Documentário Bambas e o machismo no samba

Anná Furtado é cantora, percussionista e sambista. Recentemente nos escreveu para falar de seu projeto, o documentário Bambas, sobre machismo no Samba: “acredito na potência que este tema tem de dar visibilidade a muitas mulheres negras da nossa história”.

O samba, um dos ritmos mais populares do Brasil, como qualquer outro espaço reproduz muito machismo, invisibiliza o trabalho de muitas mulheres, especialmente como compositoras. Porém, elas sempre estiveram presentes na história do samba.

Kelly Adriano de Oliveira, doutora em ciências sociais pela Unicamp, afirma que tanto as mulheres quanto a religiosidade afro-brasileira tiveram um grande papel para que o samba conseguisse resistir, porque era dentro dos terreiros das casas das tias baianas — cujo símbolo ficou marcado em Tia Ciata –, no espaço privado e escondido, que o samba podia acontecer.

O samba continua sendo hoje um gênero musical no qual há a predominância de homens, tanto dentro da indústria, como nos espaços onde ele é tocado popularmente.

“A abertura do samba para a participação das mulheres, principalmente negras, continua difícil e, embora sempre haja nomes em destaque, como Mariene de Castro, Fabiana Cozza e Teresa Cristina, ainda temos muito pouco”, lamenta Kelly. Referência: Raízes do Samba: Qual foi a importância histórica das mulheres negras no samba?

Achamos o projeto tão bacana que decidimos fazer uma entrevista com Anná para você conhecer mais sobre o documentário Bambas e apoiar sua realização:

1. Como surgiu a ideia do projeto?

Acredito na arte como potência transformadora da sociedade. Por isso, a ideia deste projeto surgiu da minha necessidade de denunciar uma opressão muito presente na minha vida.

Antes de entrar no Samba, eu já estava mergulhada no Feminismo. Sou militante independente e já militei em alguns movimentos, levo isso muito a sério. Por isso, eu me choquei quando entrei de cabeça no Samba, porque percebi como as mulheres precisam de força para resistir neste universo. A começar por ter que ouvir letras escancaradamente sexistas como “Se essa mulher fosse minha, tirava do samba já, já/ dava uma surra nela que ela gritava: chega!”, ou “Você não passa de uma mulher”. Além dessas e outras letras absurdas, existe uma intimidação para a mulher que quer sentar numa roda e tocar um instrumento. Mulher no Samba só pode cantar e olhe lá! Pra tocar numa roda tem que chegar chegando e ser muito empoderada. Sem falar no assédio, que dispensa comentários.

Mas não foi sempre assim. Na realidade, o Samba pertence (e muito!) às mulheres. O Samba nascido no Rio de Janeiro surgiu essencialmente por causa das Tias Baianas, que eram mulheres negras que trouxeram do nordeste muitas influências culturais africanas, que na mistura urbana das favelas deram origem a este Samba. Estas mulheres cantavam, dançavam, cediam suas casas para festas que duravam dias, e protagonizavam a batucada. Mas muita água correu na história do Samba, e muitas mudanças ocorreram. De certa forma, o projeto pretende conscientizar acerca deste passado para, quem sabe, gerar mudanças no futuro do Samba.

Imagem com diversas mulheres sambistas divulgada na página do documentário Bambas.
Imagem com diversas mulheres sambistas divulgada na página do documentário Bambas.

2. Como você descreveria o protagonismo da mulher negra no samba?

Todo estudo da história do Samba é unânime em afirmar que as responsáveis pelo surgimento do Samba no Rio de Janeiro foram as Tias Baianas. Estas Tias eram mulheres negras e nordestinas que vieram para o Sudeste no início do século carregando imensas tradições culturais africanas, no período pós Guerra de Canudos. A maioria delas era mãe de santo e portanto estavam imersas em ritmos e percussões africanas.

Nessa época, acontecia no Rio o “bota-abaixo”, série de medidas políticas que acabou com os cortiços do centro da cidade, dando início à formação das favelas. Nessa época, as manifestações culturais populares eram criminalizadas: andar com um violão ou um pandeiro dava cadeia, era ‘crime de vadiagem’. Por isso, foi de suma importância as Tias Baianas cederem suas casas no morro para as batucadas. Misturaram-se nestes quintais os maxixes, polcas, candomblé e outras brasileirices mais que deram origem ao Samba. Uma das Tias mais conhecidas foi Tia Ciata, que, reza a lenda, cantava, dançava, cedia a casa, cozinhava e promovia o batuque que começou a aglutinar nomes como Donga, João da Baiana e Pixinguinha.

Este protagonismo das Tias Baianas foi sendo alterado à medida que surgiam e se institucionalizavam as Escolas de Samba. As mulheres passaram a ocupar outras posições, sempre resistindo a pressões machistas que ameaçaram e ameaçam as estruturas essenciais do Samba.

Ou seja, o protagonismo das mulheres negras no Samba está nas suas estruturas, na sua origem. E a luta por este protagonismo se estende até os dias atuais.

3. Das entrevistadas, há alguma que mais te emocionou? Ou que tem um significado especial para você?

Nós temos uma lista infinita de possíveis entrevistadas, pois o que não falta nesse mundo é mulher do Samba. Temos uma triagem mas ainda não fechamos a lista. Já entrevistamos algumas mulheres, cada uma com uma idade e vertente de Samba diferente.

Umas delas foi a grande Geovana, que é uma lenda viva do Samba. Ela é compositora de sambas como “Irene”, gravada pelo Zeca Pagodinho, e possui letras muito ousadas, como “Gosto de fazer amor/Quem tem carinho me leva”. A Geovana conheceu e conviveu com todo mundo do Samba, de Beto sem Braço a Clara Nunes. Ela respira Samba, é uma grande Mestra.

Também foi incrível filmar a Paula Sanches, que é uma cantora muito maravilhosa com um trabalho fantástico de Samba de Breque. Poucos sabem, mas a música “Maria de Vila Matilde”, que a Elza Soares gravou, foi feita pelo Douglas Germano para a Paulinha Sanches cantar. Tivemos a enorme honra de filmá-la cantando e interpretando essa música, foi emocionante.

Não posso deixar de falar da emoção que foi filmar Nega Duda, uma baiana que carrega na pele o Samba de Roda. A Nega nasceu dia 13 de maio (dia da abolição) e tem uma forte história de vida, além de ter uma voz espetacular, super rara, extremamente parecida com a da Clementina de Jesus. Se tem uma mulher que é empoderada, é essa Nega Duda!

Também tivemos a honra de filmar a Dona Inah, que dispensa comentários pela sua grandeza dentro do Samba. Enfim, são muitas mulheres de resistência para serem ouvidas, com histórias muito fortes e me sinto muito honrada de poder filmar essas heroínas.

4. Como você acha que as novas gerações de ouvintes interagem com a história do samba?

Acredito que o Samba que estamos abordando no filme, o Samba de Raiz, está cada vez mais elitizado. Então a relação das gerações atuais com ele é muito diferente do seu início. A começar pelo fato de que o Samba era criminalizado. Contam que o Mestre João da Baiana andava com seu pandeiro pelo Rio de Janeiro e era preso continuamente, porque era crime andar com violão ou pandeiro, crime de vadiagem. Até que um Senador que admirava suas músicas assinou o couro de seu pandeiro. A partir daí, quando era abordado pela polícia, João da Baiana mostrava a assinatura do Senador e saía ileso.

O Samba era, então, um estilo de vida, uma forma de resistência cultural negra. Hoje não existe mais perseguição: o Samba já foi cooptado pela Indústria Cultural, comercializado, transformado em produto. Isto faz com que as pessoas tenham uma relação mais superficial com ele. A população não ‘ouve’ Samba, ela ‘consome’ Samba.

Apesar disso, eu acredito muito no potencial subversivo do Samba (assim como no do funk e do rap), porque no fim das contas, trata-se de uma manifestação cultural vinda da parcela mais marginalizada da sociedade, que conseguiu se transformar num fenômeno mundialmente conhecido!

Então, ele mantem ainda sua capacidade de quebrar os padrões da indústria e gerar reflexão, tanto pela sua forma, cheia de influências africanas, quanto pelo conteúdo. Além disso tudo, o Samba tem uma coisa mágica, muito louca que leva muitas pessoas a dedicar a vida a ele. É algo inexplicável, mas quando ele fisga, não tem como correr: a gente passa dia e noite lendo, ouvindo, estudando, e quanto mais a gente conhece o Samba, mais a gente percebe que não sabe nada. Com certeza o Samba é um ponto fora da curva na indústria cultural.

5. O projeto se encerra no documentário ou você já está maquinando novas ações, como talvez um show com essas mulheres?

Nosso projeto “Bambas” (queira a Deusa!) não se encerra no filme, mas ainda não podemos divulgar nossos planos. A ideia do show é muito boa, vamos pensar nisso! Mas bem sabemos como anda a cultura no nosso país. De qualquer maneira estamos buscando parcerias e apoios para dar continuidade ao projeto.

A equipe do “Bambas” é formada por:

Direção/Roteiro: Anná Furtado

Produção/Montagem: Tânia Campos

1ª Assitente de Direção: Catarina Balbini

Direção de Fotografia: Tuta Piné

Direção de Arte: Isabella Bergo

Direção de Som: André Souza

Acompanhe as notícias sobre o documentário pelo site oficial e pela página do Facebook.

3º Encontro de Mulheres na Tecnologia – Relato e entrevista com Andressa Martins

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Estava ansiosa para participar do 3º Encontro de Mulheres na Tecnologia. Pois, atualmente é o único que conheço que abarca de forma abrangente a participação de mulheres na tecnologia. A maior parte de eventos do tipo são promovidos por uma empresa em específico ou apenas focam em ferramentas ou linguagens.

Este tipo de espaço é importante para nos fortalecermos, termos contato com outras mulheres e trocarmos experiências. Pois além de sermos poucas profissionais na área, enfrentamos diversas dificuldades na participação de eventos, tanto com relação a invisibilidade de nosso trabalho, como pelo sexismo que envolve os ambientes de trabalho e destes eventos.

3º Encontro de Mulheres na Tecnologia. Goiânia/GO, 2015. Foto de Alessandra Gomes no Facebook.
3º Encontro de Mulheres na Tecnologia. Goiânia/GO, 2015. Foto de Alessandra Gomes no Facebook.

Poucas mulheres são chamadas para palestrar em eventos de tecnologia e o ambiente preconceituoso também nos afasta, o que faz parecer que nossa participação na área ainda é menor e muito menos significativa do que realmente é. E, a realização de um evento apenas com mulheres palestrantes, tratando de diversos assuntos e diversas mulheres participantes, demonstra onde o problema realmente está.

É grande a importância de ver mulheres palestrando e falando sobre suas dificuldades e sucessos para incentivar que outras mulheres e meninas se engajem na área, essa representatividade fez falta quando busquei minha formação e iniciei a minha carreira, por exemplo. Esses eventos nos fazem lembrar que não estamos sozinhas, e que além dos nossos problemas serem compartilhados por outras mulheres, é possível alcançar nossos objetivos.

Alguns pontos ainda merecem atenção, como algumas falas estereotipadas ou que tinham um certo determinismo biológico de algumas palestrantes. Entre os participantes homens surgiram também algumas brincadeiras e piadinhas que incomodaram bastante a mim e outras participantes. Fora uma situação pós-evento que expôs uma das palestrantes por conta de uma apresentação sobre estratégias de segurança.

Segue agora uma entrevista com Andressa Martins*, fundadora e conselheira do grupo Mulheres na Tecnologia que trabalhou na divulgação do evento deste ano.

1. Como e quando surgiu o grupo? Quem pode fazer parte?

O grupo surgiu de um bate-papo entre 3 mulheres na comunidade de usuários Debian em Goiás. Pensava-se em fazer um evento semelhante aos que são feitos pelo grupo The Debian Women Project. Neste momento começou-se a questionar a pouca existência de mulheres nos eventos de TI e nas áreas de Tecnologia da Informação. No sentido de ampliar as discussões foi criado o grupo e uma lista de discussão no Google Groups, inicialmente restrita ao estado de Goiás e posteriormente com uma dimensão nacional, contando hoje com representantes ativas de outros estados.

Todas as mulheres que trabalham ou querem trabalhar ou são formadas na área são bem-vindas. Temos uma lista de discussão, onde todas podem contribuir com ideias, discussões e propor atividades; as redes sociais do grupo e o site também estão à disposição para divulgar o talento das meninas. Basta usar nossos canais:

Twitter: @mulheresti

Facebook: http://www.facebook.com/groups/mulheresti/

Site: mulheresnatecnologia.org

E-mail: contato@mulheresnatecnologia.org

2. Quando surgiu a ideia de criar um encontro? Quais foram os desafios?

A idéia de criar um evento é anterior a criação do grupo, conforme citado acima, mas sempre fizemos reuniões/encontros de formação local. Com o crescimento da participação de profissionais de outros estados e a vontade e cobrança de ter um encontro com todas, decidimos fazer um encontro nacional. As dificuldades de logística são relacionadas a criação de qualquer encontro, a única diferença foi encontrar o público. Inicialmente, tínhamos contatos de poucas mulheres atuantes na área, começamos criando mini-encontros dentro de eventos como Latinoware, Campus Party e FISL, onde conseguimos mais contato e visibilidade para o grupo, e em 2013, realizamos o nosso primeiro encontro nacional de mulheres na tecnologia.

3. Como foi essa edição com relação aos encontros passados? Foi possível observar mudanças com relação a participação do público, temas abordados, atitude das palestrantes, etc.?

Na primeira edição, tínhamos o objetivo de aproximar as mulheres integrantes do grupo, favorecer uma troca de experiências “ao vivo”, proporcionando o networking já que a grande maioria só se conhecia através da troca de e-mails. Na segunda edição, discutimos o empreendedorismo das mulheres na tecnologia, as atividades eram voltadas para despertar nas profissionais a importância de se reconhecerem no mercado e tomarem decisões em sua vida profissional e pessoal.

Nesta terceira edição, os temas abordados tiveram relação principal com a temática escolhida: carreira e formação. Para isso procuramos trazer projetos de viés educativo para crianças e adolescentes, pensando na formação das futuras gerações da área de TI e a carreira da mulher que já atua na área. Pudemos notar que o número de participantes do sexo masculino cresceu, provavelmente pelo trabalho de divulgação que fizemos em parceria com a faculdade que sediou o evento, somada a dificuldade com as maiores instituições de ensino locais que estavam de greve.

Sobre a programação, foram 4 atividades simultâneas, tratando de assuntos variados, com palestras conceituais e técnicas. Notamos que o público este ano deu preferência a trilha de tendências que ficou lotada o tempo todo e os temas foram: IoT, mobile e robótica. De novidade, trouxemos o tema ‘Mulheres nos Games’ com a palestrante Ariane Nathaly do Women Up Games que teve boa repercusão entre as participantes, e a Hora do Código com os Gênios de Turing, que durante 2 horas fizeram uma oficina de programação com crianças do ensino fundamental e a participação dos alunos da Escola Estadual Professor Sebastião França (Goiânia-GO), além de alguns filhos de professoras que estavam presentes.

4. O que acreditam que é preciso melhorar para ampliar a participação das mulheres em eventos de tecnologia?

As principais mudanças devem ser feitas na sociedade de forma a eliminar o preconceito e na percepção das meninas/mulheres mostrando-as que são capazes. Podemos dizer que o grupo /MNT – Mulheres na Tecnologia atua incentivando mulheres do grupo a palestrarem em eventos, através de workshops online, bate-papos informais, divulgação de eventos na lista e no site e artigos técnicos. Talvez os eventos devam criar espaços de discussão para mulheres para que possam interagir entre si e também propor um código de conduta para os participantes, palestrantes e até patrocinadores para garantir, ou ao menos causar uma reflexão nos participantes sobre o respeito para com as mulheres e outras minorias nos eventos.

5. Vocês enxergam o evento ou o grupo como iniciativas feministas?

Sim, somos um grupo feminista, e acreditamos que com com a equidade de oportunidades no mercado de trabalho, com a liberdade de conhecimento será mais fácil alcançar os objetivos do grupo.

6. Tem algum recado para dar para as profissionais de tecnologia?

Conheçam e troquem experiências com Mulheres que atuam ou atuaram na área de Tecnologia da Informação, participem de projetos de inclusão digital, participe de grupos de Desenvolvimento de Software Livre ou as mais variadas comunidades de Tecnologia, acreditem em seu potencial.

*Andressa Martins é webdesigner, graduada em Marketing e Propaganda, atualmente cursando o quinto período de Engenharia Civil. Possui experiência como webdesigner e instrutora de informática e tecnologias livres. Trabalha atualmente na empresa Siscon Consultoria de Sistemas (Empresa de Engenharia Civil), onde atende as demandas da empresa relacionada à Tecnologia da Informação.

+ Sobre o assunto:

[+] Desigualdade na área de TI: De quem é a culpa? Por Jussara Oliveira.

[+] Tornando a Ciência da Computação mais convidativa: um olhar sobre o que tem funcionado. Por Claire Cain Miller. Tradução de Bia Cardoso.

La Belle Saison – Entrevista com a diretora Catherine Corsini

Entrevista com Catherine Corsini, diretora do filme francês La Belle Saison (2015), feita por Claire Vassé. Publicada no material de divulgação oficial do filme (.pdf). Tradução de Lettícia Leite para as Blogueiras Feministas. Aviso! Há spoilers sobre o filme.

La Belle Saison tem temática lésbica e conta a história de amor entre duas jovens francesas nos anos 70. Teve sua exibição esse mês na França e não há previsão para estrear no Brasil.

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O que te levou a escolher ambientar La Belle Saison nos anos 1970?

Eu tinha um desejo profundo de homenagear as feministas, que foram frequentemente menosprezadas, tratadas de “mal comidas”… Eu mesma, que não fui uma grande feminista naqueles anos, não estava longe de partilhar essa imagem que se tinha delas. Mas logo me dei conta de que, muitas das conquistas das quais eu desfruto hoje, nós devemos a essas mulheres que lutaram por nós, engajaram-se. Uma boa parte delas era homossexual. Enfim, graças a esse movimento, elas conseguiram fazer ouvir as suas vozes. As lésbicas fizeram muito em prol da emancipação de todas as mulheres.

Havia também uma vitalidade, uma insolência no movimento feminista que me seduziu. Hoje eu não vejo nada parecido. Compreendi que o feminismo colocava o humano no centro. E isso foi o grande princípio propulsor da escrita do filme.

Como foi seu processo de pesquisa?

Primeiramente, agradeço a figura maravilhosa de Carole Roussopoulus, a primeira cinegrafista a filmar as lutas das mulheres, a primeira marcha homossexual, que aconteceu às margens das manifestações do 1° de maio de 1970. Muito próxima de Delphine Seyrig, elas dirigiram juntas filmes militantes radiantes. O que me motivou a chamar as minhas heroínas de Carole e Delphine.

Além disso, eu entrevistei várias feministas, dentre elas Catherine Deudon, que desde o início fotografou as ações do movimento. Entrevistei também Anne Zelensky e Cathy Bernheim. Todas elas participaram daquele que é considerado como o primeiro ato feminista: o depósito de uma coroa de flores no túmulo, em homenagem à “mulher desconhecida do soldado”, no Arco do Triunfo[1]. Ato no qual a questão posta era: “quem seria mais desconhecida que o soldado desconhecido? A sua mulher!”.

Eu também li tudo o que pude encontrar, entre outros, o jornal Le Torchon Brûle. E todo esse material escrito e filmado que eu pude reunir, compartilhei com as atrizes, para que todas elas pudessem se investir dessas palavras, desse discurso, da importância das lutas como aquelas em prol da legalização do aborto, do direito de dispor do próprio corpo.

Transmitir essa energia me parecia essecial, foi isso que me encorajou durante as filmagens.

E o trabalho de reconstituição? O filme é um verdadeiro mergulho em uma época mas ele jamais faz uma representação redutora da mesma…

Eu, Jeanne Lapoirie, a diretora de produção, e Anna Falguères, a diretora de arte, ficamos atentas a isso. Optamos por escolher sempre o que havia da mais básico, mesclando aspectos modernos para a época com coisas ultrapassadas. Atentamos para que o carro que passasse na rua não fosse tão visível e tampouco demasiado marcado como “carro de época”, idem para as escolhas do figurino: seja o chapéu do camponês ou as roupas usadas pelas jovens feministas… Era necessário encontrar, naturalmente, uma precisão para a época. Mas também uma certa neutralidade, evitar um excesso de calças pata de elefante, de túnicas floridas… Felizmente as cenas de ruas são rápidas, o que diminui a atenção dada aos elementos datados. Além do mais, em filmes de época, temos frequentemente a tendência a querer “decorar” tudo de acordo com a época na qual o filme se passa. No entanto, haviam várias pessoas que nos anos 1970 se vestiam como nos anos 1950, e cujas casas não eram revestidas por papéis de parede.

A minha obsessão era de não reproduzir de forma rígida as ações feministas. Por isso eu me permiti algumas liberdades, mesmo que as ações não reflitam muito ou exatamente como as coisas se passaram. Desse modo, revisitei algumas ações, como a cena em que elas jogam tripas de vitela no Professor Chambard. Também escolhi deliberadamente não reproduzir as cenas mais previsíveis como o ato no Arco do Triunfo. O meu desejo primordial era captar a vitalidade desse período histórico. Daí a escolha de misturar uma ação do FHAR (Frente Homossexual de Ação Revolucionária) – que libertou um jovem que se encontrava internado em um hospital psiquiátrico na Itália – com as ações feministas.

Neste sentido, a cena da reunião política no anfiteatro da Sorbonne é triunfante.

Eu queria fazer essa cena no anfiteatro, reunir todas essas mulheres, vê-las discutindo, brigando. Evidentemente isso não era simples, pois para uma mulher que nunca o havia feito, tomar a palavra e se fazer ouvir não era fácil. Ainda mais porque elas não estavam dispostas a ter uma liderança que impusesse uma ordem! Essa energia de grupo é muito bonita, alegre e iconoclasta. É preciso também considerar que elas se colocavam em risco em algumas de suas atividades militantes. Frequentemente eram levadas à delegacia.

Eu imaginei essa cena, misturando todas as versões que me foram relatadas. Não há registro algum destes encontros, em parte alguma. Até mesmo saber como era o anfiteatro era complicado. Pois cada uma me contava uma versão diferente. Logo, nós reinventamos tudo, levando em conta todo o material que eu havia reunido, e, no meio disso tudo, deixamos espaço para pequenas improvisações. No começo da discussão, as meninas encontravam-se já alimentadas por esse material, o que garantiu um verossimilhança. Nós também procuramos escolher com cuidado o elenco da figuração, dando preferência à mulheres que participam de fato de movimentos feministas ou LGBT’s, todas pessoas efetivamente comprometidas. No que se refere ao grupo de amigas da Carole, o processo de escolha foi maravilhoso para mim, todas são formidáveis, em particular, Laetitia Dosch, que é uma atriz genial. Esse dia de filmagem foi intenso, febril, eu tinha a sensação de que todas as pessoas estavam contentes em participar. Nós nos rendemos definitivamente, eu e toda a equipe, ao ouvir as garotas cantarem o “Hino do MLF – Mouvement de Libération des Femmes.

Essa matéria histórica esteve intrinsecamente ligada às trajetórias íntimas de Delphine e Carole…

A questão de relacionar o íntimo ao histórico encontrava-se no centro de nossos debates ao longo da escrita do roteiro. Como podemos nos engajar politicamente, ser corajosas com relação aos outros e, no entanto, ter dificuldade para defender as nossas próprias “causas” no âmbito da nossa vida privada? Essa oposição tocou-me profundamente e trouxe a ficção, a dramartugia para a trama. Delphine é hesitante na sua vida íntima, mas ao mesmo tempo ela tem coragem para participar da ação de libertação do jovem gay que se encontrava internado, de jogar tripa de vitela em um médico antiaborto.

Como se deu a escolha do elenco?

Quanto a escolha de Cécile de France, eu escrevi o papel de Carole para ela, eu a via interpretando essa personagem. Foi uma evidência. Eu gosto de sua franqueza, de sua valentia, de sua atitude. Quando já temos um ator em mente, é fácil. Para o papel de Delphine, foi mais complicado. Para contracenar com Cécile, eu não queria alguém insconsistente, mas alguém forte. Uma garota que não se parecesse muito com uma parisiense, para que fosse convincente quando a víssemos em cima de um trator. Izïa Higelin tinha esses traços, esse lado bruto, selvagem. Trata-se de uma questão de temperamento. Creio que, para ela, interpretar é algo difícil, e é isso que lhe confere tanta emoção.

Das duas personagens, Delphine é a aquela com quem eu mais me identifico. E talvez seja por isso que para mim foi mais difícil encontrar uma atriz para interpretá-la.

Como foi o processo de direção?

Querer que um ator corresponda a personagem ideal, aquela que eu imaginei, sempre gera uma espécie de decepção. Assim, ao invés de lutar contra os atores para levá-los a personagem, eu tento enxergá-los como eles são, para depois aproximar a personagem deles. E é esse último que revela algo de íntimo deles.

O que se passa entre o papel e o ator é como uma reação química. Mas o que é certo, é que o ator fica atravessado pela personagem, ele nunca sai ileso desse processo.

Foi a primeira vez que eu filmei em digital. Isso me permitiu não ficar completamente colada ao roteiro, de filmar um pouco a parte os momentos que sustentam o filme, de inventar novas cenas, de ter algumas liberdades, mais flexibilidade, e mesmo, às vezes, de reintroduzir cenas que eu havia escrito em parceria com a minha roteirista Laurette Polmanss, e deixado de lado, mas já com a ideia de reutilizá-las.

Você faz ecoar sem cessar nas suas personagens questões políticas e íntimas, particularmente na cena em que Manuel diz para Carole que, por um lado ela luta para ser livre e, por outro, ela entra em uma história de amor que lhe provoca dependência…

Eu gosto muito do personagem Manuel. Acho interessante, pois ele confronta Carole às suas contradições. Lembra-lhe que o engajamento não deve ficar restrito a um anfiteatro entre amigas, de modo que somos capazes de concordar com ele. Ele se apaixonou por Carole, porque ela era livre e ele observa isso… Eu não queria que esse personagem fosse um canalha, um homem ciumento, exclusivamente focado nos seus problemas, apesar de magoado. Os dois são professores, frutos de maio de 68, ele é maoísta, eles devem ter militado juntos no passado. Esse casal põe em prática a ideia de que é possível viver fora do modelo burguês. Quando a relação termina, a coisa não se passa de forma violenta. Manuel procura convencer Carole a mudar de ideia pela reflexão, a qual ele incita de forma racional.

La Belle Saison é um filme feito com mulheres, sobre o movimento de mulheres e conta uma história de amor entre duas mulheres. Paralelamente, eu não queria representar homens mesquinhos. Mas sim homens atenciosos com as mulheres, não simplesmente antagonistas. Como Carole diz no começo: “Não somos contra os homens, mas pelas mulheres”.

E retratar o campo?

Eu reencontrei lembranças, sensações da minha infância. Pois passei parte da minha juventude em Corrèze. Eu queria contrapor a agitação de Paris à intemporalidade do campo. Como aliar esse dois movimentos ao longo do filme? Como esses mundos poderiam se aproximar, se refletir, se contaminar? Quanto a esse aspecto, ainda uma vez, eu pude contar sobretudo com a ajuda de uma amiga, Anne Bouthry, uma filha de camponeses que veio para Paris no começo dos anos 1970. Ela inspirou-me muito, ajudando-me a fazer a ligação entre esses dois mundos. Foi também conversando com ela que eu pude ter elementos para construir essa história. Eu também revi vários filmes de Georges Rouquier, Farrebique e Biquefarre, testemunhos preciosos sobre o mundo camponês, filmes onde se encontram misturados documentário e ficção. Ao longo do processo de pesquisa eu pude conversar com camponeses cuja juventude se passou naquela época. Eles falaram das duras condições nas quais alguns deles viveram e vivem ainda hoje.

Além disso, no campo, havia o personagem Antoine. Kevin Azaïs foi um parceiro muito elegante e extremamente cativante. E interpreta o personagem rejeitado. Aquele que olhamos e dizemos, é injusto, mas as coisas não darão certo para ele.

E o desejo de filmar a liberdade dos corpos?

Brincar com a nudez fazia quase parte da lógica e do processo de escrita sobre aqueles anos. De repente, passou a ser normal expor a nossa nudez, ter pêlos nas axilas! Mas, estranhamente, esse desejo foi aparecendo aos poucos, com o decorrer das filmagens. No começo eu tinha sobretudo o desejo de mostrar a beleza das paisagens, o trabalho dos campos. Eu estava quase no plano da pintura, de Manet…

Foi Cécile que aos poucos foi me trazendo isso. Eu adorei o visual que construímos para a sua personagem, com aquela basta cabeleira loira. Quando decidimos que sua personagem não usaria sutiã, rapidamente esboçou-se o perfil da parisiense liberada, que se sente completamente a vontade com o seu corpo, que anda nua pelo seu apartamento. Cécile trouxe-me essa liberdade que ela tem, a qual eu aprecio muito. Traço que combinava bem com a sua personagem, Carole, uma mulher ousada e sem tabus.

A cena na qual Carole aparece de vestido aberto, correndo atrás das vacas, foi um improviso de Cécile. Eu achei engraçado, isso me parecia muito com a Carole, levar uma baforada de liberdade para a austeridade do campo. Carole não tem problemas com a nudez, ao contrário de Delphine, que não se sente nada a vontade com o seu corpo. Talvez por que ela se saiba lésbica e não o assuma.

Quanto à cena em que elas fazem amor no campo. Ela tinha escrito apenas um esboço. Trata-se de um momento carnal, cru, que acaba ficando engraçado graças às vacas mugindo ao redor.

Minha roteirista também me apresentou Le Bonheur de Agnès Varda, um filme inspirador para representar o amor de forma pudica, mas livre.

Há uma grande história de amor entre Carole e Delphine…

Sempre me criticaram pela melancolia das minhas personagens. Eu tinha vontade de fazer um filme no qual as personagens tivessem um belo caráter, um alto astral, que fossem extremamente generosas e receptivas ao outro. O que não impede que tenham também um lado sombrio e conflitos, que no entanto lhes são íntimos. Podemos sentir bem que o primeiro inimigo de Delphine é ela mesma. Sua mãe é com certeza um obstáculo, mas Delphine não se atreve a confrontá-la, assim como ela não ousa afirmar o seu próprio desejo. A maneira como, de certo modo, ela fantasia a autoridade da mãe, é isso que torna o drama mais doloroso.

Quando as duas fazem um piquenique juntas, com a mãe de Delphine, temos a sensação que ela poderia abrir espaço para os argumentos e para a liberdade de Carole…

O momento que você menciona trata-se na verdade de uma pequena improvisação ao final de uma cena, no qual Noémie e Cécile trazem essa sensibilidade às personagens, permitindo que imaginemos uma possibilidade de mudança e, evitando que tenhamos uma imagem dessa mãe como uma mulher completamente fechada.

Isso faz com que a cena, bastante violenta, ao final pareça mais aceitável, pois já não estamos mais na caricatura.

Noémie Lvovsky é uma grande atriz e a sua maior preocupação era justamente saber se essa cena seria convincente: “Você é um demônio nessa casa”. É o medo que faz com que essa mãe reaja dessa maneira tão violenta. Medo diante do desconhecido que lhe parece inconcebível e anormal: a homossexualidade da sua filha.

Para interpretar essa cena, foi primeiramente necessário que ela se desvencilhasse dos estereótipos da mãe amarga. Os atores atuam também um pouco como diretores do filme. Para tornarem seus personagens verossímeis, eles precisam construir algo. Fazia tempo que eu queria trabalhar com Noémie. Fazer uma camponesa dos anos 1970 era um desafio, porque normalmente lhe são dados papéis que lhe são bem mais próximos.

O filme traz uma perspectiva alegre e otimista sobre aquela época, porém mais melancólica quando nos aproximamos do íntimo das personagens, o que aliás é acompanhado por um fundo musical mais doloroso…

Por um lado há canções da época: Janis Joplin, Colette Magny, Joe Dassin; por outro, músicas decididamente mais modernas. The Rapture, um grupo atual, que expressa a modernidade que Carole leva para o campo. E há ainda a música original de Grégoire Hetzel, que traz um lirismo que vai ao encontro dos sentimentos íntimos de Delphine e de Carole, do modo como por vezes elas se encontram prisioneiras delas mesmas.

Com Grégoire trabalhamos com muita hesitação. Ele veio muito cedo, e muito rápido pensamos em um movimento arrebatador, escutamos várias músicas de filme, composições de Grieg. É a terceira vez que trabalhamos juntos. Ele é muito flexível, ele tem muito lirismo e delicadeza.

E o final do filme?

Por trás da recusa de um final feliz. pelo menos muito afirmativo, creio que se encontra a ideia de que o combate das mulheres em prol da sua emancipação e a luta para se conhecer melhor, implicam um caminho longo. Se Delphine tivesse conseguido deixar a sua fazenda tão rápido, diríamos que não haveria porque fazer toda uma história! Ao final do filme eu fiquei com a sensação de que ela ainda tem muito pelo que lutar. Além disso, eu adoro essas histórias de amor em que nos sabotamos porque não estamos em um bom momento. É o meu lado melodramático, mas a vida é assim.

Falar do MLF hoje é pertinente?

Hoje mais do que nunca, sobretudo quando eu vejo o destino de algumas mulheres no nosso mundo. As mulheres precisam se mobilizar, pois elas continuam a ser as primeiras vítimas de estados totalitários. Elas ainda são oprimidas. Na Espanha, no ano passsado, o direito ao aborto foi colocado em questão… Penso que as revoluções e as mudanças do amanhã devem ser feitas pelas mulheres.

Na época do filme, as mulheres reivindicavam igualdade, salários iguais aos dos homens, “que as mulheres não sejam objetos publicitários”. Ainda hoje essas questões permanecem. Apesar dos avanços, as mentalidades ainda não evoluíram o bastante. Estamos numa época de regressões terríveis, e é vital que tenhamos consciência disso para agir. Sempre que eu participo de uma reunião, fico cada vez mais atenta para que as mulheres tenham suas vozes ouvidas. Eu não entendo porque as pessoas ainda têm medo das mulheres, porque queremos impedi-las de pensar, porque elas não têm os mesmos direitos. Por que?

E com relação à homossexualidade, nós avançamos mais?

Penso que as pessoas encondem-se menos, mais ainda é bastante doloroso para algumas pessoas declarar e viver a sua homossexualidade. Nas manifestações horríveis que tivemos aqui na França contra o “casamento para todos”, no ano passado, vimos várias famílias dilaceradas. Alguns pais participavam da manifestação, apesar de saberem da homossexulidade dos seus filhos e filhas.

Um filme incentivou-me a fazer o meu: Les Invisibles de Sébastien Lifshitz. Achei os testemunhos das pessoas homossexuais contidos ali exemplares. Suas histórias de amor são magníficas. Sentimos o dilaceramento vivido por algumas mulheres, como o de uma mulher casada, que teve filhos e que descobriu-se homossexual muito tempo depois. Essas mudanças de vida são incríveis, eu fico maravilhada. De modo que eu senti vontade de traduzir a emoção que isso me provocou em um filme de ficção.

Trata-se da sua primeira colaboração com a produtora Elisabeth Perez, que também é sua companheira.

Eu havia feito três trabalhos com a minha produtora Fabienne Vonier, que faleceu faz dois anos. Fabienne era muito atenciosa, nós nos dávamos muito bem, e era difícil encontrar alguém par substituí-la.

Com Elisabeth, a coisa é muito intuitiva. Eu adorei a sua exigência, misturada a uma enorme generosidade. Nossa colaboração foi igualmente muito rica, agradável, respeitosa. Eu fiquei com a impressão de que nós realmente compartilhamos o filme, em todas as suas etapas, com muita confiança.

La Belle Saison é para mim como uma espécie de recomeço, e eu procurei compartilhar esse sentimento com toda a equipe. No começo das filmagens eu escrevi algumas palavras para a equipe, para lhes dizer que esse filme era muito especial para mim, pois era a primeira vez que eu trabalhava com Elisabeth e tratava de forma tão direta da homossexualidade. Fazia muito tempo que eu desejava contar essa história, mas foi Elisabeth que me incentivou a trabalhar sobre esse tema, que me encorajou. Eu devo esse filme inteiramente a ela.

Referência

[1] Considerado o ato fundador do Movimento de Liberação das Mulheres, o MLF, essa ação ocorreu em Paris, no dia 26 de agosto de 1970. A frase que alude ao “soldado desconhecido” faz alusão à inscrição que se encontra no epitáfio.

Sinopse

Delphine, filha de camponeses, vem para Paris para se emancipar do julgo familiar e conquistar sua independência financeira. Carole é parisiense. Ela tem uma relação com Manuel e vive ativamente o começo do movimento feminista na França do início dos anos 70. Do encontro das duas vai nascer uma história de amor que vai mudar as suas vidas.

Vídeo – Trailer do filme La Belle Saison (2015)

Quando o casamento passa a ser uma causa da esquerda

Texto de Lettícia Leite para as Blogueiras Feministas.

Em janeiro de 2013, motivada pelas manifestações que se multiplicavam de maneira notável no território francês a favor e contra o casamento entre lésbicas e gays, durante o período de discussão e votação da lei que o autorizaria — aprovada em abril daquele ano —, publiquei aqui neste espaço um texto sobre o assunto: Pelo casamento entre um homem e uma mulher?!

Passados quase dois anos em que a lei foi aprovada na França, as manifestações contrárias jamais cessaram, é preciso contudo ressaltar que algumas questões associadas aos direitos desses novos casais – que no último ano representaram uma fatia de 13% dos matrimônios feitos na capital francesa — ainda estão longe de encontrar uma solução. Dentre elas, destaco o direito à RMA (Reprodução Medicamente Assistida) para casais de lésbicas.

No entanto, não é meu objetivo tratar diretamente do estado atual desta e de outras questões na França, no Brasil ou em outro país. O que gostaria é de apresentar um exemplo de uma voz minoritária, vinda do cenário feminista e lésbico francês, que coloca em cheque não apenas a pertinência das reivindicações em prol da extensão do direito ao matrimônio para casais de gays e lésbicas — pauta que nos últimos anos ganhou destaque mundo afora nas agendas dos movimentos LGBT’s ; mas também coloca críticas e questionamentos relativos aos recursos que, para além da adoção clássica, hoje podem permitir aos casais constituídos por mulheres ou homens a se tornarem mães e pais. Neste sentido, um outro exemplo mencionado ao longo da entrevista, para além da RMA, será o recurso à chamada barriga de aluguel — que também é buscado por casais heterossexuais, mas cujas implicações éticas e jurídicas encontram-se em debate em vários países (1).

No texto outrora publicado, mencionei rapidamente o argumento principal que motiva algumas feministas a este questionamento relativo à pertinência da luta pela extensão do direito ao casamento e, cujas justificativas não vêem ao encontro daqueles apresentados pelos grupos que hoje, no Brasil, buscam impedir o reconhecimento deste (a meu ver) importante direito recém-adquirido. Visto que estes últimos pautam-se na ideia da família como um núcleo social formado exclusivamente a partir da união entre um homem e uma mulher.

Como forma de apresentar aspectos deste debate potencialmente controverso, tomei a iniciativa de traduzir uma entrevista feita com a historiadora e militante feminista lésbica francesa Marie-Josèphe Bonnet, publicada no jornal Libération em fevereiro de 2014. Entrevista concedida por ocasião do lançamento do seu livro publicado em janeiro do mesmo ano: Adieu les rebelles !. Ensaio ao longo do qual a autora trata justamente dos motivos que a levam a se opor à pertinência destas reivindicações que, a seu ver, apontariam para um preocupante desejo de normalização pautado em um modelo familiar patriarcal, heteronormativo e burguês. Pontos que ela trata ao longo da entrevista que segue.

Ademais, diante dos dados recém-publicados pelo IBGE apresentando o número de casamentos entre gays e lésbicas que foram realizados ao longo do ano de 2013 no Brasil, creio que talvez seja pertinente não perdemos de vista esse debate. A tradução é livre e o objetivo não é concordar plenamente com as ideias apresentadas, mas sim refletir sobre os modelos familiares e sociais que os novos casais pretendem ou não (re)produzir.

“Um paradoxo inacreditável: quando o casamento passa a ser uma causa da esquerda!”

Texto de Natalie Levisalles. Tradução de Lettícia Leite. Publicado originalmente com o título: ‘Le mariage est devenu de gauche, un paradoxe incroyable!’ no site Liberátion em 07/02/2014.

Marie-Josèphe Bonnet. Foto de Jean-Luc Bertini para a revista Elle francesa em 2013.
Marie-Josèphe Bonnet. Foto de Jean-Luc Bertini para a revista Elle francesa em 2013.

Militante, homossexual e feminista, a historiadora Marie-Josèphe Bonnet considera a aquisição do direito ao casamento para todas as pessoas a vitória de uma norma pequeno-burguesa sobre a contracultura e seus ideiais emancipatórios.

Marie-Josèphe Bonnet é historiadora, militante homossexual e feminista. Nos anos 1970, ela fez parte do Movimento de Liberação das Mulheres (MLF), foi co-fundadora do Fhar (Frente homossexual de ação revolucionária) e do grupo lésbico les Gouines rouges. Atualmente, no momento em que milhares de militantes saem às ruas pelo direito ao casamento, e que a França se bate em torno da “teoria do gênero”, ela publica ‘Adieu les Rebelles !’. Nesse livro bastante estimulante, a autora nos coloca uma questão: a extensão do direito ao casamento para todas as pessoas representa de fato um progresso social, ou trata-se de uma vitória de uma antiga ordem patriarcal?

Você é contra o casamento homossexual?

Eu sou contra o casamento em geral. Para mim, como feminista, o casamento representa historicamente um instrumento de dominação das mulheres. Mesmo que hoje o direito entre os cônjuges seja igual, o casamento ainda é uma instituição herdada do código napoleônico e que por muito tempo significou o tutelamento das mulheres. Para ter acesso a um estatuto social a mulher tinha que ser casada, uma mulher solteira era uma “beata”, uma mulher incompleta. Certo, isso mudou. No entanto, é necessário que saibamos que formas de associação herdamos: libertadoras ou alienantes. Na nossa sociedade são os direitos do indivíduo que estão na base da constituição, e não os direitos do casal. Fundar os direitos no casamento é um retrocesso.

Qual a sua opinião sobre as pessoas que ainda se manifestam contra a extensão do casamento para todos os casais, pautadas no argumento do princípio do “interesse da criança”?

Que as coisas fiquem claras de uma vez por todas: este debate não está mais na ordem do dia. A lei já foi votada e devemos aceitá-la. Não vejo como o direito de uma criança poderia ser afetado por causa da extensão do direito ao casamento para todos os casais. Todo mundo é capaz de educar uma criança, qualquer que seja sua orientação sexual, homem ou mulher, isto é incontestável.

O que significa o princípio do “interesse da criança”, comumente oposto ao “direito à criança” ?

Não me posiciono nesta polêmica. Porém, fico preocupada quando percebo em alguns casais homossexuais um desejo de ter uma criança sem a participação do outro sexo. Para mim, foi a procriação que permitiu o diálogo entre os sexos. Precisamos do outro sexo para nos reproduzirmos. E, felizmente, porque caso contrário as mulheres teriam sido exterminadas. Temos sorte que a sociedade seja mista. As pessoas as vezes se assustam quando eu digo isto, mas sei que possuo um lado masculino, e eu o aceito. A sexualidade é parte de nossa identidade, mas não é tudo. Dizer que apenas a sexualidade nos define, dizer que “a única coisa que conta é com quem você transa”, e fundar uma solidariedade a partir disso, é comunitarismo.

Este enfoque nas crianças é preocupante?

O problema é o desenvolvimento de uma comercialização (que existe também para os héteros) em torno da RMA (caso o esperma seja de um doador anônimo comprado no exterior) e da barriga de aluguel, na qual a criança é tirada da mãe que a colocou no mundo; enquanto que, para a criança, é importante ter acesso às suas origens. Todos nós temos a necessidade de saber de onde viemos para nos construirmos. Devemos aprovar essa farsa de uma filiação monossexuada, quando sabemos da dor das crianças adotadas que desconhecem suas origens? Queremos autorizar os casais que têm recursos financeiros a recorrerem a mães de aluguel? Nestes casos qual o estatuto das mulheres, de reprodutoras? Devemos consentir que os corpos dessas mulheres sejam instrumentalizados? E como fica o ponto de vista da criança dentro desta lógica de mercado ultraliberal? A pesquisadora Françoise Dekeuwer-Défossez (2) coloca esta questão da seguinte forma: “A questão da conformidade entre a satisfação do desejo do adulto e o interesse superior da criança não poderá ser indefinidamente evitada”. É necessário que façamos um debate público sobre essa questão.

Voltando à questão do casamento para todas as pessoas, você acha que há tendência a uma normalização?

Absolutamente: a pluralidade, as diferentes maneiras de viver, tudo foi esvaziado. É como se no presente houvesse apenas um único caminho para o reconhecimento da homossexualidade: o casamento. No entanto, outras formas de convivência foram propostas. O Pacs (Pacto Civil de Solidariedade), em 1999, foi um avanço considerável. Mesmo que na época eu fosse sobretudo a favor da adoção de medidas que pudessem melhorar o reconhecimento da concubinagem… a qual aliás conseguimos incluir no código civil. O Pacs já seria o suficiente se acrescido de alguns ajustes como, entre outros, o desenvolvimento de direitos próprios e a reforma do direito à sucessão.

Eu sempre achei que ser lésbica era uma dádiva, na medida em que isto me colocava certas questões: do porquê eu prefiro mulheres, sobre qual a relação disto com as minhas características pessoais… Isto foi muito importante e permitiu que eu assumisse a minha diferença. Sempre achei que esta posição me conferia uma proteção bem mais eficaz que a instituição do casamento. O debate deve ser deslocado para esta questão, pois o que está em jogo aí é uma necessidade de proteção, sobretudo com relação à homofobia. Devemos ser capazes de nos protegermos sem sermos engolidos pela norma dominante. Com o casamento, o que temos é a vitória do modelo matrimonial heterossexual, a integração à norma pequeno-burguesa da dignidade conjugal. Uma vitória paradoxal, justo no momento no qual vários casais heterossexuais vivem fora desse modelo.

Você se declara perplexa frente à unanimidade relativa a esta questão, tanto entre os homossexuais quanto entre os grupos de esquerda.

Estive revendo os textos que escrevi sobre a união livre e contra o casamento, que datam de 2004, quando já havia uma ofensiva a favor do casamento. Trata-se da época em que publiquei ‘Qu’est-ce qu’une femme désire quand elle désire une femme?’ (O que uma mulher deseja quando ela deseja uma mulher?). A maioria das pessoas que se exprimiam não se interrogavam sobre a questão do desejo, mas eu não pensava que isto tomaria tamanha proporção. Nunca houve uma enquete dentro do movimento LGBT para saber o que as pessoas pensavam a respeito. É a pressão por parte de um pequeno grupo, sob o pretexto de lutar contra a homofobia, que acabou influenciando as demais pessoas. E, como os opositores da direita e da extrema direita são particularmente inquietantes, acabamos por nos encontrar numa oposição completamente artificial entre a favor/contra, esquerda/direita. Enfim, diante desse paradoxo inacreditável que fez com que o casamento passasse a ser uma causa da esquerda!

Como você analisa a evolução do movimento homossexual na França?

Os anos 1970 assistiram ao nascimento de um movimento homossexual criativo e generoso, agora contamos com um movimento normativo e comunitarista. Em um prazo de 40 anos passamos de um ideal de emancipação coletiva a uma moral jurídica do cada um por si. Os anos 70 foram a época da saída do armário. Tínhamos sido formados pelo Maio de 68, tratava-se de um movimento de luta contra as instituições, de uma revolução cultural, da qual eu participei com alegria.

O movimento de mulheres e o movimento homossexual emergiram simultaneamente, trilhamos parte do caminho juntos. Eu mesma fiz parte do MLF, fui co-fundadora do Fhar (que no início era composto por homens e mulheres e depois passaria a ser composto apenas por homens), depois do grupo lésbico Gouine rouges. Reconheço que lá éramos contra homens. Mas, ao mesmo tempo havia uma grande fraternidade com relação aos meninos do Fhar. Nós pensávamos que eles estavam do nosso lado, do lado do feminino; pois, assim como nós, eles tinham sido oprimidos.

Porém, com a chegada da AIDS, tudo mudou. Com a morte dos doentes seus companheiros eram expulsos de seus apartamentos. Por isto os homens passaram a se preocupar com a questão da proteção jurídica. O problema está na não transmissão dos valores da contra-cultura dos anos 70. O desaparecimento da intelligentsia gay por causa da epidemia da AIDS criou um vazio cultural que foi preenchido por juristas e pelo “familiarismo”, no qual nos encontramos ainda hoje. Para se defenderem, os gays criaram associações, uma grande família, e ainda hoje eles mantêm esse espírito de comunidade, como se corrêssemos o risco de sermos colocados na rua pelo fato de sermos homossexuais.

Hoje vivemos um terceiro momento, caracterizado pelo ultraliberalismo. Partimos do Fhar, onde os militantes vociferavam “proletários de todos os países, acariciai-vos”, ou “casamento é uma armadilha para idiotas”. Eis-nos agora aqui comprando esperma no exterior e recorrendo às mães de aluguel.

E a questão da igualdade?

Qual? O casamento para todas as pessoas significa igualdade entre casais homossexuais e heterossexuais, mas não entre casados e solteiros. Você reparou que nós nem mencionamos isso? O casamento foi feito para a procriação de crianças, o que justificava que os solteiros pagassem mais impostos. Mas e os casais (homossexuais ou héteros) que não têm filhos? Como justificar que paguem menos impostos que os solteiros? E, mais, creio que é o fim da filosofia Iluminista, cujo fundamento era o indivíduo e não o casal.

Quanto a igualdade entre homens e mulheres… O movimento feminista abandonou a demanda de igualdade entre os sexos, muito difícil de ser obtida, passando em 1999 a reivindicar a paridade, época em que Jospin (3) estava no poder.

Como explicar que o debate tenha sido boicotado?

Na verdade ele sequer começou. As lésbicas, por exemplo, mal puderam se expressar. Talvez por terem menos acesso à mídia. Elas mantêm um site onde se manifestam, refiro-me ao site da Coordenação Lésbica na França, no entanto, elas pouco dialogaram com os demais setores sociais. No mais, elas encontravam-se sobretudo divididas: algumas eram a favor do casamento, outras contra, outras estavam divididas. As lésbicas do Centre Évolutif Lilith de Marselha manifestaram-se contra. As mulheres da associação lésbica e feminista Bagdam de Toulouse também se manifestaram, posicionando-se a favor… por causa da homofobia.

Os grupos a favor do casamento tomaram como reféns as feministas, assim como os homossexuais que se posicionaram contra esse ideal pequeno-burguês. De um lado havia grupos de fato reacionários, e do outro falsos progressistas. Se nos situávamos fora desta bipolarização, éramos acusados de ser homofóbicos ou reacionários. O debate encontrava-se polarizado em dois lados. Meu livro apresenta-se como uma tentativa de dar vazão a um pensamento crítico que permita encontrar uma outra via.

Referências:

(1) ‘As Tecnologias da Reprodução: Discursos sobre a Maternidade e Paternidade no Campo da Reprodução Assistida no Brasil’ (.pdf). Autora: Fernanda Bittencourt Vieira. Tese apresentada ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília/UnB.

(2) Ver outras publicações desta autora: ‘Les droits de l’enfant’, Paris, PUF, 2010.

(3) Lionel Jospin foi Primeiro Ministro da França entre junho de 1997 e maio de 2002, sob o governo do Presidente Jacques Chirac, pelo Partido Socialista.

+ Sobre o assunto:

[+] Para uma resenha criticando vários dos pontos defendidos por Marie-Jo Bonnet, ver em francês: Adieu Les Rebelles ! de Marie-Joséphe Bonnet.

A luta das assistentes sociais pela redução da jornada sem redução de salário

O protagonismos das mulheres na luta por melhores condições de trabalho: leia a entrevista com a vice-presidente do Conselho Federal de Serviço Social Esther Lemos e saiba como as assistentes sociais estão conseguindo conquistar melhores condições de trabalho.

Por Amanda Vieira para as Blogueiras Feministas.

Esther Lemos, vice-presidente do Conselho Federal de Serviço Social. Foto de Amanda Vieira.
Esther Lemos, vice-presidente do Conselho Federal de Serviço Social. Foto de Amanda Vieira.

Reivindicar melhores condições de trabalho é uma tarefa árdua mesmo para as profissões em que os homens são maioria. Sabemos que quando a demanda vem de mulheres, a receptividade dos empregadores é ainda pior (o episódio envolvendo o CEO da Microsoft ilustra essa situação de como o mercado enxerga negativamente a mulher que toma a atitude de reivindicar aumento de salário). Muitas vezes as mulheres deixam de buscar melhores condições com medo de sofrerem retaliações financeiras ou em sua reputação profissional.

Para fortalecer a luta das mulheres e contribuir com o debate sobre a valorização delas no mercado de trabalho, conversei com a vice-presidente do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), Esther Lemos, sobre uma recente conquista da categoria: a redução de jornada de trabalho para 30 horas semanais, sem redução de salário.

A pesquisa sobre o perfil profissional do assistente social, realizada em 2005, apontou um percentual de 97% de mulheres na categoria. Acredita-se que, atualmente, o número de homens tenha aumentado, embora as mulheres continuem sendo a maioria. Hoje existem aproximadamente 150 mil assistentes sociais registrados nos Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS) em todo o Brasil.

Para saber como é a luta das assistentes sociais para conquistar a redução de jornada sem redução de salário, confira a entrevista com Esther Lemos.

Quais foram as principais motivações para que as assistentes sociais reivindicassem redução na jornada de trabalho sem redução de salários?

Defendemos a jornada de trabalho de 30 horas para assistentes sociais, sem redução de salário, porque ela contribui na nossa luta por melhores condições de trabalho para assistentes sociais e se insere na luta pelo direito ao trabalho com qualidade para toda a classe trabalhadora, conforme estabelece nosso Código de Ética Profissional. Nossa luta se pauta pela defesa de concurso público, por salários compatíveis com a jornada de trabalho, funções e qualificação profissional, estabelecimento de planos de cargos, carreiras e remuneração em todos os espaços sócio-ocupacionais, estabilidade no emprego e todos os requisitos inerentes ao trabalho, entendido como direito da classe trabalhadora. Além disso, vários desses trabalhadores necessitam do direito à jornada de trabalho diferenciada, devido às condições específicas de trabalho, pois são submetidos a longas e extenuantes jornadas e realizam atividades que provocam estado de profundo estresse, diante da convivência, minuto a minuto, com o limiar entre vida e morte, dor e tristeza, choro e lágrima, fato que é comum a diversas profissões da área de Saúde.

Quanto tempo levou entre assumir essa demanda e conseguir a sanção presidencial na Lei nº 12.317/2010?

Aproximadamente 3 anos se passaram, desde a proposição do projeto de lei na Câmara dos Deputados em 2007, até a sanção presidencial em 2010.

Como o CFESS conseguiu alcançar essa redução? Na sua avaliação, quais foram as ações que mais ajudaram a obter essa conquista?

A luta do Conjunto CFESS/CRESS por melhores condições de trabalho para os/as assistentes sociais começou três anos antes da sanção em 2010, logo que o Projeto de Lei, ainda com o nome PL 1.890/2007, foi apresentado no Plenário da Câmara pelo deputado Mauro Nazif (PSB/RO) no dia 28 de agosto de 2007. Uma infinidade de articulações foram feitas até que o PL ser aprovado na Câmara e chegar ao Senado Federal, com o nome de PLC 152/2008. Daí em diante, uma série de mobilizações para a votação do PLC 152 foi posta em prática: manifestação de assistentes sociais no plenário do Senado, reuniões com a então Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Márcia Lopes, encerrando com o grandioso Ato Público na Esplanada dos Ministérios, durante o 13º CBAS, no vitorioso dia 3 de agosto de 2010, quando o Projeto de Lei foi votado e aprovado no Senado. A sanção presidencial ocorreu exatamente 15 dias úteis depois, em 26 de agosto de 2010, após reuniões da diretoria do CFESS com a Casa Civil da Presidência da Republica, com os ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Trabalho e Emprego, do Planejamento, com a Advocacia-geral da União. O CFESS também lançou o abaixo-assinado em defesa da sanção da lei.

Como está sendo a implantação dessa nova jornada? Quais são os pontos de resistência a essa lei?

A luta do Conjunto CFESS/CRESS pela implementação da lei tem sido árdua, especialmente com a resistência do Serviço Público, especialmente em âmbito federal, de cumpri-la. Esse processo ganhou mais um capítulo em março de 2013, quando o CFESS entrou com uma ação de antecipação de tutela na Justiça Federal do Distrito Federal para que assistentes sociais de todo o Brasil tenham direito à jornada de trabalho reduzida, conforme a Lei 12.317/ 2010, que complementou a Lei de Regulamentação da Profissão (8.662/1993). A ação pede também a anulação da Portaria nº 97/2012, expedida pela Secretaria de Gestão Pública do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), que excluiu assistentes sociais do quadro profissional que têm carga horária reduzida. Tal portaria vem referendando decisões contrárias à aplicação da Lei das 30 horas, retirando um direito da categoria, conquistado com muita luta e garantido por lei.

A média salarial das assistentes sociais diminuiu com essa nova medida? E as condições de trabalho, ficaram mais precárias?

Ainda não temos pesquisas sobre esses dados.

Na sua avaliação, a redução de jornada melhorou a vida das assistentes sociais? Você recomendaria a redução de jornada para outras categorias profissionais?

Certamente. O atendimento adequado aos usuários do Serviço Social, a garantia de condições éticas e técnicas de trabalho estão entre os aspectos que são fortalecidos com a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, luta essa que está na pauta de reivindicações da classe trabalhadora em todo o mundo. A aprovação da lei nº 12.317/2010 equiparou assistentes sociais a várias outras profissões da saúde, que já conquistaram legalmente jornada semanal de 30 horas ou menos. Seis profissões da área da saúde já possuem jornada igual ou inferior a 30 horas semanais: médicos cumprem jornada de no mínimo duas e no máximo quatro horas diárias, auxiliares (laboratorista e radiologista) possuem jornada legal de quatro horas diárias, técnicos em radiologia têm jornada de 24 horas semanais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais trabalham 30 horas por semana. Outras sete profissões possuem Projetos de Lei em tramitação no Congresso Nacional para redução da jornada de trabalho: enfermeiros/as, técnico/as de enfermagem, auxiliar de enfermagem, farmacêuticos/as, nutricionista, odontólogos/as e psicólogos/as.