Histerectomia, um relato

No final de janeiro, Lia Mara nos escreveu:

Gostaria de compartilhar com voces um desabafo… precisei fazer esse mês uma cirurgia de histerectomia e ouvi tantas coisas absurdas acerca disso, em relação ao meu corpo, a minha autonomia enquanto mulher, a minha condição de pessoa que resolvi desabafar.

O texto foi escrito de modo bem informal, numa linguagem coloquial, mas que deixa claro o que senti e o que imagino ser o pensamento hipócrita de uma grande maioria ainda.

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Texto de Lia Mara Meyer

….Quando atendi ao telefonema já senti um frio na espinha… sabia que seria para explicações intermináveis… procurei não deixar que aquelas palavras me ferissem tanto, que me apedrejassem como se estivesse cometendo um crime, mas estava sendo uma conversa pesada, imposta…. como se a partir desse momento eu não fosse mais útil a seu filho (meu marido), eu não pudesse procriar mais, e isso o indignava cada vez mais (meu sogro).

Como pode uma mulher sem útero ser útil? Ele me questionava o fato de ter tido somente um filho, ou seja, eu estou dando fim a linhagem familiar, pelo menos nesse momento. Isso era inadmissível ao patriarca. Tento esclarecer que essa é uma decisão que cabe a mim e é clara, tanto por condições econômicas, como sociais, como de saúde e psicológicas. Sim! O corpo é meu. A decisão é minha, nesse caso em conjunto com meu marido, mas com prevalência da minha vontade.

Eu ainda escuto entoar em meus tímpanos, meu sogro falando em tom alto que essa decisão deve ser por duas questões: Ou estou escondendo uma doença muito grave , ou é coisa que enfiaram na minha cabeça por “ter estudado tanto”. Fala que o marido é que decide quantos filhos ele pode sustentar, ele (meu sogro) no caso teve quatro filhos, mas foi ele que decidiu. Onde andava meu marido (filho dele) que não me impedia de fazer a cirurgia?

Foto de Lee Haywood no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Lee Haywood no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Como convencer uma pessoa de 70 anos que estou sendo submetida a uma histerectomia aos 39 anos por ter endometriose avançada ? Como não se indignar com as imposições a que tenho que escutar, quando minha fala é a todo momento interrompida por um discurso paternalista, egoísta e agressivo. Minha indignação era compatível com minha curiosidade em ver onde o discurso dele chegaria.

Como não se revoltar com pessoas assim, que ainda de acordo com outra mulher (minha sogra), dizem em alto e bom tom que devo ter algum problema em não querer ter outro filho, com tantos avanços da medicina? Que serei infeliz, e pior, que estou impedindo os outros de serem felizes.

Alguém me diga onde esta escrito que maternidade é sinônimo de felicidade, por favor!!

Onde esta o respeito, a tolerância, a compreensão de que meu corpo, minha saúde e minhas decisões cabem somente a mim?

Hoje tive a experiência real da violência psíquica com que sofrem mulheres em situações parecidas, que se tornam improdutivas como reprodutoras e não tem mais serventia para a sociedade (isso pelo discurso moralista da sociadede), ou que resolvem simplesmente não serem mães. São discriminadas, agredidas, vítimas de uma sociedade hipócrita que só reproduz o que os séculos já mostram – paternalismo pondo a prova seu direito sobre o corpo feminino. Estupros, mortes, violência doméstica, abusos, violência psicológica, todos os tipos possíveis, infelizmente tem em seu quadro quase sempre um homem.

Mas não acabou aí a conversa… para finalizar, escutei de meu sogro que esta “assustado” comigo e, que vai rezar para nada de pior acontecer, porque estou me atirando de uma ponte sozinha, mulher sem útero não vive muito tempo, porque “seca por dentro”.

Complemento com a ligação de uma “amiga” me perguntando…”como esta sua cabeça? Porque viver sem útero deve ser muito difícil, afinal, é sua essência que não existe mais”. Indignada, e sem vontade de responder a uma questão absurda dessas, disse que estava cansada, queria me deitar e desliguei. Me nego a conversar partindo de uma premissa tão revoltante.

Tomo essa conversa como um motivador para avançar nos estudos de gênero, porque ser mulher sempre foi, sempre será uma questão muito mais abrangente do que uma questão de gênero. Seria como se fossemos a grosso modo divididas em putas, santas, mães, parideiras, domésticas, loucas, lésbicas, ou então… bem… definições é que não faltam aos homens para “essas mulheres”. E o pior… essas definições muitas vezes partem das próprias mulheres…

No início de fevereiro tive acesso a biópsia realizada e se não tivesse feito a cirurgia, pelo resultado da biópsia teria grandes chances de desenvolver um tumor e engrossar a enorme lista de casos de câncer do colo de útero no Brasil.

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Lia Mara Mayer é socióloga. Tem 39 anos, é casada e tem um filho. Faz mestrado em Ciências Sociais na UFPR.

O discurso da culpa: obesidade, distúrbios mentais e violência contra a mulher

Barbara Mentalez, que escreve no blog Mental Box, nos enviou esse texto para publicarmos e iniciou o diálogo sobre as questões aqui tratadas no post: Uma questão de peso.

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Texto de Barbara Mentalez*

Olá, muito prazer, sou Barbara Mentalez, uma mulher gorda. Não forte ou gordinha, gorda mesmo. Meu atual índide de massa corporal se situa na faixa de obesidade de grau I, numa escala que vai até III. Há menos de um ano e meio esse número era de no máximo 22, exatos dez pontos a menos. O que aconteceu? Deixei de fazer atividade física em excesso para me tornar sedentária, me dediquei ao consumo desenfreado de batata frita, azeite, macarrão, manteiga, pão, pizzas e afins. Resumindo, a bulimia que me acompanhou por dois anos se transformou em compulsão alimentar.

Beth Ditto, vocalista da banda Gossip. Foto: divulgação.

Estudos em andamento apontam para a tese de que não existem diversos tipos de distúrbios alimentares. Todos seriam faces da mesma moeda. Como se fossem intervalos de uma régua na qual os pacientes podem e transitam facilmente. O que acontece é que o distúrbio alimentar vai mundando suas características ao longo do tempo. Eu que antes era bulímica agora me encontro na categoria de compulsiva alimentar, sem provocar vômitos ou purgações. E existe a possibilidade que um dia eu me “torne” bulimica de novo ou venha a ser anoréxica.

Esses distúrbios, sobretudo a compulsão alimentar, costumam ser descritos como uma tremenda falta de vontade. Porque gordos são preguiçosos, comem sem parar, não se amam, são em tese culpados por serem desse jeito pois lhes falta força de vontade para reagir, para tomar uma atitude face ao excesso de peso. Isso lhe soa familiar? Pessoas com distúrbios ou doenças mentais (coloquemos nesses termos) são frequentemente acusadas de falta de vontade, de falta de amor próprio. São inundadas por discuros de ódio e culpa.

Porque comer como a gente come devia dar culpa não é. Só que não. É preciso entender que, assim como não somos culpados por sermos bipolares ou qualquer coisa que o valha, também não é uma questão de vergonha na da cara sofrer de compulsão alimentar e por causa disso sofrer de obesidade. Não posso dizer que minha vida é mais fácil agora que sofro de compulsão, mas é muito mais fácil do que ser magra e viver indo pro banheiro mesmo após de comer uma folha de alface. Sim é verdade, fiz isso porque me sentia muito culpada, inúmeras vezes.

Essa culpa também se coloca para quem é vítima de violência, sobretudo em crianças e mulheres. Somos culpadas de usar a roupa errada, de não termos força de vontade para largar o marido violento, de gostar de sermos agredidas. Ouço isso o tempo todo de minha mãe. Ela diz: essa mulher merece sofrer porque não faz nada para mudar. O mesmo que ouvimos quando gordos e quando pacientes psiquiátricos. Falas que são de uma desumanidade monstruosa.

Beth Ditto, vocalista da banda Gossip. Foto de Robert Maxwell/The Originals do New York Times.

Não quero me fazer de coitada e se digo o que vou dizer é para pensarmos não em um caso particular mas na estrutura da coisa: imaginemos o caso de uma bipolar que tem distúrbios alimentares, não consegue trabalhar e sofre agressão em casa. Colocando assim parece uma superposição artificialesca mas o modus operandi de cada camada de problema é tratada de forma muito semelhante. A culpa é sempre da vítima, lhe falta ânimo, vergonha na cara Fatores externos que ela não pode controlar não são tomados em conta.

E o que fazer com isso? O meu conselho é tomar isso como fonte de empoderamento, essa coisa que as feministas tanto gostam de falar. Não somos culpados por termos distúrbios alimentares, de sermos gordos ou de sofrermos abusos de qualquer sorte. Isso não quer dizer que não podemos fazer algo para mudar. Significa apenas que não vale a pena comprar o discurso de ódio e culpa porque eles não nos cabem. Literalmente. Acho que é por isso que a gravidez da Adele surpreendeu meio mundo. Ela deveria se sentir culpada, jamais deveria estar ocupada sendo feliz.

*Barbara Mentalez, uma personagem real de ficção. Atéia e bipolar, não necessariamente nessa ordem.

Saúde: preconceito e machismo

Dia 28 de maio foi o Dia Internacional de Ação da Saúde da Mulher. Não há uma mulher universal. Dependendo de sua raça, etnia ou sexualidade as mulheres veem e sentem de formas diferentes os cuidados que devem ter com sua saúde. Porém, é visível que as políticas públicas brasileiras tem esquecido a saúde integral da mulher e privilegiado a saúde materno-infantil. É preciso lutar cotidianamente Necessitamos pela implementação de políticas de saúde que garantam o acesso a serviços de qualidade e que respondam as reais necessidades de todas as mulheres. E isso deveria começar com o fim dos preconceitos e machismos que cercam a saúde feminina.

Há dois estereótipos a respeito de mulheres e dor impossíveis de coexistirem. Mas que coexistem. Dizem que as mulheres são frescas, não aguentam nada. E dizem que as mulheres suportam melhor a dor do que os homens. Assim como qualquer outro estereótipo machista, esses também não nos ajudam em nada. Pelo contrário, escondem enormes perigos.

Para que alguém consulte um médico, geralmente é preciso que a pessoa perceba alguma alteração no seu estado de saúde e, que ela conclua que é necessária uma avaliação médica para solucionar esse problema. E claro, que queira solucioná-lo.

No entanto, não são poucos os relatos de mulheres que sofrem de cólicas, por exemplo, mas ao procurar uma ginecologista, ou seja, ao perceber uma alteração em seu estado de saúde, concluir que somente um médico irá solucionar esse problema, e querer solucioná-lo, voltam do consultório com a sensação de que: “cólicas são normais”, “cólicas não doem tanto assim”, “cólicas são suportáveis”.

Também não são poucos os relatos de mulheres que sequer procuram um médico ao sofrer de cólicas porque ouvem a vida toda os mesmos argumentos: “cólicas são normais”, “cólicas não doem tanto assim”, “cólicas são suportáveis”. Acontece que dores na parte inferior do abdome, que se iniciam no início da menstruação e cessam logo após ela termine, também são os principais sintomas da endometriose. Doença que, estima-se, afeta uma em cada dez mulheres brasileiras. Segundo a Associação Brasileira de Endometriose:

A Endometriose é a presença do endométrio – tecido que reveste o interior do útero – fora da cavidade uterina, ou seja, em outras partes do útero ou em outros órgãos da pelve: trompas, ovários, intestinos, bexiga.

A Endometriose é dolorosa, pois mesmo se localizando na parte externa do útero, sofre a influência das oscilações hormonais. Isso significa que, os focos de endometriose sangram todo mês durante o seu período menstrual, mas o sangue não tem para onde ir. Além de ser dolorosa, a endometriose, também, pode tornar difícil a gravidez – uma condição conhecida como infertilidade.

Embora você possa nunca ter ouvido falar dela, considera-se que a endometriose afete uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. A endometriose é freqüentemente diagnosticada pelos médicos durante exame ginecológico, procedimento cirúrgico ou na realização de exames de investigação de infertilidade. Para cada cinco mulheres que estejam tendo dificuldade para engravidar, duas têm endometriose. Caso sua mãe ou irmãs sofram de endometriose, é sete vezes maior a chance de você também ter esse problema. Infelizmente, muitas mulheres “sofrem em silêncio”, acreditando que seus sintomas sejam normais. Outras não apresentam sintomas.

Curiosamente, a endometriose geralmente é detectada quando a mulher não consegue engravidar. E este dado é mais revelador do que parece: caso uma mulher que sofra de endometriose tenha sua primeira menstruação aos 14 anos e decida engravidar aos 26, por exemplo, e só aí a endometriose seja descoberta, isso pode significar 12 anos de sofrimento com fortes dores abdominais, sem que nenhuma medida tenha sido tomada.

Atendimento de saúde especial no Dia da Mulher Foto da Comunicação/Prefeitura de Sete Lagoas no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Não consigo creditar a mais nada a responsabilidade por tamanha crueldade, exceto nos dois estereótipos machistas citados no início deste texto: o de que mulheres são frescas, portanto, dizem sofrer mais com as “cólicas” do que realmente sofrem, e o de que mulheres suportam melhor a dor do que os homens, portanto, por que procurar um médico por causa de uma cólica normal e perfeitamente suportável?

A conclusão de que muitas mulheres só descobrem que têm endometriose quando decidem engravidar (e não é um dado tão distante assim, de sopetão, eu consigo me lembrar de três casos próximos, e de vários outros que me forma contados) revela ainda um outro ponto crucial a respeito das políticas de saúde da mulher: o quanto elas são focadas na sua capacidade reprodutiva.

Isso não é difícil perceber: em uma visita rápida à sessão “Campanha publicitárias” do portal de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde é possível constatar que, na verdade, quase todas as campanhas “com foco na saúde da mulher” tratam na verdade de… amamentação. A saúde de quem é o foco afinal? Da mulher ou do bebê das mulheres que são mães? O principal programa do Ministério da Saúde atualmente é a Rede Cegonha. O Ministério da Saúde já fez importantes avanços no processo de incorporação da atenção à saúde integral das mulheres, em todas as fases de sua vida, em políticas passadas. Agora parece estar havendo um retrocesso, como explica Priscilla Brito no texto Saúde para mães, não para mulheres.

Hoje, 31 de maio, a Medida Provisória 557 que institui o Sistema Nacional de Cadastro, Vigilância e Acompanhamento da Gestante e Puérpera para Prevenção da Mortalidade Materna cairá. O prazo para ser votada no plenário da Câmara termina hoje e o governo só poderá editar outra medida provisória com o mesmo teor daqui a um ano. A MP 557 é uma ameaça a privacidade das mulheres e não tem medidas claras para diminuir a mortalidade materna. No dia 25 de maio, o Ministério da Saúde anunciou que a Rede Cegonha reduziu em 21% a mortalidade materna.

E olha que não faltariam assuntos para serem abordados em campanhas do Ministério da Saúde. A esclerose múltipla, por exemplo, atinge quatro vezes mais mulheres do que homens. Já as doenças cardíacas matam seis vezes mais mulheres brasileiras do que o câncer de mama. E quantas de nós sabemos que os sintomas em mulheres costumam ser atípicos, como náuseas?

Entrando no campo da Saúde Mental, dados apontam também que a depressão atinge duas vezes mais mulheres do que homens. Aqui chegamos a uma outra situação, em que o machismo mostra as suas garras. Se já é difícil diagnosticar a depressão e outras doenças psicológicas/mentais, devido ao preconceito que ainda reina e afasta muitas pessoas dos consultórios psiquiátricos, imagina quando o senso comum nos ensina que “mulheres são frescas”, “choram por qualquer coisa”, “fazem drama por qualquer situação”, ou “são naturalmente descontroladas, por causa do seu ciclo menstrual”?

Estamos tod@s carecas de saber o quanto o machismo oprime as mulheres e atrapalha sua vida, mas merece atenção, especialmente da classe médica, o quanto ele pode nos estar empurrando para a morte.