Por que discutir gênero na escola?

Em outubro, Aniely Silva entrou em contato conosco para divulgarmos a cartilha: Por que discutir gênero na escola? (pdf). Organizada pela ONG Ação Educativa e pela JADIG – Jovens Agentes pela igualdade de gênero na escola.

Achamos a iniciativa tão importante num momento como o atual — com o conservadorismo e o fundamentalismo ganhando as narrativas, combatendo a falácia chamada “ideologia de gênero” e com os direitos humanos ameaçados — que fizemos uma pequena entrevista com Aniely. A principal ferramenta de mudança para o fim da violência contra a mulher é a educação, por isso é imprescindível debater gênero nas escolas.

Aniely Silva trabalha como jovem aprendiz na ONG Ação Educativa. A ONG promove formações sobre direito à educação para jovens de periferia e no início do ano, promoveu uma formação sobre Direito à Igualdade de Gênero na Escola. Ao fim do curso, foi desenvolvida a cartilha: POR QUE DISCUTIR GÊNERO NA ESCOLA? – Em resposta ao barramento da palavra Gênero nos planos nacionais de educação. Totalmente desenvolvida por mulheres negras moradoras de Sapopemba e Itaquera, a cartilha traz textos e quadrinhos para discutir e debater a importância da palavra gênero no nosso cotidiano, a questão do racismo e os padrões impostos pela sociedade, a objetificação do corpo das mulheres e até como o machismo afeta os homens.

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A PM e a USP: onde estão as fronteiras que separam a universidade da sociedade?

Hoje, falarei sobre o movimento de ocupação da reitoria da USP (Universidade de São Paulo campus Butantã). Esse texto reflete a acalorada discussão que vem se estendendo na blogosfera (alguns sítios citados aqui), bem como a conversa com as amigas feministas, que integram nossa lista de discussão. Ficamos, durante dias, tentando entender a natureza das reivindicações, de olho nas notícias. Muitas iam diariamente à USP cumprir suas obrigações, mas sempre estavam atentas às pautas do movimento. Desse modo, estivemos preocupadas em desenvolver um diálogo franco e aberto. Por isso, considero minha contribuição fruto de um trabalho de discussão coletiva e espero que sirva como ferramenta para ampliarmos ainda mais a temática, que envolve toda a sociedade, como expliquei, rapidamente, em meu blog pessoal.

O crime organizado... Não ficou com medo? Mas alguém temeu e muito!

Faço parte da comunidade USP há quase sete anos e, muito provavelmente, estarei ligada por, no mínimo, mais quatro anos. Independentemente do que se veicule, tenho enorme orgulho de ser uma uspiana. Nunca, nem por um minuto, senti vergonha ou constrangimento por fazer parte de um espaço de discussões amplas e com tanta potencialidade, como é a USP. Eu acredito na minha universidade e a adoro com toda a intensidade devotada a tudo o mais que me é caro na vida, por isso, sou crítica. Quero uma percepção justa, para corrigirmos nossos possíveis equívocos e apontarmos nossos possíveis acertos. Visões deturpadas só servem a quem quer manipular ou achincalhar por despeito. Nós, que amamos a universidade, devemos trabalhar por uma discussão mais limpa e que caiba a toda a sociedade.

O que está sendo passado para a população é, no mínimo, assustador, por incorrer em inverdades. Chamarei de inverdades e não mentiras, por levar em conta que boa parte dos jornalistas não conseguiu investigar as questões que traz a público. Muitas vezes, prefere-se investir em estereótipos a ir à caça das análises e discussões que fomentam as manifestações. Isso, em minha opinião, reflete mais preguiça midiática do que, propriamente, má fé por parte do corpo jornalístico. A mídia, muitas vezes, tem o poder de apontar caminhos para a formação do pensamento sócio-cultural. A informação nem sempre é tomada como um objeto de reflexão, mas digerida como a reflexão em si. Contudo, infelizmente, ainda não se empreendeu uma discussão séria a esse respeito. A mídia continua a divulgar questões de interesse público, como é o caso da USP, com base em dicotomias ultrapassadas, mas facilmente apropriadas pela massa. Contrariando essa tendência ditatorial da comunicação nacional, a blogosfera se levanta como um espaço para mostrar a mesma face da moeda sob diferentes prismas. E preenchendo uma parcela (ainda pequena) desse espaço estamos nós, blogueiras feministas.

Particularmente sobre o episódio da USP, é assustador ver como polarizaram a discussão em “maconheiros preguiçosos” vs “policiais trabalhadores”. Baderneiros preguiçosos é a alcunha que muitos uspianos usam para designar os estudantes da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), em clara contraposição a si mesmos, afinal, profissões na área de humanas não são consideradas trabalho por algumas pessoas. Nessa percepção maquiavélica, noto muito do que se tem na discussão de gêneros, onde a mulher é acusada por não ocupar majoritariamente os espaços das ciências exatas, como se essa fosse uma condição sine qua non para termos direito de requerer o grau de trabalhadoras liberadas, logo salários igualitários.

Mas, opondo-se a essa visão limitante dos fazeres humanos, recentemente, a QS Word University Ranking mostrou que nove cursos da USP aparecem entre os duzentos melhores do mundo e, calcule-se a trivialidade dos dados, seis dos nove são da FFLCH. Isso dá uma baita pista de que os alunos da FFLCH (vulgo “fefelechentos”), no que eu me incluo, não são os maconheiros desocupados, baderneiros ocasionais, que a mídia anda pintando. A comunidade USP, que é composta por cerca de 110 mil pessoas, na verdade, pode estar mais preocupada em discutir rumos para USP e sociedade do que em polemizar o uso da maconha. Para defender a legalização ou a criminalização do uso de maconha, temos outros mecanismos, que não a ocupação do espaço público estudantil. Logo, definir o movimento em termos de “maconheiros” vs “caretas” não reflete o tópico da questão. A apreensão dos três estudantes que portavam quantidade de usuário do entorpecente maconha parece ter sido apenas o estopim para deflagrar o problema da restrição da liberdade em uma das vinte e cinco autarquias do Estado de São Paulo. A polêmica não é e nunca foi se os estudantes teriam liberdade para usar entorpecentes, mas que tipo de policiamento o “pacto” do reitor estaria enfiando na USP. Na manhã do dia 08/11, terça-feira, tivemos uma amostra do desrespeito que esses policiais têm para com o cidadão, o estudante, o pesquisador, o intelectual da USP. Sim, somos tudo isso, mas parece que ninguém mais leva em consideração os anos de estudo que dedicamos apenas para conseguir passar pelo vestibular e, em seguida, para passar pela graduação, e assim sucessivamente. A maioria de nós não é marginal. Um criminoso não estaria ali, expondo-se à prisão, para vender meia dúzia de baseado. Quem saiu minimamente do Neverland sabe que não é o traficante que vai atrás do usuário, ainda mais se o usuário estiver em um espaço cercado por policiais, câmeras de televisão e todo o circo que vimos ser armado.

Precisava armar dessa forma cerca de 400 policiais?

Muitos perguntaram a razão de os manifestantes cobrirem o rosto. Não precisa divagar muito para saber que só se encobre a identidade sob duas hipóteses: (1) Quando se sabe que se está infringindo leis; (2) Quando se teme represálias por quaisquer atos cometidos. Essa manifestação poderia ser enquadrada, e foi, como um ato de delito, sujeito, inclusive, à prisão. E, de fato, todos os envolvidos temiam a represália que viriam a sofrer, dentre elas a jubilação. Deve-se entender que não é porque a pessoa está lutando por um ideal social, que ela deverá se sacrificar ao ponto de ser presa e expulsa da universidade. Por que temer mostrar o rosto não foi mais um indício de que nossa liberdade estava cerceada ao extremo? Talvez, seja a hora de nos perguntarmos o que aconteceu nesse caminho para associarmos o medo dos estudantes ao crime dos estudantes. Ninguém ali matou, roubou ou, sequer, destruiu o patrimônio público. Por falar no evocado patrimônio público, por que ele seria mais importante do que o patrimônio cultural? Por que os abusos policiais seriam menos graves do que um estudante escrever em uma parede? A resposta é simples. Isso ocorre porque a parede interessa ao outro, que a contempla. A pessoa humilhada, por outro lado, só interessa a ela mesma. É essa a lógica mesquinha que vive enfatizando o patrimônio público.

Imagem de Guilherme Minoti - Crítica à sociedade do espetáculo

O público é a sociedade e a sociedade deveria estar na universidade, ambas trabalhando em contiguidade. Quando se estabeleceu os modelos de universidades públicas no Brasil, tinha-se em mente um espaço urbanístico capaz de abrigar o entorno da universidade, o que seria justo, afinal se todos pagamos para mantê-la, todos deveríamos poder usufruir de seus recursos. Essa ideia não é só “politicamente correta”, mas funcional. Se mais pessoas ocupassem a USP, haveria maior pressão para que as vias fossem melhor iluminadas. Com mais pessoas em atividade, isso poderia coibir assaltos e violências. Enfim, teríamos uma cadeia favorável a todos. A todos, não, a alguns. Porque a política dos reitores mais recentes caminhou, justamente, em sentido oposto, isto é, restringiu a apropriação da universidade pela sociedade. Mas e a PM (polícia militar), onde é que ela (não) entra?

Imagem de Guilherme Minoti - Os estudantes representam perigo a quem?

Quando dizemos que a universidade, para ser verdadeiramente pública, deve estar aberta à sociedade e, ao mesmo tempo, um movimento sinaliza que a PM é prejudicial ao bom andamento da dinâmica universitária, isso pode soar paradoxal. Ou seja, alguns uspianos (usamos o “alguns” porque, como é saudável a toda discussão, nessa, também, há divergências de opinião, então enfoco uma parte da comunidade uspiana, a que é favorável à retirada da PM dos campi) querem se integrar à sociedade, mas não querem estar sob os mesmos instrumentos de “proteção” que servem para regimentar a sociedade. Então, grat@ contribuinte, acredito que é chegado o momento de ampliarmos essa discussão. Afinal, que PM é essa que mais assusta do que protege?

Proponho que iniciemos essa discussão sem partirmos de estereótipos. Os policiais não constituem uma massa homogênea nem de abnegados trabalhadores do bem, tampouco de corruptos, carniceiros. Eles são tão humanos quanto nós, estudantes da USP. Recebem um salário baixo para se submeterem a toda sorte de infortúnios e, pelo bem ou pelo mal, não tomaram a USP porque não tinham nada de mais emocionante a fazer. A troca de choque e os helicópteros apareceram, às 5h (não às 17h), no campus Butantã da USP por mandado de alguém e, certamente, trata-se de alguém bem mais poderoso do que eu, do que a comunidade USP, do que a comunidade que cerca a USP. Sendo assim, pergunto-me se há, de fato, fronteiras intransponíveis entre a universidade e a sociedade. Quem as ergue(u) e a quem interessa mantê-las?