Gosto não se discute, violência sim

Texto de Beatriz Beraldo.

Gosto, como dizem, não se discute. Eu, por exemplo, não gosto de mocassim embora saiba fica muito bem em algumas pessoas. Por outro lado, amo um vestido velho e desbotado que toda a minha família faz torcida para que vire pano de chão. A verdade é que desde que nos auto intitulamos “Sociedade do Consumo”, o gosto pessoal e a moda são parceiros inseparáveis.

Ora, por mais que a “indústria da moda” dite as tendências, você tem que fazer escolhas na hora de comprar. Até porque existem muito mais roupas oferecidas no mercado do que você poderia usar em uma vida inteira. Essas escolhas, de certo modo, moldam você, o seu gosto, ou como alguns gostam de dizer, o seu estilo.

Muitas vezes, no entanto, o seu estilo pode não ser considerado “de bom gosto” por outras pessoas. Acontece. Acontece bastante. Afinal, gosto não se discute, mas isso não quer dizer que eu não posso ter um gosto diferente do seu. O gosto pessoal vai depender de muitas coisas: família, religião, experiência de mundo… Não tem problema. Tá liberado gostar do que quiser.

Agora, o que não está liberado é essa confusão de se valer da ideia de não gostar do (ou não concordar com) tipo de roupa que o(a) outro(a) usa para justificar uma agressão. Para ficar mais claro, lembro de um debate que realizei com alunos do 3º ano do ensino médio sobre “porque usar roupa curta não pode ser considerado um fator facilitador para o estupro”. Nesta ocasião, uma aluna me questionou:

Você não acha que as mulheres poderiam evitar se vestir com esse tipo de roupa em determinados lugares?

Vamos pensar: existem lugares e solenidades onde há certo rigor com a roupa? Sim, alguns. Podemos modificar/adaptar essas regras para nos sentirmos mais confortáveis? Sim, sempre. Pessoas vão achar a sua roupa feia e/ou inadequada? Provavelmente sim. Você se importa com isso? Evidentemente não, por isso as usa, privilegiando o seu conforto. Por este motivo, as pessoas vão poder xingar, ameaçar, agredir ou estuprar você? Bem, me parece bastante óbvio que a resposta é NÃO!

Marcha das Vadias de João Pessoa/PB em 2012. Foto de Thercles Silva no Facebook.
Marcha das Vadias de João Pessoa/PB em 2012. Foto de Thercles Silva no Facebook.

Se esta é uma questão tão óbvia, por que é todos os dias vemos alguém justificando o estupro em função da roupa da vítima? É mais correto culpar a vítima pelo o crime ocorrido contra ela do que julgar o agressor?

É muito importante nos questionarmos sobre essas naturalizações de violência na nossa cultura. Jamais o seu julgamento pessoal sobre a adequação da roupa de alguém à determinado ambiente pode se sobrepor ao inexorável direito que este alguém tem de ir e vir sem sofrer preconceito, constrangimento ou agressões. Se uma mulher se sente bem usando roupas justas e curtas, ela tem o direito de usá-las e este direito tem que ser respeitado.

Enquanto alguns jornalistas, policiais e a sociedade de um modo geral ficam justificando um estupro ao fazerem comentários acerca da roupa que a vítima estava usando, esquecem-se de que há por aí um criminoso, solto, livre para cometer outros crimes. Enquanto o foco da culpa não se voltar a ele, ou seja, ao estuprador, todas as outras mulheres, independente de suas roupas, gosto pessoal ou estilo, estarão vulneráveis. Então, se é verdade que gosto não se discute, para crimes de violência sexual e assédio também não há discussão: a culpa é sempre do agressor. E ponto final.

Autora

Beatriz Beraldo tem 26 anos, é feminista e mestre em comunicação. Dedica as suas pesquisas acadêmicas às intersecções entre feminismo, comunicação e consumo.

Mulheres engarrafadas: não sou Jeannie, só quero beber minha cerveja

Texto de Ana Rüsche.

Hoje o papo é de bar. Desculpe, é o hábito. Podia até escrever algo mui sisudo sobre as representações violentas da mulher executadas pela cultura que envolve o consumo de cerveja, mas creio que a forma não é a adequada. Ninguém resiste a papo furado. Aí lembrei de começar pela Jeannie é um Gênio, essas bobageiras do século passado. Se não temos metáforas cultas, vamos mesmo de patáfora: o assunto hoje é mulheres engarrafadas.

Série de tv americana 'Jeannie é um gênio' (1965).
Série de tv americana ‘Jeannie é um gênio’ (1965).

A Jeannie é um gênio, educadora sentimental de tantos lares dos anos 60 aos 80. Loira, penteada, corpo escultural, tinha lá o seu lado arrojado — teve que filmar com massinha no umbigo para evitar escândalo. Na trama, embora tenha sido libertada pelo amo no primeiro capítulo e fosse a toda-poderosa, queria mesmo ter sua idolatria incondicional ao Cap. Nelson realizada, resumindo-se a ser bastante ingênua, cômica. Engarrafada.

Sim, eu também adoro a musiquinha da abertura. Até já me fantasiei de Jeannie numa época pré-instagram. A questão é: e se eu quiser utilizar os poderes de gênia a meu próprio favor ou a favor de minhas próprias convicções? Hum, creio que a Jeannie instantaneamente teria sua carteirinha de maga cassada.

Falar de mulheres e da cultura que envolve o mercado de cerveja é um pouco por aí. Difícil não lembrar rápido de uma propaganda ou campanha que não trate a mulher como a engarrafadinha, pronta a ceder aos desígnios do primeiro amo bêbado que surgir tropeçando. E, pobre amo, relegado ao papel único de machão grosseiro eterno. Ama, nem pensar! Tudo nas caixinhas da heteronormatividade, organizadinhas. É uma cultura que afirma e reafirma que a mulher deve ficar ali naquele lugarzinho de prontidão à obediência de corpo e alma ao amo: alegre, mas não muito alcoolizada; sorrindo, mas para somente para seu Homem, e assim vamos ladeira abaixo…

Encontrei alguns textos mais focados que falam do assunto. Um texto assertivo da Luma: Reflexões sobre Feminismo e Cerveja: Nós podemos!. O artigo acadêmico ‘A representação da mulher na mídia: um olhar feminista sobre as propagandas de cerveja’ da Sabrina Uzêda da Cruz (UFBA). O texto da Tassia Hallais: Sobre cervejas, detergentes e desodorantes. Outro da Ju Pagul, sobre a decisão de vender ou não a Devassa: Já tomou Tarado? Ou… fermentando a mercantilização dos corpos das mulheres, (a decisão acertada da Ju você já pode imaginar qual é). Sem perdoar ou nem esquecer o racismo da propaganda da Brasil Kirin para a mesma marca, como aponta Soraya Barreto no texto: A estereotipia da cegueira: o caso ‘Devassa Dark Ale’. Mil vezes a Brew Dog que ironizou a macheza das leis “anti-gay” do Putin com a campanha Hello, my name is Vladimir.

Da esquerda para direita: A escocesa BrewDog fez campanha irônica contra o Putin com o rótulo “Hello, my name is Vladimir”, destinado a “uber hetero men”. Rótulo premiado no concurso brasileiro agora em Blumenau: Double Viena da Cervejaria Morada Cia. Etílica. Rótulo da Rogue especial para o Dia das Mães, cerveja de trigo com pétalas de rosa. Não era rosa que tinha que dar para a mãe?
Da esquerda para direita: (1) A escocesa BrewDog fez campanha irônica contra o Putin com o rótulo “Hello, my name is Vladimir”, destinado a “uber hetero men”. (2) Rótulo premiado no concurso brasileiro: Double Viena da Cervejaria Morada Cia. Etílica. (3) Rótulo da Rogue especial para o Dia das Mães, cerveja de trigo com pétalas de rosa. Não era rosa que tinha que dar para a mãe?

Como gosto de cervejas artesanais, fico pensando se, pelo menos nesse nichinho de mercado, as coisas podiam ser menos trágicas. Creio que não. Ainda não. É só ler alguns textos e convites que colocam as mulheres na posição de acompanhantes, coadjuvantes, eternas principiantes e donzelas em perigo. Do tipo: olha, ela até bebe! Ou, olha, ela sabe que existem estilos de cerveja! Ou ainda, olha, ela até enfrenta uma IPA! E meus prediletos: podem levar as esposas! Sempre melhor rir e tomar um trago amargo do que chorar.

De qualquer forma, preciso dizer que algumas marcas, bares e eventos de artesanais se preocupam mais com o produto em si do que na perpetuação eterna das propagandas sexistas. Não é ainda uma superação, mas, pelo menos, uma mudança de foco. Tivemos a pouco o Concurso Randy Moscher de Design de Rótulos, por ocasião do Festival de Blumenau, e nos vencedores do rótulo de linha dá para ver bem isso.

Enfim, desejo que nesse tão alardeado “renascimento da cultura das cervejas artesanais”, possa surgir uma cultura de consumo menos sexista, menos engarrafadora de mulheres em rótulos enfadonhos.

Que a Jeannie possa parar de tanto querer agradar o tal do amo (o qual deve ter coisas mais interessantes para fazer do que ser agradado) e vá atrás de seus próprios desejos. Inclusive, a Jeannie pode usar toda sua genialidade para descobrir quais são. Nunca é simples descobrir o que se deseja fora do rótulo. Viver fora da garrafinha pode ser mais complexo, mas, pelo menos, você pode bebericar tua cerveja em paz. Saúde!

* * *

CONVITE

Junto com Mayara Miranda coordeno a Hildegarda, projeto para difundir a cultura das cervejas artesanais, com ênfase à produção brasileira.

Nosso próximo encontro será em São Paulo, no sábado 22/3. Terá a honrosa presença das Lupulinas – Cilmara Bedaque e Vange Leonel. Beberemos e conversaremos. O tema de março? Cerveja e mulheres, o que mais poderia ser?

Quem não puder vir, pode acompanhar pela página no Facebook, no twitter (@cervejashildegarda) ou no blog. Às ordens!

Os anos 80 estão voltando: marca sentimental, Lollo relembra a infância

Texto de Charô*.

Segundo a Nestlé, Lollo voltou atendendo aos pedidos dos chocolovers e anuncia a volta de um dos chocolates mais queridos do Brasil: Lollo, “o chocolate fofinho da Nestlé”. Ícone da década de 80 e de toda uma geração de consumidores, Lollo volta ao mercado com a receita original e mesma identidade visual, para encantar os saudosistas e conquistar novos fãs.

Essa postagem está atrasada, mas acho muito importante falarmos sobre o Dia da Crianças. Essa foi a segunda vez que comemorei a data em família e a minha grande preocupação é, nesse momento, a observação da construção daquilo que chamo de memória afetiva de consumo que pode ser entendida como uma série de sentimentos e emoções impressos no indivíduo desde a infância de modo a criar uma relação afetiva com uma marca ou produto em detrimento de quaisquer aspectos objetivos.

Chocolate Lollo.

Por exemplo, recebi em casa uns livros infantis doados pelo Banco Itaú. Por enquanto não há problemas pois a menina é muito pequena (ainda que esteja desde muito cedo sendo exposta à marca). Agora imagine o mesmo livro sendo lido por uma criança de 6 anos, que poderá associar o ato prazeroso de ler e o carinho dos pais ao banco, construindo uma impressão indelével em sua memória afetiva de consumo, que no futuro poderá fazer e fará toda diferença na escolha pela marca. O relacionamento que deveria ser objetivo, se torna uma relação emotiva quando falamos de uma marca sentimental, assim como o chocolate Lollo.

Ainda que nunca tenha deixado de ser vendido com o nome de Milkbar e uma formulação levemente diferente, o relançamento do Lollo tem como pano de fundo o fato de o consumo de chocolate ter aumentado de 1 para 2,5 quilos no país desde a década de 80. A empreitada, cuja viabilidade foi fortemente estudada, também se aproveita de uma onda retrô movida pela nostalgia de consumidores que atuam como “embaixadores da marca e apresentam o chocolate aos filhos e amigos mais novos“, segundo salienta o portal Administradores.

Outra oportunidade é a reedição de uma identidade de consumo bem delineada e associada ao refinamento, os chocolovers, que terão uma a chance única de se deliciar com um produto conhecido apenas por aqueles que tiveram a sorte de serem crianças e jovens na década de 80. Porém, o maior trunfo do chocolate fofinho da Nestlé é ser uma marca sentimental de amplo alcance, na qual as pessoas confiam e que lhes foi apresentada numa época inocente e feliz, demonstrando que o único relacionamento que uma criança pode ter com uma marca é emotivo. E adivinhem, as marcas sabem disso.

A comunicação do Lollo, nos anos 80, era muito simpática e isso criou um residual de memória que existe até hoje”, diz Eduardo Tomiya, especialista em marcas da BrandAnalytics.

“Sempre monitoramos as redes sociais e vimos que muita gente citava o Lollo com saudades”, diz Ricardo Bassani, gerente de marketing da multinacional suíça.

Referência: Estratégia dos grandes: Na onda ‘revival’, Nestlé Brasil relança chocolate Lollo.

Ajuda e muito que sua garota propaganda seja uma vaquinha feliz que passa seus dias numa fazendinha, igualmente feliz, alimentando-se de flores e voluntariamente fornecendo leite para seus amigos humanos. O conceito contribui ainda mais para a infantilização de um consumidor que prefere acreditar nessa fábula a entender objetivamente como funciona a produção de carne e leite, tal como é mostrada no documentário Earthlings (Terráqueos). Quem viu bem sabe que a indústria leiteira pode ser tudo, menos um negócio gentil.

É por isso que é preciso que nós, pais e educadores, prestemos grande atenção ao modo como as marcas são apresentadas aos nossos filhos. Isso também é educação. Eles não estão preparados para um envolvimento de igual para igual com as marcas (se um adulto pode ser facilmente ludibriado por uma peça publicitária, imagine uma criança), que por sua vez costumam praticar, sem o menor pudor, algo que poderia muito bem ser chamado de pedofilia publicitária: envolver e sequestrar emocionalmente os consumidores desde muito cedo por meio de um discurso aveludado que geralmente não condiz com a realidade das marcas.

Precisamos ficar atentos.