Autodefesa feminista e o mito da fragilidade: você é mais forte do que pensa

Texto de Cely Couto para as Blogueiras Feministas.

Que o feminismo empodera e dá voz às mulheres, é fato. Mas quando o assunto é violência de gênero, muitas de nós se sentem completamente impotentes diante de uma situação de agressão física, psicológica ou sexual. Podemos enfrentar a violência no âmbito político, fortalecer políticas públicas de proteção às mulheres, discutir a eficiência das delegacias da mulher e da Lei Maria da Penha, mas o estigma de que o homem é fisicamente superior e de que sempre seremos oprimidas pela força ainda nos assombra.

Somos convencidas de que o potencial físico das mulheres é inferior e de que, no limite, sempre vamos levar a pior em um confronto com um homem. Coincidentemente, essa suposta superioridade física masculina ainda é usada para justificar o domínio de um gênero sobre o outro, por mais que seja um argumento que não cabe em uma sociedade que – pelo menos na teoria – aboliu a “lei do mais forte” e caminha na direção de um mundo não-violento.

Mas, afinal, as mulheres são mesmo mais fracas do que os homens? Para começar a responder a essa pergunta, precisamos rever uma das maiores falácias da história: o mito da fragilidade.

Continue lendo “Autodefesa feminista e o mito da fragilidade: você é mais forte do que pensa”

Gulabi Gang, um exemplo a ser seguido

Esse texto foi escrito para a campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher. Para a melhor compreensão dos assuntos tratados, recomenda-se a leitura da entrevista cedida por Sampat Pal Devi, fundadora do Gulabi Gang.

Documentário sobre o Gulabi Gang – Foto de Torstein Grude, Piraya Film

É fato conhecido a dificuldade de ser mulher no Brasil; o machismo ainda é uma característica predominante em nosso país, profundamente enraizado na cultura brasileira. Contudo, uma mulher brasileira pode enfrentar um grande choque de realidade ao se ver inserida em outras culturas, tal como a cultura indiana. O preconceito e as barreiras impostas às mulheres no Brasil e na Índia, no entanto, se assimilam bastante, o que torna o intercâmbio de conhecimento uma experiência amplamente enriquecedora para todas as partes.

O Gulabi Gang, um grupo de ativismo para combater a violência contra a mulher na Índia, é um exemplo de união e solidariedade entre mulheres e tem muito a oferecer ao movimento feminista no Brasil. A luta do Gulabi Gang é composta de ativismo real, que se empenha não apenas em questionar as condições da mulher, como também em oferecer suporte àquelas que se encontram em situações de risco.  Esses esforços nos acordam para a realidade de violência que atinge milhares de mulheres diariamente, um tipo de experiência insubstituível, cuja lacuna não pode ser preenchida por nenhum estudo acadêmico.

Como explica a fundadora do Gulagi Gang, Sampat Pal Devi, ser mulher na Índia não é uma das melhores experiências do mundo. A violência contra a mulher é explícita; não somente na intensidade das torturas e espancamentos, mas também nos diversos modos como é veiculada. Essa violência também é representada pela quantidade assustadora de estupros e pela poderosa rejeição aos fetos e bebês do sexo feminino – quase sempre abortadas ou assassinadas ao nascer, o que leva a um sério desbalanceamento na população. Embora a imposição de papéis de gênero, que ditam a forma como a mulher deve agir e viver, seja um problema gravíssimo, é difícil comparar a severidade da situação perto das demais violências que as mulheres indianas enfrentam.

As consessões e proibições feitas às mulheres indianas variam de acordo com a classe social, mas a essência da subjugação feminina permanece a mesma. Enquanto as meninas mais pobres não podem estudar, as mais ricas são pressionadas a fazerem-no; nenhuma mulher está livre da pressão para o enquadramento nas expectativas da sociedade. Mesmo mulheres bem sucedidas e supostamente privilegiadas são oprimidas; geralmente vítimas de casamento forçado, têm como único papel relevante o de trazer filhos homens à famíia. E para quem se deixa levar pela origem indiana do Kama Sutra, só lhe resta engano: a sexualidade é um dos maiores tabus na Índia, sendo considerado um tema despudorado até mesmo para os homens. Mesmo em pleno século XXI, a valorização da virgindade e da inexperiência sexual e amorosa das mulheres é elevada a extremos na Índia.

Mulheres do Gulabi Gang treinando defesa pessoal – Foto de Sanjit Das

É importante, contudo, não se deixar levar pela idéia de que as mulheres na Índia vivem uma realidade tremendamente distante da nossa. Esse raciocínio pode ser bastante perigoso e etnocêntrico, ao passo que mulheres indianas não são meros objetos de pena e empatia. Além disso, essa reflexão tem o potencial de se tornar em uma armadilha ideológica, causando a ilusão de que a situação das mulheres brasileiras é menos pior do que realmente é. Apesar da situação delicada das mulheres na Índia, não podemos esquecer do machismo que acomete as que vivem em nosso próprio país: nossa cultura também permite que mulheres sejam espancadas, estupradas e até queimadas vivas. Embora cada mulher tenha sua vivência específica – muitas vezes influenciada por outras interseccionalidades, como classe social, sexualidade ou etnia – não devemos perder de vista aquilo que provoca todos os tipos de mulheres. Afinal, mesmo com todas as suas diferenças, mulheres ao redor do mundo inteiro compartilham entre si o fato de que são vítimas de violência somente por serem mulheres.

É interessante observar que o Gulabi Gang tem uma abordagem muito semelhante à segunda onda feminista, tendo como principal foco a urgência pela defesa de vidas e acesso a direitos básicos, tais como estudar e trabalhar. Embora o ativismo mais voltado para questionamentos  teóricos, comumente praticado em meios acadêmicos ou na internet, seja importante para o movimento feminista, não devemos esquecer que as demandas do Gulabi Gang quanto às questões de violência são pertinentes também em nosso país, devido à enorme incidência de espancamentos, assassinatos e estupros em terras brasileiras.

O Gulabi Gang nos ensina uma valiosa lição: um passo de cada vez, esse grupo de indianas tem transformado sua realidade local e levado a outros lugares do mundo uma mensagem de união que jamais deveria ser esquecida por nenhuma mulher. Sejam indianas, brasileiras ou de qualquer outra nacionalidade, etnia ou cultura, mulheres ao redor de todo o planeta devem lutar em solidariedade com o objetivo comum de tornar sua existência no mundo uma experiência mais agradável.

Defesa pessoal: conheça sua força

Lisbeth Salander sofre tiração de sarro de coleguinhas na escola. Vê a mãe ser constantemente espancada pelo marido, seu pai. Aos 12 anos, é trancafiada de forma abusiva por seu psiquiatra. Anos mais tarde, é assediada por um homem mais velho no metrô. Apanha de uma gangue de bêbados. É estuprada por seu guardião legal. E é quase morta por seu pai e por seu irmão.

Lisbeth Salander sai sozinha de todas essas situações. Apesar de ser minúscula e magrinha, aprendeu, desde muito cedo, a defender a si mesma. A lei a decepcionou. As instituições a deixaram na mão. Ela conta apenas com ela mesma.

Lisbeth Salander é um personagem de ficção. Criada pelo sueco Stieg Larsson, é a heroína da trilogia Millennium, que começa com o livro – que virou filme – Os homens que não amavam as mulheres. É um dos personagens femininos mais complexos, cativantes e poderosos que já vi. E ela tem uma lição a ensinar a todas nós, mulheres: a importância de saber defender-se. Detalhes literários à parte (memória fotográfica e habilidades únicas com computadores), muito do que Lisbeth faz é praticado, e ensinado, todos os dias por mulheres ao redor do mundo. É a arte da auto-defesa, e vale muito a pena aprender mais sobre ela.

No meu caso, tomei contato com a arte da auto-defesa, e auto-defesa feminista, em uma oficina. Ministrando e participando da sessão, apenas mulheres. Não se pode discutir as técnicas aprendidas com outras pessoas, principalmente homens. Isso porque, sendo essa uma aula de auto-defesa feminista, sabe-se que muitos dos agressores não são desconhecidos, mas pessoas próximas, em quem as vítimas confiam. E nesse caso o elemento-surpresa é fundamental para garantir a vantagem da mulher.

Estratégia de resistência

Lisbeth e seu tutor: ele nem imaginava que estava brincando com fogo. Cena do filme sueco "Os homens que não amavam as mulheres" (2009)

Os grupos de auto-defesa feminina e feministas surgiram há bastante tempo, nos anos 1970. Porém, segundo as pesquisadoras Lorena Lúcia Cardoso Monteiro e Loreley Gomes Garcia, da UFPB, que fizeram um estudo muito interessante sobre o tema, a defesa pessoal ainda é pouco comentada e pouco estudada nos âmbitos da academia e do feminismo. Talvez, e essa é uma interpretação minha, por dar margem para a ideia de que seria possível culpar a mulher pela violência: afinal, ela poderia ter se defendido, e se não o fez, é culpa dela. Os grupos que trabalham com defesa pessoal da mulher, porém, estão longe desse pensamento. Eles querem o empoderamento e a resistência das mulheres. Querem que elas tenham armas para se defender, quando as instituições falham e a violência de gênero surge. Em nenhum momento existe a possibilidade de se condenar a mulher por ter sofrido violência, seja por suas roupas, por seus atos, pela forma como agiu. A ideia é que cada mulher faz o melhor que pode com o conhecimento que tem em cada momento, e a culpa de uma violência nunca, nunca é dela.

Um dos grupos mais conhecidos de auto-defesa da mulher surgiu no Canadá, na década de 1970, quando um casal de praticantes de artes marciais souberam que sua vizinha fora espancada e estuprada pelo marido dentro de casa, e morrera em decorrência dos ferimentos (outra versão atesta que a técnica surgiu por conta da repercussão do assassinato de Kitty Genovese, em Nova York). Eles decidiram então criar um programa de defesa pessoal para mulheres, que não precisasse de técnicas complexas e pudesse ser executado por mulheres de todos os tamanhos, compleições físicas e níveis de força. Até mesmo portadoras de deficiências físicas ou com restrições de mobilidade podem ser treinadas pelo programa. Desde o início, a técnica canadense teve uma perspectiva não só feminina, mas feminista, ao se propor a ser um espaço para pensar a violência de gênero. Ao contrário de muitos cursos que existem por aí (e que não deixam de ter sua validade), as técnicas ensinadas não são apenas físicas, com golpes e formas de se desvencilhar deles, mas também abordam a violência verbal e psicológica, assim como uma discussão mais ampla: o que é violência para cada mulher? Aprende-se a delimitar o próprio espaço e os níveis de interação com que cada mulher se sente confortável.

Outros grupos têm uma abordagem parecida; no Canadá, por exemplo, são programas como Wenlido, Actions e Instincts, oferecidos por diferentes entidades. Essas técnicas em geral são flexíveis e se adaptam à realidade de cada local. Uma outra técnica é o Model Mugging, criado em 1971 por Matt Thomas, depois do estupro e agressão de uma colega de dojo que era faixa-preta de karatê. Apesar do seu treinamento, ela não estava preparada para lidar com uma situação real de agressão. Essa técnica se distingue pelo treinamento com um instrutor vestido com uma roupa especial, uma espécie de armadura, que permite que as mulheres treinem os golpes pra valer.

Existem ainda outras abordagens. Na Índia, por exemplo, existem grupos de mulheres como a Pink Sari Gang, mulheres do distrito de Banda que se vestem de rosa e praticam a defesa pessoal por meio de um instrumento chamado lathi, um tradicional pau indiano, como arma. Na realidade dessas mulheres, a polícia é corrupta e o governo não liga para as mulheres e para os pobres, portanto, elas se armam para se defender. O trabalho de Lorena e Loreley aponta para a existência de outros grupos, como o de idosas da favela de Korogocho, na periferia de Náirobi, no Quênia, que aprendem a se defender para escapar dos frequentes estupros na comunidade; lá existe a crença que sexo com idosas protege do HIV, dá boa sorte, ou, simplesmente, é bom porque elas têm menos chance de ter doenças sexualmente transmissíveis. Quando o trabalho da UFPB foi escrito, em 2010, a aluna mais velha do grupo do Quênia tinha quase cem anos.

Para todas as mulheres

A pequenina e anti-social Lisbeth é um ícone do poder de defesa das mulheres. Cena do filme sueco "Os homens que não amavam as mulheres" (2009)

A menção da idade dessa senhora pode levar à pergunta: como pessoas fracas, idosas, pequenas ou com alguma deficiência, por exemplo, podem dar conta de vencer um agressor maior, mais forte, mais preparado? Bem, talvez não seja possível dominá-lo e nocauteá-lo em definitivo; mas o objetivo aqui não é vencer a briga, e sim desvencilhar-se da situação. Dá pra distrair o agressor o suficiente, ou imobilizá-lo por segundos preciosos, para poder sair correndo e buscar ajuda, por exemplo. Algumas pesquisas mostram a eficácia de se defender:

– resistir pode diminuir a chance de “sexual assault” (agressão sexual) completada em 70% a 80%;
– 81% das mulheres que correram evitaram a agressão sexual;
– 68% das mulheres que se defenderam de forma física evitaram a agressão sexual;
– 63% das mulheres que gritaram evitaram a agressão sexual;
– resistir fisicamente está mais associado a evitar a agressão do que a mais danos físicos;
– quanto mais estratégias de defesa uma mulher usa, maiores as chances de elas serem efetivas;
– quanto mais desconfiada a mulher for e mais rápido ela responder à situação, maiores as chances de a defesa ser efetiva;
– não fazer nada aumenta as chances de a violência ocorrer;
– saber defesa pessoal está associado a evitar agressões.

(Aqui, vale lembrar que as técnicas são usadas para se defender da violência de gênero. Não é o caso de reagir a um assalto a mão armada, mas pode-se evitar consequências mais graves de um estupro, por exemplo. Por isso, é importante fazer um curso ou oficina especializados, pois depois de décadas de treinamento e uso das técnicas, descobriu-se o que funciona melhor em cada situação. Mesmo assim, fica o lembrete: cabe a cada mulher decidir qual estratégia usar em cada caso, pois só ela sabe de seu momento e de suas circunstâncias.)

Um dos slogans usados em algumas oficinas de defesa pessoal é: conheça sua força. Pois é possível aprender a usar partes do corpo que nem imaginávamos para nos defender; e descobrir que somos mais fortes do que pensamos, e fomos levadas a crer desde sempre (e descobrir que mesmo o agressor mais forte tem pontos fracos). Na pesquisa de Lorene e Loreley, percebeu-se uma nova atitude entre as mulheres participantes das oficinas; uma atitude refletida na maior auto-confiança, na diminuição da timidez, no sentimento de segurança, na postura e na expressão corporal, no maior domínio da comunicação, no conhecimento, mesmo, da própria capacidade. Empoderamento, enfim. Empoderamento que vem de saber-se forte, mas também de saber-se ligada a outras mulheres por meio de técnicas, falas, histórias de vida. Empoderamento que, se não erradica a violência nem elimina o fato de que muitas vezes teremos que passar por ela, seja numa situação grave de estupro, no assédio moral de um colega de trabalho ou em uma cantada inconveniente na rua, ao menos dá mais confiança e força para seguir em frente e acreditar nos próprios recursos, sem esperar que as instituições mudem para agirmos. Temos tantos recursos, e força, quanto Lisbeth Salander ou as indianas do sári rosa. Só precisamos aprender a acioná-los.