Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Hoje, 06 de julho, Magdalena Carmen Frida Kahlo completaria 108 anos. Atualmente, é uma das imagens femininas mais populares. Assim como Che Guevara, Frida Kahlo está estampada em diversos produtos, é possível ver sua imagem em camisetas, editoriais de moda, festas à fantasia ou na bolsa de uma jovem grega na televisão que espera para sacar dinheiro num caixa eletrônico.

A chamada “Fridamania” está por toda parte, especialmente em sites, páginas e coletivos feministas. Há muito poder em sua imagem, mas até que ponto transformamos Frida Kahlo numa estética idealizada? Até que ponto essa imagem icônica e pop corresponde aos ideais e propostas da pintora politizada que fez de seu corpo uma ferramenta de resistência para pintar sua realidade?

Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.
Frida Kahlo. Foto de Nickolas Muray. Publicada como capa da revista Vogue México em 2012.

Frida Kahlo: a mãe da selfie.

A pesquisadora Cátia Inês Schuh, que elaborou a tese: A prospecção pós-moderna da comunicação visual no imaginário de Frida Kahlo (.pdf), sobre a apropriação da imagem da pintora mexicana pela indústria cultural e do consumo, disse em entrevista que Frida é a mãe da selfie, já que grande parte de seu trabalho é composta por autorretratos. Essa afirmação parece explicar em parte a admiração instantânea que sentimos ao ver uma imagem de Frida. Autêntica, subversiva, intensa, provocadora. Nada em suas fotos ou em suas obras parece banal e esse me parece ser um desejo das pessoas atualmente, não parecerem comuns.

Frida Kahlo já se expunha nas redes sociais antes de isso ser modinha e, provavelmente, seria uma famosa blogueira de moda nos dias de hoje, já que desenhava e customizava suas roupas e sapatos. Cheia de dualidades, ao mesmo tempo que seu estilo presta homenagem a um vestuário feminino indígena, o que poderia ser visto como algo arcaico, sua forma de se apresentar ao mundo evidencia uma mulher contemporânea, a frente de seu tempo.

Sua individualidade e sua sexualidade estão constantemente presentes em suas representações. Frida tem como um tema central de sua obra a potência do corpo. O simples fato de seu corpo existir é uma resistência a tantas intervenções decorrentes dos acidentes que sofreu e das cirurgias que fez. E, que esse corpo seja também a ferramenta pela qual ela transforma a própria trajetória em processo de criação torna tudo mais fascinante. Então, me pergunto: por que não vemos imagens que retratam as deficiências físicas de Frida Kahlo? Por que sua feiúra é tida como algo irrelevante, quando na verdade esse aspecto parece conter toda a subversão de sua imagem?

A única aprendizagem possível: a de si mesma.

Pelos relatos(1), Frida Kahlo desde criança escondia suas deficiências. Aos 6 anos, um ataque de poliomielite a prende a cama por nove meses, o resultado é uma perna mais fina que a outra. Usa meia superpostas e botas altas para disfarçar. Seu pai, o alemão Guilhermo Kahlo, elabora um programa esportivo para ajudá-la a recuperar força e músculos: patins, bicicleta, remo, jogos com bola e lutas. Atividades pouco comuns para as meninas da época. A aproximação entre Frida e o pai fotógrafo também revela as posteriores influências em seu trabalho: luz, enquadramentos, retratos. O pai sofre de epilepsia e a solidão das doenças acaba por ser mais um ponto em comum.

Em 17 de setembro de 1925, aos 18 anos, ela sofre o grave acidente de trânsito, o ônibus em que estava bate num bonde. Segundo Frida em seu diário(2), o ônibus foi esmagado e o corrimão a transpassou como a espada transpassa o touro. Inúmeras fraturas, um mês no hospital. Quem a acompanha nesse período é Matita, a irmã mais velha que fugiu de casa aos 15 anos, com a cumplicidade de Frida, para viver com o namorado e a quem a mãe só abrirá a porta de casa após 12 anos de silêncio. Ela sai do hospital para um longo período de imobilização, em que não há como continuar os estudos e a partir daí começa a emergir sua criação:

Única aprendizagem possível: a de si mesma, captada pelo pequeno espelho das dimensões de um retrato. Único material humano: o seu, pois não pode ir ao encontro dos outros, mas sempre cercada pela expressão que os grandes retratistas alemães e italianos dão a figura humana. Desse confronto com a própria identidade nascem as problemáticas que tocam a própria essência da arte: a ilusão, o desdobramento, a relação com a morte. Bem mais que uma autobiografia, seus autorretratos se revelam como “imagens do interior” de uma mulher que se lançou em uma busca tanto existencial quanto estética, de um ser em processo de vir a ser, de uma consciência que nasce. (1 – pg. 29).

Aos 20 anos, livre do corpete de gesso, amadurecida e consciente do que precisa para lhe dar sentido, reencontra amigos e a política. Mergulha na luta comunista, onde conhece a fotógrafa-repórter, Tina Modotti. Com origem italiana e revolucionária, Tina apresenta a Frida uma representação de mulher livre que coloca sua arte a serviço da causa do povo. É também nesse período que conhece Diego Rivera, 42 anos, companheiro e colaborador, com que viveu uma relação tão intensa que nem mesmo as cartas escritas conseguem explicar toda a complexidade.

Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.
Frida Kahlo e o médico Juan Farill fotografados em sua casa por Gisele Freund. Imagem: Museu Frida Kahlo.

Beleza, deficiência e capacitismo

Uma mulher manca, com uma monocelha, que usa roupas extremamente coloridas e um fenótipo com fortes traços indígenas. Como pode ter virado ícone de referência estética sem que quase ninguém questione esses aspectos tão criticados nas mulheres comuns? Em seus autorretratos, Frida está sempre nos mirando. Talvez procurando uma verdade em nosso olhar ou talvez apenas indicando que ela existe, tanto quanto nós, mas que ali há uma resistência diária em viver.

É fato que a intensidade das ações de Frida Kahlo fazem com que suas deficiências físicas e limitações não sejam o que a definem. Porém, seu corpo é objeto e realização, num elo intrínseco entre vida e obra. Por três vezes, Frida desafiará a proibição dos médicos de engravidar depois do acidente, mas terá que se curvar e realizar abortos por determinação médica. Em inúmeros momentos de sua trajetória e de suas obras, o corpo é apresentado como a expressão concreta de sua consciência e militância.

O capacitismo de nossa sociedade cultua o corpo útil e aparentemente saudável. Esconder suas deficiências por meio das roupas podem indicar a maneira que Frida escolheu para enfrentar o preconceito. Vaidosa e certa de como queria ser representada, acaba por criar uma emancipação em sua forma de representação, escolhendo como gostaria de ser vista no imaginário social. Sua fragilidade, medos e receios estavam expostos em suas obras. Portanto, temos essa Frida que emerge com força, feminilidade e autenticidade nas fotografias e a Frida dos autorretratos, em que o olhar sempre marcado e o corpo exposto evidenciam suas dores.

Provavelmente, nosso capacitismo e nosso desejo de enrijecer a força desse ícone nos façam invisibilizar seu corpo físico ou vê-lo apenas como uma alegoria pictórica. Ou talvez, Frida consiga expressar tanta autonomia que cria o desejo de nos identificarmos com ela, algo que geralmente não ocorre com pessoas com deficiências, pois as vemos como incapazes, a princípio.

Pessoas que possuem deficiências nos lembram a fragilidade que queremos negar do ser humano. O pior do preconceito se dá porque não queremos que essas pessoas sejam visíveis, que sejam como nós, pois assim nos igualaríamos. Tê-los em nosso convívio funcionaria como um espelho que nos lembra que também poderíamos ser como eles. Por isso temos tanta dificuldade em tornar o mundo mais inclusivo fisicamente para quem tem limitações. A exclusão é sempre a primeira resposta para o que desafia a ideia de perfeição humana.

Exotismo, ambiguidade e excentricidade também são adjetivos usados para descrever os sentimentos que temos em relação a Frida Kahlo. Definitivamente sua imagem não nos permite ser indiferentes. Sua personalidade mostra-se em cada acessório, em cada nó da trança, na estampa dos vestidos, no detalhe dos bordados, no rosto maquiado. Há alívio em não ver a beleza perfeita? Há admiração por uma mulher ser tão autêntica e autônoma? Há o desejo de assumir essa individualidade enérgica e rejeitar qualquer forma de submissão social?

Penso que Frida Kahlo construiu esse feminismo provocativo da imagem justamente para questionarmos nossas ações e nossa forma de se ver no mundo. O que é possível criar e construir com limitações físicas num mundo tão capacitista? A arte foi sua resposta. Uma arte altamente egóica, mas que se comunica diretamente com as lutas políticas do México e com o íntimo das mulheres. Não me parece à toa que ela tenha se tornado uma figura tão popular entre as feministas, mas acho que podemos ir além da simples impressão de sua imagem em camisetas e bolsas, precisamos resgatar e amplificar sua voz e ideais que apontam para um feminismo mais inclusivo.

Referências

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

(2) KAHLO, Frida. O diário de Frida Kahlo: Um autorretrato íntimo. Tradução de Mário Pontes. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2012.

+Sobre o assunto: Frida Kahlo e a intensidade do sentir. Por Bia Cardoso no Biscate Social Club.

Quer fazer dieta? Pense algumas vezes.

Texto de Ana Carolina Pereira Costa.

Hoje é o Dia Internacional sem Dieta. Há algum tempo vivemos a moda do “fazer dieta” para perder peso. Fazer dieta é “cuidar de si”, é “abnegar-se das indulgências”, é “exercitar o autocontrole”. Fazer dieta é inclusive uma maneira de pertencer a um grupo social, no qual se compartilham dicas e estímulos para se manter “no caminho justo”.

Peço perdão pelas muitas aspas, mas elas não foram colocadas à toa. Essas aspas foram inseridas para reforçar o caráter irônico de minhas palavras, já que elas não quiseram dizer nada daquilo que literalmente representam. Explico melhor.

Estou falando de dietas restritivas de forma geral, ou seja, qualquer tipo de controle alimentar que imponha de forma genérica que a pessoa coma em menor quantidade e apenas determinados tipos de alimentos. Qualquer programa de controle alimentar que imponha uma caracterização entre alimentos “bons” e “ruins”, “saudáveis” e “não-saudáveis”. E, acreditem, muitas “reeducações alimentares” são dietas disfarçadas, como explico no texto: Dieta não é reeducação alimentar! Porque, em realidade, qualquer alimento pode ser saudável dependendo do contexto, quantidade, etc.

Mulheres fazem refeições e trabalham em restaurante popular de Manaus/AM. Foto de Manoel Vaz/Semcom.
Mulheres fazem refeições e trabalham em restaurante popular de Manaus/AM, 2013. Foto de Manoel Vaz/Semcom.

Vamos começar por um dos gatilhos que levam as pessoas a fazerem dietas restritivas: o desejo por um corpo que esteja de acordo com o padrão de beleza vigente, que para as mulheres ainda se caracteriza pelo corpo esbelto, por vezes excessiva e rigidamente magro.

Pensando no histórico do padrão de beleza feminino, muitos sabem que nos anos 50, com o fim da Segunda Guerra Mundial, houve um retorno dos valores conservadores, como que para dar sentido àquela época caótica e carente de esperança. O papel da mulher era ser atraente para os homens, arranjar um marido, ter filhos e cuidar de casa, mas sem deixar de estar bonita e feliz à noite… Um corpo que simbolizava esse ideal era o de Marilyn Monroe: corpo cheio de curvas, que hoje seria até mesmo visto como “rechonchudo”.

Então, entre os anos 60 e 80, a mulher começou a assumir seu papel no mercado de trabalho, começou a ter novas prioridades, e o corpo magro veio como resposta a tudo isso: uma imagem das mulheres de assumirem um corpo que fosse menos “sex symbol” e mais andrógino, mais parecido com o corpo masculino. Tem-se como exemplo Twiggy, a primeira super modelo.

Infelizmente, o corpo magro, que talvez visasse dar um outro significado ao papel da mulher na sociedade, acabou aprisionando-as em um outro padrão de beleza, e esse bem mais rígido e cruel que o anterior. Não estou aqui tentando defender um ou outro padrão de beleza, pois sempre que houver um padrão haverá pessoas que não se encaixarão nele e, portanto, serão excluídas. Mas fazer dieta restritiva, de certa forma, é um conformismo com esse aprisionamento a qual estamos expostos.

Além disso, fazer dietas restritivas, por questões psicológicas e fisiológicas, aumenta a obsessão por comida, nos desconecta de nossos sinais internos de fome e saciedade e nos torna mais instáveis emocionalmente. Quando se faz dieta para perder peso, o tempo gasto com os rituais e regras da dieta é excessivo, impedindo as pessoas de ocuparem os valiosos momentos de sua vida com aquilo que realmente faz sentido pra elas.

As pessoas que de fato precisam de uma restrição alimentar específica —por exemplo, uma pessoa com doença celíaca confirmada, que não pode comer glúten — normalmente o fazem por uma questão de saúde exclusivamente, e acabam “se conformando” com a restrição, pois sabem que não existe outra alternativa. Ao escrever esse texto, não falo desses casos, penso nas mulheres que de fato têm a mudança corporal como motivação para fazer dieta, para se adequar a padrões que não representam a diversidade de corpos das pessoas.

Ou seja: dietas restritivas não são o caminho para lugar nenhum, a não ser para o aprisionamento e para a infelicidade. Dietas restritivas não funcionam de fato. E, como disse Naomi Wolf, feminista e autora do livro ‘O Mito da beleza’: “fazer dieta é o maior sedativo político das mulheres”.

Autora

Ana Carolina Pereira Costa é nutricionista e autora do blog: O Corpo é Meu.

Por que Zezé é cabeluda?

Texto de Ju Guadagnucci.

Levanto os braços no metrô e percebo que os olhares se voltam para mim. “Coisa mais estranha mulher com pelo de homem!”, é o que meu avô costuma me dizer e parece ser o que estes olhares parecem me dizer também. Na rua, eu escuto as pessoas comentando “você viu a axila da aquela menina que coisa mais nojenta?!”.

Julia Guadagnucci com um bambolê na praia. Foto de Mateus Lima.
Julia Guadagnucci com um bambolê na praia. Foto de Mateus Lima.

Eu ignoro essas tentativas de me colocarem “no meu devido lugar de mulher” e deixo meus pelos. Porque meus pelos não são somente cabelos que crescem nas minhas axilas, na minha buceta, na minha cabeça e nas minhas pernas. Eles são a manifestação física da minha militância feminista anti-capitalista que busca que nós, mulheres, tenhamos liberdade de escolha sobre nossos corpos e não sejamos obrigadas a seguir a “ditadura da beleza”.

Essa atitude “estranha” de não me ferir, arrancando meus pelos, e não me importar com eles é incômoda para grande parte da sociedade que tenta tirar de nós a autonomia sobre nossos corpos e nos induz a sucumbir ao patriarcado. Ele, por sua vez, insiste em nos ditar regras que sustentam sua gigantesca indústria da beleza e assim nos tornamos o combustível da economia do opressor, beneficiando e mantendo o controle da sociedade nas mãos dozomi (homem cis, branco, hétero, burguês, sem deficiências).

Pois bem, é através do meu corpo que eu nego sustentar essa indústria, nego ser uma uma “moeda” desse sistema que nos escraviza através de suas capas de revistas e comercias de TV e que, cada vez mais, nos pressiona a alcançar o “belo” inatingível. Nego um padrão de beleza que prejudica a todas as mulheres.

Esse padrão não só dita nossa aparência, mas molda nosso comportamento, nos inferioriza, nos machuca, nos traz milhares de complexos psicológicos e nos coloca como competidoras umas das outras, como se tivéssemos que disputar um príncipe encantado: é esse padrão que eu nego!

Apesar de sermos forçadas a querer esse ideal de beleza que nos é imposto, nossas tentativas de alcançá-lo serão sempre fracassadas, pois, tristemente, o que o patriarcado deseja são bibelôs. Nossa sociedade machista quer bonecas infláveis que não cheiram, não têm pelos, não possuem direitos, desejos e que não gozam. Querem mulheres passivas, castas e domesticadas.

Mas nós não somos bonecas! Temos corpos que são de diferentes formas. A maioria das mulheres tem celulite, tem pelos em todas as partes do corpo, produzem corrimentos diariamente e sangram todo mês. Todas temos espinhas, poros, odores, dobras, desejos e tantos outros “defeitos”.

Portanto, nosso empoderamento é necessário! Quando estamos empoderadas, nos aceitamos melhor, nos tornamos mais donas de nós mesmas e encorajamos outras mulheres a buscarem suas liberdades e quebrar os ditames do patriarcado. E com meu corpo, meu instrumento de política, tento mostrar um pouco da liberdade que tenho conquistado. Minhas axilas peludas são um grito ao meu e ao seu poder de escolha. Empoderemo-nos!

Autora

Ju Guadagnucci é feminista, bissexual e peluda. Autora do blog Cabeleira da Zezé.