Um trabalho como qualquer outro? Precisamos falar sobre trabalho doméstico

Texto de Lisandra Moreira para as Blogueiras Feministas.

Em meio ao atual clima de manifestações, lembro que há algum tempo houve uma polêmica foto de uma família (branca) que foi às manifestações com a empregada doméstica (negra) carregando o carrinho das crianças. Chuva de comentários extremistas para os dois lados.

Uma vontade incontrolável de escrever sobre isso me leva a tentar construir esse texto. Essas reflexões se iniciaram muito antes, colecionando cenas incômodas sobre o tema. Os incômodos nascem de alguns atravessamentos que tornam essa temática tão espinhosa: a diferenciação e a regulamentação recente dessa ocupação, o racismo, a desigualdade econômica, a questão de gênero e o cuidado infantil. Vamos primeiro às cenas, selecionei três:

1. Numa cena acadêmica, uma professora se pergunta se seria possível uma sociedade sem o trabalho doméstico remunerado. Se levarmos ao extremo essa afirmativa: “É impossível uma família que possui outras ocupações viver sem empregadA”, estamos querendo dizer que a vida da família de quem é empregada, é uma vida impossível, ou indigna?

2. Numa cena escolar, onde algumas crianças ao retratar a família haviam incluído a figura da babá, a professora chama atenção dizendo que elas são empregadas e não membros da família. Interessante posição para desconstruir o velho conto de fadas de que são “quase” membros da família. Entretanto, a professora finaliza dizendo que nenhuma babá está ali por escolha, mas por falta de opção, falta de formação. Se alguma daquelas crianças um dia desejou ser cuidadora de crianças naquele momento aprendeu que essa não é uma ocupação digna de escolha.

3. Nas regras de utilização de um Clube Universitário, consta a “permissão” da entrada de babás, desde que devidamente uniformizadas e sem a utilização das dependências do clube. Qual a necessidade dessa demarcação? Ou há a necessidade de uniforme e uso de EPI quando alguma mãe ou pai cuidam do seu filho (se bem que em alguns dias um protetor auricular seria salutar)?

Babá passeia com carrinho de bebê no "Parque das Babás" em área nobre de São Paulo. Foto de Felipe Souza/BBC Brasil.
Babá passeia com carrinho de bebê no “Parque das Babás” em área nobre de São Paulo. Foto de Felipe Souza/BBC Brasil.

De forma geral, há na discussão dessa temática um grande esforço por parte de quem contrata serviços domésticos de se mostrar como “bom patrão/boa patroa”. Esse esforço só acontece porque a regulamentação do trabalho doméstico equiparado aos outros trabalhadores urbanos é uma conquista extremamente recente. Nesse sentido, o trabalho doméstico não é como qualquer outro trabalho. Basta ver o quanto a PEC das domésticas causou alvoroço ao equiparar a esse trabalho os direitos já conquistados para o restante dos trabalhadores, via CLT. É somente com a regulamentação que se minimizam as diferenças individuais entre determinados patrões, porque estamos falando de direitos coletivos conquistados e não mais da boa vontade e da simpatiza de determinada família.

É preciso contextualizar historicamente não apenas a regulamentação dessa ocupação, mas a construção histórica dessa categoria. “A empregada doméstica” é na sua maioria, ou pelo menos no imaginário social: uma mulher; tem pouca escolaridade, é negra, é pobre. Essa ideia é também uma construção, mas produz efeitos. Parte-se do princípio que é um emprego que paga pouco e com tarefas que ninguém quer fazer e portanto, somente num cenário de poucas escolhas seria aceito.

Carregamos a herança de séculos de escravidão, uma ferida que não será cicatrizada, porque tentamos abafa-la, esconde-la. Há uma relação de desigualdade que é muito forte nessa relação que HOJE é uma relação trabalhista. Não é apenas um empregador e um empregado, não é o contratante de um serviço e o prestador de serviço. Ninguém deixa de escovar os dentes para ir ao dentista, mas as pessoas são capazes de sujar deliberadamente para que a empregada limpe. É nessa lógica que se enquadra a necessidade de diferenciação, de uniforme, marcando quem manda e quem obedece. Aliás, quem manda é porque pode, quem obedece é porque precisa? Não é essa a síntese da desigualdade? Numa sociedade como a nossa em que a fábula da meritocracia diz que quem tem dinheiro é porque mereceu e tem direito de mandar, logo quem não tem dinheiro merece ser mandado.

Um outro incômodo que está nessas questões diz respeito ao gênero e ao cuidado infantil. Ainda vejo muito as acusações quanto à contratação do trabalho doméstico recair sobre as mulheres. Tanto as patroas, quanto as empregadas. Como se assunto feminino fosse. Quando essa questão envolve crianças, fica tudo ainda mais complicado. O canal Porta dos Fundos fez uma crítica a forma como endeusamos as crianças hoje em um de seus vídeos. Numa das cenas, a babá apresenta o filho aos pais quando esse completa 18 anos, porque até então, os pais não sabiam o que fazer com as crianças. E por que hoje não se sabe o que fazer com uma criança? Num mundo em que todas as ações de mães e pais são analisadas e apontadas como causadoras de futuros problemas e traumas para esse sujeito, é bem complicado assumir essa função. Não a toa, as tarefas são rapidamente terceirizadas e desloca-se o bode expiatório para a boa e velha empregada doméstica.

Nesse sentido, a cena da babá com os patrões na manifestação causa mal-estar. Não são aquelas pessoas em si, que inclusive precisam ser respeitadas nas suas escolhas. São as marcas que essa cena carrega. São as cenas que cada um coleciona ao observar a forma como a relação entre empregador e empregado doméstico costuma acontecer. Definitivamente, não é um trabalho como qualquer outro.

Autora

Lisandra Moreira é psicóloga, mestre e doutora em Psicologia. Gaúcha, um pouco nordestina e agora também mineira. Feminista, com mais dúvidas do que respostas.

Que horas ela volta? Abismos de classe e de gênero.

Texto de Cristiane Brasileiro. Atenção! O texto contem spoilers!

Outro dia fiz o que quase nunca faço, porque em geral não tenho ninguém com quem deixar meu filho pequeno: fui ao cinema. Fui ver “Que horas ela volta?”. E fiquei louca pra conversar com mais gente a respeito. O caso é que talvez eu nunca tenha assistido a um filme nacional em que as tais “questões sociais” estivessem representadas com tanta fineza e precisão, com tanto senso de passado e de futuro. E tanta atualidade.

Porque o filme, como muita gente já disse, é um drama social que expõe tensões de classe potencialmente explosivas, mas que vinham sendo mascaradas pelo nosso velho jogo da cordialidade. E faz isso olhando pra dentro do espaço doméstico, no qual essas relações são mais tão dramáticas quanto encobertas — esse espaço no qual gente considerada “fina” e “sensível” ainda costuma viver boiando num aquário protegido, enquanto marca com leveza férrea o lugar sempre apartado dos subalternos.

Cena do filme "Que Horas Ela Volta?" (2015) de Anna Muylaert.
Cena do filme “Que Horas Ela Volta?” (2015) de Anna Muylaert.

Partindo desse cenário, no entanto, o filme também capta linhas de uma revolução social que vem sendo cavada neste tempo histórico “pós-Lula”: a filha da empregada, que havia sido deixada no interior aos cuidados de uma outra mulher, volta a viver com a mãe porque vai pra cidade grande fazer vestibular ao mesmo tempo que o filho da patroa também tenta entrar na universidade. E essa pequena chance de ascensão social — ainda que tão incerta — vai desconcertando todo o esquema hierárquico anteriormente dado, ameaça macular com novas alegrias a piscina dos ricos, provoca o bendito estranhamento em relação ao abismo de classe que até então parecia intocável.

O filme, no entanto, faz ainda mais do que isso. Faz o que a crítica especializada, ao menos no Brasil, sintomaticamente não tem comentado: expõe um abismo que não é somente de classe, mas também de gênero.

Senão, vejamos: já na cena inicial, um menininho pergunta à sua babá a que horas a mãe dele volta; como num jogo das cadeiras, a filha ainda pequena dessa mesma babá também repetia, de longe, a mesma pergunta a respeito da própria mãe. A impressão que temos é que todos ali estão deslocados, todos vivendo uma falta fundamental. E a corda estoura, como sempre, no lado dos mais fracos. É lá que estão as crianças que ficam (ainda mais) abandonadas. É lá que estão as mulheres que não têm outra coisa a vender além da velha e “desqualificada” habilidade de cuidar da casa e dos filhos (especialmente os dos outros).

Nesse ponto, precisamente, o filme me impressiona ainda mais, ao mostrar que essa “dança das cadeiras” parece sempre confinada às mulheres que estão em cena, e apenas a elas. E ao mostrar, ao final, uma certa reparação que desloca a babá do início do filme para a posição de cuidar, enfim, do próprio neto — e, assim, se reconciliar com a filha da qual viveu afastada. Porque essa filha, também tendo precisado se responsabilizar sozinha pelo próprio filho que havia tido, não poderia cuidar dele enquanto fizesse a tal faculdade. De novo, então, estaríamos diante de uma conta que não fecha: tirando a avó/babá da criança, a moça não tinha com quem dividir a responsabilidade pelo filho.

Porque os homens, no filme, são os mesmos personagens que estamos tão acostumadas a ver, quando se trata disso: vivem à margem dessas “demandas domésticas” porque continuam protegidos até mesmo de uma mínima consciência a respeito das implicações políticas dos privilégios de que desfrutam tão confortavelmente. E vivem empenhados demais em corresponder às expectativas de que façam qualquer tipo de sucessinho mais público e epidérmico. Eles ficam, então, como no poema de Pessoa: na hora do soco, têm se esquivado para além do alcance do soco.

Vejamos mais de perto a ciranda desses lugares vazios. O pai da filha da babá não parece ter jamais se responsabilizado pela filha gerada, e é mencionado apenas como um problema a mais para constranger a ex-mulher. O filho dos patrões, ao final do Ensino Médio, ainda vive como um bebê adulado pela babá/mãe, sem qualquer ligação mais íntima com os próprios pais. O pai do neto da empregada, aparentemente, também não existe. O dono da casa, por sua vez, diante da filha da empregada (que têm a mesma idade do seu filho), sequer cogita assumir uma posição mais paternal: ele regride ao ponto de disputar a menina com o próprio filho, e não pode imaginar nada mais interessante pra fazer na própria vida do que tentar conquistar uma nova namoradinha pra espantar o indisfarçável tédio no qual dormita.

E, reparando bem, ele havia revelado que estava sem pintar quadros (o único “trabalho” que havia chegado a ter) havia exatos 10 anos — não por acaso, o mesmo período que a babá estava sem conseguir se afastar do trabalho pra ir ver a filha. Apesar disso, durante todo esse tempo em que a mulher dele esteve trabalhando fora e a empregada cuidava de todo o resto, ele não havia se disposto a aprender sequer a pegar sorvete na geladeira por conta própria. Cuidar da própria casa ou do próprio filho, então, nem pensar.

E aí está, a meu ver, um trunfo menos percebido do filme: ele mostra que, mais fundo que o abismo de classe, ainda está o maldito abismo de gênero. E que, na base das opressões de classe que começam a ser revistas, ainda permanecem essas outras opressões ainda tão assustadoramente naturalizadas. Nem mesmo as crianças perguntam hora nenhuma, a respeito dos seus pais: “Que horas ele volta?” Uma tal expectativa parece inimaginável ou irrelevante, e de fato qualquer demanda nesse sentido não chega a se erguer no horizonte.

Porque enquanto todo o trabalho de cuidar de casa, das crianças e dos velhos continuar sendo brutalmente invisibilizado e reduzido a uma espécie de “batata quente” que ninguém poderia em sã consciência desejar assumir, essa conta não vai fechar. E no entanto, reconheçamos… Se isso não é um sintoma especialmente bizarrro do fenômeno que chamam de “alienação”, então nada mais é. Se dedicar uma atenção mais séria a esse universo das responsabilidades que nos desafiam a todos da porta de casa pra dentro não for, afinal, um ato profundamente revolucionário, nada mais será. Porque, como disse a diretora do filme, Anna Muylaert, numa entrevista dada fora do Brasil: “eu não tenho dúvidas de que educar uma criança é cem vezes mais difícil e importante do que fazer qualquer filme. Você não fica rico ou poderoso fazendo isso, mas fica mais forte, mais sábio, mais real”.

Há outros valores aí, enfim, que se afirmam ao arrepio da lógica do dinheiro, do sucesso, das glórias vãs. E, enquanto há gente que finge que está tudo bem, em termos da “igualdade dos sexos”, mulheres continuam ganhando menos do que homens, mulheres com filhos ganham ainda menos do que as sem filhos, e – surpresa! – as mães solteiras continuam formando o grupo disparadamente mais pobre entre todos.

Não por acaso, foi uma mulher solteira, mãe de dois filhos, que fez esse filme. E é outra dessas que encontrou uma brecha pra escrever, aqui.

Autora

Cristiane Brasileiro é mulher trabalhadora e mãe solteira de duas crianças. Tem doutorado em Literatura pela PUC-Rio, leciona no ensino superior há quase 20 anos e já coordenou vários cursos de pós-graduação no Rio de Janeiro. Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 09/09/2015.

Eu fui a filha da doméstica que entrou na Universidade

Texto de Xênia Mello.

Eu fui a filha da doméstica que entrou na Universidade. Por muito tempo isso foi motivo de vergonha e angústia. Por muito tempo eu menti sobre o que minha mãe fazia e onde eu morava. Quando me perguntavam eu desconversava, já tinha decorado todo um texto a depender da ocasião: “ela vende roupas, ela traz coisas do Paraguai, ela vende cosméticos”.

Mentir passou a ser uma constante para negar a minha realidade e me afastar da pobreza e negritude. Eu não queria ser fracassada e nessa sociedade você aprende que não ter, não possuir é ser fracassado. Só não é ensinado o que foi tirado e sequestrado de você.

Quando entrei na faculdade ainda não havia política de cotas, o número de pessoas negras e pobres era radicalmente menor. A política de cotas é algo que permite que nos organizemos coletiva e politicamente em espaços de hegemonia branca e classe média, nos permite também enfrentar nossos medos, angústias, superar, receber empatia, fortalecer vínculos.

Fui aprovada em Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), naquela época haviam 4 ou 5 negros num universo de 800 alunos, um carioca militar que havia sido transferido da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os outros eram moçambicanos ou angolanos, frutos de intercâmbios entre as universidades. Todos homens. Por muito tempo eu me senti sozinha. Por muito tempo aquelas colunas majestosas da Faculdade me disseram que eu não pertencia àquele lugar. Estranha, invasora, desconexa, eu queria ser como eles, mas eu não era um deles.

Demorou para que eu compreendesse que meu sofrimento era fruto da desigualdade e não da incapacidade da minha mãe em me garantir uma vida confortável. Por muito tempo eu odiei minha mãe e tive repulsa da pessoa negra e pobre que ela era. Por muito tempo eu odiei minha mãe e tive repulsa da pessoa negra e pobre que ela era. Por muito tempo eu odiei minha mãe e tive repulsa da pessoa negra e pobre que ela era. Eu repito porque muitas foram as vezes em que eu fui violenta, arrogante e me envergonhei da mãe que eu tinha. Isso é o que uma sociedade desigual faz com seus oprimidos, filhos culpabilizarem suas mães por sua pobreza e miséria. Filhos odiarem suas mães por não darem conta ou compreenderem a desigualdade.

Por muito tempo eu tive minha infância e adolescência sequestrada porque minha mãe foi a doméstica que morava no emprego, enquanto ela limpava vossas calcinhas e cuecas, e cuidava de vossos filhos, eu era a criança que ia sozinha pra escola e cuidava do próprio rabo, e sofreu muito por essa solidão e as consequências violentas dessa ausência. Por muito tempo eu não falei sobre esses sentimentos e neguei essa angústia porque não queria que as pessoas tivessem piedade de mim ou me lessem como uma pobre coitada, me rasgava (e ainda me rasga) ver o mal estar ou perceber a solidariedade das pessoas com minha história, pois era a sentença de uma vitimização, um coitadismo (e isso é tudo o que eu não sou).

Ainda é muito difícil lidar com a empatia do outro, a ajuda do outro, porque minhas roupas foram as doadas pelas patroas que minha mãe teve. Ser ajudada e receber empatia ainda carrega a herança de me colocar no meu lugar de preta, pobre e periférica, vestida com as roupas da patroa (tão amáveis né, me doavam aquilo que a moda já tinha cuspido). Isso é apenas uma ilustração, há vários outros exemplos que eu poderia dar. Por muito tempo eu desejei ser filha da mulher bem sucedida, como eram bem sucedidas a maioria das mulheres mães de meu colegas de faculdade: advogadas, desembargadoras, servidoras públicas, psicanalistas, intelectuais. Todas brancas, todas bem vestidas e perfumadas, todas com seu carro, todas com suas viagens.

No meio de tudo isso, essa angústia tomou forma de muitos porres, muitas drogas, muitos escapes, muitas indas e vindas da faculdade. O que era cinco anos, viraram oito, e até hoje não dei conta de retomar a continuidade da pesquisa, me formar já foi bastante custoso emocionalmente. Eu adoro a pesquisa e estudar, mas preciso dar conta dos monstros que habitam em mim. Não era só um curso de Direito, era quem eu não era, era quem eu tinha vergonha de ser. Eu só fui superar isso muito tempo depois, inclusive depois que eu sai da faculdade, depois que eu entrei em contato com pessoas que tiveram repertórios muito parecidos com o meu, mas que em vez da angustia e vergonha, traziam consigo a marca do enfrentamento à desigualdade, do radicalizar, do apontar os privilégios, e sobretudo de uma identidade negra e periférica de resistência.

Aprendi muito com Renato Almeida Freitas Jr. e Mariana Raquel Costa e sou profundamente agradecida. Dois amigos que assim como eu eram filhos de domésticas, pobres, pretos, periféricos que cursaram Direito. Descobri coletivos feministas negros, e conheci várias outras mulheres com vidas com as quais me identifiquei. Percebi que muito de minhas angústias não eram fruto da incapacidade da minha mãe, e sim de uma brutal desigualdade que impõe sofrimentos individuais, e que por marcarem nossa história fica difícil perceber que se trata de uma opressão estrutural.

Vocês, amigos, tem uma importante contribuição para aquilo que me envergonhava se tornasse orgulho, e sobretudo para que eu me permitisse amar e admirar minha mãe da forma preta e pobre como ela é. Eu demorei quase trinta anos pra amar e admirar minha mãe preta e pobre porque ela personifica o que é considerado fracasso numa sociedade desigual: a mulher negra, pobre e periférica que se ocupa do trabalho doméstico.

Minha mãe Rose e meu filho Lourenço. Foto de Xênia Mello.
Minha mãe Rose e meu filho Lourenço. Foto de Xênia Mello.

A desigualdade também sequestra nossa possibilidade de amar. O filme “Que horas ela volta?” retoma esse diálogo para mim, vale ler essa crítica excelente. Enquanto muita gente na sala de cinema teve a oportunidade de observar como é, estar, ser o outro lado, eu revisitei a minha vida, a minha dor, o meu amor, as minhas angústias. Quem sabe se algo assim tivesse sido produzido antes eu tivesse feito escolhas que não me trouxessem tanto sofrimento, ou poderia ter feito as mesmas escolhas, sabendo que poderia ter ser tão “rebelde” quanto a Jéssica, porque em muitos momentos eu me resignei até a porta da cozinha.

A Jéssica é o personagem a representar nosso movimento de resistência e ocupação. Hoje eu sou mãe, e tenho o privilégio de estar presente na vida do meu filho, estar presente ainda é um privilégio. Escrevo isso para também lembrá-lo disso, ter uma mãe presente numa sociedade desigual é um privilégio. Além disso vamos firme na luta. Vai ter favelada, preta, pobre, periférica na Universidade, na política, nas artes, na cidade, em todos os lugares que todas as mulheres negras sejam livres e respeitadas.

Esse texto foi publicado originalmente em meu perfil pessoal do Facebook no dia 04/09/2015.