Todos juntos somos fortes

Texto de Mônia Daniella.

Vou tratar de um assunto que não tem relação direta com o feminismo, mas tem a ver com inclusão e igualdade, que também é nossa bandeira. E, também, porque às vezes passamos por experiências que nos fazem sentir uma necessidade quase incontrolável de compartilhar, de tão fantásticas que são.

A gente ouve falar sobre como o governo Lula mudou a vida do pobre, lê sobre o Bolsa Família e outros projetos de inclusão como o Compra Direta, o Prouni e tantos outros que beneficiam tantas pessoas; lê depoimentos, se emociona e se orgulha, mas ver essa mudança de tão perto é uma coisa que ainda não tinha acontecido comigo, pelo menos não assim:

Minha formação é em Marketing, sou funcionária pública municipal e trabalho na Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Irecê, cidade do interior da Bahia. Lá, muitas vezes tenho que “bater a bola e correr para fazer o gol”, me metendo em trabalhos de áreas correlatas.

Por ser Irecê cidade-pólo de uma região grande, esses trabalhos ganham certa visibilidade e através de amigos, aqui e ali sou indicada para alguns freelas. Assim, fui convidada para fazer matérias para a revista comemorativa dos 5 anos de uma cooperativa de agricultores familiares (Coopaf), que tem sua sede em Morro do Chapéu, cidade vizinha.

No início desta semana fui passar dois dias por lá para me inteirar, começar o trabalho. De cara fiquei impressionada com a organização da cooperativa, que atua em mais de 50 municípios daqui da Chapada Diamantina e nesses 5 anos já beneficiou mais de 15 mil famílias, principalmente através de incentivos do governo federal ao cultivo da mamona para o biodiesel.

Comecei entrevistando técnicos e coordenadores e depois fui para o campo me encontrar com os pequenos produtores. Foi aí que vi o quanto políticas de inclusão são realmente essenciais para a vida dessas pessoas, que através da cooperativa são referenciadas pelo Pronaf e participam do programa de biodiesel da Petrobrás Biocombustível (PBio).

Eles recebem gratuitamente as sementes selecionadas para o plantio da mamona (da área que desejarem plantar), assistência técnica permanente, sacaria para a colheita, carregamento (a cooperativa vai buscar a produção) e, o mais importante segundo eles, um preço mínimo garantido por saca, caso a cotação da praça esteja abaixo deste. Antes disso, a produção era vendida para atravessadores do mercado local, que pagavam preços que mal davam para cobrir as despesas.

Visitei alguns povoados, dei carona para produtores, conversei com muitas pessoas e ouvi depoimentos que me encheram de esperança:

“Antes a gente nem podia pensar em comprar uma bicicleta, faltava o de comer, mas hoje, venha ver, a gente já tem até carro (me puxando para os fundos da casa e apontando para um veículo gol, semi-novo). Também reformei a casa, e é assim com todo mundo aqui do povoado. Eu tenho fé que Dilma continue olhando pra gente, como Lula olhou, eu tenho certeza que ela vai”. Dona Ana Maria Souza, do povoado de Malhada de Areia.

“Eu posso dizer que a mamona mudou a minha vida, isso depois de Lula, porque eu sempre plantei mamona, mas só depois de Lula e desse programa é que eu consegui ser gente. Hoje eu já tenho sonho, antes eu nem tinha. Eu quero ampliar minha plantação e quem sabe comprar um tratorzinho. Eu não sei não, mas eu nasci nessa lida e quando eu morrer eu quero ir pra um céu que tenha uma plantação de mamona…e uma cooperativa! (rindo)”. Seu Jailson Rodrigues, do povoado de Malhada de Areia.

Depois que eu entrei pra Coopaf e com esse programa aí da mamona eu já consegui comprar tanta coisa…(com um sorriso aberto). Já reformei minha casa, e a última coisa que eu comprei foi uma antena parabólica e uma televisão de 40″. Eu coloquei a antena no terreiro porque ainda não tive tempo de subir um muro pra chumbar ela. Agora cresceu um pé de mamona lá perto e tá sombreando, atrapalhando o sinal e a imagem da televisão tá meio ruim. Minha mulher fica brigando comigo, mas Deus me livre, eu não vou rancar o pé de mamona não, vou ter que tirar a parabólica de lá” . Rogério Pereira da Silva, do povoado de Prevenido.

“Menina, a mamona é o braço forte desse sertão. Toda vida meus pais, minha família inteira lidou com isso, mas só agora com essa política aí de Lula é que a gente melhorou de vida. Eu só tenho o primário, mas já formei dois filhos na faculdade, um trabalha na cooperativa e me ajuda aqui na roça (com os olhos marejados) e a outra é formada em Letras! Com o dinheiro da mamona eu consegui comprar gado e agora tô aí investindo em laticínio. Eu quero fazer um dia de campo aqui na minha propriedade pra mostrar pra esse povo da região como o pequeno produtor agora também pode”. Seu Adelmo de Oliveira, proprietário de um mini-laticínio no povoado de Queimada Nova.

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E eu só sei que foi assim a minha semana. Ainda estou digerindo as informações para começar a escrever e fico aqui nesse estado de graça, pensando que o meu mundo profissional ideal seria com trabalhos gratificantes, como este.

Além do cultivo da mamona, os produtores recebem assistência técnica para a diversificação de culturas como feijão, milho, melancia, abóbora e diversas hortaliças que servem tanto para o consumo quanto pra comercialização nos dias de feira. Recentemente foram inseridos no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e aqueles que já criam gado poderão fornecer leite para um laticínio que será inaugurado no próximo mês, produzindo também derivados como iogurte e queijo que vão para a merenda escolar dos seus filhos.

Segundo informações técnicas, 90% do cultivo da mamona do Brasil está na Bahia, e destes, cerca de 80% está no Território de Irecê, que abrange parte da Chapada Diamantina e tem também um dos solos mais férteis do mundo.

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Mônia Daniella trabalhou na Prefeitura Municipal de Irecê/BA.