Logan e as “maquiladoras”

Por Iara Paiva. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Logan’ (2017).

O Wolverine virou motorista do Uber em El Paso. Não exatamente assim, mas quase isso. El Paso está na fronteira com o México e Ciudad Juarez, um lugar perigosíssimo para mulheres. Com certeza entre os lugares mais perigosos do mundo, o geograficamente mais próximo dos Estados Unidos.
Por sua proximidade com o vizinho do Norte, Ciudad Juarez recebeu muitas “maquiladoras”, como são chamadas as linhas de montagem de produtos que serão vendidos em dólar, mas feitos por operários remunerados em pesos no México. Esses operários são, muitas das vezes, operárias.

Ciudad Juarez ficou célebre pelo alto índice de feminicídios. Mulheres assassinadas de formas especialmente cruéis, crimes que não são investigados, ou corpos que nem chegam a ser encontrados. Há diversos artigos acadêmicos que tentam estabelecer a ligação econômica da presença das “maquiladoras” com essa violência. As operárias são por vezes jovens que deixam a zona rural e vão em busca de novas oportunidades na cidade, logo estão longe de suas famílias e de suas comunidades. A relativa autonomia financeira que conquistam, a possibilidade de sair à noite sem vigilância, o fato de que tenham empregos remunerados enquanto homens na cidade permanecem desempregados, tudo isso motivaria o rancor masculino.

Mas vai além. As maquiladoras trabalham por turnos e não se responsabilizam pelo transporte dessas funcionárias. Quando chegam atrasadas, por vezes não podem entrar nas fábricas. As retardatárias para o turno na noite podem ser deixadas completamente sozinhas na rua de madrugada. É comum que desapareçam no caminho entre a casa e o trabalho. E os empregadores se eximem de qualquer responsabilidade.

Então, Laura é o que pode haver de mais frágil à primeira vista. Ela é uma menina sem família, perseguida por homens que querem lhe fazer mal, num dos piores lugares em que uma menina poderia estar. Por isso a violência do filme é, de alguma forma, catártica. A matança que Laura promove para se defender, muito forte graficamente para quem assiste, não é pior do que as mulheres vêm sofrendo há anos naquela região.

Só que o filme vai além. Laura e seus companheiros são todos mexicanos frutos de uma experiência genética. Sua mães biológicas são essas mulheres cujos os corpos não valem nada. Valem tão pouco que são anônimas, elas existem para reproduzir mão de obra barata — ou, no caso do filme, armas. Gabriela e suas colegas acolhem como podem essas crianças que não são suas filhas biologicamente, mas filhas de sua comunidade. E fazer o que toda boa família faz em situação de dificuldade: tentam dar às crianças o melhor possível. Isso é resistência: fazer uma festinha pra se divertir enquanto o discurso do poder te desumaniza. Logo, é sintomático que só se insurjam quando não há mais esperança possível.

Há alguns dias vi uma foto em um protesto pela acolhida de refugiados que dizia “se vocês não gostam de refugiados, parem de criá-los”. “Refugiado” não é uma identidade, é uma contingência. Não há refugiado de guerra sem guerra, e não dá pra vender armas de guerra e fingir que o problema não é seu. Não dá pra explorar os mexicanos até o limite de sua indignidade e fingir que não tem nada a ver com isso quando eles resistem.

Acho particularmente bem pensado que numa história como a dos X-Men, em que os laços de sangue valem tão menos que aqueles construídos pelo afeto, Laura carregue o DNA de Logan. Porque, neste caso, a origem é tão importante quanto a relação construída pelos dois depois. Para além da empatia humanitária, é preciso se enxergar como parte do problema, ainda que passivamente. Não, o cidadão comum não escolheu vender armas, mas as vendas das armas movimentam a economia que protege os seus filhos e expõe os filhos de outrem.

Mexicanos se refugiando nos Estados Unidos são “filhos” de uma política econômica que os transforma em monstros quando não se comportam mais como se espera deles. Mas é preciso retratá-los como crianças para despertar maior compaixão. Fosse Laura não uma menina assustada e desamparada, mas uma mulher sexualizada, seria só mais uma vadia pra quem qualquer castigo era pouco. Retratada de maneira frágil, demandando afeto familiar, a gente pode sentir ternura e ver que o que ela faz é resistir em um mundo todo hostil. Ela e seus amigos, tão frágeis e tão fortes quanto ela, buscam o seu Éden que não existe ainda, mas que vão construir juntos. E se não há afeto em sua origem, podem encontrá-lo e construí-lo em seu percurso. Porque — e isso Logan parece finalmente aceitar ao final — só o afeto nos salva.

Ps.: é textão de FB, não trabalho acadêmico. Misturei mesmo os conceitos de “refugiado” e “imigrante”. Sei bem a diferença, mas quis fazer uma aproximação mesmo.

Nota: Publicado originalmente no seu perfil do Facebook em 05/03/2017, com visualização restrita. Imagem: cena do filme Logan (2017).

A heterocisnormatividade na construção de nossa personalidade

Texto de William Roslindo Paranhos para as Blogueiras Feministas.

“Doutor, é menino ou menina?”. Esta é a pergunta feita ainda nos primeiros exames quando estamos “grávidos”. A partir dai, começa o navegar pelos mares do consumo que alimentam as expectativas criadas frente à gravidez: mamãe compra as bonecas, os lacinhos, o rosa, o floral, o “feminino”; papai, por sua vez, corre até a loja mais próxima para comprar a camisa do time de futebol do coração no menor tamanho que possa existir. O doutor, ou mesmo a doutora, avalizam o destino macho ou fêmea no momento do parto e expressam a novidade: “É uma linda (e futura bobinha) menina!” ou “É um garotão (futuro comedor)”.

O processo heterocisnormativo — padrões pré-estabelecidos de gênero em consonância com o sexo biológico — foi iniciado na gestação e não se pode dizer que de modo inconsciente. São colocadas inúmeras expectativas na vida da criança, desejando um futuro certo dependendo do órgão genital que este ser venha à possuir. Se sorte tiver, virá com um pênis, já que a falta dele é um problema. É ele que manda; sem ele a mulher não consegue nada sozinha.

Já na escola, nos primeiros anos, é explícita a forma “pedagógica” de se explicar o nascimento: “A sementinha do papai foi colocada na barriga da mamãe, ai essa sementinha germinou e você nasceu”. Ora, uma árvore não surge do nada, ela precisa que uma semente seja plantada em terra fértil, com condições climáticas, para que então possa germinar e tornar-se uma árvore. Dentro da lógica da sementinha, o homem é o grande responsável pela concepção.

Tais colocações baseiam-se no poderio assumido pelo sistema patriarcal, que assume proporções consideráveis numa época paralela ao desenvolvimento da ciência, quando a mulher passou de deusa – pelo fato de possuir a divindade da gestação – à um forno, onde se é colocado e retirado o pão pronto. Os aspectos machistas baseiam-se nas “brilhantes” descobertas de que na gestação a mulher não seria “nada” não fosse o homem, e foram incorporados aos constructos sociais que tornaram-se intrínsecos em nossas culturas, junto com o processo de medicalização do parto. Esses elementos retiram da mulher seu protagonismo e poder de decisão no processo da gravidez.

É instaurada, já na infância, essa relação de co-dependência da mulher para com o homem. A mulher é quem dá a vida ao homem, mas sem o homem ela jamais teria conseguido engravidar. Em momento algum na escola, nem mesmo em séries fundamentais e médias, dentro dos planos de ensino, as questões reprodutivas que, cientificamente comprovadas podem ocorrer sem a presença física masculina, são fruto de parâmetros até então discutidos por homens e mulheres machistas.

Escola Municipal. Foto de Carolina Paes/G1.

Encontramos na escola um dos primeiros espaços de contato social da criança. Geralmente ocorrem ali suas primeiras experimentações políticas e culturais. Um local onde deveria se sentir livre para observar, analisar, conviver e discutir com o outro, visto que em casa geralmente somos, ou pelo menos há mais imposições para sermos, todos iguais, que pensam igual, que analisam igual, criando uma unidade familiar. A escola pode ser um espaço onde as oportunidades se abrem frente à criança, dando-lhe a oportunidade de conviver num mundo possuidor de um leque de escolhas, de vivências e de informações infinitas.

Porém, nem sempre isso acontece, porque a escola também está inserida na estrutura machista social. Pautando-se no pensamento de Michel Foucault no que tange a sexualidade e as relações de poder, analisa-se que machismo já inicia seu processo de contaminação social e de construção sexista e heterocisnormativa, através da educação ortodoxa, num método preventivo ao surgimento de futuras/os feministas que venham apautar a igualdade social.

Até os sete anos já devemos ter desenvolvido o entendimento do sexo, temos pênis ou vagina, de identidade de gênero, meninos usam bonés e meninas laços; de orientação sexual e identidade sexual, meninos gostam de meninas e vice e versa. E aqueles cujo desejo não seguem uma linha tão “normótica” e não cumprem com os adágios sociais, como ficam?

Aquele que se sente um “estranho/estranha no ninho”, numa perspectiva humana, por destoar daquele padrão menino X menina, não é mensurado o alto grau de repressão que tais ensinamentos podem lhe acometer num momento onde as funções cognitivas e psicológicas estão se desenvolvendo e se estruturando na personalidade do ser para toda uma vida. Verdadeiras tragédias interiores iniciam pelo fato de que esses pequenos não suprem os desejos, os anseios e aquilo que lhes foi ensinado como correto. A primeira pergunta é: “O que está acontecendo comigo?”.

Ainda devemos continuar ocultando as verdades que, simplesmente, de hora pra outra, aparecerão na mente, no coração, no desejo e na vontade das crianças, colocando-os numa zona de conflitos internos? Devemos exigir que todos e todas se adequem ao que a heterocisnormatividade determina? A sociedade não deve ser cada vez mais plural e inclusiva? Não há caminho errado para ser o que se é. Não há trajeto mais ou menos aceito. Existem sim atalhos, que podem, ou não, serem escolhidos. Porém, o importante é ter como objetivo um mundo de mais justiça social e direitos igualitários.

Autor

William Roslindo Paranhos é estudante de Psicologia e Pós-graduando em Estudos de Gênero e Sexualidade pela Universidade Federal de Santa Catarina. Militante em movimentos sociais LGBT, realiza estudos e palestras combatendo os conceitos binários e sexistas.

Amamentação: leite materno não é poção mágica

Texto de Lígia Birindelli, Maíra Nunes e Xênia Mello.

Semana passada, foram divulgados os resultados de uma pesquisa que afirma:

crianças amamentadas por mais de um ano têm escolaridade 10% superior àquelas que não completaram um mês de alimentação com leite materno. O efeito sobre a renda foi o mesmo. Crianças com maior período de amamentação tornaram-se adultos com renda 33% superior a dos que não receberam leite materno por mais de 30 dias. Referência: Tempo de amamentação afeta até renda, diz estudo

Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.
Em 2014, mães e bebês se reuniram na Vila Olímpica da Maré/RJ para fazer um “mamaço”. Foto de Fabiano Rocha/Extra.

Precisamos refletir sobre o discurso científico e como ele nos forma. Ao ser elevado ao status de “verdade”, todo resultado de uma pesquisa científica molda a forma como entendemos o mundo e nos colocamos nele. Por outro lado, a colocação da ciência como “verdade absoluta” estimula a falta de discussão, no senso comum, de como o discurso científico nunca é neutro. O problema é a falta de problematização.

Nesse estudo, o resultado de uma pesquisa sobre amamentação relaciona o tempo de amamentação com o QI e com a renda de adultos. Ou seja, vamos amamentar para produzir crianças inteligentes e bem-sucedidas. É óbvio que a crítica aqui não se trata da discussão sobre os benefícios da amamentação, que sabemos serem muitos. Mas, é o peso da responsabilidade de uma mãe que TEM que amamentar para poder dar o melhor para o seu filho. Além do fato de que você tem inúmeros outros fatores que contribuem para o bom desenvolvimento da criança (numa visão bio-psico-social), como a criação não-violenta e com apego, que não são levados em consideração.

Se amamentar aumentasse renda e QI, as pessoas mamariam em seus próprios peitos ou venderiam leite. Se leite materno aumenta renda não ia ter tanta mulher na periferia amamentando. Esse discurso científico acaba sendo mais um um discurso que culpabiliza as mulheres pelo (in)sucesso na amamentação. Amamentar é um exercício que depende de inúmeras varíaveis, e boa parte delas não depende da pessoa que amamenta. Apenas para começar: acesso a licença-maternidade e remuneração garantida enquanto se está cuidando da criança, acesso a profissionais da saúde capacitados que orientem e auxiliem o processo da amamentação, acesso a uma rede comunitária que auxilie nos cuidados e que acolha a mulher, ter um companheiro, companheira ou pessoas próximas que sejam também responsáveis pelos cuidados com a criança, ter acesso a moradia digna e uma vida livre de violência.

Por que precisamos nos preocupar com o futuro das crianças para respeitá-las? Não podemos simplesmente acolher por acolher? Respeitar por respeitar? É urgente que se entenda que os filhos não pertencem aos pais, que eles farão escolhas em suas vidas que independem da vontade dos pais. Não pensamos em criar um filho com respeito porque ele será alguém melhor no futuro. Ao criar uma criança com respeito, acreditamos que todas as pessoas merecem respeito. Amamentar porque a criança se sente confortável, segura e acolhida quando mama é motivo suficiente para amamentar, independente se isso trará um QI elevado ou mais dinheiro no futuro.

Quem são as mães que conseguem uma amamentação prolongada? São aquelas que vivem num ambiente acolhedor, livre de violência, com acesso à informação? Se sim, não seriam estes fatores que levariam a criança a poder se desenvolver melhor? Uma coisa leva a outra, portanto, não seria o leite em si a poção mágica. Mulheres que precisam trabalhar geralmente também precisam desmamar as crianças mais cedo. Quem mama por mais tempo possui o privilégio de ter um adulto a disposição para isso, então a questão parece ser mais socioeconômica que fisiológica.

Problematizar o resultado do estudo significa defender a amamentação com argumentos honestos e sinceros. Não é possível pegar toda a subjetividade do ser bio-lógico e resumi-la em fórmulas prontas, deterministas no sentido de: se você fizer isso o resultado será esse. Tudo é muito mais complexo, porque mais que a gente insista em tentar simplificar. E, para finalizar, é importante pensar na constante capitalização da infância, em que a criança acaba sendo um investimento futuro, e num futuro único: o do sucesso.

Autoras

Lígia Birindelli Amenda é feminista e mãe. Vivendo uma louca paixão pela infância e pelo exercício da maternagem. Escreve no blog No princípio era a Maternidade.

Maíra Nunes é 8 ou 80. Mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer.

Xênia Mello não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo. Vadia, socialista e capricorniana, apaixonada pelos bípedes e por gatos, insustentavelmente leve.