A maternidade como trabalho não pago

Texto de Iara Paiva.

Já falamos aqui sobre as mulheres e o mercado de trabalho, mas não custa relembrar: a discriminação sofrida pelas mulheres na vida profissional se dá, principalmente, pela possibilidade delas terem que se ausentar de suas funções produtivas por conta da maternidade, seja para gerar e dar a luz a uma criança (o que implica em meses de licença), seja para, no dia-a-dia, resolver questões relativas à saúde e à educação de sua prole. As bases para essa discriminação residem em duas crenças: 1) a de que as tarefas de reprodução são obrigações inerentes às mulheres, 2) que são questões essencialmente privadas.

Á esquerda, Licia Ronzulli, membro do Parlamento Europeu. Crédito da Imagem: MailOnline/Reuters.

Sobre a exigência de que a mulher assuma inteiramente (ou a maior parte) das tarefas de manutenção do lar e cuidados com crianças e idosos também já tratamos aqui. É como se à mulher tivesse sido permitido o acesso à realização profissional contanto que ela continuasse respondendo pelas tarefas que lhe foram destinadas na divisão sexual do trabalho. Daí que, quem quer/precisa trabalhar fora delega este trabalho a outra mulher, seja ela remunerada (babá ou empregada doméstica, ou uma vizinha que improvisa uma creche em sua sala) ou não (avós, outros parentes e até crianças mais velhas). Mesmo aquelas poucas que tiveram a sorte de encontrar uma vaga em creches públicas ou tem condições de pagar por berçários (onde a imensa maioria das funcionárias são, não por acaso, mulheres) se vêem, vez ou outra, com a necessidade de adiar compromissos profissionais quando a criança fica doente. Raramente o pai falta ao trabalho quando o filho tem febre.

Mas eu queria focar um pouco mais na função social de colocar uma criança no mundo. Pensando economicamente, interpretando a Economia como a ciência que estuda também a administração da escassez de recursos, não falta gente no mundo. E quando algo é abundante, ou seja, a oferta é  maior do que a demanda, os preços tendem a cair. Se este “algo” não tiver uma relação mercantilizada, fica ainda mais difícil estabelecer um valor, porque nossa noção mais imediata depende disso, do quanto se paga por algo. Por isso tendemos encarar a reprodução de um ponto de vista exclusivamente privado, sem atentar para o valor que ela agrega. Só que independentemente da ideologia política com a qual analisamos a questão, sendo anarquista, comunista ou liberal convicto, não é assim. A reprodução, mais do que um instinto de preservação da espécie ou uma realização social é também uma necessidade social.

Quero focar minha análise no ponto de vista liberal, para não depender de sensibilidades humanistas em meus argumentos. Considerando apenas a realidade capitalista, é preciso que haja manutenção da mão de obra e do mercado consumidor. O mercado e o capital, sozinhos, não dão conta disso, porque ainda não existe tecnologia capaz de reproduzir as condições do útero de uma mulher. Depois do bebê gerado, é preciso que alguém se encarregue de seus cuidados básicos, de sua saúde e sua educação (não só a formal, como a social,  emocional, etc). Este cidadão ou cidadã em formação já consome antes de ser capaz de produzir, e chega ao mercado apto para ser mão de obra (o que varia é seu grau de qualificação). O mercado arca com parte dessas despesas? Sim, mas com uma parcela ínfima delas, se considerarmos a parcela dos impostos voltada para estes fins e os eventuais programas de benefícios corporativos. E as principais responsáveis hoje pela manutenção desse trabalho essencial para continuação da espécie são discriminadas.

Muito bonito o discurso, mas o que você tem a ver com os filhos dos outros? Você sequer quer ter filhos! Bom, se você pretende, um dia, se aposentar, é o trabalho da nova geração quem vai permitir isso. Você não conta com a previdência pública e tem um fundo de aposentadoria privado? Acho que depois da crise de 2008 você já deveria saber, mas não custa lembrar: não existe reprodução automática nem de dinheiro. Só o capital especulativo não garante a sua pensão, se não houver um trabalho produtivo que o suporte. Na dúvida, pergunte para o pessoal da Islândia que eles te explicam direitinho. Ah, mas quanta bobagem, não para de nascer gente no mundo! Mais ou menos. O último censo já encontrou no Brasil menos gente do que estimava encontrar. As mulheres estão tendo menos filhos, as pobres inclusive. As de classe média alta, justamente aquelas que terão condições de sustentar um filho até ele se formar geriatra pra cuidar das nossas artrites, menos ainda.

Acho fundamental que neste dia das mães desvinculemos um pouco a questão reprodutiva dos afetos pessoais, dessa imagem da mãe sacralizada e abnegada, aquela disposta aos maiores sacrifícios em nome de sua prole. Mães são também trabalhadoras não-remuneradas, que pelo modelo atual de família e mercado tendem a arcar individualmente com um ônus imenso em nome do bônus coletivo. Oferecer melhores condições para que desempenhem este trabalho, quer seja dentro da família, com o pai assumindo mais tarefas, quer seja no ambiente de trabalho, com tolerâncias às ausências justificadas de quem tem crianças sob sua responsabilidade sem que isso reflita em prejuízos ao seu desenvolvimento profissional, não é portanto uma questão de solidariedade. É um investimento social de  longo prazo.

Domésticas: mulheres invisíveis

Texto de Tica Moreno.

Acho que ‘Acorda Raimundo‘ é o vídeo mais utilizado em oficinas e debates sobre o trabalho doméstico realizado, principalmente pelas mulheres, de forma não remunerada, dentro de casa. E é ótimo. Uns 20 anos depois, nós temos mais um vídeo que ajuda a fazer este debate. Semana passada, a SOF (Sempreviva Organização Feminista) lançou ‘Mulheres Invisíveis’.

Ele apresenta de forma super didática uma das questões mais importantes para entender como se estrutura a desigualdade entre homens e mulheres: a divisão sexual do trabalho.

Tem duas sociólogas feministas (Helena Hirata e Daniele Kergoat) que são referência para pensar neste assunto. Elas estudam a divisão sexual do trabalho não de um jeito puramente descritivo (que mostra onde estão homens e mulheres no mercado de trabalho), mas como o que está no centro das relações de sociais entre homens e mulheres. O texto da Daniele Kergoat – Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho – apresenta e sintetiza esta visão.

A ideia do vídeo é justamente ampliar esse debate, de uma forma que contribua para que o machismo não seja visto como uma construção puramente ideológica, mas que tem uma base material. O vídeo também traz algumas reflexões da economia feminista, que dá visibilidade para o trabalho não remunerado das mulheres na esfera da reprodução social, como uma contribuição econômica que não é reconhecida.

E, como não poderia deixar de ser, coloca a organização das mulheres no movimento feminista como o principal caminho para transformar essa realidade de desigualdade.

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