Apimentando um pouco as coisas por aqui

Texto de Danielle Cony.

Hoje eu vou falar de um assunto picante. Pornografia. Eu, sinceramente, acho que a pornografia é importante. E é tão importante que faz parte da humanidade desde sua concepção. O que não concordo na pornografia comercial (sim, pois há pornografia independente) é o fato dela ser misógina. A mulher, embora seja a “estrela” do filme, está resumida a dar prazer ao homem. A mulher da pornografia não é uma mulher. É um objeto construído que representa a satisfação plena do homem, ou seja o seu desejo, a sua sexualidade não interessa.

Quantas vezes você viu uma mulher de fato sentir prazer num filme pornográfico? Ou possuir dúvida? Ou agir como uma mulher agiria? O problema da pornografia comercial é que a mulher é retratada pelo pênis e assim como a publicidade isso tem uma representação muito nociva a sociedade.

Ainda vivemos muitos tabus em relação a nossa sexualidade e boa parte da pornografia ainda exerce um modelo “educador” de experimentação e conhecimento do corpo. O problemático é que a sociedade mudou, mas seus modelos pornográficos não. Então, a mulher só possui a função de causar prazer e, de fato, sua expressão sexual fica em segundo plano. Além disso, a pornografia comercial incentiva a violência contra a mulher. É muito comum cenas de estupro ou de sexo sem concessão. Um jovem influenciável na construção da sua sexualidade tende a representar os mesmos esteriótipos quando estiver com uma parceira.

O grande problema dessa indústria é que a mulher não participa do processo de produção executiva, nem está na direção dos filmes. A indústria cinematográfica de uma forma geral é um clube do bolinha. E se não há representação feminina na concepção dos filmes, como haverá uma perspectiva de olhar feminino?

Então, para um prazer feminino (porque sim, mulher consome pornografia) e para educação sexual masculina, venho divulgar o material da Erika Lust que procura realizar um cinema independente pornô-feminino com qualidade. Uma agenda feminista na pornografia.

A diretora e produtora sueca Erika Lust faz filmes de sexo em que as mulheres são protagonistas e público-alvo: “Quero lutar pelo direito de ver um bom filme de sexo”. Foto de Mireya de Sagarra/Folha de São Paulo.

Ela tem um manifesto na interntet e recomendo fortemente que assistam seus filmes. É realmente uma perspectiva feminina pornográfica sobre sexualidade.

Assim como na indústria cinematográfica, de uma forma geral, acho necessário reduzir o olhar para o cinema independente. Raro são os filmes da indústria realmente são interessantes. Faz algum sentido perder tempo vendo algo que você já sabe o final? O mesmo conceito vale para a indústria da música e d cinema pornográfico. O melhor da indústria cultural está nos movimentos independentes.

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Segundo Erika Lust, os principais clichês da indústria pornográfica (vesão original aqui), são:

1. Mulheres usam salto alto na cama;

2. Homens nunca são impotentes;

3. Quando se trata de preliminares 10 segundos é mais do que satisfatório;

4. Se uma mulher for pega se masturbando por um homem estranho, ela não gritará com embaraço, mas insistirá em fazer sexo com ele;

5. Todo homem tem pelo menos um litro de esperma quando goza;

6. Se há dois homems eles batem as mãos em sinal de “valeu” (“high five”) e a mulher não acha desprezível esse ato;

7. Mulheres novas e belas se divertem ao fazer sexo com homens feios de meia-idade;

8. Mulheres sempre tem um orgasmo quando o homem goza;

9. Sexo oral no homem é o suficiente para excitar uma mulher;

10. Todas as mulheres gritam (e são barulhentas) na cama;

11. Os seios não são reais;

12. Penetração dupla faz a mulher sorrir;

13. Homens asiáticos não existem;

14. Nem homens com pênis pequeno;

15. Há uma tentativa de roteiro com enredo;

16. Todas as mulheres adoram que batam em suas bundas;

18. Enfermeiras chupam seus pacientes;

19. Homens sempre colocam seus pênis para fora, sempre excitados;

20. Quando uma mulher encontra seu namorado com outra, ela fica apenas irritada por alguns segundos, antes de fazer sexo com os dois;

21. Mulheres nunca possuem dores de cabeça ou menstruação;

22. Quando uma mulher chupa um pênis é importante que ele lembre-a dizendo “— Chupe” (Suck it);

23. Bundas são limpas e deliciosas;

24. Mulheres sempre olham de forma surpresa quando um homem abre sua calça e encontram um pênis ali;

25. E finalmente, homens nunca precisam implorar pois toda mulher sempre está excitada.

Essa lista demonstra o quanto as mulheres de fato são esquecidas na indústria pornô.

Mulher, o eterno fantoche

Texto de Thayz Athayde.

Depois que Dilma conquistou a presidência na base de muito preconceito e histeria moralista, aqueles que não se conformam que ela é nossa presidenta, criaram uma frase para tentar desqualificá-la e também para que ela seja vomitada por aí,  sem que as pessoas façam a mínima idéia da onde surgiu: a Dilma é fantoche do Lula.

Quem ainda não ouviu essa frase? Ouço quase todos os dias! E ainda contribuem falando que ela logo vai morrer por causa do câncer, coitada, tá toda inchada! Ainda bem que o Lula já está por trás de tudo isso, vai que ela morre, né?

Ok, depois eu sou a paranóica.

Não entendo o motivo das pessoas não aceitarem Dilma Roussef como uma mulher que chegou onde está por mérito. Tudo bem, a gente sabe que o Lula deu uma forcinha (forçona) pra ela na campanha, mas, ele não “escolheu” ela por acaso, ela não fez um concurso de beleza e o Lula falou: ah, eu quero ela. Essa mulher teve um grande papel contra a ditadura, continuou com esse papel na política, foi ministra da casa civil, o que vocês querem mais para provar que ela é competente?

Presidenta Dilma Rousseff recebe a faixa presidencial, no Palácio do Planalto, Brasília. Foto de Paulo Whitaker/Reuters.

O problema é que o nosso país machista olha pra mulher sempre como um fantoche, como se a mulher sempre precisasse do homem para fazer qualquer coisa na vida, inclusive ser independente. Nem vou falar das acusações que a Dilma é lésbica (se for mesmo, e daí?), se ela fosse casada falariam que era mandada pelo marido ou que o marido era uma marica. Se ela fosse bonita e magra, ela teria dado pra alguém pra conseguir onde está. Vocês percebem que de qualquer forma ela nunca seria vista com respeito? A mulher sempre está ligada a imagem masculina, de alguma forma as pessoas inventam uma conexão, nunca é por que simplesmente a mulher decidiu se dedicar a carreira profissional, ou ser solteira, ou não ta nem ai pra dieta e ser do peso que quiser, são escolhas que as mulheres fazem e não dependem do homem pra isso.

Ontem, conheci a Gerente de Logística de uma grande empresa, ela é casada e tem uma filha. A empresa pediu que ela viesse para Curitiba para estruturar a área, o marido e a filha de 15 anos ficaram em Porto Alegre, ela vai todo final de semana ficar com eles, até que completem os dois danos de estruturação da área. Qual a reação de todos os amigos e família? Você vai deixar seu marido e filha aqui? Ela respondeu: se fosse ao contrário você me julgaria?

E qual o problema do homem cuidar da filha? Qual o problema da mulher lutar pela sua carreira? Qual o problema da mulher não se colocar como fantoche e assumir seu verdadeiro papel na sociedade? A mulher pode (e deve) ser mais do que uma coadjuvante, deve trilhar seu caminho do jeito que ela escolher. Eu entendo que enfrentar esse preconceito diário é uma tarefa árdua, conviver com o olhar do outro sempre cheio de reprovação é um caminho tortuoso. Mesmo cheio de preconceito, começamos o ano com quebra de paradigmas, a mulher na presidência é uma grande vitória e precisamos “ajudar” a Dilma nesse trabalho, da nossa forma, no nosso dia a dia.

A Dilma não é fantoche do Lula, ela não é uma mulher solitária e gorda. Ela é presidente do Brasil e ela está mais interessada em acabar com a miséria do que comprar a próxima roupa da moda para usar na reunião com os ministros.

Gostaria de saber o que essas pessoas vão falar quando no final do seu mandato, aconteceram tantas mudanças. Podem até tentar falar que foi o Lula quem fez e não ela, mas eu sou sonhadora e acredito em um mundo menos machista, é por ele que eu luto todos os dias.

Feminista, eu????

Texto de Mari Moscou.

Hoje o assunto veio de uma inquietação com fatos recentes. Explico.

Muitas blogueiras feministas amigas se sentem inseguras, tímidas, e preferem se dizer “feministas estagiárias”, brincando com sua suposta inexperiência feminista. Ao mesmo tempo, muitas mulheres têm atitudes superfeministas, um ponto de vista essencialmente feminista mas não chegam nem perto de se reivindicarem feministas. Ué, caramba, que diacho!

Fiquei matutando isso.

Tem um fator aí muito discutido que é uma imagem estereotipada do que é uma feminista: um monstrengo peludo e bravo, pra dizer o mínimo. Mas, cá pra nós, só as pessoas über-ignorantes realmente se apegam a este estereótipo (oh, ofendi você? tadinho). As mulheres de quem eu falo, que têm atitudes e até discursos superfeministas sem se reivindicarem feministas em momento nenhum (às vezes até negando quando perguntadas se são feministas) não estão neste seleto grupo. Vou dar um exemplo, pra variar, da televisão.

Alex Cabot, personagem do seriado americano Law & Order: Special Victms Unit.

No seriado Law & Order – Special Victims Unit, tinha uma promotora de justiça, a Alex Cabot, que na sua atuação como promotora era superfeminista, pró-igualdade, etc (um dos policiais, o Elliot, por exemplo, apesar de trabalhar prendendo criminosos sexuais não tem nada de feminista). Em momento nenhum no seriado ela se reivindica feminista ou se envolve em algum tipo de ativismo para além do trabalho (grupos, organizações, etc). No final de sua participação na série ela vai trabalhar na ONU para processar crimes sexuais em massa como no caso do Congo. Era minha personagem favorita e a nova promotora é uma pentelhinha antifeminista mas deixem isso pra lá.

Ok. Alex Cabot não existe. Mas a Xinran existe. Xinran é uma chinesa que hoje vive na Inglaterra. No início da Política de Abertura na China, ela passou a apresentar um programa de rádio onde lia e comentava cartas de leitoras, sobretudo mulheres. Após décadas de censura e silêncio o programa dela se torna ultrapopular no país todo. Um dia ele recebeu uma carta de um menino pedindo ajuda para uma mulher de sua aldeia que estaria quase morrendo sem água, sem comida, acorrentada à casa por seu “marido”, um velho senhor que a comprara da família. Segundo o menino que pede ajuda outras mulheres já haviam passado pelo mesmo “marido” e desaparecido.

Xinran, jornalista e escritora chinesa. Foto de Michael Stuparyk/Toronto Star.

Atordoada, Xinran ficou sem saber o que fazer mas leu no ar a carta pedindo ajuda. E passou a receber centenas de cartas da China toda, de mulheres pedindo ajuda ou contando suas histórias. Quando deixou de trabalhar na rádio, Xinran partiu em uma viagem pela China recolhendo as histórias destas mulheres que tinham vivido a época da Revolução Cultural chinesa. E as conta em seu primeiro livro, ‘As Boas Mulheres da China’.

Desde então Xinran escreve e espalha pelo mundo as histórias de mulheres chinesas de várias gerações. O seu último livro, ‘As Filhas Sem Nome’, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2010 e terminei de ler esta semana – tem um post sobre ele no meu blog. É igualmente fascinante mas me fez sofrer bem menos. As histórias são mais leves, sobre a geração mais recente de jovens adultas chinesas. Bem, fato é que além de toda essa militância individual (comparável à da personagem de Law & Order SVU), Xinran também participa de uma organização que trabalha com o afeto entre Mães e Filhas. Mas, ora, em momento nenhum ela se reivindica feminista ou é chamada de feminista pela mídia, etc. E suas atitudes são superfeministérrimas!

Então, aí me caiu um pouco a ficha: desconfio que a maioria das pessoas pense que só se é feminista quando se está envolvida em algum tipo de ativismo coletivo com cara mais “tradicional” (grupos, passeatas, panfletos, etc). Ora, é o mesmo que dizer que é preciso ser do movimento estudantil para ser estudante! Que é preciso ser do movimento negro para ser anti-racista! Que é preciso ser do movimento LGBTTT para ser anti-homofóbico! Caramba! Será que estou viajando meu povo?