#TodasPorLAMM

Por Stella Florence para as Blogueiras Feministas.

Olá, meninas. Tenho um caso terrível para compartilhar com vocês.

Você ouviu falar do caso de uma adolescente de 16 anos que foi estuprada pelo avô? Pois é, uma monstruosidade repulsiva. Mais repulsiva ainda (e, na minha opinião, um novo estupro) é a sentença do juiz Eduardo Luiz de Abreu Costa que absolveu o criminoso jogando a culpa em LAMM, que ficou paralisada de terror durante a violência. O magistrado alega que o estupro não ficou suficientemente provado, leia um trecho:

“A não anuência à vontade do agente para a configuração de crime de estupro deve ser séria, efetiva, sincera e indicativa de que o sujeito passivo se opôs, inequivocadamente, ao ato sexual, não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte. (…) Não há prova segura e indene de que o acusado empregou força física suficientemente capaz de impedir a vítima de reagir. A violência material não foi asseverada, nem esclarecida. A violência moral, igualmente, não é clarividente, penso”.

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Quando o feminismo é uma marca

Texto de Kitty Stryker. Publicado originalmente com o título: ‘When Feminism Is a Brand’ no Medium em 28/11/2015. Tradução de Tassia Cobo para as Blogueiras Feministas.

Precisamos falar sobre o número cada vez maior de homens como James Deen, que utiliza o feminismo como uma identidade comercial para camuflar seu comportamento abusivo.

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Quando a artista e roteirista Stoya twittou que seu ex, o queridinho da indústria pornô, James Deen, havia ignorado suas palavras de segurança(1) e a estuprado, eu tenho que admitir que não fiquei horrivelmente surpresa. Sendo alguém que faz parte dessa indústria, eu já tinha ouvido rumores que ele não era uma pessoa muito confiável com quem se trabalhar, algo que me fez levantar as sobrancelhas a respeito do trabalho dele sobre consentimento, mas nada específico, que eu pudesse apontar. Uma outra ex-namorada, Joanna Angel, também postou no Twitter em apoio a Stoya, que não voltou à rede desde sua declaração. Deen e sua equipe de relações públicas ficaram notavelmente em silêncio.

Seus dois tweets lançaram a hashtag #solidaritywithstoya, com uma enxurrada de pessoas manifestando decepção, choque e um sentimento de traição. Ele deveria ser “um dos caras bonzinhos” – afinal de contas, Deen passou algum tempo se cultivando como uma marca, a de um homem feminista na indústria pornográfica. Ele foi uma parte ativa do Project Consent (Projeto Consentimento), inclusive. Ele ficou muito bravo com os casos de racismo no meio pornô. Ele foi chamado de “a cara aceitável do pornô” e aclamado por ser um astro pornô que as mulheres se sentiam bem em assistir, justamente por ser tão ético.

Bem.

Algumas pessoas já estão usando esse caso como uma prova de que o pornô é abusivo. Eu realmente acredito que precisamos discutir a maneira com que as intersecções entre capitalismo, patriarcado e supremacia branca se entrelaçam para criar um ambiente particularmente tóxico na indústria do sexo, um dos poucos segmentos no qual uma “posição” estreante normalmente paga às mulheres um salário bem mais alto que o dos homens. As pessoas na indústria que passaram por estupro, abuso e coerção tendem a permanecer em silêncio, por medo de perder trabalhos (como foi visto com o Kink.com há alguns anos). As pessoas que tomam a frente e falam são frequentemente assediadas, as vítimas são culpabilizadas e por fim têm os discursos desconstruídos, como se fosse “uma invenção”. Produtoras de filmes e os diretores, incluindo alguns muito descolados que se dizem “feministas”, têm a política de “se não aconteceu no set de filmagens, não é meu problema”. Esta, definitivamente, é uma questão que precisa ser discutida e abordada seriamente, não apenas por razões éticas (embora isso devesse ser bom o bastante), mas por razões trabalhistas.

Eleve isto para a “positividade do sexo”(2), em geral, e eu posso lhe contar que quando eu levei depoimentos para a Consent Culture sobre abuso no BDSM, muitos agressores reincidentes eram “pilares da comunidade”, como líderes, palestrantes, anfitriões de festas. Enquanto os homens brancos cis têm o poder de conseguir sexo sem consequências, e enquanto ignorarmos o impacto desse privilégio na indústria do sexo, eu acredito que o termo “positividade do sexo” tem sido mal utilizado e isso pode ser um escudo que protege os assediadores de serem responsabilizados.

No entanto, não podemos esquecer que já vimos esse comportamento antes, em ambientes que não tem nada a ver com a indústria do sexo, ou até mesmo com o sexo em geral. Lembram-se de Hugo Schwyzer? Ou de Hart Noecker? Ou Kyle Payne? Todos, supostamente, auto-intitulados como homens feministas, aliados, autores de textos sobre justiça social(3) e ativistas. Todos acusados de estupro e/ou de abusarem de mulheres na surdina.

Isto não diz respeito ao sexo. Isto diz respeito ao poder. E esse poder, misturado com uma masculinidade tóxica, é um veneno que afeta todos os aspectos da vida, não apenas a indústria do sexo. Enquanto a indústria pornográfica não pode e não deveria ignorar isso, e precisa parar de fingir que o pornô não é político, a questão estrutural desse problema é muito mais abrangente.

Quero acrescentar que isso também diz respeito, em minha opinião, a quanto valorizamos e encorajamos o narcisismo quando conversamos sobre como os homens deveriam se comportar. Esses homens aparentemente compartilham tendências narcisistas, sejam identificáveis ou não. A maioria deles (senão todos) se recusam a ceder espaço para vozes mais marginalizadas que as deles, algo que demonstraria que eles agem como aliados. E muitos deles fazem questão de mostrar o quão vulneráveis são, como têm problemas, a fim de garantir que atraiam cuidadores como uma chama atrai mariposas. Eles podem se alimentar da empatia de um cuidador enquanto garantem que esse cuidador, (frequentemente uma mulher), duvide de sua própria mente quando começa a desconfiar que talvez esteja sendo manipulada.

Pensando em meu próprio histórico de namoros, algumas de minhas relações mais complicadas foram com homens que contavam essa historinha. O ex que me jogou de um lance de escadas e me aterrorizou (e a sua mãe) jogando pratos era um ativista do feminismo, passando grande parte de seu tempo em trabalhos voluntários em espaços feministas. O ex que usava seu capital erótico para manter suas amantes (muito menos privilegiadas) se sentindo inseguras e instáveis… quem as colocou em casos de gaslighting(4) e as negligenciou quando confrontado? Ele disse todas as coisas certas sobre racismo institucionalizado e sexismo. Eu permaneci nessas relações porque eu acreditei que eles estavam lutando contra a opressão, desculpei suas manipulações e seu abuso emocional como se fossem questões de saúde mental com as quais eu devesse ter paciência. Talvez eles estivessem tentando compensar os desequilíbrios de seus privilégios… mas eles certamente se aproveitaram muito desses privilégios quando lhes serviu.

Em uma ocasião eu fui avisada para “tomar cuidado” com o que eu dizia, porque ele era “mais discreto” do que eu. Em outra, fui ameaçada se viesse a público falar. Os homens que colocam a justiça social no centro de sua identidade podem se tornar perigosamente defensivos se suas ações são criticadas. Eles se tornam dependentes de ter mulheres em suas vidas para apoiá-los, para que eles não percam sua credibilidade feminista – e então, exigem nosso silêncio. Ouso dizer que eles dependem de nosso próprio entendimento de suas falhas, das maneiras como o patriarcado machuca os homens, para se prevenirem que estraçalhemos sua fachada. Vir a público falar é, de qualquer maneira, aterrorizante e necessário, e espero que Stoya tenha todo o apoio que precisa para falar suas verdades e começar a se recuperar.

Você, como homem – quer fazer algo a respeito disso? Fale com outros homens. Ouça os marginalizados e suas experiências, mesmo que (talvez especialmente quando) o acusado “pareça ser um cara legal” ou “é um amigo”. Vocês precisam se confrontar uns aos outros. Vocês precisam tomar a frente e falar quando veem assédio nas ruas. Vocês precisam parar com as piadas sobre estupro. Vocês precisam dizer a outros homens que falar sobre nós, mulheres, como se fôssemos prêmios sexuais a serem conquistados não é legal.

Não se intitule como um aliado. Seja um.

Autora

Kitty Striker é escritora e artista pornô plus size. Trabalha na Trouble Films, uma empresa que produz filmes pornô com temática queer e indie. É cofundadora do Kinky Salon London e fundadora do ConsentCulture.com. Twitter: @kittystryker. Você pode apoiar seu trabalho fazendo doações em dinheiro via Patreon.

Notas da Tradução

(1) Palavra de segurança ou safeword é uma ferramenta de comunicação em relações BDSM. Pode ser uma palavra ou gesto que será usada no momento em que alguém quiser parar a sessão imediatamente. O acordo da palavra de segurança é levado muito a sério, ao ser ignorado constitui comportamento antiético e estupro. Para saber mais: Você sabe o que é BDSM? – Parte 1Você sabe o que é BDSM? – Parte 2, por Jarid Arraes.

(2) Positividade do Sexo ou Sex Positivity é um movimento que considera qualquer interação sexual saudável e prazerosa, desde que tenha consentimento. É uma atitude que incentiva o prazer sexual e a experimentação, criticando o controle sobre os desejos sexuais das pessoas. Também prega que o sexo é libertador e empoderador. Para saber mais: Sex-positive movement.

(3) O conceito de justiça social surgiu em meados do século XIX para fazer referência à necessidade de alcançar uma repartição equitativa dos bens sociais. A justiça social diferencia-se da ideia da justiça civil. Enquanto a justiça civil busca a imparcialidade em seu julgamento, sempre partindo dos aparatos legais para justificar suas ações, a justiça social busca a remediação de desigualdades por meio da verificação das dificuldades particulares de cada grupo e da implementação de ações que venham remediar a situação. Para saber mais: Justiça Social.

(4) Gaslighting é a violência emocional por meio de manipulação psicológica, que leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz. É uma forma de fazer a mulher duvidar de seu senso de realidade, de suas próprias memórias, percepção, raciocínio e sanidade. Para saber mais: O machismo também mora nos detalhes.

Assédio na noite curitibana: reflexões sobre direitos das mulheres e estratégias feministas

Texto de Ellen Silva para as Blogueiras Feministas.

Não é uma nem duas, nem três vezes que ouvimos colegas, ou nós mesmas, reclamando que foram apalpadas na noite ou hostilizadas quando disseram não para algum cara. Geralmente a reação é a mesma: nos desvencilhamos do agressor, reclamamos entre nós e pronto.

Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.
Grupo de mulheres se encontra em bar. Foto: Mazé Mixo/Extra.

Na semana passada, essa prática machista foi elevada a ultima potencia no meu círculo de amigas. Uma de nós foi assediada em um bar que  frequenta há anos. Um homem a tocou várias vezes em várias partes do corpo. Quando ela pediu para soltá-la, ele e a hostilizou. Ela continuou respondendo até ele soltar a frase: “Você é merda para mim”. O agressor estava na rodinha do dono do bar, minha amiga recorreu ao dono e ele  gargalhou do ocorrido. O caso dela foi o mais grave, mas além dela, uma outra amiga que a acompanhava, foi perseguida a noite toda por um outro ser humano que não soube ouvir não. Quando uma terceira amiga tentou intervir ele a hostilizou com violência.

No dia seguinte, após o show de horrores e a sensação de impotência, minha amiga decidiu fazer uma denúncia na rede. Fez um texto relatando o ocorrido e finalizou dizendo que a culpa era do cliente, mas ela esperava mais aporte da casa perante a violência. Ela finalizou dizendo que não gostaria de deixar de frequentar o bar, mas gostaria que lhe fosse ofertada a segurança que ela merecia enquanto ser humana. O que ocorreu depois disso me pareceu muito interessante para falarmos um pouquinho sobre ser mulher no Brasil, nossos direitos e as estratégias que podemos usar para buscar equidade.

No palco da reivindicação da minha amiga temos duas forças que merecem ser analisadas: A primeira é o bar. Com a repercussão crescente, eles entraram em contato no mesmo dia. Por telefone, o dono disse que pela casa estar cheia e muito barulhenta ele não ouviu quando ela falou com ele do assédio e que portanto, não gargalhou disso. Se mostrou solícito, passou o caso para a equipe de relações públicas e disse que talvez seria justo com a imagem dele a denúncia ser apagada. Como o diálogo com a casa foi positivo e os insultos ao dono estavam crescendo a minha amiga ficou em dúvida se deveria manter a postagem. Ela estava certa, mas não estaria exagerando? Prejudicando um terceiro?

Essa dúvida que minha amiga sentiu é a síntese do que é ser mulher. Ela é um resultado direto de uma socialização em que as mulheres são entendidas como loucas, histéricas, descontroladas, não racionais e fúteis. Uma socialização em que as mulheres têm pouco ou nenhum poder. Você olha pro Congresso tem 10% de mulheres. Para as Assembleias Legislativas mesma coisa. A Dilma pode ser presidenta, mas dizem o tempo todo que é só por causa do Lula. CEOs? Não vamos nem comentar. As meninas fazem “coisas de menina”, que geralmente são atividades e comportamentos dignos de risos e de fofura. As meninas que apanham de meninos aprendem que isso, é na verdade, ele gostando de você.

Essas representações todas entram no nosso subconsciente e começam a formar uma névoa de fumaça nos deixando confusas sobre o que somos capazes e, principalmente, sobre quais são os nossos direitos. Por isso a dúvida nos constitui. Ela está martelando na sua cabeça quando você acha que deve pedir aumento, quando você precisa ocupar um lugar de poder, e até quando você levanta para fazer um comentário em sala de aula. Ela martela sempre e martela muito. E quando diz respeito a lutar por melhorias na sua vida, ela vira uma britadeira.

Entender como essa dúvida é constitutiva do ser mulher é fundamental também para entender porque algumas de nós não denunciam assédios, abusos e a violência doméstica. No fundo há sempre uma dúvida. Se uma mulher escolarizada, engajada e com um círculo de apoio sólido como minha amiga se sentiu em dúvida por um instante, o que dizer de outras que não tem o mesmo background? Então sim, uma mulher que denuncia é uma força da natureza. Mas, não usemos a força de algumas para diminuir as que não o fazem. Temos vivências diferentes e, portanto, reagimos diferentemente às pressões.

Voltando para a história, minha amiga refletiu sobre tudo isso e respondeu ao dono que  entendia o lado dele, mas que gostaria que ele entendesse o dela. A denuncia não era apenas sobre ela, era sobre o direito de ir e vir das mulheres e que ela a manteria, mas se comprometeria a divulgar a retratação deles também. (Ponto pras meninas!)

Do outro lado do debate, estavam as pessoas comentadoras de Facebook, algumas delas feministas. A maioria, horrorizada com o caso, vociferava: “Não volte lá nunca mais”. Teve até uma que partiu para a agressão pelo fato de minha amiga querer voltar na casa. Essas pessoas acharam esta estratégia a mais acertada. Para mim é uma forma muito equivocada de lidar com o problema. Não sou contrária a boicote. Muitas vezes  ele é acertado. Porém, nessa situação não acho que seja por quatro razões:

a)  Não estávamos lidando com alguém como o Rafinha Bastos, do outro lado havia uma vontade mínima de diálogo (independente da motivação);

b) Não ir ao bar, não mudaria em nada o modus operandi dos agressores. Eles saberiam que iam poder tocar o terror, as mulheres que denunciariam iam deixar de ir e no dia seguinte ia ter outras gurias para eles assediarem;

c) Acho muito problemático pegar a estratégia de uma mulher que sofreu uma violência e dizer: NÃO FAÇA ISSO, FAÇA O QUE EU ACHO CERTO. Puxa,  pera lá. É preciso dar autonomia para os feminismos alheios. Talvez a sua estratégia seja boa para você e não tão boa para mim. Talvez seja o caso de apoiar e esperar sua opinião ser pedida.

d) Essa postura, por mais que não queiram, é também  uma reiteração da cultura do estupro. Mesmo quando as pessoas querem que as mulheres sejam respeitadas, elas indicam que devemos nos retirar. Se optarmos por recuar, vamos parar onde? Há denúncias de violência contra as mulheres em absolutamente todos os espaços, desde as suas próprias residências até os espaços públicos. Então ok, é um fato que os espaços privilegiam os homens, mas nós  estamos aqui para DISPUTAR  estes espaços. Disputar não é fácil, mas pega na mão da feminista ao lado e vamos para cima.

Enfim, minha amiga estrategista não arredou o pé. Propôs soluções. Manteve sua posição e o fim da história é satisfatório: depois de muitos erros, o bar acatou o clamor popular dos comentários e fez um post público em sua fanpage lançando a campanha  #nãoénão, em parceria com outros bares de Curitiba. Se comprometeu também a fazer um treinamento com seu staff para conscientizar sobre o tema e para que as mulheres se sintam mais seguras. Isso sim, senhoras e senhores, é um avanço! É o tipo de vitória para ser comemorada. Feminismo se faz com luta, mas toda luta precisa de estratégia(s)!

Autora

Ellen Silva é co-fundadora e colaboradora do Elas Também. É cientista social graduada pela UFPR. Atualmente é mestranda em Estudos Comparados das Américas na UnB. No âmbito acadêmico já pesquisou sobre as Elites Políticas do Brasil e Uruguai. Agora pesquisa as trajetórias políticas das parlamentares de Brasil e Costa Rica. Vez por outra posta no blog Momento Ellen e no Coletivo Blogueiras Negras. Acredita em Deus, gosta de criança. Amigos são oxigênio. Tem asma e para respirar bem precisa viajar. Tem um coração encantado e convocado por todas esquinas da América Latina. Sonha em trabalhar com políticas publicas que promovam a igualdade da mulher.