Preta Maravilha

Texto de Viviane A. Pistache para as Blogueiras Feministas.

Dedico este conto às muitas Pretas que me inspiram (com a fé de que entre sonhos e pesadelos nos fortalecemos), e em especial à Amanda Silva, Monamuzinga!

Naquela noite chuvosa atendi sem resistência ao chamado que vinha da casa do sono. Ao entrar na sala dos sonhos dei de cara com uma ladeira e um bom pedaço de papel que me convidava pra escorregar. Uai, por que não? E depois de uma eternidade esquiando no barro, fui parar numa planície fantasma. Assustei. “Cadê o morro velho que me trouxe aqui?”

Sina de mineira é temer a morte das montanhas. No desespero até rezei pro horizonte desembelecer a passo de lesma, na esperança de que ficasse pelo menos um rastro luminoso da beleza de antes. Mas a culpa é do escorpião amarelo, aquele que tem uma escavadeira insaciável que há séculos fere o ventre da terra pra comer ouro. E ele cutucou até o formigueiro que dormia bem no pé da minha cama.

Ameaçada pelos ferrões da tradicional família mineira deixei pra trás o precioso conforto de casa, sem guerrear com o sangue que circula na minha árvore genealógica. Mas não sei se por medo ou precaução, enterrei no quintal um baú com alguns pesadelos e trouxe na mala os sonhos que julgava imprescindíveis. E assim foi que montei na garupa da minhoca de metal que veio serpenteando no lombo da Fernão Dias até chegar aqui.

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Maria de quê? E as memórias de uma “filha da puta”

Texto de Monalisa Ribeiro Gama para as Blogueiras Feministas.

As linhas que se seguem relatam não somente minha experiência, como a de inúmeras “Marias sem nome” — mães solteiras que, não sendo casadas, estão despossuídas do valor social conferido ao sobrenome herdado do marido — e de suas filhas, ambas bastardas de uma sociedade cuja herança patriarcalista e misógina “acha feio tudo que não é espelho”. Vítimas de um tempo que ainda se repete às margens do modelo de família cristã burguesa, onde mulher, grávida e solteira, era (é) a “puta”, e sua prole de “filhas da puta” são desde o nascimento duplamente estigmatizadas. O medo de ter uma filha mulher está acrescido ao da ausência de uma figura paterna. Medo de vê-la repetir os mesmos passos, como um relógio dado corda, o tic tac consumindo o curto tempo da inocência.

A memória que tenho dessa experiência já não tão nítida tem as cores esmaecidas pelo tempo. A primeira imagem ainda viva me remete sempre aos Retirantes de Portinari, não só pelas cores frias e mórbidas, mas, e, sobretudo, pela tristeza de deixar os seus. Nesta imagem eu e minha avó, caminhávamos a pé do bairro do Cruzeiro até sua casa no bairro da Catingueira. Às ruas enlameadas nos contavam sobre a chuva da noite passada, as minhas roupas dobradas numa bolsa de náilon, antes usada para carregar farinha de mandioca, da feira central. Eu tinha cinco anos e não podia mais morar com minha mãe. Ela trabalhava 14 horas por dia, e era perigoso para uma menina ficar tanto tempo só, já sabia andar e falar, “tava ficando esperta”, tic tac. Ao preço de ser criada “solta” com meu irmão mais velho e meus primos que moravam perto, precisei ser protegida do mesmo destino de minha mãe: encontrar um cara malandro, bom de conversa, que me usasse e ganhasse o mundo, deixando para trás apenas mais um fruto proibido. E sobre a promessa de que teria um futuro que ela não teve, passei minha infância encarcerada num mundo 10 x 17, no quintal da minha avó.

Quadro 'Os Retirantes' de Cândido Portinari (1944).
Quadro ‘Os Retirantes’ de Cândido Portinari (1944).

“Maria de quê?” Foi um dos meus primeiros diálogos na escola. Uma coleguinha me perguntou o sobrenome da minha mãe. Se para Matta (1) o nome no Ocidente reforça a individualidade dos sujeitos, o sobrenome informa algo ainda mais simbólico e até mesmo distintivo, o capital social familiar.  A dela tinha dois sobrenomes – a mãe da coleguinha – um por parte do pai e outro por parte do marido. Eu não sabia como responder e pensei: “ela deve ter só um”. Quando disse que não conhecia meu pai foram várias as especulações: “ele morreu?” “Mora fora”? “São separados?” etc, etc. Para aquelas crianças não conhecer o pai, era tão estranho. Enquanto que para mim, até ali, pai era uma figura inexistente e inofensiva. Infelizmente para mim nenhuma das opções colava. Ele estava vivo, morava na mesma cidade, era casado, tinha filhos, mas não com minha mãe. Não é fácil quando se é criança compreender o que isso significa, e quando se compreende isso não melhora em nada. Mas as crianças podem ser cruéis, embora ingenuamente cruéis, já que só repetem, sem os freios da boa etiqueta, aquilo que os adultos segredam entre os seus. “Ah!”, disse uma das crianças, “ela é a filha da puta”. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava, mas sabia que não era algo bom de ser chamada, é como ser chamada de “sangue ruim” em Harry Potter, só para comparar.

A puta neste sentido, não era a profissional do sexo, que comercializa o prazer, a puta, era a “outra”, a mulher amante, a companheira oculta das madrugadas errantes. Eu nunca contei isso a minha mãe. Mas depois de um tempo eu soube que o tal “pai” era noivo de outra mulher – e estava grávida – quando estava com minha mãe, e ao saber da gravidez da minha mãe, contou tudo para ela (sobre o noivado), o que levou ao fim do relacionamento. E depois disso minha mãe tornou-se uma mulher “sem nome”, seu valor social estava fragilizado por ter um filho e não ter marido, e eu, “sem nome”, nem pai, era o fruto proibido que a sociedade precisava expurgar.

Então veio meu padrasto. Aos meus 6 anos minha mãe conheceu meu padrasto, era uma forma dela se redimir consigo e com os outros que a chamavam de “mãe solteira”, dando-nos, a mim e meu irmão, um pai. Ele inicialmente era alguém que para mim desempenhava bem a figura do pai postiço dos dias de domingo, dias que eu costumava visitar minha mãe porque eram os dias em que ela estava de folga.  Depois de um tempo eu soube que ele estava chantageando minha mãe para ter um filho, sob ameaça de deixá-la por outra mais disposta. Ele sempre quis ter um filho dele com ela, ele nunca foi capaz de ser nosso pai, afinal não éramos filho dele, ele precisava ter essa experiência como manda o figurino.

Com a morte da minha avó, fui morar com minha mãe, meu irmão e meu padrasto. Aos 12 anos a inocência escoava em seus últimos grãos, e já não havia tempo de ser a “menininha da mamãe”. Todos me observavam. Qualquer passo em falso, e o estigma da “filha da puta” recaia sobre mim.

E os anos passaram tão rápido, vieram os 13, 14, 15, 16 anos. Minha mãe, meu irmão e meu padrasto, na vigilância permanente: “Não saia tarde!” “Não use essa roupa!” “Não converse com homens!” “Se dê respeito!”. A sensação de medo tornou-se uma companhia constante, mas eu cometi muitos dos deslizes, sofrendo por cada um a retaliação correspondente. E não somente eu sofria como a minha mãe também. A dor que ela me infligia nos machucava mutualmente. Enquanto ela tentava consertar meus vacilos, reprimindo minha “rebeldia”, tentava consertar a si mesma, tentava conter sua própria rebeldia revolta que à fez, outrora, “errar”. Sofríamos não por nós mesmas – suas repressões ou meus vacilos –  mas senão por aquilo que nós toleramos ser chamadas, rotuladas, discriminadas, anuladas e a necessidade constante de remediar-se dessa condição.

Para combatermos sofrimentos desnecessários como estes que acometem a tantas “Marias sem nome” e a “filhas da puta”, é preciso desestigmatizar os rótulos, desempoderar a capacidade que estes nomes têm de classificar pessoas. Seja as “Marias sem nome” pela ausência de um homem legalmente casado com a mãe, ou as “filhas da puta”, que são vigiadas durante toda a vida a não seguir os mesmos passos da mãe solteira. Depois do nome, o segundo passo importante para a desestigmatização é a reterritorialização desses personagens na cultura através da conscientização que nossa própria existência tem sobre esta mesma cultura. Nós, “filhas da puta”, somos as bastardas do modelo cultural de família cristã burguesa, o “outro” dos filhos concedidos no santo matrimônio. O choque que nossa existência causa, aqueles defensores desse modelo de família, é sua própria falência. Talvez, aquela coleguinha do primário, tenha chegado em casa e perguntado aos pais o que era ser uma “filha da puta”. Eu fico imaginando seus semblantes de espanto e asco, reprimindo a curiosidade da filha, na luta pela preservação da insígnia da boa família, no horror ao tabu.

Outro modo de romper com o estigma é alcançando espaços de prestígio antes impensados à trajetória de vida dos “bastardos”, fragilizando os pilares do ideal de família cristã burguesa, expondo as estratégias de estigmatização e desempoderando discursos misóginos e patriarcalistas. No entanto, estes espaços não estão à disposição, e sua conquista geralmente está acompanhada de um alto preço já tabelado pelos mesmos grupos dominantes, tornando este um processo lento e dificultoso. Até hoje, aos 25 anos, eu vejo expressões tristes, quando falo que não tenho pai, e surpresos dizem: “Nossa, mesmo sem pai você conseguiu!”. Eu fico sempre me perguntando: “Consegui o quê? O que eles esperavam?” Até hoje minha mãe é casada com meu padrasto, e me diz em segredo que só não se separa para não deixar meu irmão mais novo – filho dele – sem pai. Meu irmão mais velho sustenta seu casamento sobre o mesmo pilar do medo da rejeição que sua esposa sente após ter tido um filho.

A mulher é desde tenra idade ensinada, disciplinada, docilizada a vir a ser uma boa filha, esposa e mãe. Burlar estes papéis, ou até mesmo esta ordem ainda é um problema para muitas sociedades, assim como para muitas mulheres. A mulher que antes de esposa tornar-se mãe, que não segue esse script de virtude e valor social, sofre constrangimentos explícitos e sutis, uma vez que estas construções operam não somente no plano objetivo das relações entre os sujeitos, como no plano subjetivo, dos afetos e emoções dos indivíduos. Romper com essa visão da sagrada família que é culturalmente construída e socialmente ovacionada, que nos coagi e que ostraciza os que não se “adequam”, não é nada fácil. E o que pensamos ser “só culturalmente construído”, – como que, falsamente, inofensivo – pode sempre reaparecer como instrumento de opressão, estigma e deslegitimação, disfarçado de um assunto banal numa conversa qualquer entre desconhecidos.

– Filha de quem? – Perguntarão eles.

– Pois sou filha da puta e da hipocrisia. Sou filha da puta e do abandono.  Sou filha da puta e de um Zé ninguém.

Referência

(1) DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987.

Autora

Monalisa Ribeiro Gama é formada em História e graduanda em Ciências Sociais. Mestre em Ciências Sociais e Doutoranda na UFCG. Natural de Campina Grande, PB.

Cutia feminista

Texto de Adla Georginni para as Blogueiras Feministas.

Eu deveria ter uns seis ou sete anos quando um dia, ao sair do trabalho, meu pai me levou até um sebo que acabara de abrir na cidade. Naquela época, morávamos em Anápolis (GO), e ele sempre teve o hábito de comprar livros para mim, tanto que se hoje sou viciada em leitura, a maior parcela de culpa é dele.

Chegando ao sebo, meu pai deixou que eu escolhesse alguns livros, não me lembro dos outros, mas um deles escolhi pelo título engraçado. Era algo como “O noivo da cutia”. Levei para casa. Como eu tinha gostado tanto, resolvi ler primeiro.

Capa do livro 'O Noivo da Cutia' de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.
Capa do livro ‘O Noivo da Cutia’ de Joel Rufino dos Santos. Editora Ática.

A estória é basicamente assim: o jabuti e o teiú vivem competindo pela mão da cutia, um diz ser mais rápido, o outro mais forte e em nenhum momento um deles pergunta se a cutia está interessada, simplesmente continuam brigando e se desafiando. Até que uma hora os dois cansam e decidem confrontar a cutia. Eles vão até a casa dela e dizem autoritários que eles estão cansados de competir e que ela precisa pedir para o pai dela escolher um deles para ser seu marido. Mas eis que aí está melhor parte. A cutia responde que ela não vai escolher ninguém, pois não tem obrigação de casar com nenhum deles, que o tempo em que o pai escolhia o marido da filha havia passado e que hoje as mulheres têm o direito de escolher com quem vão casar, se querem casar ou não, que as mulheres têm a liberdade de fazerem o que quiserem e não o que o marido ou qualquer outro homem deixa ou manda. Então, ela terminou dizendo que não queria casar, virou as costas e seguiu seu caminho. Simples assim.

Quando eu terminei de ler, havia ficado sem palavras. Reli a fala da cutia várias vezes. Achei aquilo sensacional. Imagine para uma criança de seis ou sete anos que somente obedecia aos pais (muito religiosos), o que significava ter um pouco de liberdade. Eu não sabia o que era ser feminista naquela época, mas hoje sei que foi no momento em que terminei de ler o livro que uma faísca do feminismo se ascendeu em mim.

Encontrei tanto da cutia em mim, eu queria ser a cutia, queria ter a coragem de dizer que eu era dona de mim mesma, das minhas escolhas. Que quando eu crescesse casaria se quisesse, seria escritora e viajaria pela Europa. Foi naquele instante que eu descobri que tinha vontade própria, que eu poderia abraçar minha liberdade.  Foi ali, naquela última página, que tive minha primeira experiência com o feminismo.

Autora

Adla Georginni é uma feminista recém-formada, estudante de jornalismo e metida a blogueira. Rainha do drama em tempo integral, é fã de Agatha Christie e do mundo policial. Apaixonada por história, reclama da vida no @adlageorginni e escreve seus dramas reais (ou não) em http://adlageorginni.blogspot.com.br/