Por que discutir gênero na escola?

Em outubro, Aniely Silva entrou em contato conosco para divulgarmos a cartilha: Por que discutir gênero na escola? (pdf). Organizada pela ONG Ação Educativa e pela JADIG – Jovens Agentes pela igualdade de gênero na escola.

Achamos a iniciativa tão importante num momento como o atual — com o conservadorismo e o fundamentalismo ganhando as narrativas, combatendo a falácia chamada “ideologia de gênero” e com os direitos humanos ameaçados — que fizemos uma pequena entrevista com Aniely. A principal ferramenta de mudança para o fim da violência contra a mulher é a educação, por isso é imprescindível debater gênero nas escolas.

Aniely Silva trabalha como jovem aprendiz na ONG Ação Educativa. A ONG promove formações sobre direito à educação para jovens de periferia e no início do ano, promoveu uma formação sobre Direito à Igualdade de Gênero na Escola. Ao fim do curso, foi desenvolvida a cartilha: POR QUE DISCUTIR GÊNERO NA ESCOLA? – Em resposta ao barramento da palavra Gênero nos planos nacionais de educação. Totalmente desenvolvida por mulheres negras moradoras de Sapopemba e Itaquera, a cartilha traz textos e quadrinhos para discutir e debater a importância da palavra gênero no nosso cotidiano, a questão do racismo e os padrões impostos pela sociedade, a objetificação do corpo das mulheres e até como o machismo afeta os homens.

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A primavera secundarista será toda feminista!

Texto de Marcielly Moresco para as Blogueiras Feministas.

As adolescentes que ocupam as escolas estaduais do Paraná renovam o feminismo e avisam que sem igualdade de gênero não há democracia, nem resistência, nem luta.

Todo dia tem escola sendo ocupada no Estado, já são mais de 800 escolas, além de algumas universidades e núcleos de educação, segundo o site oficial do #OcupaParaná. Nas ocupações, o que eram para ser palestras-aula sobre feminismo, gênero, empoderamento, diversidade sexual e questões étnico-raciais se tornam, muito mais, rodas de conversas e trocas.

Assim como as ocupações de 2015 que começaram em São Paulo, as desse ano também são protagonizadas, sobretudo, por meninas e LGBTIs; e a maioria delas se intitulam feministas.

Em quase todas as ocupações, as meninas assumem a função de “líderes” ou “organizadoras”, falam com a mídia e com a comunidade escolar, organizam as comissões para limpeza, segurança, alimentação, comunicação e saúde, assumem o discurso nas assembleias e reuniões. Muitas vezes, esse protagonismo acaba acontecendo de forma muito natural quando a opressão e o machismo já são presentes no cotidiano escolar e durante o próprio processo decisório para ocupar.

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#OcupaEstudantes – A faísca da revolução

Hoje, blogs, sites e colunistas estão abrindo seus espaços para que estudantes de São Paulo possam falar, usando suas próprias vozes, sobre a experiência que estão vivendo de se juntar e lutar contra o projeto de reorganização das escolas da rede pública de ensino do Estado de São Paulo. Todos os textos serão reunidos pela hashtag #OcupaEstudantes. Temos a honra de abrir espaço nas Blogueiras Feministas para Nathalia Vercinskas, aluna da Escola Estadual Romeu de Moraes.

A faísca da revolução

A “reorganização escolar” imposta pelo governador Geraldo Alckmin e seu gabinete — sim, imposta, já que não houve nenhuma espécie de diálogo com as comunidades — tem sido alvo de ferrenhas discussões. Como forma de protesto, alunos de todo o estado começaram a ocupar suas escolas e ir às ruas, tomarem o que é seu por direito.

Para entender a causa, é preciso voltar para o começo de tudo.  É importante saber da dimensão da manipulação feita por parte do Estado e da mídia aos professores, diretores  e pais de alunos, que só se mostraram contra essa nossa forma de protesto devido ao fato de terem sido usados como marionetes do Sr. Geraldo.

Estudante protesta em frente à escola estadual Fernão Dias, na zona oeste de São Paulo, contra a reorganização da rede estadual de São Paulo. Foto de Lucas Lima/UOL.
Estudante protesta em frente à escola estadual Fernão Dias, na zona oeste de São Paulo, contra a reorganização da rede estadual de São Paulo. Foto de Lucas Lima/UOL.

Sou aluna do segundo ano do ensino médio regular na Escola Estadual Romeu de Moraes no bairro da Lapa, zona Oeste de São Paulo. A nossa ocupação ocorreu no dia 26 de novembro de 2015 e foi uma conquista suada. Houve uma tentativa de ocupação no dia anterior (25/11), porém, sem sucesso, devido a certos professores que fizeram um cordão de isolamento, impedindo os alunos dos 1ºs e 2ºs anos do ensino médio de entrarem no prédio com a desculpa de que apenas os 3ºs anos fariam a prova SARESP, em pleno dia letivo.

A diretora da escola disse aos alunos que queriam ocupar que no dia seguinte seria feita uma assembleia para decidir o que iríamos fazer. Ela convocou alunos, professores e pais (sic) para votarem no dia seguinte.  O resultado de tudo isso é que havia (pasmem) apenas duas mães de alunos do período da manhã, poucos professores e muitos alunos desinformados.

O que ocorreu naquela manhã não chegou nem perto de uma assembleia. A diretora simplesmente subiu em um banco da quadra, sem microfone, e disse algumas palavras que não foram ouvidas por quase ninguém devido ao fato dela não ter usado um equipamento de áudio decente. Após isto, ela pediu que quem fosse contra a ocupação se direcionasse para um lado da quadra e quem fosse a favor, para o outro.

Os alunos a favor da ocupação foram até a diretora e explicaram que queriam que aquilo fosse feito de maneira justa. Então, reunimos em uma sala dois representantes de cada classe, para debater sobre o assunto ocupação.

Muitos alunos contrários à ocupação, que outrora foram manipulados por professores, mudaram sua opinião no dia seguinte, quando souberam do que se tratava o movimento e por que queríamos fazer parte dele. O Romeu de Moraes em si não iria fechar definitivamente. O que seria fechado ali era o ensino médio. Escolhemos entrar no movimento com intuito de abraçar a causa, assim como inúmeras outras escolas como a E.E. Manuel Ciridião Buarque, também localizado na zona Oeste de São Paulo.

Desde que ocupamos o prédio, ficou claro para toda aquela gente que ali estava, independentemente da sua postura como aluno dentro de sala de aula, que aquilo era um ato de carinho e responsabilidade para com a educação e a nossa escola. E tem sido assim em todas as ocupações. Por mais que nós estudantes (e até alguns professores que nos apoiam) estejamos sofrendo ameaças e represálias de grande parte da comunidade, da polícia militar e da mídia, nosso objetivo é claro: não sairemos até que este decreto seja revogado, para o nosso bem e da comunidade.

Para que tenhamos uma sociedade melhor, precisamos ser mais do que alunos ou aprendizes. Precisamos de uma formação que nos torne pensadores, que nos prepare para a vida e não apenas para um vestibular. Nós, estudantes secundaristas do Estado de São Paulo, mostramos a que viemos. Mostramos que podemos, sim, ter voz.

E isto é só o começo.

#TáTendoOcupação #NãoTemArrego #RecuaGeraldo

Autora

Nathalia Vercinskas, 16 anos. Escola Estadual.Romeu de Moraes.