O parto humanizado também é direito ao nosso corpo

Texto de Luka Franca.

Há alguns assuntos que me interessam e parecem não pertencer ao mesmo universo, dentre eles está a política e a maternidade. Cada vez que leio sobre a situação da assistência à mulher seja no pré-parto ou puerpério, seja na garantia de equipamentos públicos, fico indignada com a falta de assistência e a violência.

A relação intríseca existente entre maternidade e política ficou muito nítida depois que entrei para a realidade de mãe militante. Pois, mesmo em uma sociedade onde somos criadas para sermos mães e cuidarmos de nossos entes, somos vistas como reprodutoras e sem assegurado o direito ao nosso corpo. Quando vamos encarar a realidade da assistência ao parto e ao puerpério vemos o quão cruel a sociedade é conosco pois, no final das contas, possuímos quase nula informação sobre sexo, parto e o nosso corpo. Como dizer que, por exemplo, hoje há liberdade de escolha em como criar e parir nossos filhos quando estas escolhas são induzidas e feitas por causa de uma severa desinformação?

A mulher no Brasil quando decide ser mãe também é punida pela sociedade, seja pela falta de creches e uma licença parental que correspondam com as demandas existentes, seja pela violência com que somos tratadas durante o parto. Para mim, no Brasil, a mulher não decide se quer ser mãe ou não. Foi durante uma conversa em nossa lista que me dei conta o quanto diversos mitos são propagados e nós os reafirmamos como se fossem verdades inquestionáveis.

Talvez o grande primeiro mito tenha sido mais debatido por conta do parto da Gisele Bündchen no começo do ano passado: Se o parto em casa é arriscado ou não? A esta polêmica acredito que a Dra. Melania Amorim respondeu muito bem em artigo da mesma época, ela apresenta diversas comprovações científicas de que em gravidez de baixo risco o parto em casa é recomendado sim.

O estudo mais recente publicado no British Journal of Obstetrics and Gynecology (2009) analisou a morbimortalidade perinatal em uma impressionante coorte de 529.688 partos domiciliares ou hospitalares planejados em gestantes de baixo-risco: Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births. Nesse estudo, mais de 300.000 mulheres planejaram dar à luz em casa enquanto pouco mais de 160.000 tinham a intenção de dar à luz em hospital. Não houve diferenças significativas entre partos domiciliares e hospitalares planejados em relação ao risco de morte intrapa rto (0,69% VS. 1,37%), morte neonatal precoce (0,78% vs. 1,27% e admissão em unidade de cuidados intensivos (0,86% VS. 1,16%). O estudo conclui que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade perinatal e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo-risco, desde que o sistema de saúde facilite esta opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte. (AMORIM, Melania. Guia do Bebê)

Para além da polêmica do parto em casa, acabamos envolvidas em diversas outras dúvidas e desinformações que nem percebemos. Primeiro porque não conhecemos as recomendações da OMS para a assistência ao parto e também não sabemos quais evidências nos levam a uma cesária necessária e quais não. Para mim o que há de mais violento no parto é a episiotomia e todos os procedimentos que acabam justificando esta intervenção.

Quando a gente vai parir, por mais que saiba tudo, acaba ficando fragilizada e o médico nessa hora acaba detendo o poder se for um cara não humanista, não adepto do parto natural. A gente, sensibilizada pra caramba na hora, e sem ninguém que nos apóie, acaba baixando a cabeça e se submetendo às coisas que o médico define. Tenha muita atenção para isso!

Com relação à rotina de parir deitada e a vontade de não passar pela episiotomia, bom, não é loucura isso! De jeito algum. É possível. O que é fundamental para parir sem episiotomia e sem laceração grave é que o período expulsivo (isto é, “o momento que o bebê já está no canal de parto – a vagina – e está saindo dali, nascendo efetivamente”) seja SUAVE. É muito normal a mulher tomar anestesia (ou não), não saber o tipo de força fazer, se deve ou não fazer força, ficar desesperada, o médico apressado e inseguro, e na hora do expulsivo todo mundo querer que a coisa seja rápida.

Para ser rápido, o médico manda a mulher fazer força quando não precisa (o expulsivo não requer aquela força desesperada, se a mulher estiver numa posição mais vertical, por exemplo, aí é mais fácil ainda) e alguém sobe por cima da barriga da mulher pra apertá-la e o bebê sair logo. Na verdade isso é como uma bomba pro períneo! 🙁 Por isso fazem episiotomia…

Para você saber, caso já não saiba, o nome desse ato de alguém subir em cima da barriga apertando-a pro bebê nascer logo é a tal Manobra de Kristeller (que eu acho uma violência sem tamanho! Passei por isso e odiei!!!). (Bartira)

Apesar do parto ser parte intrísseca de minha militância política, justamente por achar que hoje as mulheres não tem como escolher, a começar pelas altas taxas de cesárias que são feitas por aqui, que beiram a quase 50% dos nascimentos realizados no Brasil. Em hospitais privados este percentual varia de 70% à 90% dos nascimentos, número que ultrapassa em muito o considerado aceitável pela OMS. A grande maioria destas cesáreas são aquelas denominadas “desnecesáreas”, baseadas em mitos já desmentidos por evidências e pesquisas médicas.

Na verdade, o que vemos é uma total falta de conhecimento das mulheres sobre seu próprio corpo. Há pelo menos três décadas temos ouvido sobre nossos corpos não servirem mais para parir, para fazer isso ou aquilo e mesmo assim somos incentivadas a sermos mães. Ficamos grávida e aí? Entramos na neurose de que não vamos conseguir parir nunca, de que não tem como fazer isso porque somos magras ou gordas demais.

A mulher não confiar e conhecer seu próprio corpo ajuda muito a perpetuar o modelo de atendimento e assistência obstétrica que temos hoje no país, pois raramente conseguimos sentir o que acontece dentro de nós, acabamos por nos desconhecer completamente. Mas, pelo fato de termos poucos espaços para compartilharmos nossas experiências durante gravidez, parto e puerpério as dúvidas e os medos acabam persistindo de geração para geração, criando um círculo vicioso que só corrobora cada vez mais para a reificação da mulher: Não podemos gozar, parir ou decidir sobre nosso corpo, somos apenas um útero pronto para trabalhar.

O assunto é vasto, polêmico e não há como tratá-lo de uma vez só em um único post, hoje há em discussão a questão das obstetrizes e do curso da USP, fora as indicações do que faria uma cesárea necessária ou não. Porém, acredito ser um tema de alta relevância para as feministas, pois assim como a legalização do aborto, a assistência humanizada ao parto também  é direito ao nosso corpo e, sendo assim, não há como pensar que uma cirurgia é mais benéfico para a mulher e criança do que um evento natural.