CPBR9: militância feminista e a participação das mulheres em eventos nerds

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

O primeiro Campus Party que eu fui foi em 2009, um ano depois de ter me formado, quando estava começando a participar de eventos de tecnologia. Lembro que fiquei deslumbrada pelo tamanho do evento, pela diversidade de termas e por uma infinidade de fatores que até hoje não sei se consigo descrever completamente.

Eu achava simplesmente mágico sair da minha bancada da área de software livre, ver um monte de gabinetes customizados por todos os lados, me distrair com um helicóptero controlado por controle remoto construído ali, bater papo com o pessoal de imagem e som e depois ainda tentar lugar na fila pra jogar rock band. Enquanto isso ouvia notícias sobre um grupo que ia usar telescópios para observar algum fenômeno astronômico que ia acontecer naquele dia. Resumindo: prato cheio para qualquer pessoa nerd de diversas áreas.

Esse evento também é conhecido pela grande quantidade de patrocinadores e anunciantes que distribuem brindes e aproveitam para fazer propaganda focada nesse público. E daí que estava eu caminhando em algum momento e vi duas mulheres vestidas de coelhinhas da Playboy. Por um segundo eu parei e fiquei observando, me perguntei se tinha alguma novidade tecnológica envolvendo o site deles, se tinha algum algo nerd relacionando que eu não tava sabendo, e finalmente me liguei: a maioria esmagadora dos participantes eram homens. E seguindo a lógica heteronormativa alguém achou que fazia muito sentido fazer propaganda de uma revista de nus femininos em um evento nerd. Tinha outra revista que eu não lembro fazendo o mesmo, e é claro muitos homens saiam babando e assediando as mulheres que estavam fazendo propaganda da revista.

Nessa época ainda não estava envolvida na militância feminista, mas mesmo assim era bastante visível a assimetria na participação: faltavam mulheres palestrando, as poucas participantes na maioria das vezes estavam com namorados, e enquanto isso existiam várias mulheres expondo produtos. Como não estava acompanhada fui abordada diversas vezes como se fosse algum tipo de monstro alienígena que se materializou ali. A sentença estava dada: eu estava sozinha enquanto mulher e amante da tecnologia.

Depois de passar por outras situações constrangedoras em outros eventos de tecnologia resolvi me afastar, só fui tomar coragem novamente em 2012 para voltar a Campus Party. Já fazia parte do Blogueiras Feministas, fui apresentada a outras minas nerds incríveis e sabia que não éramos um grupo pequeno, apenas compartilhávamos dos mesmos desconfortos. Nesse evento a participação das mulheres tanto enquanto palestrantes como participantes já tinha aumentado significativamente os temas se voltaram muito para que acontecia na internet também. Pude acompanhar uma mesa redonda sobre feminismo na rede e uma palestra sobre a importância de incentivar pessoas a contribuir e a participar de comunidades de software livre por uma das pouquíssimas mulheres a palestrar numa das áreas voltadas à desenvolvimento. Luciana Fuji, que inclusive encontrei nessa edição de 2016 e ao comentar que existiam várias mesas do tipo desabafou: Agora posso falar do que eu realmente gosto: Software Livre!

Nos anos seguintes um conjunto de fatores diversos me afastaram da campus, mas este ano finalmente pude participar novamente. E tomei um susto, no bom sentido. Haviam tantas mulheres palestrando que eu tive que delimitar os temas das palestras que eu ia acompanhar para aquelas que se voltavam mais a participação e representação das mulheres e o feminismo e não eram poucas! A quantidade de mulheres e meninas participando era bastante grande também. Sempre que sentava numa bancada achando que ia acabar sendo a única mulher ali, logo mais sentavam duas, três. Parece que houve uma diminuição na quantidade de patrocinadores, mas o resultado positivo é que também não havia tantas mulheres sendo objetificadas para apresentar produtos. Gostaria de ter em maiores detalhes os números comprovando minhas impressões, mas a organização do evento não me passou quando solicitei.

Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira
Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira

Nas palestras que acompanhei houve uma grande diversidade de temas, projetos, iniciativas voltadas para a participação de mulheres e, mais importante, em muitos momentos se levantava a necessidade de focar em outras regiões do país, em mulheres negras, periféricas, lésbicas, bissexuais, transexuais. Das que não pude acompanhar tinham iniciativas focadas na participação de crianças na tecnologia, sobre maternidade nerd e também nas necessidades de pessoas com deficiência.

Mas claro nem tudo são flores. Além de diversos problemas de infra-estrutura que vêm desde o primeiro evento que participei que envolvem banheiros distantes, comida cara e nada saudável, e palcos mal planejados e mal distribuídos (por terem uma distribuição confusa e estarem muito próximos o som de uma palestra acaba invadindo o espaço da outra), ainda teve uma restrição nova que impedia de levar comida para dentro do evento que levou a uma situação bem absurda com uma das palestrantes que estava tentando comprar comida para seu bebê.

Outro grande problema foi com relação a distribuição das palestras que envolviam os temas que eu buscava, muitas delas ficavam em horários absurdos no meio da madrugada, o que dificultava a participação de quem não estava acampando no evento (já que algumas palestras começavam depois da meia noite e o ultimo ônibus para o metro funcionava até as 22h). Além de geralmente ficarem em espaços menores e de menor visibilidade. Parece inclusive que algumas não tiveram transmissão por streaming por conta do horário que aconteceram. Em um ambiente tão hostil para as mulheres e outras minorias como um evento de tecnologia, palestras que debatem violência contra as mulheres deveriam ter lugar de destaque.

Pelo menos, apesar dessas limitações, a maioria das palestras e oficinas que fui tinham uma participação razoável. Com destaque a uma oficina para criação de personagens mais diversos para games ministrada por Rebeca Puig e Alice Mattosinho que foi bastante concorrida, tendo inclusive uma grande quantidade de homens participando. E também da palestra da Thaisa Storchi Bergmann, uma astrofísica brasileira que falou sobre buracos negros, que esteve no palco principal e estava completamente lotada.

Outro ponto a se observar é a heterogeneidade do posicionamento com relação ao feminismo por parte das palestrantes. Algumas não titubearam em se declarar feministas, outras tiveram muitas reservas quando questionadas, outras ainda diziam que não tinham muito interesse pela militância, ainda que seus projetos fossem claramente feministas. Dessa forma é possível perceber que temos muito ainda o que caminhar com relação a conscientização das mulheres com relação a necessidade de combatermos o machismo. Mas o começo já estamos fazendo: estamos nos organizando e nos apoiando e assim ganhando espaço e visibilidade.

Abaixo segue a lista das palestras que participei com alguns links dos respectivos projetos e iniciativas e links que tratam da participação de mulheres na tecnologia:

27-01

17:30
Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games

18:30
A representação da mulher na cultura pop
links:  MinasNerds, Collant sem decote, Who’s Geek, Think Olga

23:00
PyLadies Brasil: Projetos e Experiências das comunidades brasileiras
link: PyLadies

28-01

10:30
Quebrando estereótipos: Aprenda a criar de personagens para games
link: Collant sem decote

14:30
Empreendedorismo feminino na geração Y
link: Jogo de damas

15:30
Hackerspaces feministas: reduzindo a desigualdade de gênero na tecnologia
link: MariaLab Hackerspace

21:15
Ativismo feminista em redes
links: Casa de lua, Minas Programam, KD Mulheres

23:00
Robótica: Uma forma lúdica de atrair meninas para a tecnologia
link: /MNT (Mulheres na Tecnologia)

29-01

00:00
Estimulando a participação feminina no Mercado de TI
link: CODE GIRL

11:45
Empatia e Ética nos Games
link: MinasNerds

14:30
O mundo real de volta ao relacionamento online

23:00
Garotas CPBr | O que fazer para permanecer firme no caminho das ciências exatas
Link da mesa no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FFA5xoyD47Q
link: Garotas CPBr

30-01

01:00
Garotas CPBr: A influência da Tecnologia em cada faixa etária
links: Garotas CPBr, /MNT (Mulheres na Tecnologia), Mulheres, Tecnologia e Oportunidades, Mulheres na computação

11:45
Delas pra elas: tecnologia e segurança. Sai pra Lá e ONU mulheres.
links: Onu Mulheres, Sai pra lá

13:00
Buracos Negros Supermassivos e seu papel na Evolução do Universo
link: Para mulheres na ciência

16:30
O Software Livre como ferramenta para a inclusão de mulheres na tecnologia
link: Mulheres, Tecnologia e Oportunidades

E mais iniciativas que estiveram presentes que não pude acompanhar (se faltarem mais por favor postem nos comentários):
Meninas também Jogam, Rails Girls, PAC MãePrograMariaWomen Up Games

+ Sobre o assunto:

[+] Atena Haus na Campus Party 2016 – #SerMulherEmTech

[+] ATENA HAUS Entrevista: Deb Xavier na Campus Party 

[+] Campus Party: projeto busca inclusão de mulheres nas áreas tecnológicas por Larissa Santos

[+] Campus Party: aos 11, programadora dá dicas de computação para crianças por Larissa Santos

[+] Carta de repúdio a suposta “brincadeira” no palco da Campus Party 2015 por Blogueiras Feministas

[+] Mulheres na Campus Party: assumir o feminismo ou não? por Nessa Guedes

Marcha Nacional das Mulheres Negras 2015

Amanhã, 18 de novembro de 2015, acontecerá a 1° Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília/DF.

O roteiro previsto é:
09h – Concentração Ginásio Nilson Nelson – SRPN Trecho 1, Brasília – DF;
10h – Ato de Abertura e Saída. Percurso no Eixo Monumental pela faixa direita até a Praça dos Três Poderes;
14h – Ato de encerramento da Marcha e apresentações culturais.

Em apoio ao movimento, republicamos o manifesto do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015.

 

Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.

Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.

A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.

Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.

Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.

Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.

Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.

Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.

Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .

Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.

Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.

Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.

Estamos em Marcha:

  • pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
  • pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
  • pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
  • pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
  • pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
  • pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
  • pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
  • pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
  • pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 18 de novembro de 2015 dentre as atividades do Mês da Consciência Negra.

Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

ESTAMOS EM MARCHA !

“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!”

Brasil, 25 de Julho de 2014.

Virada Política: pensando sobre educação, adolescentes e feminismo

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

No fim de semana, aconteceu em São Paulo a Virada Política, quando pessoas, coletivos e instituições se juntaram para falar da política que vai mais além da partidária e que pode ser feita de várias formas por todos nós, em nosso cotidiano.

Estive lá junto com Martha Lopes, companheira da Casa de Lua, coordenando um bate-papo sobre Gênero na Educação. Contamos das nossas andanças por escolas, públicas e particulares, conversando com alunas adolescentes que estão se organizando em coletivos feministas ou na perspectiva do feminismo. Até já falei melhor sobre isso nos textos: ‘Assédio, cultura do estupro e adolescentes feministas’ e ‘Mulheres nos espaços dos homens: protestos e adolescentes feministas’.

Virada Política. São Paulo, novembro de 2015. Foto de Vanessa Rodrigues.
Virada Política. São Paulo, novembro de 2015. Foto de Vanessa Rodrigues.

A sala encheu e fiquei gratamente surpresa com a interação e o interesse das pessoas no assunto. Realmente acredito que muito dessa vontade veio por causa dos últimos dias, quando o feminismo ficou em evidência na mídia e, principalmente, nas redes sociais. Das diversas trocas que tivemos, alguns pontos foram bem instigantes e vieram ao encontro das minhas reflexões, ainda sem respostas: como os pais estão lidando com o envolvimento de suas filhas nas pautas feministas? Como os meninos, colegas, amigos, namorados, se inserem nessa ofensiva das adolescentes? É possível envolvê-los no ativismo? Como seriam essas ações?

Enquanto pensava, ia buscando inputs que pudessem nos ajudar na roda de conversa a encontrar algumas compreensões, ao menos. Sobre os pais, por exemplo, posso especular muito mais pela convivência com outros pais que com informações colhidas nas escolas. Eu mesma sou mãe de dois meninos, sendo que o mais velho tem 14 anos. Com quem converso, vejo nessa geração que está entre os 40 e 50 anos, em sua maioria com filhos adolescentes, muita admiração por um lado e bastante preocupação pelo outro. Eles até querem filhas empoderadas, independentes, atuantes. Ou mesmo filhos mais sensíveis e respeitosos com suas colegas, amigas, irmãs, primas e namoradas. Mas, esse desejo esbarra muito nas questões que envolvem sexualidade.

A preocupação com a violência sexual e o revenge porn se mistura bastante com as preocupações relacionadas a seus próprios preconceitos com orientação sexual. E também se confundem com a questão da identidade de gênero. Martha destacou que a sensação que tem às vezes é que as escolas estão menos preparadas para lidar com os pais do que com os próprios alunos. Os pais acabam sendo o problema, porque nesse caldeirão todos estão confusos. Já vi amigos progressistas com algumas fortes restrições sobre a quantidade de namorados ou namoradas da filha, ou sobre o tamanho de suas roupas, ou sobre certas tentativas de desconstruções de masculinidades dos filhos, como usar saia, por exemplo.

A questão é que tudo isso está sendo posto, né? Ou eles correm atrás de informação, de compreensão e de conversa com suas filhas, cada vez mais contestadoras, ou vão continuar sem entender muita coisa, reproduzindo comportamentos machistas e repressores. E educando seus filhos homens assim. Reitero que falo do meu círculo de convívio, que não é necessariamente o reflexo de alguma tendência.

De qualquer maneira, tudo isso acabou me lembrando de um dos relatos que ouvi numa escola pública de Parelheiros, quando Jéssica, de 16 anos, que está consolidando o grêmio em sua escola junto com outras 5 colegas da mesma idade, nos contou que a irmã mais velha viu seu nome pichado em tudo quanto é muro da região chamando-a de vadia. Seu pai foi o primeiro a apoiá-la, acolhê-la e a propor um mutirão de limpeza das paredes. O contrário de várias outras histórias que soubemos ou lemos, de famílias que reiteram a violência contra a menina que entra numa lista Top 10 Vadias, castigando-a ou acusando-a de provocar a situação. Empatia sendo aplicada em casa pode fazer bastante diferença.

Sobre os meninos, fiquei pensando muito na maneira como esses coletivos que conheci estão se configurando. Numa das escolas particulares que estive, o coletivo é formado por meninos também. Nessa de Parelheiros, também ouvi de Jéssica que ela quer os meninos nos assuntos de gênero, destacando que gostaria muito de realizar uma roda de conversa sobre redução da maioridade penal, porque ela também acredita que falar de gênero é falar desse assunto, já que impacta especialmente a vida de adolescentes homens, pobres e negros. A maioria de seus colegas, portanto.

Ou seja, ao menos nesses há interesse em envolvê-los no ativismo que elas estão tentando consolidar. Talvez, elas e eles, juntos, vão encontrando suas próprias respostas e caminhos de atuação.

Nós, na Casa de Lua, sempre conversamos sobre realizar projetos ou ações específicas para meninos, crianças e/ou adolescentes, justamente pra falar de gênero. Pra falar sobre o quanto o patriarcado tem impacto sobre eles, suas vivências, experimentações, desejos, anseios, jeitos de se relacionar com o mundo, de se relacionar entre eles e, principalmente, com as meninas. E também pra falar sobre seus privilégios, inclusive pra que eles não tenham que fazer meas culpas superficiais, equivocados e patéticos (e oportunistas?) no futuro. No final, acabamos postergando, pelo tanto de pauta que precisamos fortalecer entre a gente mesmo.

No entanto, essas indagações que surgiram na roda de conversa na Virada Política me trouxeram muitas dessas reflexões à tona outra vez. Sem resposta, joguei para o grupo que estava lá e jogo agora para o universo: o que poderíamos fazer? Como fazer?

Uma das pessoas levantou um assunto concreto que se poderia trabalhar na escola: gravidez na adolescência e aborto. Em Parelheiros, por exemplo, notei só de observar que a maioria dos alunos daquele turno que estávamos (noturno, do ensino médio) eram meninos. Já prevendo a resposta, mas querendo confirmar, perguntei se minha percepção estava correta, coisa que assentiram, e se isso se relacionaria com gravidez na adolescência, que também confirmaram. Falamos sobre o quanto a vida da menina é bem mais afetada, com ela sendo hostilizada na escola, com o menino evadindo de sua responsabilidade e sendo poupado pela família e pelos colegas da “culpa” daquela gravidez, que acaba recaindo 100% sobre a menina.

Aliás, sobre esse assunto, ouvi também algo que me deixou atônita: muitas delas me disseram que não podem ter nenhum mal estar físico na sala de aula porque há professores que as “acusam” de estar grávidas, demonstrando desrespeito, preconceito e uma vontade cruel de constrangê-las na frente dos colegas. É como se, para essas pessoas, seus “educadores”, a narrativa dessas meninas estivesse dada: aos 15/16 anos o destino delas será engravidar e sair da escola. E diante dessa constatação, parece que nada se pode fazer. Fico pensando no quanto essa postura desrespeitosa por parte de alguns professores reitera sexismo e machismo. E, principalmente, o quanto valida o clima hostil que se instala quando uma menina realmente aparece grávida.

Em algumas conversas em outras escolas, vi alunos preocupados com a expressão “feminista” sugerindo trocar por “humanista”. Vi a necessidade de expressar facilmente seu tédio e desprezo pelo que se estava discutindo (alguns fizeram questão de bocejar alto na nossa frente) e vi outros apelando pra zoeira. Confesso que esses eu até curti, porque mesmo na zoeira eles interagiram. Quiseram conversar, reagir ou mesmo revidar, demonstrando seus incômodos com algumas colocações que podem mesmo ser interpretadas como acusações pessoais a eles, mas ao menos indicaram estar atentos ao que estávamos falando.

Fico pensando que conversar é sempre um bom caminho inicial. O que os aflige? O que é ser adolescente, homem, principalmente nessa nova configuração que parece se estar se consolidando dentro de suas escolas e de suas relações? O que eles pensam sobre as demandas das colegas? O que eles pensam sobre assassinato de mulheres por seus namorados, companheiros e ex-companheiros? Por que isso acontece? O que eles pensam sobre listas de vadias, compartilhamento de fotos e vídeos íntimos ou, no extremo, estupros coletivos como soubemos que estão ocorrendo nos banheiros das escolas?

Por que isso parece divertido e permitido? O que, para eles, tem de confusão natural da idade, de construção cultural e de maldade? Como realizar uma conversa realmente potente quando os estímulos externos são tão ferozes, com supostos humoristas e personalidades das rede sociais com forte influência sobre eles, transformando tantas questões de violência contra mulher numa grande piada, por exemplo? Como desconstruir perversidades num contexto no qual ser perverso é cool?

Como é possível observar, as questões e as dúvidas são muitas. E, realmente, não tenho respostas para elas. Gostaria muito de ouvir mais sugestões e de conhecer experiências que já estejam acontecendo por aí envolvendo os meninos e mesmo os pais. Entrem em contato com a Casa de Lua pelo Facebook e vamos pensando sobre isso juntos.

[+] Campanha #PrimeiroAssédio expõe tabu de violência sexual contra meninos.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015: Pra Rua Vadiagem!

Texto da Coletiva temporária Marcha das Vadias Rio de Janeiro 2015.

PRA RUA VADIAGEM!

Com esse grito, a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro tomou as ruas de Copacabana em 2014, lembrando a quem ouvia que lugar de mulher é onde ela quiser e que se o corpo é da mulher, ela faz o que quiser.

Esse ano, a Marcha acontece no sábado, dia 14 de Novembro com concentração a partir de 14:00 no Posto 4 da praia de Copacabana e caminha em direção ao Leme. A previsão era acontecer no dia 08/11, mas devido a previsão de chuva optaram pelo adiamento.

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Trazemos como tema uma retrospectiva do que foi a construção da marcha em seus cinco anos colocando a vadiagem na rua. Falamos sobre a descriminalização do aborto, do combate à cultura de estupro, do acesso a partos sem violência, do reconhecimento da identidade de pessoas trans, da regulamentação da prostituição e da liberdade de transar e amar a quem se quer.

Temos marcado em nossas vidas que ser mulher é resistir — o tempo todo. Somos chamadas de “vadias” porque vivemos numa sociedade machista, racista e centrada na cisgeneridade e na heterossexualidade, que quer controlar a forma como nos vestimos, nos comportamos e até por quem sentimos desejo e a quem amamos.

Ouvimos diariamente que temos que ser “vadias na cama e damas em sociedade”, que “tudo bem ser lésbica, bissexual ou gay, mas não precisa sair na rua de mãos dadas com alguém do mesmo sexo”, que “tudo bem ser trans, desde que seja uma pessoa discreta”. Nos posicionamos contra esse controle e reivindicamos nosso direito à vadiagem pública, que entendemos como nosso direito a viver como queremos. Nos apropriamos e ressignificados o termo “vadias” porque temos direito de ser e de andar como a gente quiser.

Passamos atualmente por tempos difíceis em que absurdos do conservadorismo tem sido ditos sem modéstia alguma e nós, mulheres, continuamos sendo um dos principais alvos.

Em outubro deste ano, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou Projeto de Lei 5.069/2013, de autoria do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Esse projeto pode dificultar o acesso a pílula do dia seguinte. impõe medidas que dificultam o acesso ao aborto por mulheres que foram vítimas de estupro, fere princípios da dignidade humana da mulher e nos coloca, mais uma vez, sob crivo da autoridade policial e do judiciário para que se comprove a nossa inocência por um crime do qual somos vítimas. Uma semana depois, mais de três mil mulheres tomaram as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro em protesto ao projeto, pela legalização do aborto e exigindo a saída de Eduardo Cunha: #PilulaFica #CunhaSai.

Está mais do que evidente a necessidade de nos unirmos em uma frente contra o conservadorismo que busca regular nossos corpos e nossas vidas. Por esse motivo mais uma vez vamos às ruas e convocamos todas as pessoas a colocarem suas vadiagens no espaço público conosco. Contra o conservadorismo, contra as imposições do Estado e das religiões em nossos corpos.

Nenhuma mulher merece ser estuprada!

Eu beijo homem, beijo mulher, tenho direito de beijar quem eu quiser!

Eu sou um homem com ou sem pau, quero respeito ao meu nome social!

Meu corpo é laico!

Meu cu é laico!

Se o corpo é da mulher ela dá pra quem quiser!

Sou travesti e sou normal, eu sou mulher de peito e pau!

Se o papa fosse mulher o aborto seria legal e seguro!

Não deixe de lutar por um orgasmo livre, coletivo e popular!

VEM GENTE!!!!

+ Informações: página do Evento no Facebook.

Minas Programam: uma ofensiva contra o assédio, agressões e o sexismo

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Nos últimos dias, sites e perfis feministas vêm sofrendo vários ataques e vendo suas páginas no Facebook derrubadas, numa contra-ofensiva machista e misógina que parece muito bem organizada e elaborada.

Uma página fake foi criada em nome da feminista Lola Aronovich, atribuindo a ela declarações mentirosas e falaciosas, invadindo, inclusive, sua vida pessoal e profissional. O perfil da ativista Stephanie Ribeiro foi derrubado e continua sendo atacado após ela denunciar racismo e machismo no Facebook. A jornalista Maria Júlia Coutinho e a atriz Taís Araújo foram vítimas de violentos ataques racistas. A página da youtuber Jout Jout ficou fora do ar por alguns dias por causa de denúncias que surgiram depois da viralização de seu vídeo “Vamos fazer um escândalo”, falando de assédio sexual. E a página “Feminismo Sem Demagogia” continua fora do ar.

Aliás, quando a página de Jout Jout foi reestabelecida, a administração do Facebook emitiu uma nota se desculpando e reconhecendo que houve um “erro de avaliação” da denúncia. Espero que esses ataques possam confrontar a própria política do Facebook, que tem adotado práticas aparentemente misóginas na avaliação de conteúdos, páginas e perfis feministas.

Além de representar uma orquestrada contra-ofensiva frente à relevância que o feminismo andou recebendo ultimamente, esses ataques demonstram o quando a web pode ser hostil para as mulheres. Hostilidade e violência que parecem ter atingido seus mais altos decibéis nos últimos dias, aliás.

Provavelmente, porque em resposta ao assédio brutal sofrido pela jovem participante de apenas 12 anos do MasterChef Júnior, a hashtag #PrimeiroAssedio teve mais de 80 mil tuites com relatos que escancaram o quanto o assedio sexual é violento e precisa ser combatido no Brasil. Ou porque questões de forte viés feminista foram parar no ENEM 2015. Ou mesmo porque milhares de mulheres saíram às ruas pela garantia de seus direitos reprodutivos e pedindo “Fora,Cunha!”.

O caso é que, constatando o quanto a web é animosa com a gente e o quanto nos vimos alijadas na construção dos progressos tecnológicos, mais cursos, oficinas e ações estão sendo desenvolvidos para estimular a participação de mulheres nas áreas de tecnologia e exatas. O Fundo Social Ellas, por exemplo, acabou de encerrar as inscrições para um edital de financiamento de projetos que estimulam alunas do ensino médio a se interessar justamente por essas áreas.

Em meio a diversas ações, as ativistas Bárbara Paes, Ariane Cor e Fernanda Balbino criaram o projeto “Minas Programam”, para ensinar a meninas e mulheres conhecimentos básicos de programação, envolvendo também questões de segurança, privacidade e ativismo.

rodadahacker_novembro

O curso, com custo baixo, começou em outubro na ONG feminista Casa de Lua (SP) e conta com 30 alunas, que passaram por um processo de seleção que privilegiou, por exemplo, menor condição financeira para pagar pelo curso, residência (moradoras de bairros periféricos foram priorizadas), maior número de filhos, deficiência física e envolvimento com ativismo.

Durante todos os dias de aula, a Casa de Lua também está aberta para estudos livres e reuniões para qualquer mulher que queira aprender a programar. O valor da inscrição foi de R$30,00 para a turma iniciante e de R$50 a R$100,00 para a turma de tutoria. Foram selecionadas também seis garotas para participarem com isenção de taxa de inscrição. Toda a verba arrecadada foi destinada à Casa de Lua.

Em recente entrevista sobre o projeto, Bárbara afirma: “muita gente que pensa igualdade de gênero em tecnologia, por exemplo, já apontou que se as redes sociais tivessem sido pensadas com e por mulheres, problemas de segurança e de assédio teriam sido previstos”. Bárbara destaca, ainda, que pensar no setor de tecnologia é lembrar que a programação é importante na forma como o mundo se estrutura e de como criamos soluções para os problemas da sociedade: “Isso significa que enquanto as mulheres não estiverem mais presentes no setor de tecnologia, nossas ideias, nossas preocupações e nossas soluções estarão menos representadas”.

Na mesma entrevista, Fernanda cita dados que exemplificam bastante essa realidade: dos 1.683 engenheiros da computação formados em 2010, apenas 161 eram mulheres, segundo o Inep (9,5%). Dos 7.339 formados em Ciências da Computação no mesmo ano, 1.091 eram programadoras (14.8%). Em 2015, de um total de 330 ingressantes dos cursos de Computação da USP, apenas 38 eram mulheres (11.5%). Dos 300 mil profissionais registrados no CREA-SP (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia de SP), apenas 49 mil são mulheres (16.3%). A participação das mulheres na Ciência da Computação caiu de quase 37%, em meados dos anos 80, para 17% atualmente (20%).

E, mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, há homens que ainda não acreditam que o problema é real. No artigo ‘Mesmo com fortes evidências de sexismo nas áreas de exatas, homens ainda não acreditam que o problema é real’, a pesquisadora americana Laurel Raymond conta que ao serem confrontados com evidências empíricas que apontam tendências sexistas contra mulheres nas áreas de exatas, os homens dificilmente acham que os estudos são convincentes ou importantes.

O projeto “Minas Programam”, que já vinha sendo gestado nas redes socais, se concretizou mesmo em agosto desse ano, quando Bárbara, Ariane e Fernanda realizaram na Casa de Lua uma roda de conversa com várias mulheres de tecnologia. O evento contou com referências como as especialistas: Camila Achutti, Bárbara Castro, Haydeé Svab, Carolina Stary, destacando também o quanto a representatividade é importante. É preciso visibilizar as mulheres que trabalham na área para que sirvam de inspiração para outras.

Nesse encontro, Haydeé chamou atenção para o fato de que no começo dos cursos de tecnologia no Brasil, a procura era paritária, havendo equilíbrio entre homens e mulheres nas salas de aula: “Foi quando o mercado começou a crescer, movimentando mais e mais dinheiro, que o ambiente foi ficando cada vez mais agressivo pra gente, até que fomos escasseando e até sumindo dos cursos. Porque, claro, tudo aquilo que pode gerar independência financeira para mulheres, não interessa ao patriarcado”.

Para quem quiser conhecer o projeto, durante os dias 6, 7 e 8 de novembro, o “Minas Programam” e a Casa de Lua se juntam a Olabi, organização que tem como foco a apropriação de novas tecnologias, e várias outras instituições para a realização das RodAdas Hacker, em diferentes pontos da cidade, durante a São Paulo Tech Week. As oficinas desta RodAda são gratuitas e para participar em uma delas é necessário se inscrever em: http://rodadahacker.org/participe.

A RodAda Hacker é uma rede que se baseia em oficinas de programação especialmente desenhadas para meninas e mulheres e surgiu em 2012, quando a ciberativista Daniela Silva (também uma das fundadoras da Casa de Lua) constatou que existem poucas mulheres atuando nas atividades técnicas ligadas à internet, como engenharia ou programação. O nome do evento é uma homenagem a Ada Lovelace, matemática e escritora, conhecida como a primeira programadora da história.

Segue a programação:

Dias, locais e horários das RodAdas Hacker:

● Dia 06/11 – CEU Parelheiros – 9h às 12h – endereço: Rua José Pedro de Borba, 20 – Jardim Novo Parelheiros.

● Dia 07/11 – Casa de Lua – 9h às 17h – endereço: Rua Engenheiro Francisco Azevedo, 216 – próximo ao metrô Vila Madalena.

● Dia 07/11 – LabHacker – 9h às 17h – endereço: Rua Alfredo Maia, 506 – Luz – próximo ao metrô Armênia.

● Dia 07/11 – RedBull Station – 10h às 18h – Praça da Bandeira, 137 – Centro.

● Dia 08/11 – Preto Café – 9h às 17h – endereço: Rua Simão Álvares, 781 – Pinheiros.

● Dia 08/11 – Fábricas de Cultura – 9h às 17h – endereço: Rua Antônio Ramos Rosa, 651 – Jardim São Luís.

Informações atualizadas na página do evento no Facebook.

+Sobre o assunto:

[+] A internet odeia as mulheres e ninguém vê problema nisso. Por Juliana de Faria e Luise Bello.

[+] Jovem usa dinheiro de viagem de formatura para lançar app antiassédio.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.