Eu te desafio a me amar

Texto de Marcelo Caetano.

Foto de Diana Blok. Parte do projeto fotográfico "Eu te desafio a me amar".
Foto de Diana Blok. Parte do projeto fotográfico “Eu te desafio a me amar”.

A arte é sempre um bom caminho para se tomar em direção à libertação, embora se dê sob um processo bastante particular, resultando em efeitos diversos para cada indivíduo. As portas que se abrem para pensar e repensar o que fazemos e o que somos, uma vez abertas, já não podem ser mais fechadas. É a isso que Diana Blok se propõe.

Diana Blok é uma fotógrafa holandesa/uruguaia com raízes no Brasil. De uma sensibilidade incrível, a partir da câmera é capaz de escutar o que os olhos dizem. Com seu projeto “Eu te desafio a me amar” (veja programação), propôs-se retratar pessoas LGBT’s de Brasília e do Rio de Janeiro. Algo que parece muito simples, transforma-se em arte através das lentes de Blok.

Seus retratos não buscam exotismo ou afetação; retratam sujeitos, pessoas com trajetórias e identidades. E é justamente isso que nos leva a uma série de questionamentos: quem é o outro? Qual a diferença do outro que o faz diferente de mim? Por que essa diferença nos incomoda tanto?. As imagens nos permitem pensar sobre identidades, sobre como as construímos e como nos colocamos no mundo a partir delas, e, ainda, sobre como todos nós partilhamos aspectos muito simples da vida: casa, família, sonhos, trabalho, enfim, cotidiano.

Tendo sido fotografado para o projeto, tive a sensação de não estar sozinho, de ter o meu lugar no mundo compartilhado por outros tantos que também questionam seu lugar no mundo, mas que, nem por isso, furtam-se a estar nesse mundo. Além disso, durante os meses de elaboração, tive algumas oportunidades de conversar com Diana. Seu processo de escuta dos indivíduos que fotografa me parece ser bastante importante, e mesmo constitutivo, daquilo que a artista busca trabalhar: a sensibilidade para enxergar além de si mesmo.

Serviço

A exposição será inaugurada hoje em Brasília e depois seguirá para o Rio de Janeiro. Além disso, o INESC – Instituto de Estudos Socioeconômicos promoverá uma série de atividades paralelas a exemplo da Roda de Conversa com jovens do projeto Onda, que contou com a participação da Professora Doutora Flávia Teixeira, do Ambulatório Saúde das Travestis e Transexuais do HC/UFU. Tais atividades formativas e de debates seguirão até dezembro de 2014.

BRASÍLIA

Museu da República

• 14 de maio, 20h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

• 15 a 30 de maio, 9h30 às 18h00: Exposição aberta ao público.

• 29 de maio, 16h00: Cinema e política: debate aberto ao público sobre direitos humanos LGBT no Brasil.

Cidade Estrutural – Coletivo da Cidade

• 31 de maio, 16h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok, no Sarau das Coletivas.

• 31 de maio a 15 de Junho, 9h00 às 17h00: Exposição aberta ao público.

RIO DE JANEIRO

Complexo de Favelas da Maré/Observatório de Favelas

• 25 de abril, 18h00: Abertura da exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

• 26 de abril a 09 de maio:, 9h00 as 18h00 Exposição aberta ao público.

• 26 de abril, 10h00 às 13h00: Oficina de fotografia com a artista visual Diana Blok (inscrições no local).

Anistia Internacional

17 de maio: Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia.

• 10h a 19h30 – Exposição de fotografias “Eu te desafio a me amar”

• 16h – Mesa de Debates sobre liberdade de expressão e direitos humanos de minorias sexuais.

• 19h30 – exibição do filme “Eu te desafio a me amar”, de Diana Blok.

Levantai-vos, todas!

Texto de Jamil Cabral Sierra.

1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.
1° Semana de Blogagem Coletiva pela Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo site True Love.

Todas as bichas, bichinhas, bichonas. As mariconas, as afeminadas, as passivonas, as excêntricas, as marginais, as depravadas, as despudoradas. As opositoras do heterocapitalismo, as contestadoras da heteronormatividade, as humilhadas, as violentadas, as escarradas.

Todas!

Levantai-vos, todas!

Todas as fanchas, monocós, caminhoneiras, sapatonas. As mulheres negras, pardas, amarelas, cor-de-rosa. As vadias, as putas, as prostitutas. As biscates, mulheres da rua, as nuas. Todas as estranhas, as subversivas, as corrompidas, cuspidas. Todas as enxotadas, enxovalhadas, as perseguidas.

Todas!

Levantai-vos, todas!

Todas as macho-fêmeas, travestis, drag queens, drag kings, crossdressers, transgêneros, intersex. As ambíguas, as dúbias, as confusas. Transhomens, transmulheres, transviadas, desviadas, desconfiadas, viadas. As desfamiliarizadas, as estrangeiras, as contra-identitárias, as etéreas.

Todas!

Levantai-vos, todas!

Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2013. Foto de Calé Merege/Mídia NINJA no Facebook.
Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2013. Foto de Calé Merege/Mídia NINJA no Facebook.

Todos os corpos estranhos, desfigurados, amputados, não conformados, não capturados. Os corpos sujos, peludos, alterados, marcados, protéticos, mancos, coxos. Os corpos dobráveis, contornáveis, dissidentes. Os corpos rasgados, perfurados, modificados. Os corpos-muleta, os corpos-cadeira, os corpos-dildo, os corpos tortos. Corpos gordos, assimétricos, desalinhados, desequilibrados.

Todas!

Levantai-vos, todas!

Prazeres imundos, dismorfes, desterritorializados, híbridos, contra-sexuais. Prazeres sintéticos, inorgânicos, inventados. Prazeres líquidos, fluidos. Prazeres abjetos, rotos, negados. Prazeres imprevisíveis, não assimilados, invisíveis.

Todas!

Levantai-vos, todas!

Hereges, pecadores, profanos, bruxas, traidoras da norma, monstros e dragões, ciborgues e mutantes, centauros e duendes, borboletas e lagartas. As dessacralizadoras do cu, as desmistificadoras do cis, as subvertidas, as invertidas, as incontidas, as invadidas.

Todas!

Essas vidas todas! Vivíveis!

Levantai-vos!

Jamil Cabral Sierra.
Jamil Cabral Sierra.

—–

Jamil Cabral Sierra é professor da UFPR, pesquisador na área de Gênero e Diversidade Sexual e, como não canto, não danço, não atuo, não toco nenhum instrumento, não pinto… nem bordo (só às vezes), não desenho e não esculpo, resta apenas inventar-me na/pela escrita. Uso os caracteres como arma de guerrilha.

*Esse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love.