado pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) o PL 7633/2014 que dispõe sobre a humanização da assistência à mulher e ao neonato durante o ciclo gravídico-puerperal e prevê o atendimento de pacientes que abortam na rede de saúde pública.

Há uma ofensiva contra o aborto no Congresso Federal. Atualmente, o movimento feminista trabalha mais lutando para não perder direitos conquistados do que fazendo novas propostas. E sabemos que não adianta apenas eleger mais mulheres no Congresso, pois se elas são conservadoras, projetos de descriminalização e legalização do aborto continuarão sendo barrados. Precisamos nos organizar, fazer barulho e continuar na luta. Envie mensagens aos deputados e senadores por email ou via redes sociais. Deixe mensagens na ouvidoria da Câmara e do Senado. Assine petições, como a que pede a rejeição do PL 5069/2013. Compartilhe informações e se puder participe de audiências publicas. Precisamos de mais e mais pessoas na luta.

Em entrevista ao jornal O Globo,  a ativista e professora nicaraguense María Teresa Blandón falou sobre a realidade de seu pais, onde o aborto é totalmente criminalizado, nao sendo permitido nem mesmo a interrupcao da gestacao em situação de risco para a gestante. Sua fala nos mostra onde podemos chegar com uma ofensiva conservadora contra os direitos das mulheres:

Hoje, três países da América latina proíbem o aborto em qualquer circunstância: Nicarágua, Honduras e El Salvador. Você pode descrever o que as mulheres nessa situação passam na Nicarágua?

Até 2006, o que a lei exigia era que três profissionais de medicina concordassem que era necessário interromper a gravidez. A partir do final de 2006, em meio a uma campanha eleitoral muito polarizada, a Frente Sandinista de Libertação Nacional, partido atualmente no governo, promoveu a proibição absoluta do aborto, em conjunto com a hierarquia da Igreja católica e alguns líderes de igrejas evangélicas. Depois de quase 140 anos, o governo nicaraguense mudou a legislação para criminalizar de maneira absoluta o aborto terapêutico. Isso teve consequências muito negativas para as mulheres, particularmente para aquelas que vivem em condição de pobreza, porque elas têm que recorrer a hospitais públicos. Nos casos mais críticos, muitas morreram porque enfrentaram riscos desnecessários. As mulheres passam a ver a gravidez como fonte de perigo, e não como fonte de felicidade. Calcula-se que, nos últimos três anos, 30 mil mulheres poderiam ter se salvado se o país tivesse aplicado o aborto terapêutico da forma correta. A Nicarágua tem 7 milhões de pessoas, então o número é alto. É o país com a maior taxa de gravidez na adolescência da América Latina e tem também uma alta taxa de mortalidade materna. Uma gravidez na adolescência tem quatro vezes mais risco de ter complicações do que numa mulher adulta. Além disso, os serviços de saúde lá são muito limitados. Nem sabemos quantas mulheres morrem antes mesmo de chegar aos hospitais.

Como você avalia a discussão sobre aborto em toda a América Latina hoje?

Eu diria que temos conseguido avanços que são importantes, mas ainda não são suficientes. Há avanços legislativos que nem sempre se traduzem em uma melhora de qualidade do serviço. Há países como Costa Rica e Guatemala, que têm uma legislação apropriada, mas os serviços de saúde não o são. Outros como o México, têm um serviço de saúde desigual: o Distrito Federal realiza aborto legalmente, mas algumas áreas mais distantes restringem muito isso, então as mulheres são obrigadas a viajar até a capital se quiserem realizar a interrupção. Agora, há um avanço significativo no caso do Chile, que antes era como a Nicarágua: nada permitia. O Chile está em processo de mudança de legislação, para permitir a interrupção em alguns casos. Já é um início. Mas continuamos a ter o Paraguai, por exemplo, onde recentemente uma menina de 11 anos que engravidou por estupro foi obrigada a seguir com a gestação, porque o Ministério de Saúde de lá decidiu que a vida da menina não corria perigo, embora já saibamos que não é verdade. E, em geral, os serviços de saúde são profundamente deficientes e fragmentados. Muitos médicos alegam que sua religião não permite que eles interrompam a gravidez de uma mulher que está correndo risco de vida ou que chega ao hospital em processo de aborto induzido.

Para você, o Brasil está correndo o risco de retroceder?

No Brasil, setores muito conservadores interferem nas políticas públicas e nos poderes do Estado, e acredito que este é parte do problema. Algumas pessoas que têm poder estão no Legislativo, mas também têm influência no Executivo e têm como uma de suas prioridades a criminalização do aborto. O Brasil corre um perigo latente de retroceder, perder direitos já reconhecidos, o que seria lamentável. Isso apenas incrementaria o número de mortes maternas por aborto de risco e aborto clandestino. Eu creio que um problema geral é que os partidos políticos não reconhecem o impacto que a penalização do aborto tem na vida das mulheres e na dinâmica familiar. Muitos dizem querer reduzir a mortalidade materna, mas continuam criminalizando o aborto em alguns níveis. Assim, é impossível alcançar as metas de redução de morte materna. Por isso, nenhum país da América Latina conseguiu ainda alcançar as metas do Milênio sobre esse assunto. Está claro que a esse tipo de legisladores não importam a vida das mulheres pobres e não importam os riscos que elas correm em consequência de uma gravidez não desejada, por fatores distintos. O conservadorismo cresce frente ao enfraquecimento do Estado. É uma espécie de escape. Quando não há um Estado forte, que cuida de seus cidadãos, as pessoas buscam outros refúgios. Por isso, cresce a participação de fundamentalistas religiosos. Há uma proliferação do pensamento mágico, do pensamento subordinado, que só é possível quando o Estado não promove a educação, não promove valores laicos, não promove uma cultura de direitos. Esses fanáticos se proliferam mesmo dentro do Poder Legislativo, Executivo.

+ Sobre o assunto:

[+] Entenda porque o aborto não deve ser crime e qual a importância da SUG 15/2014.

[+] Feminista nicaraguense Teresa Blandón compartilha consequências perversas da proibição total do aborto em seu país.

[+] Nota de Repúdio ao PL 5069/63 – que trata com desprezo a vida das mulheres.

[+] Projetos de lei sobre aborto em tramitação na Câmara dos Deputados.

Quem crucificamos?

Texto de Thayz Athayde para as Blogueiras Feministas.

Dia 07 de julho aconteceu a 19° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Paradas de orgulho LGBT acontecem todos os anos em vários lugares do mundo para mostrar que não há vergonha nenhuma em ser lésbica, gay, bissexual, travesti e transexual. Muito pelo contrário, há orgulho em ser LGBT. E esse orgulho, como muitos pensam, nada tem a ver com dizer que essas identidades são melhores que as outras. Esse orgulho de ser lésbica, gay, bissexual, travesti e transexual é para lembrar o quanto essas identidades ainda são marginalizadas e violentadas, além de mostrar as conquistas que foram importantes para o movimentos e quais as que ainda são necessárias.

Viviany Belmont protesta contra a homofobia na 19° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Junho, 2015. Foto de João Castellano/Reuters.
Viviany Belmont protesta contra a homofobia na 19° Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. Junho, 2015. Foto de João Castellano/Reuters.

É comum que algumas pessoas falem que a Parada não se trata de um ato político, conforme falei no texto: A Parada da diversidade e os atos políticos. A meu ver, a Parada LGBT é um ato político, tendo em vista que são corpos de pessoas que são violentadas diariamente e que muitas vezes não podem manifestar sua identidade de gênero ou orientação sexual livremente. Ao saírem às ruas, esses corpos que para muitas pessoas não deveriam existir, mostram que existem e resistem.

Uma das manifestações que acontecem nas Paradas LGBT e outras Marchas são os atos artísticos. Esse ano, um desses atos parece ter chamado mais atenção e criado uma grande polêmica ao mostrar uma mulher trans crucificada como nas imagens clássicas de Cristo. Em algumas discussões, a polêmica em torno dessa performance artística está relacionada a cruz porque algumas pessoas acreditam que seja um objeto sagrado. A discussão que algumas pessoas da militância estão fazendo é: por que outras pessoas podem usar a cruz para fazer atos artísticos ou mesmo como imagem publicitária da mídia e não são condenadas como foi feito com Viviany?

À esquerda, o jogador Neymar na capa da Revista Placar em fevereiro de 2015. À direita, capa do disco 'Eu não sou santo' (1990) de Bezerra da Silva.
À esquerda, o jogador Neymar na capa da Revista Placar em outubro de 2012. À direita, capa do disco ‘Eu não sou santo’ (1990) de Bezerra da Silva.

A grande questão envolvida em relação aos ataques feitos a Viviany gira em torno da transfobia. Não é possível uma mulher trans aproximar-se de algo sagrado como a cruz. O corpo de uma mulher trans é um corpo que não é aceito, é um corpo estigmatizado. É um corpo que não é importante para uma sociedade que tem como base a cisnormatividade. A meu ver, o que teria ofendido e causado polêmica, na verdade, não é a cruz em si, mas o corpo de uma mulher trans que para muitos não deveria existir. O sofrimento que Viviany reproduz no ato artístico diz respeito as mortes brutais e violências que acontecem diariamente contra as pessoas trans. E quem se importa com essas mortes e violências?

Tanta violência que as pessoas trans sofrem diariamente. Tantas pessoas que duvidam, rejeitam, julgam, ignoram, cospem nas pessoas trans. Tantas mortes brutais de pessoas trans. Tantas pessoas querendo “achar a verdade” sobre as pessoas trans, como se houvesse uma cura, como se fossem doentes. Tanta violência. E as pessoas preocupadas com a imagem da crucificação. Preocupadas com uma perfomance que denuncia todas essas violências. A violência contra as pessoas trans sempre me chocará muito mais do que uma perfomance com um crucifixo. Sempre. A violência contra pessoas marginalizadas sempre irá me deixar muito mais chocada do que um objeto, seja ele sagrado ou não. Porque na minha concepção, pessoas são muito mais importantes do que objetos.

Durante a repercussão desses casos, muitas pessoas relembraram o que aconteceu na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro em 2013, tentando induzir que os dois eventos teriam acontecido no mesmo dia da Parada de São Paulo nesse ano. Mais importante do que dizer “concordo ou não concordo com essas ações” é compreender o contexto e mensagens dessas ações. Pode-se não concordar com a performance na Marcha das Vadias no Rio de Janeiro. Porém, uma manifestação de repúdio a símbolos de santos é uma crítica a igreja católica, que naquele dia tinha seu representante máximo, o Papa Francisco, no Rio de Janeiro. Onde fazer uma performance como aquela se não numa Marcha das Vadias? Afinal, os corpos das mulheres são quebrados todos os dias pelos dogmas religiosos.

Ao subverter, blasfemar e profanar símbolos religiosos não se está falando da fé individual das pessoas, não se está batendo na benzedeira do interior, na Vovó Candinha e suas novenas, nem no padre bacana da paróquia. A crítica é a instituição igreja cristã, que está viva há mais de dois mil anos, que faz lobby no legislativo e no judiciário contra pesquisas com células-tronco, casamento igualitário e legalização do aborto. O protesto é contra a instituição igreja detentora de rádios e canais de televisão, do Vaticano e suas relações comerciais, da intolerância em seus discursos. Portanto, há crucificações diárias de pessoas excluídas da sociedade e representar isso explicitamente incomoda. Pois é essa a intenção, incomodar!

Pode-se pensar a mesma coisa da Parada LGBT de São Paulo. Num momento em que há uma disputa política entre posições religiosas conservadoras barrando inúmeros projetos de diversidade, onde mais poderia haver uma mulher trans crucificada?

Podemos discordar ou não dos frutos políticos que serão gerados por essas perfomances. Mas há contexto. Há a necessidade de que ocorram nesses espaços. Ao pensar no momento político em que vivemos, com o congresso tão conservador quanto nos anos 1960, onde mais poderíamos nos manifestar se não nos espaços políticos que não estão diretamente ligados as políticas do Estado? Onde mais poderíamos fazer atos artísticos que podem chocar algumas pessoas mas que são necessários para falar sobre o nosso momento político atual, em que as pessoas enxergam como solução para todos os crimes a redução da maioridade penal, mas ignoram os crimes cometidos contra mulheres, pessoas LGBT e o genocídio da população negra?

Algumas pessoas argumentam que os fins não justificam os meios. Viviany Beleboni está recebendo ameaças de de morte e agressões inúmeras. Da mesma maneira que ameaçaram as organizadoras da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro e também as pessoas que fizeram a performance artística. Vi muitas amigas que são mulheres trans sendo atacadas por defenderem a perfomance de Viviany. Algumas pessoas diziam “agora virou moda ser LGBT”, “se vocês foram perseguidos e mortos, não achem ruim”. É justamente sobre esse tipo de pensamento que acha que não há problema algum matar, estuprar, violentar pessoas trans que queremos falar. Queremos discutir sobre o conservadorismo, o fundamentalismo e o ódio exarcebado que temos visto contra pessoas que estão a margem da sociedade.

Semana passada, parlamentares da bancada evangélica interromperam a votação da reforma política para protestar contra a ação de Viviany na Parada LGBT de São Paulo. Gritaram palavras de ordem como “respeito” e “família”. De mãos dadas rezaram o Pai-Nosso e finalizaram o protesto aos gritos de “viva Jesus Cristo”. Esse é o respeito ao Estado laico que temos atualmente numa instituição que deveria existir para representar a população brasileira e garantir direitos igualitários a todas as pessoas. Além disso, o deputado Rogério Rosso (PDT-DF) tem um projeto de lei para criminalizar a “cristofobia”. Porque pela própria manifestação dos deputados, estamos vendo mesmo que está difícil ser cristão no Brasil, sentem-se ameaçados diariamente pela imagem de Cristo na cruz, lembrando-os que Jesus pregava amor, paz e andava com doentes, prostitutas, criminosos e qualquer pessoa marginalizada.

Por que não vemos deputados indignados com a morte de uma adolescente no Piauí que foi violentada, estuprada e após dias no hospital, morreu? Por que não criamos “polêmica” ao ver a morte do menino Eduardo no complexo do Alemão? Por que nos silenciamos com o feminicídio? Por que não nos importamos com as mortes e violências lesbofóbicas, homofóbicas, bifóbicas e transfóbicas? Por que fingimos não ver o genocídio da população jovem negra? Por que uma mulher trans precisa fazer uma perfomance numa cruz para que seja lembrado que seu corpo existe?

Vocês podem dizer que esse tipo de ato não ajuda em nada e que só atrapalha. Mas, na verdade, sem esse ato nem estaríamos discutindo sobre tudo isso. Vocês podem dizer que pessoas serão perseguidas por conta desses atos mas a verdade é que elas já são perseguidas, violentadas e mortas. O Brasil lidera o ranking do número de mortes de travestis e transexuais. Vocês podem dizer que o melhor é esperar e ser pacífico, que todo esse momento vai passar. Mas, como esperar de forma calma, sendo que violências e mortes estão acontecendo diariamente? Os fins não justificam os meios? Ora, eu acho mesmo é que nada justifica violência e morte.

Um objeto, seja ele sagrado ou não, nunca terá o mesmo sofrimento que pessoas marginalizadas passam. Um objeto pode ser construído novamente, a concepção das nossas crenças podem ser mudadas. No século passado pessoas negras eram consideradas “sem alma”, segundo a Igreja Católica. Isso mudou. Quem sabe veremos as crenças mudarem e então perceberemos finalmente que um objeto não nos faz falta, mas uma pessoa faz.