Feminismo, Militância e Autocuidado

Texto de Manuela Melo para as Blogueiras Feministas.

A nós mulheres foi delegado o cuidado. O cuidado da casa, dos filhos e filhas, dos irmãos e irmãs, do marido, dos animais domésticos. O cuidado na profissão: somos maioria na enfermagem, no serviço social, na pedagogia. O cuidado (dos outros) perpassa nossa realidade desde muito cedo.

Quando as mulheres brancas de classe média alta saíram de casa para “trabalhar” (como dizem, né, porque sabemos que em casa o que se faz é trabalho também), passaram a pagar (muito pouco) outras mulheres (muitas vezes negras e sempre pobres) para fazer o cuidado. Com a casa, com filhos/as, animais. O cuidado pode ser menos rotina na vida de algumas mulheres que de outras, mas segue sendo uma atividade implacavelmente feminina, por conta do patriarcado e da divisão sexual do trabalho.

Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Eduardo Fonseca Arraes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

As mulheres reivindicam há muitas décadas o espaço público. O espaço político, institucional, a participação e reconhecimento nos movimentos sociais, no trabalho, na mídia. Queremos, com razão, ocupar a rua, espaço historicamente masculino. A rua era deles, a casa, nossa — e digamos, nem isso, porque por séculos nos foi negado inclusive o direito de propriedade. Queremos o espaço público e por isso ainda hoje saímos às ruas para dizer: O corpo é meu, a cidade é nossa!

Reivindicar o espaço público não é negar o privado. É negar, em verdade, a dicotomia público-privado, que só serve à desvalorização do chamado espaço privado, espaço destinado a nós historicamente. Faz tempo que se diz que o pessoal é político, isto é, o que se faz no “privado” tem conotações políticas, de opressão e dominação. E que o político é pessoal: as relações políticas precisam considerar as dimensões dos sentimentos, da emoção, da vivência subjetiva das pessoas.

Não devemos negar o cuidado. O cuidado é essencial, e é por isso que o patriarcado o mantém tão intacto. Não há como viver sem cuidado. Não há porque viver sem cuidado. O cuidado nos fortalece para a luta. O cuidado faz parte da luta.

Nesse sentido, se cuidar é uma tarefa militante. Vivemos em um mundo capitalista de fluxo de informações e pressão pela produtividade que nos oprime na dimensão subjetiva e objetiva e nos ameaça a saúde física e mental.

As mulheres militantes, em geral, são responsáveis pelas atividades de cuidado da casa, dos/as filhos/as, do seu trabalho fora de casa, da sua capacitação e educação (mais mulheres têm educação formal que homens, mas isso não se reflete na oferta de empregos para nós, então em geral nos capacitamos cada vez mais para tentar, sem sucesso, compensar essa diferença), e também das atividades militantes. Para além da tal dupla jornada de trabalho. Para muito além.

As atividades militantes também envolvem cuidados. Cuidados com os companheiros e companheiras, com as populações oprimidas: com as mulheres vítimas de violência doméstica, com os drogadictos, com as mulheres que abortam; e o cuidado com o próprio funcionamento da atividade desenvolvida.

Nessa tripla ou quádrupla jornada de trabalho e de cuidado, em que momento cuidamos de nós? Esquecemos de nossa saúde física e mental. De nosso lazer, de nosso crescimento pessoal, de nossa conexão com as pessoas. Acabamos, muitas, vezes, adoecendo fisicamente, ou em depressão, por dedicarmos nosso tempo ao externo e negarmos a nós mesmas o cuidado que também merecemos.

Foucault dizia que não é preciso ser triste para ser militante, mesmo que a coisa que se combata seja abominável. Mas as coisas que combatemos são mesmo abomináveis. As pessoas morrem de fome, são estupradas, assassinadas por homofobia, não têm onde morar, são assassinadas pela polícia, são internadas contra a sua vontade — e a lista é infinita. Militar é se confrontar com o que há de pior no mundo, porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente. Militar é uma tarefa de resistência, porque somos reprimidos pelo estado, pela ideologia dominante, pela mídia, ….e a lista segue. Para resistir é preciso força. Para termos força é preciso cuidado. Já dizia a Gal Costa: é preciso estar atenta e forte.

Como fazer para manter as esperanças, a vontade de viver e de mudar o mundo, quando todos os dias nos reprimem e machucam? É preciso cuidado. Cuidado individual e coletivo. O cuidado deve ser uma tarefa comunitária. Não há relação que seja meramente política. sua(seu) companheira(o) de militância deve te cuidar e você deve cuidar dele também, para que sigamos nos fortalecendo, resistindo e crescendo. Então, repito, cuidar é uma tarefa militante.

E não achemos que o cuidado é egoísmo, perda de tempo, coisa de pequena burguesia; isso só faz reproduzir as estruturas patriarcais capitalistas de cuidado (as mulheres vão seguir cuidando dos outros e não de si) e nos enfraquece perante nossos adversários na luta social, que estão todos muito bem cuidados pelas mulheres que eles pagam para isso.

Emma Goldman uma vez disse que “Se eu não posso dançar, não é a minha revolução”. E é essa a verdade. Não podemos reproduzir a lógica de trabalho capitalista que nos impõe modelos de produtividade e meritocracia em nossa atividade militante. Se não podemos ter lazer, amor, se não podemos nos cuidar, não é a nossa revolução.

Mulheres, cuidem-se. O auto-cuidado é uma tarefa revolucionária!

Autora

Manuela Melo é estudante de Direito da UnB. Mulher negra, nordestina, militante feminista intersecional e que tem coragem de sonhar e lutar com um mundo sem opressões.

E a história da trabalhadora brasileira?

Texto de Srta. Bia.

O Dia do Trabalhador, (consequentemente da trabalhadora?), ainda é considerado um momento de protesto e crítica às estruturas sócio-econômicas do país. Os trabalhadores tem, historicamente, tradição de movimento organizados. Inclusive as trabalhadoras.

Já contamos que o 8 de Março tem estreita ligação com o movimento de operárias russas:

Se as operárias russas do início do século XX recebessem bombons e flores em comemoração ao Dia da Mulher, talvez se sentissem ofendidas. Afinal, quando os protestos do dia 8 de março foram deflagrados, o que elas queriam mesmo eram melhores condições de trabalho. Não aguentavam mais as jornadas de 14 horas e os salários até três vezes menores que os dos homens. Outros marços virão por Maíra Kubik.

O feminismo tem grande parte de sua história atrelada aos movimentos de operárias desse período pós revolução industrial. Porque durante muito tempo, não só os homens, mas também mulheres e crianças trabalharam em fábricas. A ideia de que o feminismo retirou as mulheres do lar para levá-las para o mercado de trabalho, aconteceu muito depois disso.

Os diversos movimentos de trabalhadoras tem fundamental importância na criação e desenvolvimento do feminismo, até porque no âmbito do trabalho também estão refletidas as desigualdades de gênero. Ao entrar massivamente no mercado assalariado, as mulheres acabam indo além das fronteiras das esferas de suas vidas: privada, assalariada e política.

Apesar do elevado número de trabalhadoras presentes nos primeiros estabelecimentos fabris brasileiros, não se deve supor que elas foram progressivamente substituindo os homens e conquistando o mercado de trabalho fabril. Ao contrário, as mulheres vão sendo progressivamente expulsas das fábricas, na medida em que avançam a industrialização e a incorporação da força de trabalho masculina. As barreiras enfrentadas pelas mulheres para participar do mundo dos negócios eram sempre muito grandes, independentemente da classe social a que pertencessem. Da variação salarial à intimidação física, da desqualificação intelectual ao assédio sexual, elas tiveram que lutar contra inúmeros obstáculos para ingressar em um campo definido —  pelos homens — como naturalmente masculino. Referência: Trabalho feminino e sexualidade (pg. 581) por Margareth Rago (1).

O primeiro romance de Patricia Galvão, a Pagu, publicado com o pseudônimo de Mara Lobo, chama-se ‘Parque Industrial‘ (1933) e relata a difícil vida das operárias de seu tempo, com longas jornadas de trabalho, baixos salários, maus tratos de patrões e, sobretudo, o contínuo assédio sexual. Infelizmente, a história oficial silencia as mulheres e o que temos na maior parte das vezes é a construção masculina da identidade das mulheres trabalhadoras do que com sua própria percepção de sua condição social e individual. Afinal, o que sabemos sobre as trabalhadoras dos primórdios da industrialização brasileira?  O que sabemos sobre as mulheres que lavaram roupa para as famílias ricas do Brasil no início do século XX? O que sabemos sobre as negras e indígenas que se insurgiram contra a escravidão?

Essas são algumas questões que se refletem na divisão sexual do trabalho até hoje, assim como nas desigualdades salariais por sexo. A discriminação salarial tem um forte componente histórico no papel social designado a mulher. É frequente a associação entre a mulher no trabalho e sua moralidade social, a ameaça à sua honra, a ameaça que isso representa a instituição familiar. As trabalhadoras pobres sempre foram consideradas profundamente ignorantes, irresponsáveis e incapazes. Será que não vemos ecos dessas classificações atualmente? De movimentos que pedem para as mulheres abandonarem o trabalho em prol da educação das crianças até a discussão da PEC das domésticas?

Mulheres trabalhando em máquinas de costura nos anos 70. Foto de Kheel Center, Cornell University no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Mulheres trabalhando em máquinas de costura nos anos 70. Foto de Kheel Center, Cornell University no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Já falamos sobre a importância de pensar outras formas de conceituar e definir trabalho, além de ressignificar o trabalho doméstico e como isso tem grande impacto na vida das mulheres:

Mas há uma coisa que poderia melhorar e muito a vida da maioria de mulheres e mães como um todo: podemos lutar pela redução da jornada de trabalho. Que tal se todo mundo pudesse trabalhar no máximo cinco ou seis horas por dia, 30, 36 horas por semana? Algumas mulheres, aliás, já fazem isso — sobretudo nas profissões em que a regulamentação estabelece esse tipo de limite. Mas a ideia é: por que não reduzir para todos os trabalhadores, de todos as categorias possíveis? A maternidade e a luta pela redução de jornada para todos por Amanda Vieira.

Sabemos que, quando a mulher de classe média entrou para valer no mundo do trabalho, as responsabilidades com a casa e os filhos passaram de seus ombros para os de outras mulheres: empregadas e babás, avós, vizinhas, etc. Agora, no momento em que muitas famílias deverão adaptar sua rotina à nova e mais justa realidade da jornada de trabalho de 8 horas da empregada doméstica, ao contrário do que tem sido até agora (em que a empregada se adaptava aos horários dos patrões), é necessário que esse peso seja distribuído entre todos os membros da unidade familiar e idealmente com a comunidade. Trabalho doméstico: tempo de mudanças necessárias por Cecilia Santos.

Portanto, é preciso repensar sobre o trabalho, como ele está organizado, quem tem se beneficiado e como nossa sociedade está fundada sobre ele. E, a participação das mulheres é fundamental nesse processo. Destaco ainda, que atualmente, vemos com força o movimento de trabalhadoras rurais, que aliam as reflexões sobre a vida doméstica às demandas dos movimentos populares. Assim como outros movimentos de trabalhadoras, mães, educadoras, enfermeiras, médicas, assistentes sociais, entre outras, denunciam a ausência ou a precaridade dos serviços coletivos do Estado. Além de ampliar o debate da cidadania.

(1) Trabalho feminino e sexualidade, artigo de Margareth Rago publicado no livro História das Mulheres no Brasil, organização de Mary Del Priore.

Existem mulheres filósofas, cientistas, intelectuais?

Texto de Marilia Moscou.

Façamos aqui, leitor/a, eu e vocês, um breve exercício. Sem pensar, em 30 segundos, digam o nome de dez grandes filósofos, cientistas, pensadores, homens ou mulheres. Valendo!!!

… [30 segundos depois] …

E aí? Desses dez quantos são mulheres? E se você fizer esse teste com as pessoas aí em volta, em casa ou no trabalho, quantas mulheres serão lembradas?

Esse assunto há certo tempo passou a me incomodar (e hoje estudo algo relacionado com isso no mestrado – www.mariliamoscou.com para conhecer mais), como imagino que esteja as incomodando agora. Acabo de conhecer o genial jogo “Filosofighters” (veja aqui) lançado pela revista Super Interessante no qual filósofos se encontram e este assunto voltou. Entre oito opções de “filósofos” com quem jogar – e os golpes são baseados em suas teorias e história – há somente uma mulher que nem é um personagem independente. Simone de Beauvoir aparece junto a Jean-Paul Sartre (que aparece com Simone, respectivamente) e, embora sua parceria amorosa não possa ser dissociada de ambas as obras, seus trabalhos enquanto autores e filósofos são bem distintos e até independentes. Além disso, a parceria amorosa é mais frequentemente lembrada e tomada como causa do sucesso intelectual quando se fala de Simone do que quando se fala de Jean-Paul. Ela é mais comumente tratada pelo primeiro nome e ele pelo último. Enfim, fica difícil dizer que a presença dela ali no jogo é, neste contexto, suficiente para se “incluir” as mulheres.

A presença e a obra de várias mulheres na filosofia, na ciência e enquanto intelectuais de forma mais abrangente, é muito pouco reconhecida e valorizada. Seus nomes são frequentemente “apagados” da história da ciência. Quando aprendemos física newtoniana no colégio, por que em momento nenhum é mencionada a obra de Émile du Chatelêt, grande comentadora de sua obra que foi a primeira pessoa a desenvolver a idéia de conservação de energia? Por que ao estudarmos sistemas binários e conceitos de programação raramente se fala do trabalho de Ada Lovelace, que foi a primeira pessoa a desenvolver um programa de computador e a noção de programação?

Hypatia, filósofa e matemática grega. Imagem: Bettmann/Corbis no The Guardian.

Embora possamos ter a impressão de que essa “ausência” das mulheres em nossas listagens no exercício que propus aqui se deva à sua ausência nesses campos de estudo ou à pouca relevância de seu trabalho, isto não é verdade. Uma boa busca e uma lida no documento que indico neste post do meu blog , ou no site Women Philosophers, podem elucidar de cara esta questão. Foi uma mulher que descobriu que o petróleo poderia ser usado como combustível mais eficiente ao invés do carvão e usou sua influência para que a indústria na Europa transformasse seus hábitos. Mulheres desenvolveram instrumentos, conceitos, aparelhos, cálculos, ferramentas, teorias. Raramente são lembradas por seu trabalho.

O jogo Filosofighters infelizmente peca neste aspecto, embora a ideia ainda que sem trema seja genial. Se pegarmos só o campo da filosofia,  veremos que não estao lá (no jogo) autoras cruciais como Hypatia, Emma Goldman, Hannah Arendt, Susan Blow… Se incluirmos intelectualidade em geral, faltariam pelo menos Pagu, Gertrude Stein, Virginia Woolf, Gilda de Mello e Souza, além de inúmeras outras que podemos listar nos comentários! Nesse ponto o jogo decepciona, apesar de que o golpe de sutiã e o beijinho entre Simone e Jean-Paul possam ser fofuchos e bem-humorados (ainda assim, a chatice da consciência feminista fica meio irritada de ver que o golpe da Simone não tem muito a ver com sua obra, mas com uma idéia equivocadíssima de feminismo).

Dê uma olhada e me avise se eu estiver exagerando. Mas acho que é bem por aí. Sem vergonha, contem lá: quantas mulheres nas listagens de vocês? Como foi esse exercício?