Um brinde à sua saúde: 5 dicas para mulheres bissexuais melhorarem sua saúde e bem estar

Texto de Audrey Faye. Publicado originalmente com o título: “Here’s To Your Health: 5 Ways Bisexual Women Can Pursue Better Health & Wellness”, no site Autostraddle em 31/03/2015. Tradução de Jéssica Alves e revisão de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Os números são evidentes: mulheres bissexuais correm maior risco de terem a saúde mental e física prejudicadas, estão mais propensas à pobreza, vício, violência e, com frequência, estão sujeitas à discriminação dentro do sistema de saúde. Porém, não somos obrigadas a aceitar assistência médica de baixa qualidade ou negligência. Felizmente, a Comunidade Bi está se unindo para propor melhorias na conscientização e no acesso ao sistema de saúde.

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Por que o termo bifobia incomoda?

Texto de Érica G. para as Blogueiras Feministas.

O polêmico termo tem ocupado as redes sociais nos últimos tempos com alguns grupos lutando desesperadamente pela sua deslegitimação, em muitos casos vindos de mulheres lésbicas e feministas. Os argumentos contrários são vários, um deles é que o preconceito que bissexuais sofrem não é estrutural e que mulheres bissexuais sofrem lesbofobia e não bifobia.

Para desconstrução de tal argumento temos que remontar a criação do termo lesbofobia. Termo surgido principalmente para diferenciar a dupla violência que mulheres sofrem, que não é da mesma ordem da violência sofrida por homens. Uma por serem mulheres e a outra por serem homossexuais. Além disso, o termo homofobia também promoveria a invisibilidade da mulher lésbica na sociedade, pois estaria relacionado no senso comum apenas aos homens.

Pois bem, de uns tempos para cá os não-monossexuais (que não são héteros ou homossexuais) tem se organizado, e dessa organização surgiu a necessidade de criar o famigerado termo: bifobia. Tal termo surge pois nossa sociedade se organiza a partir de uma lógica binária de formatação da sexualidade e das relações entre os gêneros. Isso causa sofrimento e afeta nossas relações. Não nos sentimos na maioria das vezes acolhidos dentro dos dois grupos: heterossexuais e homossexuais. Sofremos discriminação de ambos os lados. E somos atualmente uma entidade mitológica para o senso comum.

Junho/2015. Militantes, ativistas e simpatizantes participam da 13ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Foto de Bruno Poletti/Folhapress.
Junho/2015. Militantes, ativistas e simpatizantes participam da 13ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo. Foto de Bruno Poletti/Folhapress.

Agora a questão: Por que o termo bifobia incomoda? O argumento mais usado é de que as bissexuais sofrem lesbofobia quando estão num relacionamento com outra mulher e não bifobia, pois seríamos lidas como lésbicas. Apesar de parecer um argumento válido num primeiro momento trata-se de uma falácia, já que para a turba truculenta e enfurecida de heterossexuais somos uma massa amorfa de não-heterossexuais, de pessoas que burlam a heteronormatividade.

Logo, os termos lesbofobia e bifobia (bissexualfobia) servem para dar visibilidade as especificidades dessa expressão de ódio que engloba todos os que desafiam a forma hegemônica de relacionamento (Pocahy Nardi, 2007).

No trecho seguinte, fica claro que falamos da mesma opressão mas que está sendo usada em alguns momentos para a deslegitimação da opressão homofóbica a mulheres bissexuais, incorrendo, para o senso comum, no mesmo erro que o termo “homofobia”.

Quando digo que bifobia e lesbofobia caminham juntas, quero dizer sobretudo que, apesar de diferentes, ambas incidem sobre a mulher bissexual. É comum ouvir o fato de minas bi sofrerem lesbofobia como argumento para deslegitimar a bifobia. Dizem, por exemplo, que quando apanhamos na rua por estarmos com outra mulher, sofremos lesbofobia. Pode parecer estranho de início, mas quem diz isso está certo. O desonesto é deslegitimar uma opressão específica à pessoas bi utilizando disso. Nós, mulheres bissexuais, sabemos que não é só isso que sofre uma mina bi. Mas sim, não podemos negar: quando somos lidas como lésbicas, sofremos lesbofobia. O verdadeiro problema, que tanto nos esforçamos para mostrar a outras mulheres no feminismo, é o que ocorre quando não somos tomadas por lésbicas. Referência: Bifobia existe e está no feminismo: um apelo, por Anna Lima.

De fato, independente das particularidades que não-monossexuais possuem, sofremos em alguns momentos a mesma opressão que as lésbicas, como mulheres não-heterossexuais. Mas o termo lesbofobia não nos representa e promove nossa invisibilidade. É na verdade mais uma mordaça para nós e sendo mais um dos fatores para o nosso adoecimento, pois sofremos diversas discriminações por homens e mulheres monossexuais. Daí o surgimento do termo bifobia. E este é um termo tão legítimo quanto lesbofobia. Trata-se de um posicionamento político de que existimos e que não iremos nos calar, principalmente em espaços que deveríamos estar seguras.

Para ficar mais claro quando dizem que sofremos “lesbofobia” estão nos dizendo que não sofremos por sermos quem somos, desconsiderando nossas vivências mas que sofremos por sermos confundidas com mulheres que sofrem de verdade. Além disso, mulheres bissexuais que se relacionam com homens sofrem com diversos estereótipos e são estigmatizadas por serem bissexuais.

Se a sexualidade lésbica já é invisibilizada, quando uma mulher bissexual se relaciona com outra mulher, todo o relacionamento vai ser questionado do início ao fim. Não importa quanto o relacionamento ou a dita “fase-passageira-de-indecisão” durar. A mulher com quem você se relaciona possivelmente será chamada de amiga ou de aventura sempre que possível. E no momento que você volta a se relacionar com um homem, toda sua vivência em relacionamento com mulheres será esquecida e relativizada. Relacionar-se com um homem para uma mulher bi é ter a sua “carteirinha” de bissexual cassada a todo momento. Para muitas pessoas, se você está em um relacionamento fechado com um homem, você é automaticamente hétero. É também a confirmação para muitas pessoas que a sua “fase” com mulheres era passageira. Referência: (In)visibilidade bissexual, por Jussara Oliveira e Thayz Athayde.

Por que dentro da comunidade feminista algumas mulheres lésbicas tentam deslegitimar a auto-organização de um grupo? Essas mulheres deixam bem claro o ressentimento que sentem por acreditarem que mulheres bissexuais desfrutam de algum privilégio do patriarcado, nos culpando por inúmeras coisas ao invés de culpar o verdadeiro opressor. O palpite é que sororidade (como muitas já apontam) só existe entre iguais. E nós já sabemos quem sempre sai ganhando com tudo isso…

Referência

POCAHY, Fernando Altair; NARDI, Henrique Caetano. Saindo do armário e entrando em cena: juventudes, sexualidades e vulnerabilidade social. Rev. Estud. Fem., Florianópolis, v. 15, n. 1, p. 45-66, abr. 2007.

Autora

Érica G. é pós graduanda em Saúde Mental e Atenção Psicossocial e feminista desde criancinha.

Nós Madalenas: uma palavra pelo feminismo

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Nós Madalenas é um projeto fotográfico com 100 retratos em preto e branco, naturais e sem edição em photoshop com o intuito de quebrar o padrão estético criado e imposto pela mídia. A proposta é pensar a beleza por meio de mulheres reais e únicas que se identificam como feministas.

Atualmente, o projeto busca financiamento coletivo para a publicação de um livro. O valor dessa obra está atrelado ao espaço que conquista, à quantidade de pessoas que tiverem acesso a esse material e forem levadas a uma reflexão acerca do tema. Portanto, registrar esse projeto em livro é uma forma de espalhar essa mensagem e alcançar um número cada vez maior de pessoas.

Você pode ajudar doando a partir de R$15 com boleto, cartão de crédito ou débito em conta por meio do site Benfeitoria, apoiando o projeto Nós Madalenas.

Imagem do projeto 'Nós Madalenas'. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria - Nós Madalenas.
Imagem do projeto ‘Nós Madalenas’. Para apoiar o lançamento do livro financeiramente basta ir ao site Benfeitoria – Nós Madalenas.

Para saber mais, conversamos com Maria Ribeiro, fotógrafa responsável pelo projeto:

1. Por que trabalhar com palavras escritas no corpo em forma de protesto?

As palavras são uma forma de expressar a vivência pessoal de cada uma das participantes. Expressando uma palavra que representa o feminismo para ela, cada uma está compartilhando uma parte de sua história, a qual reflete muitas outras histórias, trazendo assim um “raio x” de toda uma situação de gênero na nossa sociedade.

Palavras como “acolhimento”, “poder”, “empoderamento”, “luta” expressam o que essas mulheres encontraram no feminismo e que muitas vezes transformou sua visão de mundo e sua própria vida. Mulheres começaram a se libertar das imposições sociais, das cobranças desmedidas e passaram a se amar e se aceitar de forma muito mais profunda.

Um outro aspecto do projeto que é questionador é a estética do mesmo. Eu sou fotógrafa e, além do projeto, faço ensaios femininos. A minha forma de trabalho é artística e naturalista, ou seja, não há photoshop, não há um processo de pós-produção para encaixar a mulher dentro de padrões irreais de estética que estão em voga na mídia. E eu trouxe essa linguagem para o “Nós, Madalenas” ou seja, tudo que é considerado como “imperfeição” é mostrado da forma mais natural possível: estrias, celulites, cicatrizes, formas, tudo é feito para mostrar que as mulheres são reais, e cada uma traz a sua própria beleza. Para mim é muito importante que haja imagens circulando que mostrem isso, pois o que eu mais vejo são mulheres sofrendo e deixando de se amar porque estão buscando um ideal de beleza impossível de ser alcançado, por ser totalmente irreal.

2. Quais os critérios pra definir a participação no projeto?

Não há uma seleção ou critérios, basta a mulher ser feminista e escolher uma palavra inédita para seu retrato. Foram feitos 100 retratos de mulheres de todas as idades, corpos, cores e vivências.

3. Como se dá o processo de realização da fotografia? Fale um pouco do comportamento e reação das mulheres participantes.

Cada participante é um caso diferente e cabe a mim ter tato e empatia para lidar com cada uma da forma que ela se sinta o mais confortável possível. Isso não é uma tarefa fácil, porque são pessoas que eu nunca vi na vida, que nunca me viram e eu tenho ali alguns minutos para fazer com que elas confiem em mim o suficiente para se abrirem e fazerem uma foto que transmita uma mensagem.

Pra elas também é um desafio pois são mulheres que não estão acostumadas a serem fotografadas (e a tensão que vem com uma lente apontada pra você não é fácil de lidar) e é uma experiência forte porque a foto traz um pouco da história dela, ela está realmente abrindo muito dela mesma.

Então, a gente começa com um papo, relaxa o corpo, vamos pro estúdio, fazemos alguns testes e aí que começa o processo de buscar naquela pessoa o retrato que simboliza aquela mensagem. Geralmente existe um minuto em que fotógrafo e fotografado se conectam e é naquela segundo que sai a foto. Parece que por uma fração de tempo aquela pessoa não está ali como modelo, não está tensa, não está auto- consciente, ela simplesmente se abre, e é aí que temos que pegar a foto. É um momento mágico que demanda habilidade e tato para ser atingido, mas é extremamente gratificante.

4. Como foi a repercussão das primeiras fotos publicadas?

O projeto começou pequeno e com algumas amigas. Fizemos um Tumblr para nós mesmas e não tinha divulgação. Mas as amigas fizeram, outras amigas quiseram fazer, aí as amigas das amigas também queriam e aí o projeto foi crescendo. Sem eu mesma saber ele começou a ser publicado em algumas plataformas virtuais e redes sociais e a repercussão foi bem grande. A partir desse ponto é que o projeto cresceu bastante e novas metas foram surgindo.

5. Como o livro pode expandir o projeto?

Primeiramente o livro vai trazer não apenas os 100 retratos feitos ao longo de um ano, mas também um relato de cada fotografada. O meu contato com todas essas mulheres me fez conhecer muitas de suas histórias, que são um material rico e envolvente e eu senti a necessidade de compartilhar isso também. E foi aí que surgiu a ideia do livro.

Além disso um material publicado é muito expressivo, ele traz uma marca e um sentimento de conclusão para o projeto, pelo menos de uma primeira fase dele. Como disse, considero muito importante encher essa mídia de imagens de mulheres reais, mostrar que o natural é belo e que não é preciso estar dentro dos padrões impostos pela mídia tradicional para ser bonita. Quero que as mulheres se amem e amem seu corpo independente da aprovação alheia.

E quero trazer o tema do feminismo e do seu impacto da vida das mulheres a tona, quero gerar discussão sobre o tema, gerar reflexão, quero que a questão de gênero se torne pauta cada vez mais presente em todos os ambientes pois é um tema que ainda precisa de muito trabalho de conscientização, tanto para homens quanto para mulheres.

E aí, vamos apoiar o projeto Nós Madalenas? Nós apoiamos!

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Vídeo: Nós Madalenas – Uma palavra pelo feminismo