O pessoal é político, mas… pera lá!

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.

Nos últimos dias andei tendo várias conversas online sobre feminismo, generalizações e a ideia de que existe uma mulher universal. Pensando em tudo isso, compartilho alguns apontamentos aleatórios.

1. NEM TODA mulher tem uma história de horror pra contar.

Reconhecer que há mulheres que não sofreram abusos, violências, agressões, etc. em decorrência da violência de gênero não nega sua existência nem desconstitui a necessidade do feminismo. Pelo contrário, atesta a magnitude dessa realidade expressada em números e não em abstrações generalizantes. além de nos fornecer elementos para pensar em formas de ressignificar as relações de gênero.

2. Não há UM opressor. Não há UM inimigo.

Na construção da luta contra o estupro e sua invisibilidade, o feminismo desenvolveu uma narrativa que lhe deu uma dívida: a do homem amedrontador, pronto para atacar as mulheres nas ruas. Ou, como identificam as feministas negras americanas: a imagem do homem NEGRO amedrontador pronto para atacar mulheres BRANCAS nas ruas.

Essa dívida, ainda bem, tem sido paga com sua desmitificação. Conseguimos nos desfazer dessa narrativa ao substitui-la pela realidade dos crimes de estupro, em que a maioria das mulheres são violentadas por pessoas próximas e/ou de seu relacionamento, independente de raça ou classe social.

Não precisamos de novos mitos, novas generalizações, novas narrativas carregadas de preconceitos. Homens não são estupradores em potencial, com impulsos desenfreados e pênis dominantes, onipresentes. Homens mais velhos que namoram mulheres mais novas não são, por regra, abusadores. E, mais importante, mulheres trans* não são homens tentando escapar e/ou se esconder da punição por um estupro que supostamente praticaram.

Não há UM OPRESSOR, não há o homem como único inimigo, ou uma “estrutura já está estabelecida”. Ok, sempre falamos em estrutura. Essa estrutura existe, mas está em todos os lugares. Essa estrutura é repetida, reiterada, produzida e reproduzida por todas as pessoas — inclusive eu e você — a todo o tempo:

Foto de Stephen John Bryde no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de Stephen John Bryde no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

TODOS nós produzimos e reproduzimos essa “estrutura”, que ora chamamos heteronormativa, ora de patriarcado, ora de racismo, ora de exclusão social, etc. TODOS nós performamos nosso gênero e não podemos ver tudo de um modo separado, um concreto e um abstrato, quando há uma existência simultânea de ambos. A estrutura pe sistêmica.

Então, sim, acredito que mulheres podem ser machistas. E, podem até mesmo, em relações específicas, se beneficiar disso. Porque dizer que mulher não se beneficia do machismo é pensar naquela categoria única de “mulher”, um grupo sólido e coeso que não existe. Pensando dessa maneira, certo, mulheres não se beneficiam. Porém, ao aproximarmos a lupa das relações individuais o contexto pode ser bem diferente.

 3. Escolhas individuais não valem para todas as pessoas.

Sim, o pessoal é político. Mas isso não quer dizer que devemos transformar experiências pessoais em pautas políticas sem antes pensá-las para além da realidade de quem as vive.

Posso largar o mercado de trabalho e me dedicar apenas ao cuidado dos filhos e defender essa opção como viável? Em um âmbito pessoal, claro que sim. Porém, defender essa opção politicamente sem antes POLITIZÁ-LA, sem pensá-la à luz de outras realidades e outros feixes de relações e, mais ainda, sem considerar os próprios privilégios não é agir politicamente.

Por exemplo, quando vejo críticas a funkeira Valesca Popozuda, me pergunto: não é uma mulher autônoma por que usa seu corpo? Só ela pode dizer. Acredito que podemos seguir desconstruindo a objetificação sobre os corpos femininos, sem tomar uma mulher como exemplo e — veja só — objetificá-la novamente no discurso.

Sim, o pessoal é político. Mas, isso não significa “pessoalizar” o objeto do discurso político. É o inverso do que disse acima. É preciso discutir as relações de gênero, sem que, no entanto, a voz do feminismo sirva para substituir as vozes marginalizadas, para dizer quem é ou não livre, quem possui ou não autonomia.

Mulheres: donas das próprias vidas

Texto de Georgia Faust.

Assisti, há um tempo, o vídeo ‘Mulheres Donas da Própria Vida’.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ZMsuqJFDRDE]

Vídeo – Mulheres Donas da Própria Vida.

Esse vídeo é antigo e faz parte de uma campanha pelo fim da violência contra a mulher do campo e da floresta. Achei todo lindo. Porque tem tanto a ver com tantas mulheres que me cercam. Mas não foquei tanto na parte do viver sem violência (apesar de ser o foco da campanha), mas na parte de ser dona da própria história. Pois, vejo tantas de nós tendo dificuldades em assumir as rédeas da própria vida.

Penso, dizendo isso com base no meio em que convivo e milito, que não há coisa mais importante e urgente do que todas nós, mulheres, sermos donas da nossa própria vida. E, ao mesmo tempo, é algo que se torna tão difícil estando dentro de um relacionamento. Até onde nós levamos a sério o: “para o relacionamento dar certo, tem que ceder”? Tão a sério a ponto de sermos as que mais cedem no final das contas, sermos aquelas que deixam a vida pessoal de lado para priorizar a relação. É uma condição tão esperada do feminino essa, a de se esforçar ao extremo para que as coisas deem certo, chegando a nos invisibilizarmos em prol de um relacionamento que muitas vezes já está fadado ao fracasso.

Eu acho que uma relação que me impede de priorizar minhas próprias conquistas não é uma relação que valha a pena ser vivida.

Uma manhã, bem cedo, eu estava correndo e fiquei pensando em meus relacionamentos do passado. Cheguei a conclusão de que eu jamais estaria ali, correndo, super high de endorfinas, exalando felicidade e me sentindo fabulosa, se estivesse ainda junto com qualquer um dos bostas caras com quem me relacionei. Não, amigos, isso não é misandria, quem me conhece ou conhece eles, ou sabe da minha história por cima, sabe também que realmente tive o dedo podre A VIDA INTEIRA. E, claro, meu perfeccionismo e minha mania de viver minhas experiências intensamente faziam com que eu me esforçasse ao máximo para que as coisas dessem certo, e isso incluía o tal do “ceder”. Quando falo dos males do ceder demais e não ter as rédeas da própria vida, acredite, falo de cadeira.

Por isso eu não fiz faculdade quando quis, porque um dos ex não queria que eu estudasse (oi?!?!). Pois é, ele não achava necessário. Estudar para que? Se eu já tinha profissão e emprego? Por isso eu não fiz academia quando quis também, porque ele tinha ciúme dos caras que possivelmente iam ficar me olhando malhar (oi?!?!?). Por isso eu nem comia onde eu queria na praça de alimentação do shopping, porque ele achava que casais unidos de verdade comiam a mesma coisa, no mesmo lugar (oi?!?!?!?!?).

No último relacionamento eu já estava feminista e era uma briga sem fim toda vez que eu queria sair de manhã cedo para treinar. Sempre tinha que escutar chantagem emocional, porque eu gostava mais de correr do que de ficar com ele. Mas, dessa vez eu ia correr mesmo assim. Só que carregando uma culpa infinita nos ombros e fazendo de tudo depois para compensar a minha transgresão de ter abandonado o pobrezinho por uma hora, para fazer uma coisa que me fazia enormemente bem.

Tem um texto, de muitos anos atrás (exatamente de julho de 2009), da Marjorie Rodrigues, que posso dizer que foi o texto feminista que mais mudou a minha vida. Muito mais do que muitos livros que li, muito mais do que ‘Backlash’ da Susan Faludi. Porque esse texto falou diretamente com o meu coração.

Se eu escolhi fazer tal coisa, o ato de escolher faz de mim automaticamente um sujeito.

Por exemplo: “se eu escolhi ser prostituta/stripper/atriz pornô/whatever, se eu fiz isso porque quero, então eu não sou uma mulher objetificada. Eu sou sujeito das minhas ações e quem disser que estou numa posição de passividade ou vulnerabilidade está errado. É paternalista dar a entender que eu sou burra, não sei o que faço ou sou apenas um joguete do patriarcado”.

Eu acho esse ponto de vista TÃO perigoso. Primeiro, porque reduz o feminismo a essa hiper-relativização: I choose my choice, cada um com sua escolha, pronto e acabou, ninguém mete o bedelho na vida de ninguém. É mais ou menos como o pessoal que, numa leitura super torta de algumas obras da antropologia, sai dizendo por aí que a gente não pode condenar a mutilação genital feminina ou a burca ou o infanticídio ou seja lá o que for, porque “assim é a cultura deles”. Ou “assim é a religião deles”. Referência: Da onda feminista: “I choose my choice”.

Então, assim… Guardadas as devidas particularidades, eu acho sim que quando você escolhe colocar sua vida nas mãos de outra pessoa, mesmo que você tenha certeza absoluta de que essa é uma escolha plena e legítima sua, ainda assim, você está se colocando em uma posição de vulnerabilidade que coloca você em risco. E não há nada mais perigoso do que isso.

E muitas vezes, mais vezes do que eu gostaria, esse esforço todo em manter um relacionamento nem é porque casamento é instituição sagrada e tal. É por medo de ficar sozinha mesmo. Queria que todas as mulheres soubessem que ficar sozinha não é tão ruim assim, e muitas vezes vale bem mais a pena. Posso contar nos dedos de uma mão as mulheres que conheço que estejam em relacionamentos que realmente as permita ser elas mesmas, realizar, brilhar, ter objetivos próprios. Mas tento ser otimista e sei que ainda vou estar viva para ver muito mais.

Nossas escolhas e aquilo que tentam “escolher” para a gente

Ontem um amigo um tanto quanto descontente com seus relacionamentos me fez a seguinte pergunta:

“Cláudia, o que as mulheres querem, afinal? O que você diria sendo feminista?”

Bem…  Eu respondi que não tinha como falar por todas as mulheres. Ainda que muitas de nós tenhamos opiniões parecidas sobre determinados assuntos, nossos anseios dificilmente são os mesmos. Até  entre nós feministas há diferentes linhas de pensamento e de causas a serem defendidas. E fiquei bem perdida com esse questionamento pelos motivos que tentarei explicar a seguir.

Foto de piermario no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Essa pergunta dele fez com que eu pensasse em como cria-se o hábito de generalizar. De atribuir conceitos ou verdades absolutas a determinadas pessoas.  De como essas generalizações fazem com que a gente deixe de ter uma visão mais ampla acerca de certas questões e de como isso nos limita. É difícil compreender que além das influências que são fruto de nossa educação e das nossas experiências, também temos escolha. E a escolha que eu ou que você faz pode não ser a ideal para o outro. Eu Cláudia, feminista ativista, independente,  que sempre trabalhei fora e gosto muito do que faço posso não achar que seja legal que uma mulher fique só em casa, cuidando do lar, dos filhos, do marido. Ou que ela não ache certo pagar as próprias contas, acreditando ser essa a “função” (ou obrigação) do homem. Mas e se essa foi a escolha dela e foi consensual? Se é isso que a faz feliz, posso eu julgá-la?

Evidentemente, muitas das nossas escolhas são norteadas pelos valores que nos são transmitidos.  Estamos tod@s submetid@s, ainda que indiretamente, aos interesses de grupos dominantes e às suas ideologias incansavelmente difundidas para manter o status quo. Só que há uma linha bem tênue entre a tentativa de romper com o status quo e infringir liberdades individuais. E quando falo em liberdades individuais, me refiro a ideia de que podemos viver como bem entendermos, desde que não tentemos impor isso a ninguém como “modelo”, como o correto.

Acho bem simplista falar  “no que toda mulher quer”.  Cada mulher pode querer muitas coisas diferentes, as vezes, todas ao mesmo tempo. Ela pode querer ser astronauta, ou ser mãe. Pode querer ter um amor ou vários. Pode querer viver a vida toda com os pais ou sair por aí para conhecer o mundo inteiro. Pode querer aprender coisas novas ou não. Pode sonhar com o casamento ou com uma carreira brilhante, ou em ter tudo isso junto. Por que não? É mesmo necessário separar?

Escolher é algo diretamente ligado a ser livre. É algo bastante pessoal, que remete a uma série de fatores alheios ao nosso controle. É uma atitude que certamente trará consequências. Não sei se a resposta que dei ao meu amigo fez com que ele refletisse um pouco sobre isso, se fez com que ele entendesse que não existe um padrão de comportamento ou de vontade homogêneo inerente à todos os indivíduos.  Mas espero que ele tenha entendido que a queixa dele nada tem a ver com todas as mulheres.  Mulheres que deveriam sim ser iguais… Em ter seus direitos assegurados, sobretudo o da escolha.