As religiões patriarcais monoteístas e o feminismo

Texto de Cecilia Olliveira para as Blogueiras Feministas.

Islã, Judaismo e Cristianismo tem a mesma base: São a descendência de Abraão. São monoteístas e religiões patriarcais. Na maioria de seus segmentos ignoram a força e o papel da mulher. Mas, isto nem sempre de acordo com o livro central (Biblia, Torá ou Corão), mas de acordo com interpretações e outros livros que são adotados pelas religiões, escritos por seguidores. A medida em que o fundamentalismo ganha espaço, as mulheres são ainda mais cerceadas e subjugadas.

Há segmentos cristãos que não reconhecem mulheres como autoridade. Há Igrejas evangélicas que não permitem o ordenamento de mulheres como Pastoras e a Igreja Católica nunca teve uma Papisa. Ou teve? Há controvérsias sobre a existência da Papisa Joana (ou Gilberta?). Mesmo que tenha havido, foi uma e o fato de sua história ser tão controversa, já é sintomático. E não há Madres.

Já no Judaísmo há a diferença nas orações diárias matinais. Os homens oram: “Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo que não me fizeste mulher”.  As mulheres oram: “Bendito sejas Tu, Eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que me fizeste segundo Tua vontade”. Horrível, não?

Já no Islã, não são todas as Mesquitas que permitem que a presença da mulher. Ou seja, elas oram em casa.

Teologia Feminista

Desde suas origens, a Teologia Feminista encontra muitas afinidades fundamentais com a Teologia da Libertação. Dentre essas afinidades, destacam-se: o partir da realidade concreta da vida cotidiana, devidamente contextualizada; a valorização da vida nas suas distintas manifestações; o compromisso com a causa da libertação dos pobres, sendo estes os protagonistas de sua libertação; o modo inovador de interpretar a Bíblia; a luta por mudanças significativas nas igrejas e nas sociedades.

A Teologia Feminista tem ainda suas representantes no Protestantismo (minha turma!). Em uma entrevista, a teóloga uruguaia Cristina Conti fala sobre como ela se percebe feminista e protestante. E de como milita para que o feminismo empodere as mulheres protestantes:

(…) O feminismo pode enriquecer muito a teologia, que geralmente tem estado presa no sistema patriarcal. O pior é que esse aprisionamento tem sido funcional para esse sistema, inclusive fundamentando a opressão das mulheres e de outros grupos impotentes. A única coisa que eu posso pensar que a teologia pode trazer para o feminismo é tudo o que tem a ver com a maneira como Jesus relacionava-se com as mulheres. Em Jesus vemos um homem claramente feminista. A voz da mulher na teologia (com poucas exceções) só começou a ser ouvida em meados do século XX, por isso ainda há muito o que fazer.

(…) Acredito que a intuição, que tem sido mais significativa para mim, como teóloga feminista, foi a constatação de que todos os oprimidos pelo sistema patriarcal estão no mesmo barco. Assim, de meu feminismo surge minha militância em favor de outros grupos, como os LGBT. Acredito que as pessoas que sofrem com a discriminação não podem ser indiferentes ao sofrimento de outras pessoas também discriminadas. Não devemos defender apenas o que nos beneficia pessoalmente, mas também ter solidariedade com outros grupos vulneráveis e lutar por outras causas justas.

(…) O Uruguai, meu país natal, possui uma das mais altas taxas de ateísmo no Ocidente. Acho que não é coincidência que as mulheres uruguaias têm sido bem livres durante décadas. O lugar onde encontrei mais exigências de submissão foi justamente nas igrejas cristãs. Como minha família era atéia e eu vim para o cristianismo já adulta, eu me rebelei contra tais imposições. O que me impediu de abandonar tudo foi o exemplo de Jesus e suas relações com as mulheres. Isso me fez perceber que devia haver algo errado com os textos bíblicos que supostamente ordenavam a submissão da mulher. A partir daí, passei a estudar teologia e assim combater essas teologias patriarcais.

(…) Controlar o corpo das mulheres é um velho costume do sistema patriarcal. E parte desse sistema é a religião. O papel das religiões é duplamente condenável, uma vez que o patriarcado irá fornecer a justificativa ideológica (a pior, supostamente “divina”) para seu domínio sobre grupos sem poder. Por isso, as feministas cristãs têm a obrigação de denunciar a cumplicidade da religião com o patriarcado e lutar pelo direito das mulheres para decidir sobre seus corpos.

(…) A freira Teresa Forcades argumenta que se Deus colocou a vida nas mãos da mulher, ela é quem devem decidir sobre ter essa vida ou não. Você concorda ou acredita que os governos devem regular a interrupção da gravidez?

Eu concordo com Forcades. Acredito que seu argumento de que Deus colocou a vida (e a decisão) nas mãos das mulheres é uma dessas grandes ideias inéditas que falamos antes. Os governos devem aprovar a legislação para garantir que as mulheres tenham todos os direitos assegurados, incluindo a tomada de decisão sobre a maternidade. Diremos com todas as letras: afirmar que o aborto deve ser legalizado não significa ser a favor do aborto em si, mas sim a favor do direito das mulheres de decidir e, eventualmente, abortar em condições seguras. No Uruguai, uma vez que o aborto foi legalizado, não mais morreram mulheres por esta causa. Isso mostra a importância da legalização.

Feminismo Islâmico

De acordo com a Dra. Margot Badran, formada pelas universidades de al-Azhar e de Oxford:

… uma definição concisa do feminismo islâmico é colhida dos escritos e do trabalho de protagonistas muçulmanas por meio de discursos e práticas feministas, que extraem sua interpretação e missão do Corão, buscando direitos e justiça dentro do contexto de igualdade de gênero para mulheres e homens na totalidade de sua existência. O feminismo islâmico explica a ideia de igualdade de gênero como algo que faz parte da noção corânica de igualdade de todos os insan (seres humanos) e reclama a implementação da igualdade de gênero no Estado, nas instituições civis, no cotidiano. Ele rejeita a dicotomia público/privado (a propósito ausente na jurisprudência islâmica dos primórdios, ou fiqh) conceituando uma uma holística na qual os ideais do Corão operam em todos os espaços.

Mulheres curdas se abraçam. Imagem divulgada pelo perfil do Twitter: @mela_ehmed em 06/10/2014.
Mulheres curdas se abraçam. Imagem divulgada pelo perfil do Twitter: @mela_ehmed em 06/10/2014.

Curdas

Atualmente, a maioria dos curdos(1) é oficialmente muçulmana, pertencendo à escola Shafi’i do islamismo sunita.

Há alguns meses, sugiram nos noticiários o que se passa em Kobane, sobre a resistência curda contra o Estado Islâmico (EI). Foi então que se viu mulheres das Unidades de Defesa de Mulheres (YPJ) lutando nesta região e resistindo ao avanço do EI.  Apesar da surpresa que suscitaram as fotografias de mulheres armadas, pouco foi dito sobre como ou de onde surgem estes grupos.

Dilar Dirik, ativista no Movimento de Mulheres Curdas e investigadora sobre o Curdistão e o movimento de mulheres. foi entrevistada por Marta Jorba e Maria Rodou (feministas do coletivo Gatamaula, Barcelona): Mulheres Curdas: “A resistência é a vida”. Destaco aqui parte importante sobre estas bravas mulheres:

Depois da ascensão do Estado Islâmico, o mundo deu-se conta de que há mulheres a lutar no Curdistão. Muitas pessoas que desconheciam o que ocorria nesta região surpreenderam-se ao saberem que as mulheres de uma sociedade que é vista como conservadora e dominada pelos homens lutem e até derrotem esta organização brutal.

(…) As YPJ são as forças de defesa das mulheres, mas há uma luta bem mais ampla que vai para além do campo de batalha. Yekîtiya Star é a organização guarda-chuva do movimento de mulheres em Rojava (Curdistão ocidental / norte da Síria). Nos três cantoẽs de Rojava “no meio da guerra” são cumpridas as normas de copresidência [todos os cargos são compostos por uma mulher e um homem], de quotas, e criaram-se unidades de defesa das mulheres, conselhos de mulheres, academias, tribunais e cooperativas. As leis têm como objetivo eliminar a discriminação de género. Por exemplo, os homens que exercem violência contra as mulheres não podem ser parte da administração. Um dos primeiros atos do governo foi a criminalização dos casamentos forçados, a violência doméstica, os assassinatos por honra, a poligamia, o casal infantil, e o “preço da noiva”. Não surpreende que muitas mulheres árabes, turcas, arménias e assírias se unam às fileiras das organizações armadas e às administrações em Rojava. O objetivo é assegurar-se de que a sociedade interiorize o facto de que a libertação das mulheres é um princípio básico para a libertação e a democracia, em lugar de ser de exclusiva responsabilidade das mulheres. A revolução tem de mudar a mentalidade patriarcal da sociedade. Caso contrário, a história repetir-se-á e as mulheres, que participaram ativamente na revolução, irão perder todo uma vez se consiga a “libertação”. Foi isto que aconteceu a muitas mulheres noutros lugares do mundo. Por isto, o conceito de revolução deve incluir ativamente 50% da população, se pretende conseguir uma liberdade verdadeira.

Século 21

O que me pergunto é: por que seguimos a risca livros escritos há 2 mil anos, escritos em contextos políticos e sociais tão diferentes de hoje? Por que somos literais em alguns aspectos e seletivamente complacentes em outros?

Estas duas perguntas rendem livros, claro. E creio que cada um que opta por ter religião a responda em seu íntimo, na liberdade de sua profissão de fé. E que o façam sem esquecer que o Estado é laico e regido por leis terrenas. Gostando ou não.

Referências

(1) Curdos são um grupo étnico que se considera como sendonativo de uma região frequentemente referida como Curdistão, que inclui partes adjacentes do Irã, Iraque, Síria, Turquia, Armênia e Geórgia.

+ Sobre o assunto:

[+] Teologia, feminismo e filosofia. Por Ivone Gebara.

[+] Teologia feminista e a crítica da razão religiosa patriarcal: entrevista com Ivone Gebara. Por Maria José Rosado-Nunes.

[+] Teologia feminista: uma voz que emerge nas margens do discurso teológico hegemônico (.pdf). Por Neiva Furlin.

[+] Meryem Kobane: “A resistência de Kobane é a luz para um novo Oriente Médio e uma nova sociedade”.

Jesus me ama, mesmo eu sendo mulher?

Gostaria de falar um pouco a respeito de como a Bíblia, que chegou até nós, e as religiões patriarcais segregam a imagem da mulher a uma posição de fragilidade, incapacidade e submissão. A Bíblia reflete uma escravidão ideológica ao sistema patriarcal, institucionalizada sob explicações ilógicas, ao que chamamos de fé.

Já não é segredo para ninguém que religiões, de maneira geral, incomodam-me, profundamente, porque, acredito que, a partir do momento em que admitimos que uma explicação não relacionada a questões éticas e/ou racionais sejam aplicáveis com fervor, estamos abrindo precedência para atitudes contra o humano, conforme acompanhamos ao longo de nossa História.

Foto de Hussein Malla/AP no Bol Notícias

A culpa, certamente não é da fé em si, (que ao contrário do que alguns dizem não move montanhas) mas, dos humanos que a tomam como uma forma de legitimar segregações infundadas. Se todos fôssemos pessoas justas, racionais e com senso ético não aceitaríamos, por exemplo, que as religiões tivessem estatuto político, como ocorre em muitos países árabes e aqui no Brasil das desnudas, onde assistimos ao crescimento estrondoso de uma bancada religiosa e preconceituosa.

Eles se articulam para manipular questões que vão além da fé, enquanto nós permanecemos de braços cruzados, como mandaria o bom espírito cristão. Jesus ofereceu a outra face e, nós, como bons cordeirinhos, estamos oferecendo o corpo inteiro a humanos que se dizem tomados pela fé. Jesus negou-se a assumir o Governo na Terra, mas @s religios@s de paletó de nosso Congresso não tiveram essa sobriedade.

Gostaria que fizessem como eu, isto é, assumissem que lutam por uma causa política e parassem de usar a fé como passaporte para o domínio do mundo. A terra prometida desse povo chama-se Brasília. Contudo, não podemos negar que, no Brasil, a atuação da bancada religiosa é legitimada democraticamente. São @s “dotad@s da boa fé” que permitem e fomentam tal contexto político. Isso ocorre porque a religião, muitas vezes, não enxerga suas próprias limitações, estimulando @s convertid@s a difundirem sua fé, como a um ideal político. E, voilá, temos o pretexto ideal para justificar uma série de infortúnios que humanos aplicam a outros humanos porque assim deliberaram que seria.

Sou contrária a religiões, mas não a religiosos que professem sua fé enquanto fé. Não me incomoda que cada um saiba levar da melhor forma possível suas crenças. Pois, mesmo o ato de não acreditar, na verdade, implica acreditar no não-credo. Portanto, não me sinto no direito de sancionar o sistema alheio de crenças, mas faço questão de sancionar a fé alheia, desde que ela interfira no meu corpo político.

Comecei o texto com o título, “Jesus me ama, mesmo eu sendo mulher?”, porque percebo que as religiões de base cristã, ao tomarem a Bíblia como seu principal livro para estudos, absorvem todo um sistema machista e preconceituoso, depreendido não só pelos casos narrados, mas também pela filosofia sexista de relações inter-familiares e sociais incentivada.

Capa do livro A Tecelã, de Barbara Koltuv

A analista junguiana, Barbara Black Koltuv, em A tecelã (Ed. Cultrix, 1997), analisa alguns episódios bíblicos em intersecção com mitos greco-latinos, para interpretar como os sistemas religiosos oprimem o desenvolvimento da psicologia feminina e, consequentemente, masculina. Ela começa seu insight afirmando a singularidade de cada mulher perante um sistema que tende a massificá-la a funções estereotipadas, tais como a maternidade, o casamento patriarcal e a manutenção da harmonia das relações familiares.

Desse modo, teríamos posições binárias para encaixar todas as mulheres, ou seríamos “adequadas” para as funções do sistema, ou “inadequadas” para as mesmas. Trocando em miúdos, trata-se da velha ladainha que determina se uma mulher “serve para casar” ou “serve apenas para sexo”. Não bastasse estimular o rebaixamento da mulher perante os homens de sua vida, aprendemos, desde cedo, que “meninas boas” não devem se misturar com “meninas más” e, assim, levamos adiante uma cultura de segregação e violência mútua. A autora explica:

 As mulheres vêm sofrendo há muito tempo em secreto isolamento, separadas umas das outras, mãe e filha, irmã e amiga, numa cultura patriarcalmente definida. Fomos separadas em garotas boas e más, bonitas e feias, velhas e moças, casadas e solteiras, ricas e pobres, e assim por diante. (p. 55, §1)

Deus não te protege de DSTs! Não há prazer maior do que obedecer a recomendações médicas. Imagem compartilhada no Facebook.

A violência religiosa cristã encabeça sentimentos que visam controlar a “disponibilidade” da mulher para o homem, ao estabelecer a virgindade e a maternidade como elementos de caráter a serem enaltecidos. O corpo da mulher é tomado sempre como um meio para atingir um bem maior.

Virgem Maria, por exemplo, corresponde à imagem ideal para a mulher bíblica. Seu corpo, seus prazeres, sua sexualidade foram totalmente descartados por um bem maior, uma gestação, e ela, passivamente, aceita tais desígnios. Ela não é, portanto, um sujeito autônomo, mas um objeto agregado como essencial para atingir um fim maior, o mesmo ocorrendo com a personagem da fiel seguidora de Jesus, Maria Madalena. Em suma, são os homens bíblicos que promovem as mudanças, enquanto as mulheres aparecem ora como a causa da perdição moral de um povo, ora como um objeto possibilitador do domínio masculino.

Tomando tal mentalidade, podemos entender por que o aborto é visto com tamanha revolta por certos membros de nossa sociedade. A mulher que escolhe abdicar do feto, no fundo, está se negando a participar da ideologia de que seu corpo pertence ao outro e, mais, de que o feto teria maior importância social do que ela mesma.

De toda forma, não é fácil suportar o peso da escolha raciocinada. Não é fácil aceitar e praticar a ideia radical de que mulheres são seres humanos, assim como os homens, logo, agentes de seus destinos, traçados por meio de seus corpos. Não é fácil identificar que um dos sistemas religiosos mais aceitos e praticados perpetua pensamentos sexistas, que apresentam a mulher como objeto mediador de bens sociais e o homem como o realizador dos mesmos. Porém, pior do que observar tais pensamentos indexados às relações sociais é vê-los sair do campo da fé para o da ação política. Urge assumirmos que religião e política nunca foram, não são e jamais serão bons parceiros, sobretudo, no que diz respeito à proposição de políticas para mulheres. Estado laico já!

Feminista e cristã?

As questões ligadas aos direitos da mulher vem influenciando a sociedade em vários aspectos: político, profissional, civil, doméstico e religioso. E é sobre este último aspecto que faremos uma pequena reflexão, abordando o dilema entre a fé tradicional e o papel da mulher feminista cristã na sociedade.

Cruz no Peito. Foto de Wonderlane no Flickr, alguns direitos reservados.

O movimento feminista gerou a reflexão teológica que levanta questões e denúncias que precisam ser ouvidas pela sociedade e pela igreja. Essas questões suscitaram o surgimento de diferentes correntes de teologias feministas que, de um lado, não vê nenhum sexismo radical e opressor no registro bíblico no que diz respeito à mulher; e, de outro lado, aponta o patriarcalismo bíblico, mas aceita a tradição cristã, ainda que conteste vários aspectos dela. E há, ainda, um feminismo mais radical, ou pós-cristão, que denuncia e rejeita o sexismo e o patriarcalismo presentes no cristianismo e busca restaurar as antigas religiões ligadas à natureza e fundamentadas na “consciência das mulheres”.

O feminismo também entrou nas igrejas. As mulheres emergem em voz e em visibilidade, questionando uma prática, uma instituição, uma linguagem, e uma teologia. Não significa que antes não estivessem presentes. Ao contrário, sempre estiveram presentes na vida da Igreja, mas sua presença era tida como auxiliar, e não como pessoa com cidadania plena. Com a nova consciência, as mulheres se articularam coletivamente em caminhos de transformação, em todas as instâncias práticas e da construção do saber. Introdução da Tese de Doutorado: Inculturação da Fé no Contexto do Feminismo de Gloria Josefina Viero.

Ao longo dos séculos, as mulheres têm sido alvo de injustiças, violência e opressão e muitas igrejas são responsáveis por tal situação, seja por participação direta ou por omissão, diante do tratamento desumano e cruel dado a tantas mulheres no mundo. E as mulheres cristãs têm se posicionado em uma das diferentes correntes citadas anteriormente: aceitação, conscientização ou rejeição de tal contexto.

Como cristã, tenho procurado não deixar que minha fé interfira em minha capacidade de julgar questões que oprimem e violentam a mulher, como o aborto, o divórcio e a violência doméstica, por exemplo. Não se trata de ser contra ou a favor, mas de se ter uma postura justa e que tenha em foco a dignidade da mulher.

Eu nunca provoquei um aborto, nem aconselharia alguém a fazê-lo; no entanto, não julgo as mulheres que o praticam por conta de minha crença. Ignorar a violência de um estupro e as mortes provocadas por abortos clandestinos seria, no mínimo, hipocrisia. Da mesma forma, defender que a mulher deva manter um relacionamento em que é alvo de violência física e / ou psicológica, até que a morte os separe, é obrigar que ela e seus filhos se submetam a um jugo opressor e desumano.

Não me importo se me julgam incrédula ou me consideram escandalosa em minhas opiniões. Uma mulher que, por dezoito anos sustentou e criou, sozinha, os filhos, enquanto o marido estava ausente envolvido com bebidas e outras mulheres, por mais cristã que seja, jamais será submissa a este homem. É muito conveniente “pregar” que as posições de liderança e comando pertencem ao homem, e que o nosso “desejo é para o nosso marido e que ele nos dominará”, sem observar a tirania que se esconde por trás de indivíduos que se usam da tradição cristã para oprimir e violentar sua companheira.

Particularmente, enquadro-me no grupo que aceita a tradição cristã, embora conteste vários pontos de suas práticas e linguagens. Só recentemente me declarei feminista, ainda que não me considere uma militante de fato, pois o feminismo requer estudo, posicionamento político e consciência plena das questões relacionadas à mulher. Estou lendo, pesquisando e discutindo sobre estas questões, especialmente as que envolvam as mulheres oprimidas pela tradição cristã.

E, mesmo não tendo o perfil de mulher dócil, submissa e calada que a sociedade espera da mulher, especialmente da mulher cristã , tenho consciência de que a fé que possuo satisfaz minha alma, mas não cega o meu entendimento. Respeito, consideração, amor, justiça, igualdade e dignidade, são direitos de toda pessoa, seja ela homem ou mulher.