O bando mais babaca da faculdade

Texto de Bruna Provazi.

Em tempos de “senta que lá vem plano sequência”, o vídeo mais visto da semana não foi nenhuma melôzinha neohippie “bonita, moderna e descolada”. Ao contrário, o mais novo viral espalha espanto e chega a chocar justamente porque escancara uma das faces mais feias, conservadoras e caretas (de parte) do movimento estudantil. Com início, meio e fim, os sete minutos que registram a eleição de delegados ao 52º Congresso da UNE (Conune) na PUC do Rio Grande do Sul assemelham-se a uma versão cinema-universitário-de-baixa-renda (redundância?) de um trecho do roteiro de Amor e Revolução.

Foto: Diário da Liberdade.

O mote do vídeo é a questão da abertura/fechamento estratégico de urnas, prática antiética bastante sutil que impregna parte (PARTE) do movimento estudantil, como forma de permanência/tomada de poder – o que, por si só, já deveria causar a indignação de seus espectadores -, e que ganha proporções estarrecedoramente extremas no caso dos mafiosos da PUC-RS. Mas sua genialidade está em desvelar, no ponto-de-virada do plano sequencia em questão, como que por acaso, assim, bem no meio da trama protagonizada pelo bando mais babaca da faculdade, todo o hall de opressão que ainda perpassa as imponentes catracas do ensino superior.

O narrador se dirige à sala do DCE, do lado de fora da qual muit@s alun@s aguardam para votar. 01:09 de vídeo, ouvimos um berro: “não toque em mim!”. As luzes se apagam. Ouvem-se gritos. A câmera fica frenética. Começa a “Festa de Família” festeniana. “É uma mulher! Vai lá defender a mulher!”. Capangas do bando (seguranças privados do DCE) postam-se na porta, barrando a entrada até que essa é fechada. Alguma coisa estranha acontece do lado de dentro. Os gritos aumentam. As luzes permanecem apagadas. Aos dois minutos, as meninas aparecem jogadas no chão, na porta da sala. As luzes são, finalmente, acesas. Ninguém sabe ao certo o que se passa. Os seguranças nem querem saber. A sala é fechada. Sob os holofotes do corredor e os olhares da câmera e do público, a agressão física dá lugar à verbal. O restante é  show de horrores até o sensacional desfecho da trama: a câmera enfoca as cédulas de votação no chão com o nome das duas únicas chapas concorrentes: [ ] renovação e [x] liberdade. Os créditos não sobem, mas a gente sabe são das gurias que não abaixaram a cabeça pros todo-poderosos-pilantras-de-plantão.

Roda o vê tê!

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Sim, segundo depoimento das estudantes, houve violência física/sexual no momento do “blackout“, e não foi a primeira vez em que foram agredidas pelos caras. Nessa maré toda, vieram à tona a ditadura do grupo político (ligado ao PDT) que se mantém no poder do DCE da PUC-RS há mais de vinte anos, e sua caixa-preta de ameaças de estupros e mortes, fraudes e perseguições. Ao que nos conta a mídia alternativa d@s estudantes gaúch@s, tem muito caroço nesse angu aí mesmo. Porém, é preciso resistir ao risco de reduzir todo o debate sobre o causo em torno da condenação única e exclusiva ao bando-web-celebridade.

Longe de ser um espaço ideal, romântico e iluminado, um teatro mágico de camisas xadrez e longas saias estampadas em que a bandeira do amor livre suprime todas as divergências partidárias, longe de ser um estado de suspensão dos valores patriarcalistas que permeiam a sociedade civil como um todo, a universidade ao redor das atas de reunião, cartas-programa e abaixo-assinados revela-se como mais uma reprodutora do “mundo real” machistão lá de fora. É essa realidade que a vivência estudantil sob o véu da lente lilás do feminismo perpassa… E uma passagem rápida por qualquer congresso (seja da UNE ou da tal da Anel), para @s de coragem e anticorpos suficientes, só explicita ainda mais. Falo do ponto de vista de quem passou grande parte (quase toda) da academia em reuniões, plenárias, manifestações e festinhas universitárias, e que sempre vivenciou a opressão que a gente vai aprendendo a ressignificar como coletiva e contextualizada, através da tal lente lilás.

Os cinco anos que separam o momento em que comecei a militar no movimento estudantil do momento em que escrevo estas linhas é uma eternidade, no que diz respeito ao avanço da luta das mulheres nas universidades brasileiras. Uma eternidade tão grande que nela cabe o distanciamento histórico necessário pra que eu possa arriscar aqui qualquer análise tosca sobre esse período tão recente da nossa própria história aberta.

Quando digo que comecei minha militância enquanto feminista dentro da universidade, dentro de um coletivo feminista organizado pra lutar contra a opressão dentro (e fora) do próprio movimento estudantil, não são poucas as pessoas que olham com surpresa e certo grau de reprovação. O típico questionamento “Feminismo hoje pra quê?” alia-se ao “Xura? Mas o que tem de machista lá?”. Rápida e superficialmente, consigo listar algumas das razões pra ser feminista na universidade tanto quanto no mundo real.

– Divisão sexual do trabalho: separação dos espaços masculino e feminino. Meninas, ainda que maioria na base do movimento, ainda são minoria em cargos de direção, na composição de mesas de debate ou mesmo no simbólico momento em que figuraram como fontes jornalísticas, expressando a posição da entidade – seja pro zine da faculdade de jornalismo mais próxima, seja na época em que a mídia de massas quer saber o porquê de invasões de reitorias, atos contra o aumento da passagem de ônibus ou crimes no campus.

– Desqualificação: a ideia de que as meninas entram no movimento pra namorar os barbudinhos de bolsas a tira colo e all star mais descolados do semestre, afinal, política é coisa de macho. Esse pensamento é legitimado pelos estereótipos: menina que fala alto = histérica; que fala baixo = não sabe se impor; que defende suas posições de forma rígida = tá de TPM; que fica com os meninos do ME = vadia; que não fica com os meninos do ME = feminista = feia, mal-comida, sapatão.

– Deslegitimação da luta das mulheres: geralmente utilizados pela esquerda-da-esquerda pra dizer que essa é uma questão secundária e que tod@s seremos livres e viveremos felizes para todo o sempre quando o tal do comunismo chegar. Seu slogan mais comum é o de que “o feminismo divide a classe trabalhadora” (oi?).

– Violência sexista: a violência dos homens contra as mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Demonstração de poder, afinal, elas têm que saber “quem é que manda”. Sintomas: alteração no tom de voz, utilização de palavras de baixo calão (geralmente associadas ao suposto comportamento sexual inapropriado da interlocutora: “sua vadia-vaca-piranha-puta-filha-da-puta-sem-vergonha-e-derivados”), levantamento do indicador e subsequente posicionamento na região próxima ao rosto da mesma, estufamento do peito, danos e maus-tratos a objetos inanimados – principalmente se pertencerem à interlocutora em questão. Fase de consumação da doença: embate físico com consequente prejuízo à integridade física da mulher. Em alguns casos acompanha violência sexual.

Qualquer semelhança com o vídeo mais nojento da semana não é mera coincidência. Depois de colocada a lente lilás, é certamente impossível escrever quaisquer parágrafos sobre o causo ocorrido nessa segunda-feira (TREZE) na PUC-DCE sem passar por essas questões toscamente citadas aí em cima. Impossível também é findar a crítica aos coroneis gaúchos sem admitir que, ainda que em menor(?) grau, as militantes estão sujeitas a esse tipo de opressão, independente do curso, da faculdade e da região. Tão impossível quanto é não admitir que houve mudanças significativas, ainda que insuficientes, neste enormemente breve espaço de cinco anos que consigo vislumbrar.

Se hoje parece ser cada vez maior o número de barbudinhos que se incomodam em ter o patch “machista” costurado na bolsinha a tira colo, certamente já significa um avanço nosso. Haja coletivos de mulheres estudantes organizadas, haja Diretorias de Mulheres da UNE atuantes, haja até a Dilma e suas ministras lá pra mostrar que a gente pode e que um outro mundo é possível, um dia que ainda não hoje, a gente sabe: o caminho é longo, o feminismo avança e o machismo abunda.

Pra quem quer saber mais sobre o episódio, recomendo:

Texto da Luka no Diário Liberdade:

Depoimento da Tábata Silveira, estudante de Direito agredida.

Nota da Diretoria de Mulheres da Une de repúdio às agressões ocorridas na PUC-RS.

Nota da Marcha Mundial das Mulheres/RS de repúdio à truculência do DCE da PUC, com a conivência da PUC-RS.

O machismo ainda começa dentro de casa

Texto de Claudia Gavenas.

Muita gente afirma que o machismo não existe mais. E também que atualmente as mulheres já estão num patamar de igualdade equiparável ao dos homens e desta forma, o feminismo não se faz mais necessário.  Acho essa idéia muito perigosa por uma razão muito simples: a educação familiar em nosso país ainda é extremamente machista.

Tenho certeza que tod@s vocês já presenciaram a seguinte situação: numa família com vários irmãos, os meninos têm “passe livre” para fazer tudo: ficar na rua até tarde, correr, jogar bola e na maioria das vezes estão dispensados de ajudar com as tarefas domésticas. As meninas até fazem as mesmas coisas que eles, mas a elas é imposta a  obrigatoriedade de auxiliar com as tarefas domésticas e o controle em relação ao horário de chegada em casa é muito mais rígido.

Certo dia, essas crianças crescem. O irmão pode relacionar-se sexualmente com quantas mulheres quiser e na maioria das vezes, a família se orgulha disso.  A irmã se fizer o mesmo,  ficará no mínimo  “falada”.  Se o irmão optar por permanecer solteiro, a família acreditará que foi uma escolha dele. Se  for a irmã que não quiser se casar,  todos pensarão que ela é uma “mal amada” pois onde é que já se viu uma mulher poder ser feliz solteira, não é mesmo?

Sabemos também que a maior parte dos casos de violência  contra a mulher acontece dentro de casa. E em muitos casos, a mulher é estimulada a permanecer passiva diante de agressões seja pela ineficiência do cumprimento de nossas leis, seja por medo ou por dependência financeira da agredida  perante o agressor.

Estes foram apenas alguns exemplos  de como o machismo ainda é exercido dentro de casa.  Tudo isto lhe pareceu muito antiquado? Pois acredite: ainda acontece em muitos lugares. E as famílias que não vivem desta forma ainda são, infelizmente, exceções.  A igualdade de direitos deve começar dentro de casa e passar a ser um exercício constante de respeito mútuo.

Eu e o Feminismo

Texto de Georgia Faust.

Vou falar o que eu achava sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo por ter nascido mulher? Nossa, mas que mérito! O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai-drasto e minha mãe. Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de lésbicas frustradas com um desejo secreto que Freud explica.

É engraçado como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima do homem, vítima do posicionamento da sociedade e sua atitude com relação ao papel da mulher.

No Dia Internacional da Mulher há dois anos atrás, eu não estava mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu chorei. Chorei em quase todas as homenagens bobas que vi na TV. Chorei quando senti que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Chorei quando vi que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Chorei quando lembrei de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM.

E daí, semanas depois, resolvi analisar um certo acontecimento de um passado distante não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma Desperate Housewife, e que ele também é produto de tudo isso que nos cerca.

É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem, que mulheres estão em pé de igualdade com os homens, quando na verdade há uma míriade de coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça…

Eu estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, e tenho certeza que ainda vou escrever um bilhão de besteiras enquanto descubro esse novo caminho…

E o pensamento interno mais recorrente em N momentos do meu dia é: “você não falaria assim comigo se eu fosse um homem, falaria?”

Na época em que me descobri feminista, fui comentar com meu irmão sobre minhas novas descobertas, tentando convencê-lo da relevância disso mesmo nos dias atuais. Comentei até que existem homens engajados nessa “luta”, e recebi um: só acho que hoje em dia as diferenças de gênero estão em segudo plano frente a outros problemas mais presentes.

É quase como dizer que é besteira lutar por animais abandonados, pois animais em extinção são um problema mais relevante. Quase como não comer, pois tomar água é uma necessidade mais presente. Como se houvesse uma hierarquia de lutas, onde 100% da população devesse se encaixar na luta mais presente e deixar as outras milhões de batalhas de lado enquanto não se resolve aquela primeira.

O que eu disse é que existem problemas mais importantes. Poucas pessoas morrem de sexismo. Muitas morrem de pobreza.

OK.

Imaginei que ele, por estar inserido no mesmo ambiente no qual cresci, simplesmente não estivesse conseguindo visualizar que ainda existe sim um ambiente opressor para a mulher, e que de fato esse ambiente pode sim matar pessoas. Talvez não tanto fisicamente quanto psicologicamente. Tentei explicitar, usando inclusive exemplos. Tentativa frustrada. Ele respondeu:

“Bem, sentir na pele é impossível, pois por mais que eu leia o texto só fica na ficção, eu acho que entendo as suas motivações pra entrar no feminismo. Desculpa se eu pareci seco antes, mas é que no meu curso eu sou rodeado de todos os tipos de problemas, de todos os tamanhos e alcances, e as relações de gênero são apenas um deles. Só pra deixar claro: você considera naturais as diferenças sociais entre homens e mulheres? E as diferenças que você não concorda, o que você faz para mudá-las? Pois como diziam a Simone e o Sartre, a omissão vale por um sim, ou o bom e velho “quem cala consente”.”

Eu não entendi, será que ele estava realmente querendo dizer que por ter se calado, milhares de mulheres diatiamente consentem o seu estupro? Claro que muitos vão dizer que não, não é isso que ele está dizendo… Está apenas falando que eu sempre calei frente ao sexismo, então sempre aceitei que as coisas fossem como são e então isso desligitimiza a minha luta feminista. Mas ele está partindo de um pensamento muito perigoso, afinal, o “quem cala consente” é universal? E o calar de uns dá direito aos outros de fazer o que quiserem?

Não, eu definitivamente não entendi o que ele quis dizer.