Feminismo nas novelas?

Texto de Mari Moscou.

Olá, amiguinhas e amiguinhos tão queridos e amados que lêem este digníssimo idolatrado blog de mulheres feministas (e ao que dizem por aí, acabo de saber, somos a maior corja barra pesada da web, haha, #NassifFeelings). Hoje vamos falar de um assunto relegado às mulheres por décadas nesse Brasilzão. Um assunto mais do que presente na vida das brasileiras e também dos brasileiros, embora muitos deles jurem de pés juntos que não sabem quem matou Odete Roitman:

NOVELAS!

(tcharam!) (aplausos?)

A primeira coisa que eu posso dizer sobre novelas é que elas causam polêmica entre feministas até hoje. Na nossa lista mesmo já rolou o maio bafafá de mulheres absolutamente contrárias à prática assistidora novelística e mulheres que acham ok, e até de outras que curtem mesmo a parada. Pois bem, eu estou no segundo grupo mas quando dou pra assistir uma novela eu encasqueto mesmo. Também assisto BBB ano sim, ano não (porque é repetitivo demais, RÁ!) mas isso fico para outra semana (provavelmente na semana em que começar o BBB 2011, que assistirei pois não vi o 2010).

Fofoqueixons à parte, a pergunta que não quer calar: cadê o feminismo das novelas?

Como o assunto é vasto, gatchenhas, dividi minhas reflexões em alguns tópicos, pro post ficar mais tolerável. O feminismo das novelas está em…

1) Coisas de mulher >>> Não é preciso ser muito expert pra sacar que tudo que é considerado exclusivamente ou quase exclusivamente feminino é considerado fútil, bobo, imbecil, ridículo, etc. Faça um teste. Pergunte a três amigos homens e três amigas mulheres que tipo de coisa eles acham fútil. Anote. Agora pense se essas coisas são mais comumente ligadas a homens ou mulheres em nossa sociedade. Bingo! Moda, receitas (exceto alta gastronomia claro), faxina, baby-sitting, maquiagem, sapatos e bolsas, etc. Duvido que alguém responda “futebol” na listinha. (Sério mesmo, façam o teste e contem aqui nos comentários, vai ser no mínimo divertido). Entender que a novela pode ser bacana e não considerar alguém fútil por ser noveleira/o também é dar uma pequena contribuição para desconstruir estereótipos – tentarei nos próximos tópicos colaborar com isso.

2) Heroínas e personagens >>> As novelas mais recentes têm tido personagens femininas bem interessantes e seus destinos cada vez mais estão variando. As mulheres aparecem com preocupações que vão além de ficar com o príncipe encantado. Outro dia, aliás, estava assistindo Pantanal (a reprise, não lembro que canal reprisou) e reparei em como a forma com que personagens homens e mulheres eram retratados já não é mais tão comum nas novas produções e mesmo nos “remakes” que a Globo faz (low budget é outra coisa né gentem?). A diversidade destas mulheres é outra coisa que me chama a atenção. Em Caminho das Índias, por exemplo, tínhamos a Maia (Juliana Paes), que desafiava a família para trabalhar fora, a Shanti, que queria fazer doutorado, a Melissa (Cristiane Torloni), que era uma perua das mais peruentas ever, a filha dela Inês (Maria Maia) que tornou-se sucessora do pai no lugar do irmão (não só pq ele era esquizofrênico, mas porque não queria mesmo e ponto). E assim vai – vários estilos de mulheres, todas com diferentes preocupações e todas legítimas (por mais que eu detestasse a Melissa, superentendi o drama dela com o Tarso, puxa vida). Sem falar na Norminha, DIVA! hahahahaha

De verdade, penso que estes dois pontos são os essenciais no feminismo das novelas. Com essas duas coisas podemos começar a descontruir estereótipos e divisões sexuais do trabalho, da cultura, da economia, etc. Óbvio, tem pontos negativos também. Mas discordo completamente de que as novelas são fúteis. Quanta gente talvez não conhecesse dança do ventre sem “O Clone”, ou não soubesse dos dramas dos imigrantes ilegais nos EUA sem “América”, ou não descobrisse o sistema indiano de castas sem “Caminho das Índias”? Quem decide o que é fútil? A nossa hierarquização das culturas é baseada em quê?

Ficam essas perguntinhas pra vocês, meninas!
Até a semana que vem!

Machismo e feminismo estão em muito do que vejo

Texto de Deh Capella.

Levar a vida sendo mulher é assunto que não sai da minha cabeça. Os mais empedernidos podem me considerar paranoica ou  “radical”. Mas passo uma parte considerável do meu tempo olhando, reparando, elocubrando, matutando sobre isso: enquanto ando pela rua, quando ouço pessoas conversando, quando observo suas ações, quando vejo televisão, leio; enquanto vivo.  Gosto de dizer que isso é automático e só é possível porque me impus a necessidade de disciplinar o olhar, a cabeça e  também a língua, porque me incomodava reproduzir padrões de comportamento e opinião que não condiziam com a pessoa que eu  gostaria de ser. Continuo praticando.

Gosto de olhar em volta e perceber o que há de machismo e o que há de feminismo no mundo, nas atitudes e palavras, as sutilezas e detalhes e também o que é ostensivo.

Vejo um pouco das duas coisas, pra começar, quando olho em volta e enxergo tantas mulheres desgastadas, sobrecarregadas,  cansadas e sobretudo culpadas em função de suas escolhas. Pra várias é como se aquilo que escolheram viver tivesse que ser  levado, arrastado como um fardo, e por trás desse peso o “mas você quis assim, você escolheu isso”; como se muitas dessas  mulheres tivessem com quem dividir o peso do que é imposto e não escolhido.

Enxergo um mundo marcado pelo machismo quando ando pelo condomínio aos finais de semana e vejo exclusivamente mães pajeando  suas crianças pequenas e ouço menções aos pais – e me espanto, porque se não ouvisse o que essas mulheres falam poderia  supor que elas viviam sozinhas com seus filhos – mas aqui vejo o machismo de uma sociedade em que muitos pais não tornam  possível uma experiência de ma(pa)ternidade diferente daquela que me contava outro dia uma senhora que se preparava para  entrar na piscina da academia: ela cuidou de seus filhos sozinha, completamente sozinha, e o pai aparecia para um bilu-bilu  no queixinho da criança de vez em quando. Alimentação, educação, higiene, valores, diversão, era tudo pra mãe. Mas aí eu  viro e mexo e continuo vendo e ouvindo casos de pais que nunca trocaram uma fralda de suas crianças, que não sabem o nome  da professora e não têm lá muita ideia do que se passa no dia-a-dia da casa. Homens da minha idade, maridos de mulheres da  minha idade. Eu continuo me espantando porque sempre acreditei que esse padrão de comportamento fosse próprio de décadas  atrás e não admissível, mas identificável em outro contexto.

Também reparo quando escuto os medonhos discursos pró-“preservação” da mulher, que deve “se dar ao respeito”. Que não deve  praticar sexo casual, deve se vestir de forma “respeitável”, sobretudo se for mãe de família, que deve se resguardar após  enviuvar ou se separar, que deve tomar cuidado com o que fala porque “palavrão em boca de mulher” é horroroso, porque  “podem pensar que é biscate”, porque “podem se aproveitar”, porque “depois acontece um estupro e ninguém sabe por quê”.  Para mim não há nada de sutil nesse tipo de afirmação e comportamento, e educar filhos e filhas com base nesse tipo de  ideia é ostensivamente machista; talvez não o seja para tanta gente porque é o “normal”. O aceito. O desejável e esperado.  Assim como desejável e esperado é também não reagir, sob perigo de ganhar o rótulo de radical, ou de mal-amada, ou de  neurótica, ouvir as ameaças que só as “mulheres bravas” sabem quais são. Espera-se de todas nós uma docilidade, uma  resignação e uma aceitação que me é familiar dos discursos do Brasil Colônia (se não me engano foi Mary Del Priore que  falou sobre “dois lados da mesma moeda: a puta e a Virgem Maria”, e isso se grudou à minha cabeça de aluna bem bobinha de  Graduação no começo dos anos 90) e das revistas femininas dos anos 50, do imaginário feminino dos seriados (lembro sempre  do Papai Sabe Tudo e de A Feiticeira, imagens bastante opostas de mulheres em núcleos familiares).

*    *    *    *

Esta é minha primeira tentativa de reflexão neste espaço sobre um dos temas mais abrangentes que conheço. Machismo e  feminismo estão em muito do que vejo, em praticamente todo lugar. Vou tentar estabelecer uma pequena tradiçãozinha aqui: publicar a postagem e incluir uma recomendação de leitura e/ou deixar uma questão no ar. Quem quiser contribuir, dar  pitacos, fazer críticas terá a caixa de comentários à sua disposição!

A perguntinha é: que peso têm as mulheres e os homens na perpetuação de valores feministas/machistas?

Minha recomendaçãozinha de leitura é um post de Marina Macambyra, bibliotecária da ECA-USP: Sapatos, orelhas e Tia Ruth. Muito do que se espera de nós,  inclusive por sermos mulheres, tem a ver com padrões estéticos e de consumo, o texto fala exatamente sobre consumismo e necessidades.

BBB, Uniban e meninas interesseiras

Texto de Nessa Guedes.

E então é natal.

(Na próxima sexta, claro, eu sei). E como vocês podem notar, eu sou uma pessoal super legal, e fiz esse post em duas versões: a escrita, e a gravada. Se vocês tiverem preguiça de ler – por causa da ressaca do fim de semana, afinal, hoje é domingo, verão, e todo mundo tá com o 13º no bolso – vocês podem simplesmente assistir o video de míseros 5min para entender a mensagem que quero passar. Se vocês não tem paciência para video, vocês podem ler o post.

E se você for muito meu amigo, se quiser me stalkear para valer, ou descer a lenha do que eu disse, faça os dois: leia o post, e veja o video. Beijos, me liguem.

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Vocês vêem, essa é minha estréia aqui. Eu, menina nova, baladeira, cheia de amor para dar, na maior vibe Dance Queen – vocês lembram? -, com aquela pinta de quem tem o mundo inteiro para tirar proveito,  e os sete mares para desbravar.

E feminista até o osso.

COMO? POR QUÊ!? OH MEU DEUS, QUE DESPERDÍCIO!!! ALGUÉM FAÇA ALGUMA COISA POR ESSA POBRE MOÇA!

É tempo de dar fim aos esterótipos. Estamos no século da aceitação, do respeito, do prazer. Hoje um analista de negócios pode ser fotógrafo nas horas vagas e ter uma exposição numa galeria obscura na cidade, ao mesmo tempo que gosta de pular de asa-delta nas férias. Uma dona de casa pode ser viciada em jogar World of Warcraft. Um médico pode ter dezenas de tatuagens no corpo. E as pessoas não precisam necessariamente desconfiar da índole ou da integridade dos outros só porque sustentam muitas atividades diferentes, e acreditam em coisas que aparentemente não fazem conexão com sua “realidade”. Há uns cinquenta anos atrás era normal ser racista. Hoje é crime. Há vinte anos atrás, uma moça solteira aos 30 anos era considerada “passada”. Hoje o 30 é o novo 21.

Os tempos estão mudando. Meninas beijando outras meninas na rua, e quer doa aos seus olhos ou não, elas vão continuar beijando cada vez mais e mais, não importa o quanto você diga “mas isso não é normal!”. Meninos vão continuar beijando outros meninos na rua quer você espanque-os, ou não. Mulheres continuarão assumindo cargos de chefia e sustentando seus lares, quer você acredite que todas são putas interesseiras ou não. Você continuará passando por ridículo ao falar numa possível ameaça a heterossexualidade (#DouradoBBB10FactsByMachõesDePlantão), e o mundo continuará abrindo espaço para a livre expressão sexual das pessoas, quer você queira ou não. Quem tem que se adaptar ao mundo é VOCÊ. O mundo não gira em torno do seu umbigo conservador e medroso.

E nesses tempos de quebra de esterótipos, o primeiro que devemos tratar de repaginar é o esterótipo da feminista.

Não, eu não tenho bigode. Não, eu não ando com roupas de homens. Não, eu não sou rabugenta – embora tenha todos os motivos do mundo para tanto. Não, eu não sou mal-comida. Não, eu não tenho sovaco cabeludo.

E não, não vou esfregar aqui, na cara de ninguém, os motivos por a+b sobre eu ser feminista. Não.

Na verdade, eu quero convida-los a uma reflexão de final de ano que saia de seus âmbitos pessoais e alcance a comunidade onde vocês vivem.

Que tal trocar o “Oh, esse ano foi bom porque eu fui promovido, porque eu comprei um carro, mas foi ruim porque minha vó morreu, porque eu engordei uns quilos, etc” pelo “Esse ano foi ótimo porque elegemos a primeira presidente do Brasil, mas foi ruim porque teve o caso Uniban e o ‘rodeio de gordas’ na Unesp. O que eu devo concluir sobre a ligação desses três fatos, aparentemente distintos? No que isso influi na minha vida? O que isso significa para o crescimento do país?“… hum?

Entendem?