“Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?

Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas.

Ontem minha mãe me disse: “Tenho dó do seu futuro marido, você só pensa em trabalhar”. Fiquei assustada, não imaginava minha mãe me falando uma frase dessas. Reconsiderei, minha mãe tem os reflexos de uma sociedade machista e patriarcal que acha um absurdo uma mulher trabalhar muito.

Às vezes conversando com amigos ou até alguns caras com quem saio, eles dizem: Amamos mulheres independentes. Amam? Até que ponto?

Uma vez um cara me dispensou porque eu era bem sucedida no meu trabalho e ele não. Outra vez disse que a um cara que eu tinha saído dizendo que estava tranquila, saindo pouco e ele me disse: “Agora sim podemos voltar a sair”, é claro que eu não voltei a sair com esse cara e pouco me importei a se a masculinidade do outro foi afetada porque meu salario é maior que o dele.

Esses homens amam mulheres independentes porque talvez elas não tenham amarras, não tenham preconceitos, sejam livres e paguem metade da conta, mas na hora de assumir um relacionamento, eles estão preparados para tanta liberdade?

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Desafios da militância: participação e protagonismo

Texto de Jussara Oliveira.

Nos espaços de diálogo e militância que participo a discussão sobre a participação e o protagonismo de pessoas privilegiadas é permanente.

Não pretendo nesse texto questionar a existência de espaços mistos (dentro da militância ou fora), principalmente porque esses pontos de encontro já estão por toda parte. E alguma hora vamos ter de conviver em conjunto. Acho importante lembrar que certas pessoas podem sofrer conjuntos de opressões, ou até mesmo fazer parte de um grupo opressor e de opressão ao mesmo tempo, então, imagine quantos mini-grupos intersecionais podemos criar, e o quão pequenos e mais fracos seriam se esses grupos não dialogassem.

Também não questiono — e não acho que deva ser questionada — a necessidade de se criar espaços exclusivos. Porque, no meu entendimento, esses espaços exclusivos podem contribuir muito para o empoderamento de minorias que vivem constantemente sendo silenciadas por outros grupos. É preciso construir espaços mais abertos para o desenvolvimento pessoal e a militância e, muitas pessoas que fazem partes de grupos minoritários precisam de espaço e liberdade para desenvolver o próprio discurso sem sentir medo de expor suas experiências, idéias ou dúvidas.

“Existe muita força nos espaços exclusivos, eles ajudam uma vez que criam a oportunidade da troca de experiências e consequente fortalecimento. Se você está em um ambiente em que se sente segura, é mais fácil se expressar e com isso se desenvolver.”  Referência: Que as meninas conheçam o poder que tem dentro delas. Entrevista com Geisa e Flavia, organizadoras do Girls Rock Camp por Lola Aronovich

Agora, quando participamos de certos espaços mistos creio que é importante se atentar a alguns pontos para não desrespeitar ou deslegitimar as outras pessoas que fazem parte do movimento.

Em alguns momentos pode ser tênue a diferença entre escrever ou falar SOBRE um grupo e escrever ou falar POR um grupo. É muito importante observar essa distinção. É preciso sempre refletir sobre isso de forma bastante crítica e com muito diálogo. Devemos buscar por exemplos e exercícios que respeitem e estimulem o protagonismo das pessoas que sejam o foco da luta desse grupo misto, seja na organização dos espaços ou nas falas. Esse é um processo contínuo e vai ser diferente para cada espaço, pois deve ser pensado de acordo com suas próprias dinâmicas.

Marcha das Vadias de São Paulo 2014. Foto de Mídia Ninja no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Marcha das Vadias de São Paulo 2014. Foto de Mídia Ninja no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Não adianta também acreditar que apenas uma ou poucas pessoas, num ambiente majoritariamente privilegiado, vão poder falar por todo um grupo. Porque, além de ser um trabalho desgastante, por si só não garante nada. É importante participar de espaços de diálogos dos outros (quando houver essa abertura), criar ambientes mais acolhedores e diversos, ao invés de ficar achando que as pessoas não participam porque não querem. Outra questão que merece atenção especial são as formas de lidar com situações de abuso, violência e silenciamento nesses espaços. É preciso ter uma preocupação em ouvir as minorias porque é nesse momento que estamos mais vulneráveis. Não adianta querer achar que espaços de militância são naturalmente seguros porque não são. E é preciso ter muita paciência e sensibilidade para lidar com conflitos entre duas pessoas desprivilegiadas de forma diferente.

Obviamente, as ações a serem tomadas vão depender da dinâmica, dos recursos e das possibilidades de cada grupo. Mas podemos pensar que numa marcha nas ruas, por exemplo, alguns cuidados a serem tomados incluem observar quem está na frente do movimento, quem fala no microfone ou megafone, quem é o sujeito que aparece como tema, de que maneira há representatividade nos cartazes e como se faz a comunicação com a imprensa. Numa roda de conversa a preocupação deve ser com os temas e com quem tem a palavra. Nas mídias (informais ou não) o desafio está em como apresentar experiências dos outros quando não são as nossas, sem nos colocarmos como porta-vozes, mas também refletir sobre a nossa experiência frente a essas diferenças. Um caminho é pesquisar muito, mas melhor que isso é, sempre que possível, dar o espaço para as pessoas que sofrem aquelas opressões falarem por si.

Claro que não podemos nos restringir apenas aos nossos espaços de militância. Acredito que é importante que o feminismo e as reflexões sobre as diferentes formas de opressão ocupem mais e mais espaços. Sempre lembrando que as melhores pessoas para pautar COMO se dão essas opressões são as minorias que as sofrem, porém, sabemos o quanto o trabalho de conscientização é árduo e que a desconstrução de opressões estruturais tomam tempo e carecem de uma grande quantidade de energia, equilíbrio emocional, paciência, etc. É comum que muitas pessoas privilegiadas nesse processo de desconstrução acabam reforçando atitudes discriminatórias e ficam bastante reativas quando tem suas atitudes apontadas como preconceituosas.

É bem difícil estar na linha de frente nesse momento, principalmente quando se vive essa opressão que você está tentando demonstrar/debater sobre. Nessas horas, fico bastante agradecida se vejo alguém que já sofreu menos que eu — com certos silenciamentos e violências — contribuindo para disseminar os ideais de igualdade, apontar problemas de discurso, promover reflexões e divulgar o trabalho de ativistas que tem experiência nessas vivências de forma consciente e coerente. Se alguém faz isso em espaços onde não tenho voz e consegue causar no mínimo um desconforto nas outras pessoas ou até mesmo uma mudança na forma de observar a questão, vejo o resultado do trabalho de formiguinha que fazemos gerando frutos.

Entretanto, não acredito que quem fala em favor das minorias é automaticamente aliado ou aliada, muito menos representante de uma minoria em qualquer espaço. Ainda mais de movimentos tão plurais como o feminismo, por mais que vivamos diversas experiências em diversos espaços.

Aliás, é preciso refletir bastante sobre a separação do discurso e do debate das pessoas em si. Porque, ao debater situações que são comuns a determinados grupos podemos nos identificar nas falas dos outros ou não, dependendo do caso. Nesse sentido, entendo e respeito a posição de quem não quer ver determinadas pessoas ou grupos falando sobre suas lutas, experiências, ainda mais equivocadamente.

Podemos e devemos nos posicionar contra (e devemos ter espaço para) quando vemos injustiças. E, se o espaço realmente se propõe a lutar contra desigualdades o minimo que as pessoas privilegiadas tem de fazer é aceitar e refletir sobre as críticas, tendo o cuidado de não personalizar aquilo que não é do pessoal, apontando de forma crítica quando os problemas estão no discurso, na postura ou na simples ocupação dos espaços.

Estamos num grande momento crítico em que depois de muita luta e muito silenciamento as diversas vertentes do feminismo tem ganhado espaço nas discussões internas de coletivos, na mídia, nas mesas de bar, nas festas de família, etc. Mas com isso, vem também o oportunismo e as distorções.

Não temos controle sobre o que os outros pensam, sobre o que os outros fazem, sobre o que os outros falam. E sim, é muito cansativo debater, mas acredito que o melhor que podemos fazer é continuar pontuando, repetindo, cobrando posições, porque simplesmente tirar as pessoas privilegiadas dos espaços ou silenciá-las não vai necessariamente tornar nossa voz mais respeitada e fazê-la ser mais ouvida. Nossos espaços precisam ser construídos por nós mesmos e tenho esperança de que ainda vai chegar o dia em que não vai ser preciso construí-los para bater nas mesmas teclas sobre o quanto todos merecemos acesso aos mesmos direitos.

Os limites da libertação masculina

Ontem, um texto circulou muito pela internet. Sob o título de “Enfim, a emancipação masculina“, da autoria de Eliane Brum, falava-se a respeito de masculinidades, sobre como os homens ainda vivem submetidos a uma série de normas e padrões de comportamento, sobre como se fala da libertação das mulheres, mas muito pouco da libertação dos homens. Muito bem escrito, foi elogiado e compartilhado por uma série de amigas, mulheres e feministas que respeito muito. Concordo com várias coisas que foram ditas, mas tenho algumas considerações a fazer.

Receita para ser homem: "Homens são como café: os melhores são ricos, quentes e podem te manter acordada a noite toda"

Primeiro, é mesmo um fato de que, como homens, há muita coisa que é esperada de nós: como se portar, como andar, como falar, como tratar as mulheres e os amigos, ou mesmo o tipo de emprego que devemos ter e a maneira com que devemos nos relacionar. Precisamos acabar com isso! Esse negócio de ditar regra, de dizer como cada um deve levar sua vida nunca funcionou e continua a não funcionar para ninguém. Só causa problemas para os que decidem conduzir-se de outra forma e mesmo aos que decidem seguir tudo à risca, mas não estão assim tão confortáveis ou à vontade com aquilo que fazem. Contudo, na vida cotidiana, quando é preciso lutar para se afirmar como algo ou para conquistar determinados espaços, torna-se muito complicada essa transgressão toda. Ser pioneiro é sempre difícil!

Laerte foi muito comentado/a ao longo do texto. A maneira que escolheu para apresentar-se e representar-se, sem grandes definições ou encaixe, levando a vida como lhe é mais conveniente em cada momento é, de fato, admirável. Jamais negarei a importância do que ele/ela está fazendo para todos aqueles que, de algum modo, sentem-se meio perdidos e fora de lugar. Porém, é preciso admitir que as condições para que ele/ela faça isso, ainda que não favoráveis, fáceis ou simples, parecem ser melhores do que a de muitas pessoas. É profissionalmente reconhecido/a, tem alguma estabilidade financeira, algumas conquistas ao longo da vida. Seu espaço já é seu. Ainda que, claro, hajam casos em que pessoas foram escanteadas após assumirem modos de vida que causam estranhamento, não se pode negar que há diversos fatores na vida que nos ajudam e nos dão tranquilidade para assumir certos posicionamentos.

Eu, enquanto um jovem homem transexual, no início da carreira acadêmica, sem emprego, sem grandes conquistas ou quantias no banco não consigo negar e enfrentar todas as estruturas que me são apresentadas. De várias maneiras, todos os dias, preciso reforçar os maneirismos e estereótipos masculinos. Não é isso que quero fazer, digo com sinceridade, mas, para ser entendido, reconhecido e respeitado como o homem que sou, ou que estou a tornar-me, preciso deixar claro em mim alguns aspectos masculinos, aspectos que às vezes soam banais para os que não precisam se provar como nada, uma vez que sua condição já está dada e não é colocada em cheque nas mais corriqueiras situações, mas que são muito importantes para quem está a lutar para ser percebido como aquilo que, a priori, todos dizem que você não é.

Tento não reforçar coisas como agressividade, violência e outras coisas que considero estúpidas. Todavia, preciso vigiar-me em algumas pequenas atitudes: o modo como sento, o jeito com que falo, a maneira de mexer as mãos ou como sorrio. Não acho que ninguém seja mais ou menos homem de acordo com estas características, mas nos lugares em que não me conhecem, onde as pessoas não sabem sobre a minha transexualidade, tudo que quero é ser um homem ‘normal’. Soa-me muito engraçado, inclusive, que eu faça tanto esforço apenas para passar despercebido, como mais um na multidão.

Aprecio muitos aspectos da teoria queer. Não ter a necessidade de nomear, classificar, categorizar, explicar é libertador, é revolucionário. É, mesmo, genial! No entanto, como viver desta forma, como ser livre quando tudo e todos conspiram contra você? Às vezes, tenho a impressão de que há sempre alguém a espreitar-me, alguém que espera por um deslize ou vacilo meu, aquele momento em que eu usarei um pronome no feminino, e não no masculino, para designar-me e poderão dizer: “Viu? Você não é mesmo um homem. É uma fase, é só uma confusão; desista desta idéia maluca”. Não é fase, maluquice ou confusão, é só aprendizado. Este sou eu, perdido, não nego, em um mundo que me diz que eu sou aquilo que não sou, que quer que eu acredite que ser do jeito que eu sou é doença, pecado, erro ou coisa que o valha. Não é fácil ser livre quando há tantas correntes a te prender.

Ser homem não é fácil ou simples; não tem receita ou manual de instrução. Mas desconstruir a idéia do que é ser um homem também não é tarefa das mais gratas. Eu tento, juro mesmo que tento destruir estereótipos ou pré-conceitos. É difícil. Não quero reproduzir aquilo que, discursivamente, tento sempre negar. Não quero reproduzir o que, de forma mais ou menos direta, é responsável pelo fato de ser tão difícil eu conseguir me encaixar e encontrar meu lugar no mundo. Ao mesmo tempo, busco, desesperadamente, um lugar neste mundo. Ele me nega o tempo todo, mas é aqui que vivo, é aqui que preciso aprender a viver.

Homem! (?) - Por Corey Robinson

 

Ainda estou tentando entender como tudo funciona, buscando compreender o que é necessário fazer para conseguir ser só ‘mais um cara’. Ainda não sei, ainda não tenho resposta. Talvez, Laerte já saiba muito mais desta vida do que eu. Provavelmente, sabe mesmo, mas estou apenas a trilhar meus próprios passos. Ainda não posso dizer se chegaremos no mesmo lugar. Provavelmente não, e eu acho que isto é mesmo muito bom! Todo dia, pouco a pouco, liberto-me e, então, Caetano-me.

 

Comum de dois, Pitty

Precisou correr
Uma vida pra entender
Que ele era assim
Um comum de dois

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