Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em meio a todas as polêmicas envolvendo Aquarius (2016), acredito que seja O filme brasileiro a ser visto esse ano. Isso não significa que achei o filme ótimo, nem que seja o melhor filme do ano, nem que deveria ter sido indicado ao Oscar. Para mim, em O Som ao Redor (2012), o diretor Kleber Mendonça trata com mais sutilezas as relações sociais desiguais brasileiras e o poder do mercado imobiliário. Porém, a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer em seu apartamento representa o atual momento político em que vivemos, em que é preciso deixar transparente de que lado estamos.

Porém, Aquarius é sobre Clara. Uma personagem feminina que foge do convencional, que junto com suas músicas apresenta uma interessante representação feminina para o cinema brasileiro. Clara convive com muitas mulheres e todas elas mostram um pouco do que é ser mulher nos dias atuais. O foco da história é Clara, uma mulher na faixa dos 60 anos, que se recusa a vender o apartamento em que viveu durante grande parte da vida para uma construtora que pretende fazer um grande prédio na orla da praia de Boa Viagem, em Recife. O filme é uma grande caixa de lembranças de Clara. Acompanhamos seus momentos no passado e também suas relações no presente com a família e amigos. Sua principal aliada é a empregada doméstica Ladjane (Zoraide Coleto).

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Minha cabeça não é pra isso! Da desconstrução da mentalidade acerca da inaptidão da mulher para tecnologia

Texto de Ana Rita Dutra para as Blogueiras Feministas.

Das lembranças que tenho da minha fase escolar, principalmente do ensino médio, as festas escolares marcaram bastante. Dia de festa na escola, a organização pautava por meninas decorarem a sala e meninos deveriam trazer o refrigerante. Hoje, ao olhar para este tempo, percebo que a divisão de tarefas pautada por gênero não estava presente somente nestes eventos festivos. Meninas deveriam jogar vôlei e pular corda na educação física, meninos correr e jogar futebol. Nas aulas de português e literatura meninas deveriam ler romance e escrever poesias, já os meninos deveriam ler jornal e notícias de esportes. A capacidade das meninas nas aulas de exatas eram questionáveis, pois para nosso sexo, raciocínio lógico e direto deveria ser trabalhoso.

As condições em que vivem homens e mulheres não são produtos de um destino biológico, mas, antes de tudo, construções sociais. Homens e mulheres não são uma coleção – ou duas coleções – de indivíduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que estão engajados em uma relação social específica: as relações sociais de sexo. (Kergoat, 2000, p. 55)

Estas relações sociais de sexo acabam levando meninos e meninas para caminhos distintos, ouso dizer que esta divisão não começa a ser fomentada na escola, mas muito antes no ventre materno, na maternidade, nas aquisições para um bebê já estamos imputando nesta criança papeis específicos e bem definidos de ser homem e ser mulher, juntamente com seu papel na sociedade. Para mulher lhe é delegado o sentimento, o lar, para o homem da porta para fora, o raciocínio e o mundo todo.

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Por uma não-monogamia possível

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Venho tentando escrever sobre esse assunto há algum tempo, com base em várias críticas que li e ouvi, conversas com amigas e companheiras de militância e, por conta de debates que foram surgindo criticando diversas situações problemáticas que apareceram na série de televisão Amores Livres do canal a cabo GNT. A proposta da série é apresentar pessoas em relacionamentos com dinâmicas não-monogâmicas diversas. O foco são as dinâmicas amorosas das relações, como os relacionamentos funcionam e, talvez por isso, muitas questões relacionadas à política tenham sido deixadas de lado.

Cena da série 'Amores Livres', exibida pelo canal a cabo GNT (2015).
Cena da série ‘Amores Livres’, exibida pelo canal a cabo GNT (2015).

Por não apresentar um discurso mais politizado, reforçando discursos sobre posse, mostrando dinâmicas machistas, bifóbicas e por mostrar casais muito dentro do padrão (branco, classe média, magros, etc,), a série recebeu diversas críticas no meio não-monogâmico. Porém, tenho percebido que algumas dessas críticas a série são, na verdade, críticas à comunidade não-monogâmica como um todo. Outras tem a ver com a falta de representatividade e também com a representação de diversas situações e falas que entendemos como não-saúdaveis num relacionamento desse tipo. Além, é claro, de uma cobrança feita às personagens que observo muitas vezes ocorrendo por parte de mulheres militantes que se envolvem nessas relações.

A vida seria bem mais fácil se existisse uma “receita de bolo”, se em 10 passos ou 7 dias alcançássemos os níveis máximos de inteligência emocional e maturidade política para ter um ideal de relacionamento não-monogâmico, que não fosse opressor de forma alguma. Com algum tempo de experiência alcançaríamos até uma patente que nos blindaria de críticas aos nossos posicionamentos e nos eximiria de passar por qualquer dificuldade ou violência nas relações. Por vezes fico observando que muitas mulheres parecem buscar algum tipo de guia prático de como se tornar uma feminista não-monogâmica politicamente coerente e inabalável emocionalmente.

Se relacionar de forma não-mogâmica é também mudar a forma com que você vê e vive todas suas relações. É conviver com o fantasma do modelo romântico e monogâmico de relacionamentos. Além de termos de lidar com os diversos preconceitos já tão difundidos, não vamos achar numa capa de revista aquele guia básico de como deixar de sentir ciúmes e sentir apenas compersão, ou “escolha a melhor dinâmica de relacionamento não-monogâmico para vocês”, ou “como organizar sua agenda sem negligenciar as necessidades das pessoas com quem você se relaciona”, ou “como finalmente saber separar sentimentos reais de construções sociais impostas pela sociedade”, ou ainda “descubra o momento certo de revelar sua não-monogamia para amigos, familiares e colegas de trabalho”, ou quem sabe “evite constrangimentos ao dialogar sobre novas dinâmicas ou pessoas nas relações”. Ou seja, não temos referências fáceis para buscar soluções para os nossos problemas. E, a bem da verdade, muitas dessas questões nunca serão solucionadas.

A vida, as experiências, as pessoas, os sentimentos, as relações não são tão simples ou lineares. Independente da forma de organização dos relacionamentos temos sempre desafios a enfrentar. Viver a prática dessas relações não-monogâmicas, praticando também o feminismo, é viver um processo de aprendizado contínuo. Conhecimento e experiência podem nos alertar sobre certos desafios, e aí quando possível evitamos certas dificuldades. Mas, nada nos exime de passar por certas experiências, de sofrer ou até mesmo fazer sofrer em determinados contextos.

Um relacionamento não-monogâmico não vai por si só destruir todas as estruturas de poder existentes entre as pessoas, a sociedade já está moldada dessa forma, ainda que desafiemos em algum nível essa lógica. Não vai também resolver todos os problemas emocionais ou curar desilusões de relacionamentos anteriores. Pessoas não-monogâmicas não são seres iluminados a prova de erros ou imunes à armadilhas, violência emocional ou relacionamentos abusivos. Aliás, essa postura — muitas vezes sustentada dentro de determinados grupos e por certas pessoas — só faz com que aumente nossa cobrança interna para ter uma relação tão perfeita quanto essas pessoas dizem ter e que muitas vezes (ou talvez todas) está longe da realidade.

Primeiro, o mais importante é que estamos falando de relações. Isso quer dizer que além dos fatores pessoais, estamos lidando com aquilo que está na(s) outra(s) pessoa(s). E além disso, existe esse negócio muito simples e ao mesmo tempo extremamente complexo que é a comunicação. Precisamos numa relação não-monogâmica desafiar a lógica do silêncio que permeia a sociedade e se abrir para a(s) pessoa(s) com quem nos relacionamos, para falar sobre coisas que aprendemos durante toda a vida que deveríamos ignorar ou sentirmos culpa de sentir.

Não quero dizer com isso tudo que devemos parar de buscar melhores arranjos de relações, melhores formas de diálogo, desconstruir sentimentos e opressões (como o racismo, o machismo, o ciúme, a carência, dependência emocional, etc.). Ou ainda que é ok negligenciar as demandas ou os sentimentos das pessoas que vivem opressões que nós não vivemos. Pelo contrário. Mas, observo muito a cobrança para que um relacionamento não-monogâmico atinja um ideal político e essa pressão acaba caindo muito mais em cima das mulheres envolvidas. Isso nos expõe (e quanto mais opressões sofremos mais expostas ficamos) e nos traz ainda mais desgaste, além do que já existe dentro de um relacionamento fora da norma.

Não é a toa que tantas críticas tem sido feitas sobre quão privilegiadas costumam ser as pessoas praticantes da não-monogamia. Para as mais oprimidas o peso é maior, e as cobranças são maiores ao se assumir um relacionamento fora do padrão. É muito importante buscar uma forma não-opressora de se relacionar, e essa busca deve vir principalmente das pessoas mais privilegiadas (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, classe média, etc). São essas pessoas que devem ser cobradas. Porém, o que tenho observado é exatamente o contrário. Aliás, já vi muitas mulheres extremamente oprimidas sendo colocadas na fogueira por escolhas que seus parceiros impuseram nas relações. Precisamos mudar esse cenário.

+ Sobre o assunto:

[+] Abrindo o código dos ciúmes: sobre sentir compersão desde a monstruosidade.

[+] Às mulheres dos meus companheiros*, ou o que eu posso dizer sobre não-monogamia.

[+] “Amores Livres”: escolhas possíveis.

[+] A violência de gênero e o amor romântico.

[+] Monogamia, Liberdade e Feminismo.

[+] Uma biscate casada ou não: sobre a não monogamia.

[+] Sin tiempo para el amor: el capitalismo romántico.

[+] El poliamor ‘is the new black’*.

[+] 9 Strategies For Non-Oppressive Polyamory.