Feminismo, alimentação e privilégios

Texto da Equipe de Coordenação das Blogueiras Feministas.

Quando falamos sobre privilégios as pessoas geralmente se colocam na defensiva. Não queremos ser identificadas com algo que consideramos opressor. Porém, numa sociedade desigual como a nossa é importante reconhecer os privilégios presentes em nossas falas e ações, especialmente em relação aos discursos que dizem como devemos ser ou agir, o que é certo ou errado. Atualmente, a alimentação tem sido um tópico muito debatido. E o que isso tem a ver com feminismo? Ora, as mulheres ainda são em grande parte responsáveis pela alimentação das pessoas, seja cozinhando em casa, no comércio ou como empregadas domésticas, seja sendo a responsável pela compra dos alimentos da família. Então, grande parte do discurso do que deve-se comer ou não, do que deve ser comprado ou não, do que é considerado saudável para crianças ou não, é dirigido às mulheres.

Cena de reportagem sobre alimentação no programa Globo Repórter da Rede Globo.
A cozinheira Valquíria Melo de Oliveira que tem um pequeno restaurante em Rosário do Catete, interior de Sergipe. Cena de reportagem sobre alimentação no programa Globo Repórter da Rede Globo. Maio/2014.

Atualmente, é comum vermos pipocar na internet diversos textos mostrando como é mais barato comer alimentos orgânicos que não-orgânicos. Ao deixar de comprar enlatados, congelados e outras comidas muito processadas pela indústria e passar a comprar vegetais, legumes e frutas orgânicas a conta do supermercado fica mais barata segundo esse discurso que é usado como um exemplo de vida a ser seguido. Porém, quem pode fazer essa escolha? Há um recorte social de classe importante que amplia ou restringe nossas opções de alimentação, há influências diretas do contexto em que vivemos que afetam diretamente nossa alimentação. E uma questão importante: por que acreditamos que apenas o orgânico pode ser saudável?

Para quem mora em grandes capitais no Brasil, o tempo acaba sendo um fator de privilégio. Com engarrafamentos, longas distâncias entre casa e trabalho, responsabilidades diárias com a família é preciso tempo para adquirir e preparar um alimento orgânico. Pode-se tirar um período do fim de semana para isso, como muitas pessoas fazem. Há sempre possibilidades, mas até que ponto quem ficou fora de casa durante 12, 14 horas diariamente de segunda a sexta vai ter disposição para se dedicar a cozinhar no fim de semana? “Mas é em nome da saúde”, tantos dizem. Por que a saúde precisa ser um valor absoluto? As pessoas não podem optar pelo que é cômodo, lúdico ou fácil?

Existe uma miríade de nuances que quem vê o prato de comida saudável pronto e o discurso que é financeiramente compensador deveria ponderar. Um prato de comida cozinhada em casa exige que haja alguém que a cozinhe. Isso é bem óbvio, quem é que fica encarregado desse serviço? Esse é o primeiro recorte. Se não há alguém contratado para fazer isso, no geral fica em casa a pessoa cuja renda seja menor ou inexistente, fica em casa quem tem como se sustentar sem passar muito tempo fora de casa. Existem pessoas que tem essa condição, gostam de cozinhar e dispõem seu tempo para isso. Existem outras, que tem como ficar em casa mas não tem disposição para cozinhar. Existem outras que não tem como ficar em casa para cozinhar e nem tem quem cozinhe para elas. E tem as que cozinham nos fins de semana e congelam tudo para servir as porções durante semanas. Esse é um trabalhão. Fazer toda comida de uma semana ou de duas semanas dependendo do tamanho do seu freezer — e é preciso também colocar um freezer na conta —  é uma empreitada que poucas pessoas encaram sozinhas.

Então, há limites nas ações individuais. Por mais que comer menos comida processada seja bom para a saúde, não para ficar magro, não para fazer dieta, e sim para comer menos açúcar refinado, menos sal, gorduras e outros elementos químicos que as comidas processadas industrialmente contém aos montes, é preciso questionar porque as pessoas não tem mais tempo para cozinhar e não simplesmente mandá-las arrumar esse tempo. A indústria de alimentos alega contribuir para que as pessoas não passem fome mas o processamento de alimentos nos faz perder a conexão com o que ingerimos, porque só vemos o produto, não o processo. Portanto, é preciso questionar como a produção de alimentos é feita, quais seus objetivos, seus níveis de lucros atuais, como se dá o uso de agrotóxicos e quais as consequências de suas ações, não apenas na saúde das pessoas, mas também na questão da manipulação dos animais e no esgotamento de recursos do planeta, por exemplo. Ter uma horta no quintal é ótimo para mim, mas não promove mudanças na alimentação da pessoa que mora no bairro do outro lado da linha do trem. O ar que respiro não será mais puro apenas no meu quintal.

Outro recorte é o geográfico. Existem movimentos como o slow food que ganham força no mundo inteiro. Em algumas partes das cidades e/ou do país o acesso a produtos de boa qualidade e orgânicos não é assim tão fácil. Não chega a ser impossível mas, demanda tempo, disposição e dinheiro. Afinal, a gente não se desloca facilmente carregando uma feira debaixo do braço se vai depender de transporte público, não é mesmo? Além disso, tem a frequência com que a pessoa tem que ir ao mercado quando quer consumir produtos frescos. Esses são empecilhos considerando o modo de vida que a classe trabalhadora tem em nosso país. Portanto, mais do que julgar quem tem ou não vontade de se envolver e mudar a alimentação, nos parece mais importante romper esse ciclo poderoso que é o da industria alimentícia, um dos pilares do sistema no qual a sociedade capitalista em que vivemos inseridos se sustenta. Mas também não podemos dizer que é um passo que todas as pessoas tem condição de dar da mesma maneira e com a mesma intensidade. Por causa das diferenças de modo de vida entre as pessoas, sejam da mesma ou de diferentes classes sociais.

Ter uma alimentação saudável que confronte o sistema de produção industrial de alimentos é um ato político, mas também representa um privilégio, porque nem todo mundo tem essa possibilidade. Condenar quem dá biscoito recheado pros filhos nos ajuda em quê? Condenar quem dá apenas frutas orgânicas para o lanche dos filhos nos ajuda em quê? Acreditamos que o debate precisa ir além e focar na responsabilidade das empresas que produzem e comercializam alimentos industrializados para lanches infantis. No discurso gordofóbico de que só é saudável quem é magro e come alimentos específicos. No discurso restritivo do que é saudável e do que não é. E, também, na maneira como tratamos as crianças, sempre considerando que podemos até achar que sabemos o que é melhor para elas, mas tendo em vista que não há garantias de nada. Uma pessoa adulta que come de modo saudável não significa uma pessoa melhor, menos preconceituosa, mais solidária.

Outro fator a ser analisado é a cultura. Quando se apresenta a lancheira de uma criança apenas com alimentos orgânicos, as pessoas respondem com horror diante da ausência de doces ou do que é considerado gostoso. Isso acontece porque comida envolve também sentimentos. A maneira como nos relacionamos com a comida está povoada de sensações, boas e ruins, lembranças e conexões sinestésicas. Além disso, mostra como o açúcar é importante na nossa cultura, talvez pelo Brasil ter sido grande produtor ou talvez pela herança portuguesa, porque em outras culturas o açúcar não é tão endeusado assim.

Porém, fica outra pergunta: com quem os vários de programas de televisão — tanto na tv aberta como nos canais a cabo — estão falando quando o assunto é comida saudável? É possível para uma pessoa que viva no Brasil com dois salários mínimos ou menos ter uma boa variedade de frutas e legumes em casa? Um pacote de macarrão rende certamente muito mais que um pé de brócolis, couve ou mesmo uma alface. O que irá satisfazer mais as pessoas? O que as fará se sentirem bem alimentadas? Como ativistas, comer menos comida processada deveria ser uma das nossa bandeiras. Muitas ações da produção de alimentos industrial são responsáveis pelo desmatamento do meio ambiente, pela destruição do solo e mananciais, além de promover a monocultura do agronegócio. A água que a indústria usa para produzir o refrigerante é a mesma que deixa de aparecer em nossas torneiras. Portanto, não devemos responsabilizar apenas as pessoas, individualmente, pelas mudanças significativas que pleiteamos.

Devido ao tamanho do Brasil é possível encontrar inúmeras diferenças regionais marcantes na alimentação das pessoas. A batata doce, por exemplo, que está na moda fitness atual, durante muito tempo foi considerada comida de pessoas pobres em algumas regiões. As feiras e pequenos comércios que vendem alimentos produzidos em pequenas propriedades eram vistas como opções apenas para famílias de baixa renda desde a criação dos grandes supermercados. É preciso cobrar também mais políticas públicas de investimento em agricultura familiar e pequenas propriedades. Propor novas maneiras do pequeno produtor não ser obrigado a se endividar para plantar ou ser obrigado a utilizar agrotóxicos porque todas as sementes disponíveis são transgênicas. Pensar em como reduzir o desperdício e utilizar totalmente os alimentos.

Há iniciativas importantes como a do Movimento Sem Terra que questiona essas relações e vende produtos cultivados por famílias e cooperativas, em assentamentos por todo o país, sem o uso de agrotóxicos. Há os restaurantes populares com seus cardápios variados, respeitando a cultura alimentícia local e elaborados por nutricionistas. Há opções mais coletivas e que garantem acesso a mais pessoas, precisamos divulgá-las.

O que colocamos na panela tem relação direta com muito mais do que uma simples escolha entre ser saudável ou não. É preciso pensar em alternativas, divulgar mais ações que estão sendo desenvolvidas na agroecologia e nos sistemas agroflorestais. Os circuitos de feiras orgânicas tem crescido, mas é importante pensar no transporte, nas distâncias que ainda são percorridas apenas por estradas, gerando poluíção, fazendo com que o uso de produtos químicos seja necessário para preservar os alimentos. A saúde e subsistência dos trabalhadores do campo também precisa ser observada, ampliando os meios de comercialização, aproximando produtores e consumidores e reduzindo distâncias e custos na distribuição dos alimentos. Além disso, precisamos pensar: o que é ser saudável? O que é saudável para uma pessoa é para todas as outras? A conta da saúde não pode vir apenas para o indivíduo, especialmente as mulheres.

Manhattan: onde os maridos ricos pagam bônus a suas esposas

Texto de Karen Polaz para as Blogueiras Feministas.

Num sistema capitalista de produção, fruir de uma condição socioeconômica considerada favorável significa, na maior parte das vezes, ter uma vida de inúmeras vantagens. No embalo dos privilégios de classe vivenciados pelos grupos mais ricos, outras formas de opressões também costumam ser abrandadas, como as de gênero e raça.

Só para citar um exemplo, jogadores de futebol negros que fizeram fortunas através do esporte conseguem se esquivar de algumas situações de racismo, comum à maioria dos homens negros jovens e pobres do Brasil, como serem parados por blitz policiais em espaços públicos, já que podem pagar para circular por ambientes sociais blindados da atuação policial mais truculenta, inclusive dentro de carros luxuosos e caríssimos — literalmente blindados.

No caso das mulheres, o fator classe social faz uma diferença imensa quando falamos de opressões de gênero. As opressões de gênero vivenciadas por mulheres ricas, definitivamente, não são as mesmas daquelas vivenciadas por mulheres pobres. Como já discutimos em outros textos, dinheiro costuma trazer poder e maior autonomia relativa às mulheres — digo relativa, pois quaisquer conceitos, como o de autonomia, não podem ser avaliados fora do contexto social em que são produzidos.

No entanto, mais e mais riqueza não significa, necessariamente, maior independência proporcional. Em um estudo ainda inédito sobre as riquíssimas mulheres do Upper East Side, um bairro nobre do condado de Manhattan em Nova York, a antropóloga Wednesday Martin mostra que, num país como os Estados Unidos, onde as mulheres avançam cada vez mais na direção da igualdade de direitos em relação aos homens, o estrato da mais alta elite ainda permanece num estágio de estagnação.

Em artigo publicado no The New York Times, Wednesday conta seu choque cultural ao conhecer as mulheres que ela veio a chamar de “glamorous stay-at-home-moms“, algo como “mães-donas-de-casa glamourosas”. Em sua maioria, essas mulheres são brancas, têm 30 e poucos anos e diplomas avançados em universidades de prestígio e famosas escolas de negócios. Elas são casadas com homens ricos e poderosos e têm, em média, de três a quatro filhos com idade inferior a 10 anos. Elas não trabalham fora de casa.

Em vez disso, elas se ocupam do que a socióloga Sharon Hays chama de “intensive mothering” ou “maternidade intensiva”, que se caracteriza pela dedicação exaustiva das mães em cuidar de todos os aspectos da vida de seus filhos, com o objetivo de enriquecer a vida deles e melhor prepará-los para o competitivo futuro que os espera.

Contudo, os cuidados com elas próprias não são deixados de lado. Pelo contrário, vestem roupas caras e requintadas e costumam parecer uma década mais jovens do que são. Wednesday conta que, assim, foi fácil cair na crença de que todas essas ricas, competentes e belas mulheres, muitas delas com ironia, inteligência e um senso de humor sobre sua própria “tribo”, também eram poderosas.

Homem coloca um colar no pescoço de uma mulher. Imagem de Stock4B/Corbis.
Homem coloca um colar no pescoço de uma mulher. Imagem de Stock4B/Corbis.

A antropóloga percebeu, rapidamente, uma inegável segregação sexual que definia a vida dessas mulheres, uma espécie de “enclausuramento” dos homens. Por exemplo, havia almoços e cafés-da-manhã só para esposas, saídas noturnas movidas a álcool apenas para as “meninas”, eventos de “compras por uma causa” (“shopping for a cause”) e festas “só para as namoradas” em aviões privados, onde todas usavam roupas da mesma cor. Eram comuns os jantares em que maridos e esposas se sentavam em mesas diferentes em salas completamente separadas.

Quando perguntados sobre essa evidente segregação sexual, tanto maridos quanto esposas afirmavam que se trata de uma questão de “preferência” e de “escolha”, como preferir/escolher não trabalhar fora de casa.

Até que, um dia, Wednesday ouviu falar dos “bônus de esposa”.

Os “bônus de esposa”, acordados antes ou depois do casamento, são distribuídos com base não só na quantidade de dinheiro que o marido consegue acumular, mas também no desempenho da esposa, isto é, em quão bem ela administrou o orçamento doméstico ou em que medida as crianças frequentam ou não uma boa escola. Num processo bastante similar ao que seus maridos são recompensados em bancos de investimento de acordo com suas performances no mundo dos negócios, podemos observar a reprodução, em casa, desta lógica corporativa pelo prisma da desigualdade de gênero.

Por sua vez, estes “prêmios”, concedidos às esposas por seus maridos, dão acesso a um mínimo de independência financeira e participação em uma esfera social na qual não basta apenas você ir a um almoço, você tem que comprar uma mesa de 10.000 dólares no almoço beneficente onde um amigo é o anfitrião.

Enquanto os maridos fazem milhões, suas esposas privilegiadas com filhos tendem a abrir mão de habilidades adquiridas na pós-graduação e em suas profissões para se dedicarem aos cuidados da família e à “aparência” de sucesso familiar, como quando organizam festas de gala, por exemplo. Tudo de forma não remunerada.

Para a antropóloga, os dados etnográficos em todo o mundo não deixam dúvidas: quanto mais estratificada e hierárquica, e mais segregada sexualmente uma sociedade é, menor é o status das mulheres. Comparando diferentes comunidades em diferentes contextos e países, parece ser recorrente o fato de que mulheres que contribuem com recursos para o grupo ou o bem-estar da família, trazendo comida, por exemplo, são mais empoderadas em relação àquelas em sociedades onde as mulheres não contribuem desta maneira. Segundo Wednesday, como em comunidades do Deserto do Kalahari e da floresta tropical amazônica, os recursos também são o ponto de partida no Upper East Side, em Nova York: se você não trouxer “tubérculos” e “raízes” para casa, seu poder é enfraquecido em seu casamento. E no mundo.

Wednesday conclui que, mesmo sendo parceiros no casamento, sob esse arranjo as mulheres ainda são dependentes de seus maridos — ele pode dar um bônus a sua esposa ou simplesmente não dar, ignorando, a qualquer momento, o compromisso prévio com essa ideia abstrata. Assim, um abismo separa a versão de poder dessas mulheres da versão de poder dos seus maridos: o acesso ao dinheiro do parceiro pode trazer uma sensação confortável à esposa, mas, para Wednesday, não pode comprar o poder que uma pessoa adquire por ser aquela a ganhar e a juntar o próprio dinheiro.

Por ser um grupo de difícil acesso, entre outros fatores, ainda faltam estudos mais aprofundados sobre os modos de vida das minorias mais ricas do mundo, inclusive no contexto brasileiro. Para além do que é propagado na mídia, como uma vida de luxo e ostentação, confirmada pelos bens materiais, pouco sabemos sobre eles. Pouco sabemos sobre elas, as mulheres ricas.

Enquanto inúmeras pesquisas apontam a relação direta entre autonomia financeira das mulheres e outros tipos de independência, ainda são as mulheres que mostram maior probabilidade de abdicar de suas carreiras para se dedicarem exclusivamente à família e aos filhos, mesmo quando têm origem social privilegiada ou são altamente graduadas em profissões de prestígio. Como sabido, as que não têm condições financeiras de abandonar seus empregos costumam sujeitar-se à dupla e até tripla jornada, trabalhando dentro e fora de casa numa rotina, em geral, demasiado estafante.

Embora as justificativas para as desigualdades de gênero aleguem tratar-se de “preferências” e “escolhas pessoais”, por que ainda são as mulheres que, na grande maioria das vezes, renunciam a suas carreiras? Apesar dos progressos, isso indica uma situação de menor poder dentro do casamento e maior vulnerabilidade social, no caso em que venham a se divorciar, por exemplo, e se vejam pressionadas a voltar para o mercado de trabalho depois de anos fora dele.

Num país como os Estados Unidos, onde as diretorias das grandes empresas têm mais homens chamados John do que mulheres, não surpreende que no topo da elite econômica estejam as esposas ricas e diplomadas de Manhattan que recebem bônus de seus maridos de acordo com suas performances no ambiente familiar. Como se percebe, ainda há muito que se avançar tanto no entendimento sobre os estilos de vida dos estratos sociais mais abastados, quanto nos direitos das mulheres.

Mulheres, terceirização e precarização do trabalho

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em 2015, o Dia do Trabalhador é marcado pela recente aprovação na Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 4330/2004, que dispõe sobre a terceirização das relações de trabalho. O projeto segue agora para discussão no Senado.

É fácil encontrar textos que defendam a terceirização como algo benéfico para os trabalhadores. Porém, em sua essência isso representa a precarização e perda de benefícios históricos, além de concentrar ainda mais o poder econômico em quem está no topo da cadeia alimentar das relações trabalhistas.

Segundo o “O Dossiê Terceirização e Desenvolvimento: uma conta que não fecha” (.pdf), divulgado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores) e o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), os terceirizados — que já somam quase 30% dos trabalhadores brasileiros — recebem em média 24,7% menos e trabalham em média três horas a mais por semana.

A luta por melhorias nas condições de trabalho é marco importante para diversas mudanças sociais que representam diminuição das desigualdades sociais. Democratizar meios de produção, incluir trabalhadores nos processos decisórios, conquistar garantias, proteções e direitos são vistos como ameaças para o crescimento econômico, pois prejudicam a concentração de poder e significam ganhos e novas possibilidades de atuação para trabalhadores.

Com a terceirização, a precarização do trabalho é inevitável. Paga-se menos pelo trabalho, há maior rotatividade, a tendência é que existam mais pessoas disputando empregos que paguem cada vez menos. No caso das mulheres, num contexto em que a maioria das trabalhadoras é também a responsável pelos cuidados com a casa, crianças, parentes ou pessoas próximas que necessitem de cuidados especiais, isso representa menos chances de segurança financeira, menos flexibilidade nos contratos de trabalho e enfraquecimento de organizações internas que poderiam reivindicar benefícios específicos.

Numa pesquisa com mulheres trabalhadoras na produção de sapatos em Franca, por Taísa Junqueira Prazeres, orientada por Vera Navarro, aquelas que trabalhavam terceirizadas, seja em bancas ou em seus domicílios, se encontravam em situações muito mais negligenciadas: tinham acesso apenas a equipamentos mais baratos, antigos e de menor qualidade e, portanto, menos seguros, trabalhando também sob condições mais insalubres, com ambientes de trabalho improvisados, e por muito mais horas que suas companheiras nas fábricas, ainda que todas vivessem condições de trabalho produtoras de sofrimento.

(…) Muitos trabalhos, ainda, perdem cada vez mais seu sentido, como atendentes de telemarketing que, terceirizadas, tentam resolver problemas a cuja solução elas não tem acesso, para empresas das quais não fazem parte e que muitas vezes precisam defender. Referência: ‘Terceirização: uma pauta das mulheres‘. Por Cacau Birdman na Ovelha Mag.

Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil (Amebras) qualifica profissionais para atender escolas de samba e blocos de rua. Foto de Tomaz/Agência Brasil.
Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil (Amebras) qualifica profissionais para atender escolas de samba e blocos de rua. Fevereiro, 2013. Foto de Tomaz Silva/Agência Brasil.

Uma das argumentações mais desonestas em defesa da terceirização afirma que ao diminuir os custos das empresas, aumentam as chances de que quem está no mercado informal consiga um emprego formal. Como se o sistema capitalista estivesse preocupado em criar mais oportunidades para os trabalhadores e não em promover um mercado de trabalho em que as pessoas se vejam cada vez mais como inimigos em busca de uma mesma vaga. Se a proposta é diminuir os custos das empresas, a tendência é que invistam cada vez menos em treinamento, capacitação e modernização dos processos de trabalho.

Num mundo em que é tão pregado o fato de que devemos trabalhar com prazer e nos realizar nisso, até que ponto essa oportunidade é dada a todos? Envolver os trabalhadores nos processos de trabalho parece ser apoiado apenas quando esse envolvimento esteja a serviço da produção, da empresa, do lucro final. Portanto, terceirizar significa mais liberdade econômica apenas para quem detém os meios de produção.

A terceirização representa também o rompimento de acordos e relações que aproximem os trabalhadores, que façam com que empregadores sejam também responsáveis diretos pelo bem estar social. Em muitos casos, o trabalhador terceirizado é empregado mediante contratos temporários ou contratos de pessoa jurídica, instrumentos muitas vezes usados para burlar a legislação trabalhista. Há a fragilização e desunificação da representação sindical e o acirramento da concorrência entre trabalhadores e não entre as empresas.

A desmobilização cada vez maior de instituições sindicais é um golpe fatal na conquista e defesa de direitos para as mulheres trabalhadoras. Geralmente, elas já tem menos tempo para se dedicar a luta por seus direitos, sem um órgão ou grupos específicos que as represente fica cada vez mais difícil pleitear pautas como creches nos locais de trabalho e faculdades, flexibilização da carga horária, linguagem inclusiva, melhorias na mobilidade, compra de equipamentos e material que melhorem as condições de trabalho.

Aumenta-se cada vez mais os transtornos que afetam trabalhadoras física e psicologicamente, morar longe do local de trabalho, enfrentar rotinas exaustivas com transporte e condições de trabalho ruins, não ter tempo ou opções de lazer, assédio moral e/ou sexual, não ter opções para dividir tarefas e responsabilidades. Menos tempo e investimento para qualificação e estudos. Mais ameaças para categorias profissionais que obtiveram benefícios sociais como vale alimentação, auxílio creche, ampliação da licença maternidade. A dupla jornada e a divisão sexual do trabalho turbinadas.

No caso do serviço público, a terceirização tem uma relação direta com a intensificação da privatização dos serviços públicos, o que para nós mulheres, é uma grave ameaça à implementação dos nossos direitos, pensando que a iniciativa privada obedece a lógica do consumo mercantil e não a do direito orientada pelo bem comum, transparência, universalidade, laicidade e não discriminação. Quando o serviço público é pulverizado em iniciativas privadas, mais dificuldade a sociedade civil tem de obter informações para o monitoramento das ações, responsabilização pelos abusos e ilegalidades.

A terceirização não é mais um fantasma. Para nós mulheres já é uma experiência bem presente de nossa incorporação subordinada no mundo do trabalho produtivo. Pesquisas apontam que as maiores empresas de terceirização do mundo se dedicam aos serviços, tipo de trabalho majoritariamente desenvolvido por nós mulheres e, nas áreas de segurança, telemarketing e limpeza, tarefas que também, pela divisão sexual e racial do trabalho, são preponderantemente realizadas por nós, mulheres e negras. Basta ver o que já está ocorrendo com as trabalhadoras domésticas, maior categoria de trabalhadoras mulheres do Brasil, que segue sem todos os direitos trabalhistas garantidos, em que pese a aprovação da PEC da equiparação, em amplo processo de substituição por outras trabalhadoras temporárias (diaristas). E aqui está uma última consequência do PL, a cisão no interior da própria categoria de trabalhadores/as, à medida em que a terceirização, ao criar relações de trabalho distintas para uma mesma função, cinde a unidade e a luta da categoria. Referência: ‘Terceirização: a economia ameaçando a autonomia das mulheres‘. Por Rivane Arantes do coletivo SOS Corpo.

A regulamentação da terceirização, sob o argumento de maior produtividade do trabalho e competitividade da indústria nacional, entrega ao trabalhador o ônus de uma classe empresarial que defende um mercado protecionista e com foco no bem estar do empresário. O cenário de deterioração da qualidade do emprego, marcado pela alta rotatividade trabalhista aumenta a dispersão dos trabalhadores e torna mais difícil sua organização e participação ativa. Na prática, a precarização do trabalho atinge principalmente os setores mais vulneráveis da sociedade, como mulheres, jovens, negros, transexuais, indígenas, deficientes físicos, camponeses e imigrantes. Pessoas que já estão marginalizadas nos processos de educação e trabalho, desde a base.

Nos últimos anos, uma das políticas de benefícios que mais repercutiu em melhores condições de vida para os trabalhadores foi a valorização real do salário mínimo. Quase 60% dos terceirizados ganham até dois salários mínimos, contra 49,3% dos contratados pela CLT. Conforme a faixa salarial aumenta, o número de terceirizados cai drasticamente. Portanto, nessa posição de terceirização há concentração de trabalhadores que dependem diretamente de políticas salariais apoiadas pelo Estado. Entregar o sistema de trabalho aos interesses lucrativos da classe empresarial não promove nenhuma garantia de melhoria para essa população. A busca por um segundo emprego, por meio do trabalho informal tende a aumentar

A proposta da terceirização não tem franco apoio popular, mas os atuais legisladores trabalham para aprovar propostas que interessam a quem forneceu capital para que eles pudessem ser eleitos. A proteção e responsabilização pelo trabalhador fica em segundo plano, consequentemente, o trabalho das mulheres continua ameaçado numa sociedade cada vez mais injusta.

+ Sobre o assunto:

[+] O projeto da terceirização e o trabalho das mulheres. Por Juliana Furno no Brasil Debate.

[+] A Falácia da Terceirização como instrumento de liberdade econômica. Por Leo Rossato no Um Pouco de Prosa.

[+] A precarização tem rosto de mulher. Lia Urbini entrevista Diana Assunção, militante do coletivo Pão e Rosas, para a Revista GENI.

[+] Não à Terceirização: Pela Vida das Mulheres. Por Rosane da Silva, Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora.

[+] A terceirização na China e suas lições para o Brasil. Por Rosana Pinheiro-Machado na Carta Capital.

[+] Como o Brasil está tentando diminuir a desigualdade de gênero no mercado de trabalho. Por Luiza Belloni no Brasil Post.