Quantos livros de mulheres trans será que Chimamanda já leu?

Nota da Coordenação das Blogueiras Feministas: Numa recente entrevista para o programa de televisão britânico Channel 4 News, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie falou sobre diferenças entre mulheres cis e mulheres trans. Você pode ver a entrevista completa no Youtube: “Chimamanda Ngozi Adichie interview“. Após ser questionada por suas declarações, Chimamanda publicou uma nota em sua página no Facebook. Continuamos apoiando seu trabalho e importância, porém achamos importante reafirmar nosso compromisso com o fato de que mulheres trans também não possuem uma história única, por isso pedimos autorização de Beatriz para publicar suas reflexões feitas em 12/03/2017 no seu perfil do Facebook. Obviamente repudiamos qualquer tipo de ataque ou proposta de boicote a Chimamanda Ngozi Adichie, que tem respondido sobre a questão em sua página.

Por Beatriz Pagliarini Bagagli.

Obviamente, não temos as mesmas experiências que as mulheres cis. E o fato de termos experiências diferentes das mulheres cis não nos torna “falsas mulheres”. Compreender nossas diferenças também nos ajuda a compreender as nossas semelhanças. Mas isso também é válido pra recortes entre esses “sub grupos”, nem todas as mulheres cis tiveram as mesmas experiencias, nem as todas as mulheres trans tiveram as mesmas experiências. Homens cis idem, nem todo homem tem a mesma experiência.

Tá, e daí o que falta à fala da Chimamanda é compreender exatamente quais são essas experiências de mulheres trans, quais são as especificidades das experiências trans vivenciadas a partir de uma sociedade transfóbica.

As experiências de mulheres trans não são visibilizadas, e dizer que as experiências de mulheres trans seriam as mesmas das de homens privilegiados pelo machismo é simplesmente ignorar as evidências e dados sobre a população trans. Não se pode recobrir a totalidade das experiências de mulheres trans apelando para o fato de algumas mulheres trans supostamente terem privilégio masculino antes da transição. O problema é justamente invisibilizar as reais experiências da população trans, travesti e transexual ao querer dizer que nossas experiências seriam as mesmas das dos homens cisgêneros — quando temos fortíssimas evidências e dados que comprovam que não são.

Então… tem uma ideia subjacente sobre essa questão de “socialização masculina” e “privilégio” que sustenta um certo discurso de culpabilização. As pessoas tem a ideia de que a transfobia se origina no fato das pessoas transicionarem — sendo que não, transfobia é uma opressão estrutural e estruturante, que se dá de forma prévia a qualquer transição de fulana ou ciclana. As pessoas colocarem a questão da transição como forma de comprovar ou desmentir alguma ideia de que pessoas trans são em essência “mais” ou “menos” privilegiadas é onde mora o equívoco e o perigo — porque facilmente se descamba pro discurso de culpabilização da vítima de transfobia que vemos tanto no radfem.

A questão não é sobre determinar se a fulana antes da transição tinha ou não privilégio masculino. De fato, se ela viveu como homem isso pode ter acontecido — a questão é que isso não prova nem desmente nada em relação a existência da transfobia.

Então, na continuação do episódio de Chimamanda e seu desconhecimento sobre as experiências das pessoas trans, podemos dissecar não o que Chimamanda disse em míseros minutos, mas podemos ver sim o quanto pessoas cisgêneras podem ser passivas-agressivas em suas colocações, ignorando falas potencialmente problemáticas e transfóbicas, tudo isso pra tentar defender a mísera fala de 1 minuto da autora.

“Ah, mas ela está apenas dizendo que as experiências das mulheres trans são diferentes das mulheres cis”. Não. Ela não está falando *apenas* isso. Ela não fala em mulheres cis, pra início de conversa. Apelar pro velho discurso sobre “socialização masculina” na verdade justamente nos impede de compreender nossas diferenças.

Dizer que mulheres trans tem experiências iguais a de homens cisgêneros é invisibilizar nossas vivências. Pessoas cis não perceberem o quanto essas falas equivocadas sobre “socialização” são mobilizadas para reproduzirem transfobia é justamente um sintoma do quanto a cisgeneridade incompreende as nossas vivências trans.

Se querem saber sobre as experiências de mulheres trans vão ler relatos de mulheres trans, existem muitos textos no Transfeminismo, fica dica, ao invés de ouvir uma entrevista de poucos minutos que não diz absolutamente nada sobre mulheres trans, ok? Se querem saber de nossas diferenças, saibam com propriedade.

[+] Why Chimamanda Ngozi Adichie’s Comments on Trans Women are Wrong and Dangerous.

Imagem: TED – Ideas worth spreading.

Representações da violência doméstica nas novelas

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

25 de Novembro – Dia Internacional de Luta Pelo Fim da Violência Contra a Mulher.

Dentre as pautas feministas, acredito que a violência contra a mulher seja a que mais tem ganho atenção da mídia nos últimos tempos. Há ações institucionais sendo tomadas como o Ligue 180, a Casa da Mulher Brasileira, a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio. Entre as mulheres, crescem o número de campanhas e ferramentas contra o assédio nas ruas. Foi tema da redação do ENEM. E, o Mapa da Violência 2015 destaca o aumento no número de mortes de mulheres negras.

O assunto está ganhando mais espaço e felizmente a maioria das pessoas não tem aceitado relativizações. A violência contra a mulher está ligada ao gênero e tem suas características próprias, que diferem totalmente de outras formas de violência. As mulheres são mortas geralmente por pessoas da família ou conhecidos, por quem deveria protegê-las e apoiá-las. As mulheres morrem em casa, muitas vezes em frente aos filhos.

Como consequência desse debate, vemos cada vez mais as novelas abordando a violência doméstica em suas tramas. Geralmente há um núcleo específico para apresentar o casal em que a mulher apanha e o homem é um bruto sem razão. Há diversos estereótipos nesses personagens, mas o que continua problemático é que dificilmente as mulheres são representadas como pessoas capazes de buscar ajuda e sair dessa situação, na maioria dos casos há um homem salvador que entra na relação para mudar sua vida.

Sempre me pergunto: essas representações melhoram ou não os discursos sociais referentes a violência contra a mulher? Sabemos que o número de denúncias aumenta quando há foco no assunto, mais mulheres se sentem seguras para denunciar ou se veem naquela situação. Porém, ainda culpabilizamos as mulheres pela violência que sofrem, o foco das campanhas está sempre na denúncia e não em uma proposta preventiva dessa violência. Dificilmente encontramos ações que falem diretamente aos homens.

Sabemos que as instituições brasileiras não estão preparadas para atender as mulheres violentadas. Aconselhamos mulheres a não irem sozinhas em delegacias de polícia, temos que lutar no Congresso contra projetos de lei que exigem exame de corpo delito em caso de estupro antes mesmo do atendimento médico, leis não garantem mudanças de comportamento social e nem mesmo diminuem o machismo no judiciário. Porém, acredito ser importante que as novelas mostrem as mulheres denunciando casos de violência na delegacia, detalhando como funciona o processo, como é possível pedir medidas protetivas, o que é possível fazer em casos em que não se tem família por perto ou alguém a quem recorrer.

Atualmente, na novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo, Juca e Domingas são o núcleo de violência doméstica. Geralmente esses personagens existem exclusivamente para tratar do tema e tem até pouca interação com o núcleo principal. Para ficar apenas em alguns exemplos de como virou lugar comum ter o núcleo da violência doméstica, no caso das recentes novelas globais do horário das 9, tivemos: Jairo de Em Família (2014), Marilda em Amor à Vida (2014), Celeste em Fina Estampa (2011), Catarina em A Favorita (2008), Raquel em Mulheres Apaixonadas (2003).

Personagens Juca e Domingas em cena da novela 'A Regra do Jogo' (2015) da Rede Globo.
Personagens Juca e Domingas em cena da novela ‘A Regra do Jogo’ (2015) da Rede Globo.

O homem agressor geralmente é retratado como um bruto, sem educação e que vive às custas da mulher. A mulher vítima é representada com baixa autoestima, na maioria das vezes relativizando o que o marido faz e com muito medo de tomar qualquer atitude. Há personagens que tentam ajudá-las, como vizinhos ou amigas, mas na maioria dos casos é preciso um novo amor para que essa mulher coloque definitivamente um ponto final na relação.

Esse estereótipo com certeza corrobora discursos sociais sobre a violência doméstica, muita gente ainda acredita que a mulher permanece numa relação abusiva porque quer e não compreende as diversas barreiras sociais existentes, desde o sustento financeiro, passando pelas imposições sociais de como a mulher deve se comportar, a falta de apoio e informação sobre o que fazer, até o medo que paralisa. Porém, é preciso ir além desse retrato e apresentar opções. Mulheres sofrem violência de diferentes maneiras, dependendo de seu contexto, mas a violência doméstica está presente em todas as classes sociais e não se configura apenas na violência física.

Desde o início de ‘A Regra do Jogo’, Juca e Domingas tem uma relação abusiva com muita violência. Ele batetesta sua fidelidade e a engana para conseguir dinheiro. São várias cenas mostrando Juca humilhando e agredindo Domingas. Aí pergunto: qual o propósito? Denunciar a violência contra a mulher? Ok, mas de que forma? Adianta retratarmos mais e mais violência contra as mulheres de forma explícita e não mostrá-las buscando seus direitos? Até que ponto a mídia fetichiza esse tipo de violência? Não sou contra falar de violência doméstica na televisão, mas é preciso que esse discurso vá além, que essas mulheres sejam também retratadas como pessoas capazes de enfrentar a situação, que as instituições de apoio e denúncia tenham espaço na trama para apresentar caminhos, que a informação seja repassada.

Quando Domingas beija outro homem logo se sente culpada. Ha notícias de um personagem misterioso que entrará na novela para salvá-la. Por que achamos que uma mulher que está fragilizada precisa automaticamente de um novo amor para  se reerguer? Por que uma mulher espancada e humilhada só é feliz nas novelas se houver um homem que a queira? Parece não haver possibilidade de liberdade para as mulheres vítimas de violência nas novelas. Nos spoilers há a promessa que em breve Domingas irá expulsar Juca de casa, com um diálogo que até cita a Lei Maria da Penha, mas que promete mostrar mais violência gráfica e ameaças contra sua vida:

Tudo acontece depois que Domingas é socorrida pela enfermeira que chega em sua casa aos beijos com Juca. Solidária, a “rival” chama um médico e aconselha-a a pôr um fim no casamento. Ainda se recuperando da febre, Domingas vai enfrentar Juca pela primeira vez quando ele chega em casa e diz: “Aproveita que tu tá melhor e faz um ovo pra mim”. Ela pega o prato em que ele está comendo e joga na parede. “Não vou fazer ovo nenhum, nunca mais!”, esbraveja.

O malandro pergunta se a mulher está maluca, mas ela responde, firme: “Maluca eu tava antes, mas agora acabou! Dá o fora daqui!”. “Tu tá louca mesmo! Quer apanhar?”, ameaça o cafajeste. E Domingas desta vez não se intimida: “Bate pra tu ver! Eu vou pra delegacia agora, te enquadro na Maria da Penha e te ponho na cadeia, desgraçado!”. Juca diz que vai matá-la, e a morena não se abala. “Mata! Mata que é melhor! Tu vai preso por mais tempo, vai passar o resto da vida numa cela cheia de macho, sem ver mulher nunca mais na vida! Eu vou rir na minha cova!. Vai embora, eu tô mandando!”, responde.

Com certeza há catarse ao enfrentar o agressor. Gostamos de ver uma mulher ser altiva e corajosa nesses momentos. Porém, sabemos que muitas vezes enfrentar de igual para igual não é algo que todas conseguem ou podem fazer. Portanto, acredito ser muito importante buscarmos mostrar opções, apresentar o que pode ser feito para denunciar a violência e tentar garantir alguma segurança para as mulheres ameaçadas. Porque, atualmente são elas quem tem suas vidas destruídas, são elas quem tem que abandonar o trabalho, são elas que tem que viver escondidas em abrigo. Por que nossa sociedade ainda acoberta agressores de mulheres e aceita que eles andem tranquilamente pelas ruas sem receber nenhum olhar de reprovação?

O recente caso do secretário de governo do Rio de Janeiro, Pedro Paulo Carvalho é um exemplo disso. Há denuncias graves registradas em boletins de ocorrência. Há violência física e até mesmo ameaças contra a filha do casal. Porém, o prefeito Eduardo Paes insiste em dar declarações do tipo“aconteceu entre quatro paredes, não se sabe as circunstâncias”. Pedro Paulo foi capaz de expor a ex-mulher numa entrevista coletiva para que ela o inocentasse e repete frases absurdas como: “Quem não exagera numa discussão?”. Enquanto um homem se sentir no direito de expor uma mulher e relativizar a violência que cometeu contra ela sem receio nenhum de que seja mal visto, sabendo que não receberá nenhuma reprovação de seus pares, ainda estaremos paralisados na velha história de “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. É essa cultura machista que precisamos mudar urgentemente.

Há impunidade, mas não acredito que apenas medidas punitivas resolvam a questão da violência contra a mulher. É preciso um conjunto de ações, especialmente educacionais, não apenas para os agressores, mas também para os jovens, para que a sociedade repense e questione a maneira como a violência contra a mulher é parte do cotidiano, como está nas entranhas das relações sociais. Como o pequeno assédio tem reflexos nos casos de estupro. Como a morte das mulheres em sua grande maioria é banal e torpe. A mídia precisa ser parte desse movimento, para que se possa mudar concretamente os discursos e as maneiras como tratamos essa questão.

Como aponta Rachel Moreno, a mídia e nem mesmo a Globo são responsáveis por inventar a violência contra a mulher, mas cabe a sociedade cobrar a função e responsabilidade social da mídia, especialmente no caso do Brasil, quando falamos de uma mídia de massas, que também é uma concessão pública. Quando uma novela termina não há resgate possível, mas há consequências para a naturalização daquela situação entre a sociedade.

+ Sobre o assunto:

[+] Assédio sexual: como denunciar e se defender legalmente.

[+] Estupro coletivo na novela Em Família e o desempoderamento das vítimas.

Discursos machistas na disputa eleitoral

Texto de Giulia Parise.

Aécio, em suas considerações finais no debate promovido pelo SBT no último dia 16 de outubro, olhou para Dilma Rousseff e afirmou que ela “receberá sempre o olhar altivo de um homem de bem”.

Não vou falar do que ele diz ser “calúnia”. Embora ele mereça.

Vou falar de seu discurso. De sua postura.

Eu, mulher, não quero o olhar altivo de ninguém. De ninguém.

Eu, quando médica, não quero o olhar altivo de ninguém.

Eu, sendo filha, e mãe um dia, não quero o olhar altivo de ninguém.

Sabem o que expressa um olhar altivo? Um olhar de “orgulho nobre, superioridade, e arrogância”. Vá procurar o significado.

A presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, se cumprimentam ao chegarem ao estúdio da TV Globo, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira (24), antes do último debate do segundo turno das eleições presidenciais, que acontecem neste domingo (26). No debate, Dilma Rousseff (PT) procurou fazer críticas à gestão de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) para desgastar Aécio Neves (PSDB), que escolheu a corrupção para tentar atingir a adversária MAIS Ricardo Moraes/Reuters
Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) se cumprimentam ao chegarem ao estúdio da TV Globo, antes do último debate do segundo turno das eleições presidenciais. Foto de Ricardo Moraes/Reuters.

Ora, isso vem de um homem cuja campanha quando buscou ser feminista, disse querer mais mulheres nas Forças Armadas porque nós somos mais pacificadoras e sensíveis. É machista até se esforçando para parecer defender as mulheres.

Esse candidato brada essas palavras em tom de clara ameaça e correção, tentando intimidar, no país onde 5 mulheres sofrem lesão corporal grave a cada dois minutos.
Ele está falando isso no sétimo país que mais mata mulheres em uma lista de 87.

Ele está dizendo isso para um país em que a maioria do eleitorado é composta por mulheres. Ele se permite dizer isso para mulheres que, ainda que tenham estudado tanto ou mais que os homens, inúmeras vezes receberão menores salários.

Eu, se fosse homem, não desejaria olhar ninguém com mesquinha altivez.

Eu, mulher, não seria sensível e pacificadora por uma determinação hormonal, amigos.

Libertem-se da ideia de que nós mulheres precisamos do olhar altivo de homem algum.

Homens também não precisam dessa tentativa de ameaça e coerção. Sejamos livres.

Que a gente vote como mulheres e homens que defendem as mulheres e seus direitos de dirigir famílias, hospitais e países. E que a gente não se intimide e se defenda de qualquer que seja o violento mau olhado!

Autora

Giulia Parise tem 25 anos. Há menos de um ano para sua graduação em Medicina por uma faculdade pública paulista, o feminismo nunca foi uma demanda tão urgente. É preciso denunciar a violência sutil ou declarada contra as mulheres, extrapolando as paredes dos consultórios do SUS. 

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 22/10/2014.