Duas palavrinhas sobre Trump, os protestos da inauguração e coquetéis molotov

Texto de Raquel Parrine para as Blogueiras Feministas.

Eu estou morando nos Estados Unidos há quase exatamente dois anos, por isso peguei praticamente todo o processo eleitoral americano – o misterioso processo eleitoral americano, aliás, que me surpreendeu cada vez mais a cada etapa. Estava aqui quando o Bernie Sanders foi apontado o rival da Hillary Clinton, um candidato abertamente socialista, que teve a campanha completamente financiada pelos eleitores. Fui num comício dele onde moro, em Ann Arbor, uma cidade universitária no estado de Michigan, famosa por seu protagonismo no ativismo de esquerda. Daqui, era fácil acreditar que o Sanders era uma oportunidade viável. Mas os EUA, assim como o Brasil, é feito de bolhas e eu logo vi que estava em uma. Os e-mails vazados da Hillary Clinton mostraram o quanto o partido democrata não levava Sanders a sério e não investiu em sua candidatura. Entretanto, as denúncias de Sanders a Hillary, o fato de ela estar casada com o capital, ressoaram nos ouvidos dos americanos, ressentidos com a recessão da que o país nunca se recuperou totalmente desde a crise de 2008.

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Estamos exaustas, mas é preciso resistir ao preconceito e ao extermínio

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Outro dia, uma amiga disse que haviam cinco planetas retrógrados e que isso poderia ser uma razão pela qual vivemos tempos tão turbulentos na política nacional. É tanta coisa ao mesmo tempo que simplesmente não conseguimos acompanhar. Porém, há um sentimento crescente contra o qual lutamos constantemente e tem nos deixado cada vez mais exaustas: o ódio.

Acordar e ler as notícias de que um homem abriu fogo contra pessoas numa boate gay em Orlando, nos Estados Unidos, promovendo a maior matança a tiros no país, cria novos cenários de horror para esse ódio. Pelo menos 50 pessoas morreram e outras 53 ficaram feridas.

Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.
Junho/2016. Familiares das vítimas nos arredores da boate Pulse em Orlando, Estados Unidos. Foto de: Steve Nesius/Reuters.

No Brasil, essa semana tivemos a divulgação de uma matéria com perfis de gays e lésbicas que apoiam o deputado federal Jair Bolsonaro e suas propostas mais excludentes. A polarização política é uma grande arma para os conservadores, para quem defende porte de armas irrestrito, pena de morte, castração química. Para quem acredita que as leis no país são muito brandas, para quem discursa usando chavões perversos como “cristofobia”. Essas pessoas não são ingênuas, nem iludidas. São conscientes de seus atos e estão inseridas nos círculos de ódio e intolerância que tem crescido socialmente. A diferença talvez esteja apenas no fato de que não há mais pudor em dizer, com um megafone nas mãos, que alguém merece ser morto, que a estrutura social precisa ter ricos e pobres e que nem todas as pessoas devem ter os mesmos direitos. Hoje, essas pessoas sentem-se apoiadas a expressar os discursos mais reacionários porque encontram eco, são aplaudidas por outras milhares de pessoas.

Não acredito que isso seja culpa da militância de esquerda, do PT ou de figuras públicas e assumidamente homossexuais como o deputado federal Jean Wyllys. O extremismo tem encontrado ambientes sociais propícios para proliferar em todos os países. O que vejo é mais uma reação violenta ao subalterno que ousou levantar a cabeça e afrontar os alicerces sociais que edificam a desigualdade social. Mulheres, crianças, jovens, pobres, excluídos, pessoas de diferentes raças e etnias, pessoas fora dos padrões corporais e heteronormativos conquistaram espaços e direitos nos últimos anos, é de se esperar que as pessoas fiquem incomodadas com mudanças em regras sociais, que só ocorrem muitas vezes por meio de legislação específica. Esse ódio e violência é a tentativa de nos amordaçar novamente pelo medo.

A militância não é perfeita e nem mesmo suas principais vozes são unânimes. Então, para lutar contra esse ódio e violência não basta estar aberto ao diálogo, é preciso reverberar as diferentes pessoas que estão nesse movimento, por isso recomendo duas listas: 31 militantes dos direitos LGBT para você acompanhar de perto30 personalidades que lutam pelo movimento LGBT que você precisa conhecer. É preciso sempre amplificar o discurso da diversidade, da empatia e da alteridade.

O ódio tem se personificado e conquistado cada vez mais espaço em discursos públicos. Um sentimento de extermínio, intolerância e violência. É preciso não apenas eliminar o Outro, mas também o que ele significa, o que ele representa. As pessoas temem que o mundo que conhecem não seja mais o mesmo, temem dividir irrestritamente o espaço público com quem consideram uma ameaça. Os discursos intolerantes e violentos, sejam religiosos ou não, arrebatam as pessoas. Estão presentes em todas as esferas sociais. Isolados, são apenas palavras, por isso é preciso haver a interpretação do ser humano, o olhar individualista que reduz o Outro a nada. O ato de matar está aliado ao fato de não se reconhecer no Outro. E como sair desse labirinto? Onde ninguém se escuta e o medo permeia as relações? Como pode o amor entre pessoas do mesmo sexo ser uma ameaça?

Ataques extremos contra a população LGBT evidenciam a lesbofobia, homofobia, bifobia e transfobia tão presentes em nosso cotidiano. Qualquer pessoa que se desvie dos padrões heteronormativos recebe uma carga de ódio, reflexo do preconceito arraigado em nossa cultura que tem se mostrado em ações cada vez mais extremas. Diariamente gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são mortas no Brasil. Com 600 mortes em seis anos, o Brasil é o que mais mata travestis e transexuais. O país sempre está nos primeiros lugares em rankings mundiais de assassinatos homofóbicos, chegando a concentrar, em 2012, 44% do total de mortes de todo o planeta. Esse mesmo Brasil possui 60.000 casais homoafetivos vivendo juntos, a maioria formada por católicos (47,4%), segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por que essa população não pode viver livremente nas ruas? Por que a resposta as diferentes formas de viver e amar é a violência? Não somos tão diferentes do atirador americano, apenas gostamos de fingir que no Brasil não existe racismo nem outros preconceitos, que somos uma mágica república da diversidade nos trópicos. Vivendo confinados em nossos nichos sociais, não enxergamos a vulnerabilidade que as diferenças enfrentam.

Em meio a comoção pública nos Estados Unidos, milhares de pessoas querem ajudar e se disponibilizam a doar sangue para as vítimas feridas. Logo descobrimos que homens gays tem regras diferentes para realizar uma doação, precisam estar celibatários há um ano para serem aptos. Essa não é a mesma regra para homens heterossexuais, mas essa restrição também é lei no Brasil, seguindo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). A Portaria do Ministério da Saúde determina que o critério de seleção seja a prática sexual de risco e não a orientação sexual ou identidade de gênero, mas não é isso o que ocorre nos hemocentros do Brasil. A estimativa é que por ano haja um desperdício de 18 milhões de litros de sangue devido ao preconceito. Pequenas regulações como essas, quando não questionadas, também demonstram o quanto não estamos dispostos a mudar nossas relações com o Outro.

No caso do ataque a boate gay em Orlando há outro fator importante, no local se realizava uma festa latina. O atentado também não deixa de lado o componente racial e étnico que estremece as relações humanas em mais um momento de êxodo de refugiados pelo mundo. Quem se beneficia dessas mortes? Quem prefere se colocar contra o islamismo ao invés de combater a homofobia e a xenofobia? Quais discursos justificam a morte dessas pessoas? Segundo esses discursos, quais pessoas não devem existir, muito menos viver?

Como feministas lutamos por um mundo mais igualitário para todas as pessoas, por uma sociedade que reconheça seus preconceitos, privilégios e exclusões. Como ativistas, nos sentimos muitas vezes inertes, vemos companheiras caírem doentes, sentimos uma dor imensa ao ver outras sendo perseguidas. Muitas não estão mais dispostas ao diálogo ou a serem eternas professoras das mentes intolerantes, porque estamos exaustas. Porém, é preciso sempre se colocar como resistência ao extermínio.

+ Sobre o assunto:

[+] Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um. Por Eliane Brum.

[+] Parada LGBT no Rio faz homenagem aos mortos em atentado nos EUA.

[+] Sobreviventes do tiroteio: “Havia sangue por toda parte”.

[+] A Parada do Orgulho Gay mais triste da América com o ataque em Orlando.

Sigam-me os bons! E não esperem nenhuma mudança.

Texto de Mayra Cotta para as Blogueiras Feministas.

Se Bernie Sanders não for o candidato democrata nas eleições estadunidenses, é óbvio que seus eleitores e eleitoras irão entusiasticamente fazer campanha para e votar em Hillary Clinton nas eleições  gerais, certo? É evidente que eles não querem um republicano reacionário na presidência e por isso a única alternativa é votar em Hillary – e ficar muito feliz e contente por ter a opção de uma candidata que não acredita que todos os mexicanos são estupradores ou que não tentou proibir vibradores quando era procurador-geral do Texas.

Afinal, praticamente não há diferenças entre um candidato que lista como as maiores vergonhas da historia recente dos EUA o super-encarceramento de jovens negros e latinos e o apoio a ditaduras no Oriente Médio e entre uma candidata que tem entre seus financiadores de campanha os donos de presídios privados e a família real Saudita. É todo mundo democrata, não é mesmo? Não podemos gastar nossas energias resistindo contra quem está do nosso lado da luta quando o verdadeiro inimigo é o conservadorismo republicano. Certo?

Na verdade, não. Vem crescendo no país um movimento chamado “Bernie or Bust” – algo tipo “Bernie ou nada” – cujas apoiadoras e apoiadores gritam para os quatro cantos das redes sociais que não votarão em Hillary Clinton, que seu envolvimento com as eleições é parte de um processo político mais radical do que a escolha pelo menos pior. Para estas pessoas, em sua larga maioria jovens que não são filiados a nenhum partido, a “maior festa da democracia” não interessa se for para ser apenas a legitimação de um jogo já jogado, no qual a agenda da real politik é um super trunfo utilizado a todo momento em que mudanças de fato profundas são demandadas.

 Bernie Sanders e Hillary Clinton. Foto do site Fox6 Now.
Bernie Sanders e Hillary Clinton. Foto do site Fox6 Now.

Os que se já se beneficiam o bastante do sistema estabelecido e os que se tornaram cínicos demais para acreditar na revolução política projetada na campanha de Bernie Sanders se escandalizam com a recusa deste movimento em abraçar a candidata que pode impedir a tomada da presidência pelos republicanos racistas, machistas e homofóbicos, os republicanos que prometem acabar com todos os benefícios estatais e deixar que o dito livre mercado conserte os problemas sociais. Acusam a juventude de não valorizar a conquista de direitos e as duras lutas que foram necessárias para que fossem assegurados, chamam de irresponsáveis todos os que não entendem o quão graves podem ser os retrocessos.

Acredito que a sensação dos eleitores e eleitoras de Bernie ao ouvirem a exigência de adesão automática à Hillary, depois de quase um ano envolvidos ativamente na campanha, discutindo reformas estruturantes para a educação, a saúde, o mercado financeiro e o meio ambiente, é bem familiar a toda mulher que milita ou já militou em espaços de esquerda. Estamos sempre esperando a vez em que as nossas questões estarão no centro do debate, enquanto apoiamos as “pautas mais urgentes” e nos calamos para não atrapalhar a “luta mais imediata”. Quando apontamos o machismo na esquerda e a infiltração do patriarcado em todos os espaços e relações, somos acusadas de não entendermos quem são realmente os inimigos e de estarmos desperdiçando energia do lado errado. Somos todos de esquerda, não é mesmo?

Até quando, contudo, vamos esperar pelo momento de podermos ser radicais nos nossos anseios políticos? Quantas vezes o PSDB precisará ser derrotado no segundo turno até que que possamos brigar pela legalização do aborto? Quanto o Partido Republicano precisará ser destruído até que uma campanha presidencial realmente de esquerda não seja vista como uma aposta alta demais? Quantas tentativas de golpe precisarão ser derrotadas até que o racismo institucional que domina todas as relações entre Estado e cidadãos – do atendimento no hospital às práticas de execução sumária da polícia – esteja no centro da comoção política? Quantas concessões faremos ao feminismo neoliberal meritocrático até que possamos falar sobre as mulheres negras e latinas que ficaram fazendo o serviço doméstico e o trabalho reprodutivo para que algumas mulheres brancas privilegiadas pudessem avançar em suas carreiras?

E quantas mais vezes precisaremos marchar, gritar e mostrar que somos milhões e estamos organizadas para que este tal campo progressista entenda que irresponsáveis são os que diante de uma revolução política ou diante de um levante feminista insistem na distopia de que mudanças profundas são arriscadas demais.

Autora

Advogada feminista, entusiasta da Política e resistentemente otimista quanto à possibilidade de um mundo melhor. Formada em Direito pela Universidade de Brasília, mestre em Direito Criminal pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e doutoranda em Política pela New School for Social Research, em Nova York.