A força desconhecida das mulheres

Texto de Maravilha Paz para as Blogueiras Feministas.

O patriarcado é um sistema social pensado, planejado e executado pelos homens em benefício dos mesmos. Nesse sistema, o papel a ser assumido pela mulher é o de total submissão, impedindo-a de obter maior liberdade no seu modo de pensar ou agir. Dessa forma, dificilmente os homens aceitarão a chegada das mulheres ao poder o que nos leva a uma necessária revolução social. Porém, de nada adianta uma revolução feminista se as mulheres não forem as protagonistas. É fundamental que elas liderem e implementem ações necessárias para a valorização feminina e para o fim do machismo na sociedade.

Para que ocorra a consumação desta revolução feminista na sociedade é preciso a adoção de medidas práticas que empoderem as mulheres. É fácil observar que a maioria das áreas de poder e decisão são áreas predominantemente masculinas e se tornam instrumentos da subjugação das mulheres aos homens. Por conta disso, é fundamental uma maior participação feminina em cargos decisórios para que obtenhamos maior representatividade social e empoderamento, gerando a tão sonhada equidade de gênero.

Entretanto, a grande problemática enfrentada pelas mulheres são os elevados índices de violência, o que nos deixa em situação bastante vulnerável. A ineficácia do Estado em garantir uma segurança pública e medidas de proteção efetivas para as mulheres só contribui para aumentar a sensação de impunidade. É preciso ao menos minimizar esse quadro tão absurdo, aumentando a autoconfiança das mulheres e freando a agressividade desmedida dos homens agressores. Por isso, acredito que a autodefesa é uma das ferramentas que podemos usar para isso. Precisamos incentivar as mulheres a descobrirem sua força física. O uso da força sempre foi um instrumento de dominação masculina, por isso, precisa ser absorvido pelas mulheres como forma de autodefesa do gênero.

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Autodefesa feminista e o mito da fragilidade: você é mais forte do que pensa

Texto de Cely Couto para as Blogueiras Feministas.

Que o feminismo empodera e dá voz às mulheres, é fato. Mas quando o assunto é violência de gênero, muitas de nós se sentem completamente impotentes diante de uma situação de agressão física, psicológica ou sexual. Podemos enfrentar a violência no âmbito político, fortalecer políticas públicas de proteção às mulheres, discutir a eficiência das delegacias da mulher e da Lei Maria da Penha, mas o estigma de que o homem é fisicamente superior e de que sempre seremos oprimidas pela força ainda nos assombra.

Somos convencidas de que o potencial físico das mulheres é inferior e de que, no limite, sempre vamos levar a pior em um confronto com um homem. Coincidentemente, essa suposta superioridade física masculina ainda é usada para justificar o domínio de um gênero sobre o outro, por mais que seja um argumento que não cabe em uma sociedade que – pelo menos na teoria – aboliu a “lei do mais forte” e caminha na direção de um mundo não-violento.

Mas, afinal, as mulheres são mesmo mais fracas do que os homens? Para começar a responder a essa pergunta, precisamos rever uma das maiores falácias da história: o mito da fragilidade.

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Gulabi Gang, um exemplo a ser seguido

Esse texto foi escrito para a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher. Para a melhor compreensão dos assuntos tratados, recomenda-se a leitura da entrevista cedida por Sampat Pal Devi, fundadora do Gulabi Gang.

Documentário sobre o Gulabi Gang – Foto de Torstein Grude, Piraya Film

É fato conhecido a dificuldade de ser mulher no Brasil; o machismo ainda é uma característica predominante em nosso país, profundamente enraizado na cultura brasileira. Contudo, uma mulher brasileira pode enfrentar um grande choque de realidade ao se ver inserida em outras culturas, tal como a cultura indiana. O preconceito e as barreiras impostas às mulheres no Brasil e na Índia, no entanto, se assimilam bastante, o que torna o intercâmbio de conhecimento uma experiência amplamente enriquecedora para todas as partes.

O Gulabi Gang, um grupo de ativismo para combater a violência contra a mulher na Índia, é um exemplo de união e solidariedade entre mulheres e tem muito a oferecer ao movimento feminista no Brasil. A luta do Gulabi Gang é composta de ativismo real, que se empenha não apenas em questionar as condições da mulher, como também em oferecer suporte àquelas que se encontram em situações de risco.  Esses esforços nos acordam para a realidade de violência que atinge milhares de mulheres diariamente, um tipo de experiência insubstituível, cuja lacuna não pode ser preenchida por nenhum estudo acadêmico.

Como explica a fundadora do Gulagi Gang, Sampat Pal Devi, ser mulher na Índia não é uma das melhores experiências do mundo. A violência contra a mulher é explícita; não somente na intensidade das torturas e espancamentos, mas também nos diversos modos como é veiculada. Essa violência também é representada pela quantidade assustadora de estupros e pela poderosa rejeição aos fetos e bebês do sexo feminino – quase sempre abortadas ou assassinadas ao nascer, o que leva a um sério desbalanceamento na população. Embora a imposição de papéis de gênero, que ditam a forma como a mulher deve agir e viver, seja um problema gravíssimo, é difícil comparar a severidade da situação perto das demais violências que as mulheres indianas enfrentam.

As consessões e proibições feitas às mulheres indianas variam de acordo com a classe social, mas a essência da subjugação feminina permanece a mesma. Enquanto as meninas mais pobres não podem estudar, as mais ricas são pressionadas a fazerem-no; nenhuma mulher está livre da pressão para o enquadramento nas expectativas da sociedade. Mesmo mulheres bem sucedidas e supostamente privilegiadas são oprimidas; geralmente vítimas de casamento forçado, têm como único papel relevante o de trazer filhos homens à famíia. E para quem se deixa levar pela origem indiana do Kama Sutra, só lhe resta engano: a sexualidade é um dos maiores tabus na Índia, sendo considerado um tema despudorado até mesmo para os homens. Mesmo em pleno século XXI, a valorização da virgindade e da inexperiência sexual e amorosa das mulheres é elevada a extremos na Índia.

Mulheres do Gulabi Gang treinando defesa pessoal – Foto de Sanjit Das

É importante, contudo, não se deixar levar pela idéia de que as mulheres na Índia vivem uma realidade tremendamente distante da nossa. Esse raciocínio pode ser bastante perigoso e etnocêntrico, ao passo que mulheres indianas não são meros objetos de pena e empatia. Além disso, essa reflexão tem o potencial de se tornar em uma armadilha ideológica, causando a ilusão de que a situação das mulheres brasileiras é menos pior do que realmente é. Apesar da situação delicada das mulheres na Índia, não podemos esquecer do machismo que acomete as que vivem em nosso próprio país: nossa cultura também permite que mulheres sejam espancadas, estupradas e até queimadas vivas. Embora cada mulher tenha sua vivência específica – muitas vezes influenciada por outras interseccionalidades, como classe social, sexualidade ou etnia – não devemos perder de vista aquilo que provoca todos os tipos de mulheres. Afinal, mesmo com todas as suas diferenças, mulheres ao redor do mundo inteiro compartilham entre si o fato de que são vítimas de violência somente por serem mulheres.

É interessante observar que o Gulabi Gang tem uma abordagem muito semelhante à segunda onda feminista, tendo como principal foco a urgência pela defesa de vidas e acesso a direitos básicos, tais como estudar e trabalhar. Embora o ativismo mais voltado para questionamentos  teóricos, comumente praticado em meios acadêmicos ou na internet, seja importante para o movimento feminista, não devemos esquecer que as demandas do Gulabi Gang quanto às questões de violência são pertinentes também em nosso país, devido à enorme incidência de espancamentos, assassinatos e estupros em terras brasileiras.

O Gulabi Gang nos ensina uma valiosa lição: um passo de cada vez, esse grupo de indianas tem transformado sua realidade local e levado a outros lugares do mundo uma mensagem de união que jamais deveria ser esquecida por nenhuma mulher. Sejam indianas, brasileiras ou de qualquer outra nacionalidade, etnia ou cultura, mulheres ao redor de todo o planeta devem lutar em solidariedade com o objetivo comum de tornar sua existência no mundo uma experiência mais agradável.