Magrocracia e mercado de trabalho

Texto de Barbara Lopes.

A sociedade em que vivemos tem um tique nervoso: fala “não” em voz alta, enquanto sinaliza “sim” com a cabeça.

O romance ‘Ardil 22, de Joseph Heller, mostra a eficiência dessa contradição. No livro, o Ardil 22 é uma regra militar que permite que um soldado seja dispensado caso esteja louco. Basta pedir. Mas se ele pedir, prova que está preocupado com a própria segurança e, portanto, não é louco.

“Se voasse, então estaria doido e não teria que fazê-lo. Mas se ele não quisesse fazê-lo, então estaria são e teria que fazê-lo”.

Mas temos novos ardis. A magrocracia, por exemplo. Você deve ser magro e, principalmente, você deve ser magra. Os corpos que não se adequarem a essa regra serão condenados ao escárnio público. Isso é a voz dizendo que não. Mas o gesto da cabeça é inverso: alimentos altamente processados, em grandes porções, com grande densidade calórica e todo a aparato de marketing. A rede Starbucks, por exemplo, lançou recentemente um novo tamanho para suas bebidas, o Trenta, de 916 ml, maior que a capacidade média do estômago de adulto. O ardil é criar um estresse com o “peso ideal” e oferecer alívio para esse estresse na forma de alimentos que dificultam atingir esse peso ideal.

Outro ardil é o mercado de trabalho. De um lado, somos ensinados a sonhar com uma profissão, com um trabalho. Perguntamos para as crianças o que elas serão quando crescerem. Estudamos, lemos biografias e perseguimos a promessa de atingir a realização pessoal através do trabalho. Depois chegamos lá e não é nada daquilo. A organização do trabalho que, ao mesmo tempo, exige adesão apaixonada, é muitas vezes perversa o bastante para destruir as paixões. A promessa que estava no ar, de que com as máquinas trabalharíamos menos, não foi cumprida. Trabalhamos mais e mais, e muitas empresas são cadeias de passar infelicidade adiante. Alguns conseguem escapar, outros ficam presos entre querer menos e se conformar ou querer mais e se desiludir.

De fato, um ardil e tanto.

O idioma maquiado

Texto de Barbara Lopes.

As mulheres aprendem desde cedo sobre “o processo”. Não, não é o mesmo do Kafka. É o processo em que a mulher pega o que ela é, ajeita, arruma, modela, arqueia, prende, solta, cobre, esconde, mostra, salta, salta e rodopia, e finaliza com uma fitinha. No fim ela é o que é, mas do jeito que deve ser. É o que acontece com a aparência feminina: tira uns pêlos daqui, alisa os outros ali, usa um creminho pra esconder, um lápis pra realçar, escolhe uma peça de roupa que faça uma parte do corpo parecer maior e outra, parecer menor. Nada contra, nem a favor, muito pelo contrário. Pra algumas mulheres é um sofrimento, pra outras é divertido… Pena que seja visto como obrigatório para todas.

Mas o mesmo que aprendemos a fazer com nossa aparência, também somos ensinadas a fazer com nossa linguagem. A mulher pensa alguma coisa; daí torce, retorce, procura todos os ângulos e vieses, escolhe bem as palavras, mostra e esconde. E então fala o que pensa, mas de um jeito transfigurado, maquiado. Sutil, por assim dizer. E as que saem do padrão de sutileza volta e meia são cobradas, por mulheres e homens. (Funciona também no sentido inverso, aprender a escutar procurando os significados implícitos).

Como apaixonada por linguagem, pelo que cada palavra diz e esconde, sempre encarei esse falar pelas entrelinhas como algo lúdico. Só passei a prestar atenção ao aspecto de gênero embutido nisso depois de um texto da Lynne Soraya, pseudônimo de uma moça que tem síndrome de Asperger, chamado “The Female Factor” (O Fator Feminino). Ela diz que por conta de sua dificuldade em decodificar essas sutilezas da linguagem, acha mais complicado se comunicar com mulheres do que com homens (comentei um pouco sobre o texto em outro blog).

Por exemplo, quando sua amiga lhe diz “A Jane confirmou presença na festa e não foi! Nem telefonou. Essa é a quinta vez! Você acredita?”, a resposta de Lynne seria “Sim, acredito” – afinal, é o comportamento esperado de alguém que já fez isso quatro vezes. Mas o que a amiga realmente quis dizer é “Você acredita [que ela me trate tão mal? Estou tão magoada!]?!” – é um pedido por apoio. Mas um pedido de apoio que vem embalado, ajeitado e com laço de fita.

Sei não, mas vou tentar ver como ficam algumas palavras de cara lavada.

A ditadura silenciosa

Texto de Thayz Athayde.

Quase todos os dias passo por uma banca jornais, mas a capa de uma revista me chamou a atenção: prepare seu corpo para o verão. Mesmo atrasada, eu tive que parar para ler aquilo e falei meio indignada pro rapaz da banca:

– Como assim preparar meu corpo para o verão? Ele já não tá preparado? Falta o que? Uma melancia na cabeça?

O que me deixou mais chocada, é que só tinha mulheres na revista, obviamente somente as mulheres devem fazer dietas e ficar magras, os homens que fiquem com suas barriguinhas de cerveja, é tão sexy, né? Ninguém gosta da barriga do Gerard Butler. Há algo extremamente necessário, talvez até um pré-requisito para ser mulher: você tem que ser perfeita. Cabelos lindos, corpo exuberante, paciência de um monge budista, esposa dedicada, super mãe, excelente cozinheira e se sobrar tempo, você pode até estudar e ter uma boa carreira, talvez até cuidar de você um pouquinho.

Vivemos hoje em uma ditadura silenciosa, que nos manda fazer tantas coisas e não temos tempo de fazer uma pergunta bem simples: será que eu quero? Eu quero fazer uma lipo? Eu quero ficar meses sem comer chocolate só pra mostrar meu bumbum no verão? Somos metralhadas todos os dias sobre essa suposta obrigação como mulher. E nosso real desejo, onde fica? Eu não acredito que as pessoas pensam que o único desejo feminino é fazer dieta ter um bom marido. Da onde saem esses pensamentos? Das mulheres – barbies. Pare de construir ou ajudar a construir esse tipo de modelo, não faça isso só por você, faça pelas próximas gerações, pelas gerações que lutaram pelo direito de ser mulher, para que possamos ouvir a palavra feminismo como heroísmo e não como um palavrão machista.