Mãozinhas na areia, perigo à vista.

Texto de Conceição Barros para as Blogueiras Feministas.

Aviso: trata-se de um conto, que fala sobre abuso e tem a intenção de chamar a atenção para a violência que rodeia as crianças e adolescentes, deixando assim marcas eternas.

Com as mãozinhas brincando na areia, sua inocência exalava a satisfação de estar ali, fazendo o que toda criança gostaria de fazer. Brincar! Brincar das mais diferentes brincadeiras. Brincar de tudo tal qual sua imaginação mandasse. Ser feliz naquele mundo era tudo. Mundo esse que só a criança entende e percebe que faz parte dele, da realidade que ele proporciona de forma colorida e fictícia, sem perceber que em sua singela inocência, o perigo por ali passava. Perigo esse que não vinha de longe, nem do desconhecido, ao contrário do que se podia imaginar, nunca acreditaria que a brincadeira sadia e inocente poderia vir a ter uma triste lembrança em sua vida, lembrança eterna, ferida que não cicatriza, marca que parece tatuada em seus pensamentos até o resto de sua vida.

Permanece de forma viva, em sua mente, os bons momentos, mas ao mesmo tempo vem a lembrança das suas mãozinhas, ainda sujas de areia, pois fazia bolinho de areia para cozinhar, afinal de contas, a “cozinha foi o que restou como lugar”, segundo a sociedade. Logicamente que seus pais, uma vez criados por um viés conservador, machista e patriarcal, tinham esse mesmo pensamento. Apesar do conservadorismo, os conselhos voltados para os estudos não faltavam, pois sabiam que os estudos a proporcionariam muitas realizações. Mas deixando claro que, a mulher é a ‘peça’ principal da casa, parceira das construções, mas dona das desconstruções da vida familiar. Por isso a importância da submissão ao homem, uma vez que deveria zelar pela família acima de tudo, até mesmo de sua felicidade, pois a família estando bem, logo, ela estaria também, o “resto faz parte da vida de casado”. Essa era a lógica que envolvia o mundinho infantil e feminino daquela criança e provavelmente ainda continua sendo de outras crianças. A casa imaginária, mas precisamente a cozinha, era o reduto. Meu Deus, quanta inocência!

Mas, quantas vezes terá sido? Não sabe-se ao certo, em sua infância talvez duas ou três vezes, na sua adolescência, uma vez, com toda certeza . Dói! Dói a lembrança que ainda é bastante forte, apesar dos tempos terem passado, mas a lembrança é bastante viva em sua mente. Gostava tanto dele, o tinha como um segundo pai. Incrível como nunca imaginou que algo dessa natureza existiria e que pudesse acontecer com crianças, pois seria de uma monstruosidade indescritível. Se era manhã, tarde, não se sabe, é como que o que aconteceu viesse a apagar algumas coisas de sua memória. Mas a lembrança de ser subtraída da brincadeira, para sentar no colo e ser abusada, é inesquecível. Em vez do afago, que era para vir em forma de um toque em sua face, de um cheiro em sua cabeça, ou um beijo em sua testa, vinha o tocar do pênis em seu corpo enquanto sentada em seu colo, para talvez conseguir uma penetração, ou algo próximo mesmo. Plantava assim em sua cabecinha, o sentimento de dúvida, de vergonha, de medo e ao mesmo tempo de culpa. Respostas queria, mas não tinha. Ninguém sabia e assim o seu mundinho, já não estava mais tão colorido, algo tinha acontecido e fez com que ele perdesse um pouco do seu brilho. Pois agora, estava no ar, o porquê dele ter feito isso.

Mas o tempo passou e tudo permanecia do mesmo jeito, afinal de contas foram umas duas ou três vezes. Os pais não sabiam, a família não sabia, ninguém sabia, e o encanto da essência infantil ajudou a ir esquecendo aos poucos esse trauma em sua vida. Pelo menos era o que ela acreditava.
Adolescência, bela adolescência! São tantas mudanças, tantas transformações, o estranhamento entra em cena trazendo novidades, a busca pelas descobertas é incessante. Corpinho bonito, tudo no lugar, tudo novinho, os hormônios só faltavam falar. Essa é uma das fazes da vida em que você quer viver intensamente. É um perigo! Mas quem não quer passar por ela? Mas, para o desprazer, o mundo que estava colorido, também em sua adolescência, sofreu a mesma perda de cor, que tinha acontecido em sua infância, tornando-se um pouco mais opaco. Mas agora, não mais criança, o sentimento veio em forma de nojo, de raiva, de desprezo e de desilusão. De fato, agora tinha certeza que aquela pessoa em que depositava um sentimento de amor paternal, não era a pessoa que correspondia a esse sentimento.

—Menina, não vai não! Falava a mãe.

—Meu coração tá pedindo para você não ir. Coração de mãe não se engana! Assim dizia a mãe, ao clamar à filha para não ir à casa da tia.

Era uma linda tarde e não tinha aula, poderia ter ficado em casa com sua mãe, estudando ou fazendo alguma outra coisa, mas ninguém vai saber o que lhe espera mais na frente. Seus pais não toleravam faltas na escola e sempre lhe falavam da importância dos estudos, apesar de não terem tido o privilégio de os completarem, chegando apenas até segunda ou terceira série do primário, tendo que trabalhar logo cedo para se sustentar. Tinha a mãe como uma guerreira e um exemplo de mulher a ser seguido, por sua determinação e persistência nas barreiras impostas pela vida. Seu pai trazia para ela a segurança, pois sabia que ao lado dele estaria segura em qualquer lugar. Sem contar com o amor e carinho, que sempre passava para ela. Ou seja, amor nunca faltou em sua vida.

Mas a casa da tia a esperava. Se ela soubesse o que iria acontecer com certeza não iria. A tarde estava ótima, calma e tranquila. Como um raio, bêbado, surge ele, cambaleando, querendo algo para comer, para servir de acompanhamento à cachaça. Mocinha, bem prendada, já ia ao fogão. Foi o “fim da picada”. Mais uma vez vinha a acontecer tudo o que aconteceu enquanto sua fase de criança. Enquanto tirava algo para ele comer, a mando da tia, ele mexia no corpo dela como uma propriedade sua, percorrendo suas mãos por todo ele, pressionando-a contra o fogão e depois contra a parede, tentando explorar dele o máximo possível. Sua tia nem imaginava o que estava acontecendo. A força e a voz pareciam ter sumido da sua natureza. Algo inexplicável! Mas de repente, já não se encontrava ali uma criança, e sim uma quase mulher, que em seu eu, ainda que transtornado e tomado pelas dúvidas da adolescência, criou força para gritar, afastar e chorar de forma descompensada, clamando por uma grito de socorro. A tia chega e o coloca para fora aos gritos, logo, quase todos ficam sabendo, mas o silêncio pairou no ar, definitivamente, a história passou a não existir. Penetração? Não, não existiu, não deu tempo, na verdade. Se chegaria a esse estágio, não se sabe. Mas a marca ficou em seu eu, para sempre. Casos assim em família, não se fala. Se cala, para sempre. Você de imediato começa a pensar que as pessoas naturalizam esses tipos de acontecimentos.

Para a mãe foi o maior desgosto, pois não contou para o pai, que provavelmente poderia matá-lo, ou morrer, de tanta raiva que iria sentir. Em sua persistência, em sua forma de ver a vida, procurando viver ao máximo os momentos ofertados por ela, a menina, hoje, mulher, busca forças sabe-se lá como, para dar continuidade a sua vida fazendo o possível, pelo menos por alguns instantes para não lembrar das cenas que sua mente lhe faz questão de recordar, ao escutar ou saber de noticias desse tipo. Sua pessoa foi fragilizada, sua personalidade também, mas nunca entregou-se definitivamente às tristes lembranças, sempre se reergueu. Uma luta constante com seu eu, com sua consciência. Mas enxergou, que por ser mulher, sofre por inúmeras atitudes machistas e preconceituosas, simplesmente pelo fato de ser mulher. Mas que tal situação precisa-se mudar, é importante a desconstrução dessa forma de pensar e agir relacionada ao gênero feminino. Optou por ser mais uma do time daquelas que podem fazer a diferença na vida de muitas outras mulheres, levando consigo a ferramenta do empoderamento feminino, através do fortalecimento da luta pelos seus direitos, buscando sempre por um lugar de direito e de respeito na sociedade.

A luta é contínua e constante, porque não árdua também. Mas a cada conquista, seja ela individual ou coletiva, é necessário uma comemoração. É essencial que proliferem-se as buscas por novas retomadas, pelos seus objetivos, pelo seu espaço, seja em qualquer esfera, pela emancipação feminina, pelo não à violência, pelo reconhecimento do verdadeiro lugar da mulher, que é onde ela quiser.

Autora

Conceição Barros é assistente social, feminista, militante, gosta de escrever, gosta de amar e ser amada, de respeitar e ser respeitada, ama viver.

Imagem: Pamella Gachido no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mulheres, em três episódios

Um: o quarto.

O silêncio na carona sela. A noite fora divertida até então. Éramos tristeza e tensão. Choro no portão. Eu forte, segurava lágrimas e gritos. Frustração. Foram-se embora. Sentei à beira da cama, o quarto arrumado do dia de faxina. Meu mundo desabava. Ele ali ao meu lado e eu incontrolável. Doía em mim. Nem sua voz, seu cheiro, seu abraço, nada me consolava. Era nojento demais. Escroto, o que havíamos vivido nas últimas poucas horas do dia. Mil idéias: como prevenir, como melhorar a vida das vítimas, como parar estupros e assédios, como combater uma cultura machista de que mulher não fala não, não pensa, é objeto, é só prazer. As vadias. Foi ao meu lado, sabe? Não vi. Não vimos. Ela chegou low profile e me contou, eu chocada, cheia de ódio. A amiga era mais importante que o agressor. Caralho, como escolher? Por que escolher? Eu dirigindo até o karaokê decandente do final da noite. Ela a duas quadras lutando para se desvencilhar do agressor. Agressor não é um louco tarado que a pegou na rua. É o amigo do amigo, o cara gente boa, tem namorada, conhecem-se eles desde a infância. O amigo chocado que não sabia mais a quem dar razão, não o culpo. Mas a razão era dela. A cara de pau era tão descarada, que ousou juntar-se ao grupo de novo. Fingia ser normal aquilo. Fingia não ser nada. Fingia que não era. Despediu-se e meu alívio foi muito. Eis que ela volta do banheiro correndo, pulando descalça pela pista de boliche, a maquiagem borrada e a humilhação ardente. Vejo ele correr atrás do corredor. Um ínterim de dúvida. Corro atrás dele, impeço-o de sair? Sou grande, mas ele é maior. Como? O que é mais importante, afinal, ela ou ele? Quem precisa mais de mim? Eu era a única sóbria da noite. Deixei-o ir. Vade retro. Ela precisava de ouvidos, colo, afago. Mas a dor, a vergonha, a humilhação não iriam sumir, pelo menos não até o outro dia. Mesmo com colo. Mesmo com ouvidos. Mesmo com afago. Mesmo se eu não o tivesse deixado ir embora, se o linchássemos ali mesmo. Mesmo se ele fosse preso for life. Todos os dias. A luta da minha vida ali, a duas quadras, no banheiro do boliche e eu fazendo strikes, cega e surda. Enganada pelo enganador. Impotente.

Cena de Thelma & Louise. MGM Studios/Divulgação

Dois: o banheiro.

“Queria ser homem”, ela me dizia, com os olhos mareados no banheiro do bar. “É mais fácil”. Daniela, se chamava, mas isso eu ainda não sabia. Só queria fazer xixi, mas ali ela estava, com a maquiagem borrada de quem chora. Quantas vezes não fui eu, chorando no banheiro do bar, madrugada adentro? Quantas vezes não fui eu ali, a dor multiplicada por cada mulher que entrava no banheiro e fingia que eu não existia? Não faria o mesmo. “Tudo bem? Você está chorando”, ao que me respondeu que sim. Que um babaca a fizera lembrar do ex. Era nova mas nem tanto, tinha seus vinte e pouquinho e terminara o primeiro namoro da vida havia pouco. Era o primeiro ex. Conversamos da vida, dos homens. Queria casar, achava que o primeiro seria o único, o último e a dor da queda na realidade nem sempre é fácil. Ou quase nunca. Quem pode culpá-la, afinal, por ter sido criada romântica, ingênua um pouco até? “Nesse momento e em outros vai parecer que todos são uns babacas, eu sei. Mas há homens capazes de tratar outros seres humanos, mulheres inclusive, com o respeito que merecem, sabe? Ele não era o único. Ele, esse com quem você estiver, não importa o contexto, nunca é o único. É melhor ser feliz, se você precisar escolher”. Ela me sorria, se emocionava. Nos abraçamos ali e logo juntaram-se mais duas à conversa. Todas éramos unânimes: Daniela era linda, e precisava pensar primeiro em ser feliz, depois em estar acompanhada ou casada ou o nome que se queira dar. Daniela e cada uma de nós. Desconhecidas, armáramos um verdadeiro fórum sobre a felicidade emocional, ali. Gostamos umas das outras, nos apresentamos, nos despedimos e saímos com os corações mais leves. Privilégios de ser mulher.

Três: a sala.

Lembrava-me de uma festa, há alguns anos. O assédio de uma, a solidariedade com a outra. Sabe, isto é ser mulher. O episódio da festa reunia estas histórias, mesmo tendo se passado anos antes. Era o final da graduação. A festa era grande, havíamos contratado um segurança até. Meu quarto trancado a chave, vejam o absurdo, para caso eu quisesse dormir quando ainda houvesse convidados. O medo do ataque. A chave no bolso. Os pufes num canto, ela dormia, sem estar bêbada nem nada. Apenas dormia, cansada, no meio da festa. Podia ser que houvesse trabalhado naquele dia. Tudo podia ser ali. Não importava. Ela dormia no canto da pista, sobre os pufes, tranquila. Ouço um rebuliço, vejo um homem andando rápido, quase correndo pelo casarão que dividíamos eu e intercambistas franceses. Era o primeiro “Banho Anual dos Franceses”, festa que se tornaria popular com o “Moulin Rouge”, uma para cada semestre do ano, no bairro que circunda a universidade, populoso de estudantes e repúblicas em antigos casarões de família com seis, oito, dez quartos, piscinas, edículas, jardins. Festas homéricas. Ele se misturava à multidão, fugitivo. Encontro alguém que me diz que um homem tentara agarrar a menina que dormia. Que as amigas lançaram-se sobre ela para impedi-lo, que ele as havia agredido. Uma menina machucada contava a história em meio à música alta da pista já vazia. Acionamos o segurança, este homem seria expulso da festa e, caso se recusasse a sair, chamaríamos a polícia. Um pequeno comitê de homens e mulheres prestava apoio emocional às vítimas na pista, com o som já desligado. Outro, eu inclusa, partia em expedição pela casa atrás do agressor. Em minha busca me deparo com o segurança colocando-o pra fora. Ele vai sem relutar, sabe que está errado. Mas isso não foi tudo. Em pouco tempo depois de livres desse escroto outro, uns dois se aproximam de uma amiga enquanto dançávamos à música que já voltara. “Não”, ela diz. Ele insiste. “Não”, ela diz. Ele insiste. “Não, ela diz.” Ele insiste mais. “Que parte do não você não entendeu, imbecil?”, proclamo em alto e bom som. “Mulher nunca diz sim, então o não sempre no final das contas vira sim”, dizia ele. “Não é não”, disse a amiga. “Acabei de expulsar uma pessoa da festa por assédio. Você quer ser o segundo?”. Ele riu. “Segurança!”, chamei. O segurança se aproxima. Os covardes saem de fininho. “Obrigada”, dissemos ao segurança. E foi logo em seguida, quando o horário de trabalho dele acabou, que a festa foi desligada e enxotamos os últimos gatos pingados dali, que reclamavam pois haviam pagado ingresso. Sem segurança, sem festa, era nossa condição. Cansada no corpo e na cabeça, deitei-me em minha cama. Em pouco segundos acordo assustada. A chave! Num pulo tranco a porta e volto a dormir, agora sim, tranquila.

Luana

Texto de Luana Tolentino.

“Luana” é um conto da escritora Cidinha da Silva, publicado no livro “Cada Tridente em seu lugar”, em 2007 pela Mazza Edições. Foi citado no post O Texto da Professora Luana e, está sendo republicado aqui com autorização da autora.

Imagem: cena do filme “Flor do Deserto” de 2009.

Luana tem dezoito anos. É moradora do Jardim Irene, Zona Sul de São Paulo. Mãe de Diogo, dois anos, e divide um barraco na frente da casa da mãe com Rogério, pai do menino. Luana fez cursinho comunitário e passou no vestibular. Está na faculdade e dá a maior força para sua turma também entrar pra facu. Tem emprego fixo (é estagiária em um banco) e toca um pandeiro de fazer inveja à Martinália. O Irene todo se orgulha de Luana. É a menina dos olhos da vila onde mora.

Ninguém pode, ao descrever Luana, omitir sua beleza. É eleita a miss afro da escola desde os treze, quando o concurso começou. Uma vez, o grupo de amigos, liderado pelo então aspirante a namorado, Rogério, resolveu fazer um cover da música Negra Ângela, do Neguinho da Beija Flor e criaram a Negra Luana. A rima ficou quebrada para cantar, mas Luana foi imortalizada pela primeira vez. Além do quê, colou! Depois dessa, Luana se apaixonou por Rogério e, do amor e da falta de camisinha, logo nasceu Diogo. A vida ameaçou parar um pouco, mas Luana teve apoio da mãe, D. Marisa, e se manteve estudando. Terminou o ensino médio, fez o cursinho comunitário, como já contei a vocês e está na  faculdade. Que orgulho!

Dia 2 de abril de 2002, uma sexta-feira, Luana voltava para casa. Rogério tinha ido buscá-la na facu e amigos e conhecidos entravam na última lotação da noite. Gente que saía do trampo, da escola, do início da balada. Cumprimentavam-se e a crônica do dia rolava solta: “E aí, firmeza?” “Tô a pampa!” Desfilavam as minas, “os minos”, as conquistas, as chatices do chefe, a Guarda Civil Metropolitana e os baculejos dentro do colégio. O beijo das lésbicas na novela, que ensaia, ensaia, mas nunca rola e, de assunto em assunto, o tempo passa mais depressa até a quebrada.

Eis que entra um jovem meio alterado na lotação e grita: “Aê mano, todo mundo calado que eu quero dormir, morô?” “Aê mano, qual é a do cara, tá me tirando?”, responde de pronto um membro do grupo. A turma do deixa-disso entra em ação, fala que não custa nada falar mais baixo. O mano deve estar estressado. Outros acham que não, “que cara mais sinistro, meu!” O destoante vai ficando nervoso, furioso quando o papo resvala para o futebol e para o empate de dois times rivais no domingo anterior. Ele grita que o time dele tinha sido roubado e solta diversos palavrões. A discussão esquenta e ele, em nítida desvantagem, pois não fazia parte do grupo e era o elemento da discórdia, desce do coletivo dois pontos antes do final da linha. “Aê motô, pára essa joça que eu vô descê”. O motorista estaciona no ponto e o rapaz corre, xingando todo mundo. A moçada de dentro do ônibus não deixa por menos e também xinga o rapaz. “Já vai tarde ôh de mal com a vida, filhote de curuzcredo! sinistro mano!”

O garoto entra em casa e pega uma arma. Pega a moto e o irmão que, a contragosto, vai ajudá-lo a resolver uma parada. Correm como loucos e chegam à entrada da vila. A turma já desceu do ônibus e está concluindo os dez minutos de caminhada até o início da ponte sobre o córrego, único caminho para entrar na vila. O rapaz da arma passa para o banco do carona, o irmão para o banco do piloto, acelera e o irmão passa pelos jovens gritando e atirando. Desespero total. As pessoas correm. Fogem. Duas pulam no córrego. Gente ferida, gente morta. Luana tomba abraçada aos cadernos. Muito sangue jorra da cabeça e das costas. Rogério grita, pede socorro. Todos os que estão em condição de gritar, gritam. Os que não estão feridos entram na vila correndo, implorando ajuda. Conseguem um motorista de carro que concorda em subverter a ética do extermínio e prestar socorro. Sim, porque como é sabido, em casos de chacina, assassinatos de aluguel e tentativas de morte por motivo desconhecido, em bairros como o Irene, manda a ética dos bandidos que não se preste socorro pois você pode se complicar. Deixa ali, morrendo aos poucos. Entre doze e vinte e quatro horas depois, o rabecão aparece para recolher o corpo. Mas era Luana. Quem quereria matá-la? Não poderia haver mal em socorrê-la.

No hospital, a notícia: Luana morreu. A mãe quando chegou ao cemitério gritava a dor do mundo. Nada a consolava. Ninguém tinha força para ampará-la: “Minha filha, o que fizeram com você?” Ao Diogo contaram que mamãe Luana, como ele a chamava, tinha ido para o céu. O pequeno passou muitos dias olhando para o alto e perguntando: “Mamãe Luana, quando você vai descer daí? Vem embora, eu tô com saudade”. D. Marisa não suportou o sofrimento de ver o sangue da filha transformado em mancha no chão da ponte. Todo dia tinha de vê-lo, pois a ponte era o único caminho para sair da vila rumo ao asfalto. Na hora da volta a tortura se repetia. Mudou-se para outro bairro, mesmo sabendo que o poder público continuaria omisso.

Luana tinha dezoito anos. Era moradora do Irene, mãe de Diogo, dois anos. Fez cursinho comunitário. Passou no vestibular e estava na faculdade. O Irene todo tinha orgulho de Luana. Era a menina dos olhos da vila onde morava.

Cidinha da Silva é autora de “Cada Tridente em seu lugar”, “Você me deixe, viu?!”, “Vou bater o meu tambor!”, “Os nove pentes d’África” e  “Kuami”. Não deixe de conhecer o blog da Cidinha da Silva, prosadora.