Mulheres e quadrinhos: 2º Encontro Lady’s Comics

Desde 2010, o coletivo Lady’s Comics promove as mulheres nos quadrinhos. Não apenas personagens femininas, mas muitas mulheres que produzem na área.

Em 2014, organizaram por meio de financiamento coletivo seu primeiro encontro nacional com o tema: transgredindo a representação feminina nos quadrinhos. Em 2015, criaram o Banco de Mulheres Quadrinistas, o BAMQ!. Um espaço online que permite o cadastro de artistas, compondo um banco de dados. Por meio do BAMQ! é possível pesquisar de acordo com função, nome da artista, assinatura, cidade e estado. O projeto contempla não só quadrinistas, mas toda as artistas que trabalham na área: arte-finalistas, chargistas, coloristas, letristas e roteiristas.

Agora, elas partem para encontrar um público mais amplo, com apoio do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos, no 2° Encontro Lady’s Comics. Porém, o objetivo continua, criar material e memória que se aprofunde na questão do gênero nos quadrinhos, bem como a representação feminina e o atual mercado para as mulheres que trabalham na área.

Para saber mais, batemos um papo com duas das Lady’s Comics: Mariamma Fonseca e Samara Horta.

Continue lendo “Mulheres e quadrinhos: 2º Encontro Lady’s Comics”

CPBR9: militância feminista e a participação das mulheres em eventos nerds

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

O primeiro Campus Party que eu fui foi em 2009, um ano depois de ter me formado, quando estava começando a participar de eventos de tecnologia. Lembro que fiquei deslumbrada pelo tamanho do evento, pela diversidade de termas e por uma infinidade de fatores que até hoje não sei se consigo descrever completamente.

Eu achava simplesmente mágico sair da minha bancada da área de software livre, ver um monte de gabinetes customizados por todos os lados, me distrair com um helicóptero controlado por controle remoto construído ali, bater papo com o pessoal de imagem e som e depois ainda tentar lugar na fila pra jogar rock band. Enquanto isso ouvia notícias sobre um grupo que ia usar telescópios para observar algum fenômeno astronômico que ia acontecer naquele dia. Resumindo: prato cheio para qualquer pessoa nerd de diversas áreas.

Esse evento também é conhecido pela grande quantidade de patrocinadores e anunciantes que distribuem brindes e aproveitam para fazer propaganda focada nesse público. E daí que estava eu caminhando em algum momento e vi duas mulheres vestidas de coelhinhas da Playboy. Por um segundo eu parei e fiquei observando, me perguntei se tinha alguma novidade tecnológica envolvendo o site deles, se tinha algum algo nerd relacionando que eu não tava sabendo, e finalmente me liguei: a maioria esmagadora dos participantes eram homens. E seguindo a lógica heteronormativa alguém achou que fazia muito sentido fazer propaganda de uma revista de nus femininos em um evento nerd. Tinha outra revista que eu não lembro fazendo o mesmo, e é claro muitos homens saiam babando e assediando as mulheres que estavam fazendo propaganda da revista.

Nessa época ainda não estava envolvida na militância feminista, mas mesmo assim era bastante visível a assimetria na participação: faltavam mulheres palestrando, as poucas participantes na maioria das vezes estavam com namorados, e enquanto isso existiam várias mulheres expondo produtos. Como não estava acompanhada fui abordada diversas vezes como se fosse algum tipo de monstro alienígena que se materializou ali. A sentença estava dada: eu estava sozinha enquanto mulher e amante da tecnologia.

Depois de passar por outras situações constrangedoras em outros eventos de tecnologia resolvi me afastar, só fui tomar coragem novamente em 2012 para voltar a Campus Party. Já fazia parte do Blogueiras Feministas, fui apresentada a outras minas nerds incríveis e sabia que não éramos um grupo pequeno, apenas compartilhávamos dos mesmos desconfortos. Nesse evento a participação das mulheres tanto enquanto palestrantes como participantes já tinha aumentado significativamente os temas se voltaram muito para que acontecia na internet também. Pude acompanhar uma mesa redonda sobre feminismo na rede e uma palestra sobre a importância de incentivar pessoas a contribuir e a participar de comunidades de software livre por uma das pouquíssimas mulheres a palestrar numa das áreas voltadas à desenvolvimento. Luciana Fuji, que inclusive encontrei nessa edição de 2016 e ao comentar que existiam várias mesas do tipo desabafou: Agora posso falar do que eu realmente gosto: Software Livre!

Nos anos seguintes um conjunto de fatores diversos me afastaram da campus, mas este ano finalmente pude participar novamente. E tomei um susto, no bom sentido. Haviam tantas mulheres palestrando que eu tive que delimitar os temas das palestras que eu ia acompanhar para aquelas que se voltavam mais a participação e representação das mulheres e o feminismo e não eram poucas! A quantidade de mulheres e meninas participando era bastante grande também. Sempre que sentava numa bancada achando que ia acabar sendo a única mulher ali, logo mais sentavam duas, três. Parece que houve uma diminuição na quantidade de patrocinadores, mas o resultado positivo é que também não havia tantas mulheres sendo objetificadas para apresentar produtos. Gostaria de ter em maiores detalhes os números comprovando minhas impressões, mas a organização do evento não me passou quando solicitei.

Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira
Foto da mesa: Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games do Campos Party 2016. Foto retirada por Jussara Oliveira

Nas palestras que acompanhei houve uma grande diversidade de temas, projetos, iniciativas voltadas para a participação de mulheres e, mais importante, em muitos momentos se levantava a necessidade de focar em outras regiões do país, em mulheres negras, periféricas, lésbicas, bissexuais, transexuais. Das que não pude acompanhar tinham iniciativas focadas na participação de crianças na tecnologia, sobre maternidade nerd e também nas necessidades de pessoas com deficiência.

Mas claro nem tudo são flores. Além de diversos problemas de infra-estrutura que vêm desde o primeiro evento que participei que envolvem banheiros distantes, comida cara e nada saudável, e palcos mal planejados e mal distribuídos (por terem uma distribuição confusa e estarem muito próximos o som de uma palestra acaba invadindo o espaço da outra), ainda teve uma restrição nova que impedia de levar comida para dentro do evento que levou a uma situação bem absurda com uma das palestrantes que estava tentando comprar comida para seu bebê.

Outro grande problema foi com relação a distribuição das palestras que envolviam os temas que eu buscava, muitas delas ficavam em horários absurdos no meio da madrugada, o que dificultava a participação de quem não estava acampando no evento (já que algumas palestras começavam depois da meia noite e o ultimo ônibus para o metro funcionava até as 22h). Além de geralmente ficarem em espaços menores e de menor visibilidade. Parece inclusive que algumas não tiveram transmissão por streaming por conta do horário que aconteceram. Em um ambiente tão hostil para as mulheres e outras minorias como um evento de tecnologia, palestras que debatem violência contra as mulheres deveriam ter lugar de destaque.

Pelo menos, apesar dessas limitações, a maioria das palestras e oficinas que fui tinham uma participação razoável. Com destaque a uma oficina para criação de personagens mais diversos para games ministrada por Rebeca Puig e Alice Mattosinho que foi bastante concorrida, tendo inclusive uma grande quantidade de homens participando. E também da palestra da Thaisa Storchi Bergmann, uma astrofísica brasileira que falou sobre buracos negros, que esteve no palco principal e estava completamente lotada.

Outro ponto a se observar é a heterogeneidade do posicionamento com relação ao feminismo por parte das palestrantes. Algumas não titubearam em se declarar feministas, outras tiveram muitas reservas quando questionadas, outras ainda diziam que não tinham muito interesse pela militância, ainda que seus projetos fossem claramente feministas. Dessa forma é possível perceber que temos muito ainda o que caminhar com relação a conscientização das mulheres com relação a necessidade de combatermos o machismo. Mas o começo já estamos fazendo: estamos nos organizando e nos apoiando e assim ganhando espaço e visibilidade.

Abaixo segue a lista das palestras que participei com alguns links dos respectivos projetos e iniciativas e links que tratam da participação de mulheres na tecnologia:

27-01

17:30
Cyberbullying e violência contra mulheres na cultura pop e nos games

18:30
A representação da mulher na cultura pop
links:  MinasNerds, Collant sem decote, Who’s Geek, Think Olga

23:00
PyLadies Brasil: Projetos e Experiências das comunidades brasileiras
link: PyLadies

28-01

10:30
Quebrando estereótipos: Aprenda a criar de personagens para games
link: Collant sem decote

14:30
Empreendedorismo feminino na geração Y
link: Jogo de damas

15:30
Hackerspaces feministas: reduzindo a desigualdade de gênero na tecnologia
link: MariaLab Hackerspace

21:15
Ativismo feminista em redes
links: Casa de lua, Minas Programam, KD Mulheres

23:00
Robótica: Uma forma lúdica de atrair meninas para a tecnologia
link: /MNT (Mulheres na Tecnologia)

29-01

00:00
Estimulando a participação feminina no Mercado de TI
link: CODE GIRL

11:45
Empatia e Ética nos Games
link: MinasNerds

14:30
O mundo real de volta ao relacionamento online

23:00
Garotas CPBr | O que fazer para permanecer firme no caminho das ciências exatas
Link da mesa no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=FFA5xoyD47Q
link: Garotas CPBr

30-01

01:00
Garotas CPBr: A influência da Tecnologia em cada faixa etária
links: Garotas CPBr, /MNT (Mulheres na Tecnologia), Mulheres, Tecnologia e Oportunidades, Mulheres na computação

11:45
Delas pra elas: tecnologia e segurança. Sai pra Lá e ONU mulheres.
links: Onu Mulheres, Sai pra lá

13:00
Buracos Negros Supermassivos e seu papel na Evolução do Universo
link: Para mulheres na ciência

16:30
O Software Livre como ferramenta para a inclusão de mulheres na tecnologia
link: Mulheres, Tecnologia e Oportunidades

E mais iniciativas que estiveram presentes que não pude acompanhar (se faltarem mais por favor postem nos comentários):
Meninas também Jogam, Rails Girls, PAC MãePrograMariaWomen Up Games

+ Sobre o assunto:

[+] Atena Haus na Campus Party 2016 – #SerMulherEmTech

[+] ATENA HAUS Entrevista: Deb Xavier na Campus Party 

[+] Campus Party: projeto busca inclusão de mulheres nas áreas tecnológicas por Larissa Santos

[+] Campus Party: aos 11, programadora dá dicas de computação para crianças por Larissa Santos

[+] Carta de repúdio a suposta “brincadeira” no palco da Campus Party 2015 por Blogueiras Feministas

[+] Mulheres na Campus Party: assumir o feminismo ou não? por Nessa Guedes

Marcha Nacional das Mulheres Negras 2015

Amanhã, 18 de novembro de 2015, acontecerá a 1° Marcha Nacional das Mulheres Negras em Brasília/DF.

O roteiro previsto é:
09h – Concentração Ginásio Nilson Nelson – SRPN Trecho 1, Brasília – DF;
10h – Ato de Abertura e Saída. Percurso no Eixo Monumental pela faixa direita até a Praça dos Três Poderes;
14h – Ato de encerramento da Marcha e apresentações culturais.

Em apoio ao movimento, republicamos o manifesto do Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver 2015.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=-d3HS0mr4fs]

 

Somos 49 milhões de mulheres negras, isto é, 25% da população brasileira. Vivenciamos a face mais perversa do racismo e do sexismo por sermos negras e mulheres. No decurso diário de nossas vidas, a forjada superioridade do componente racial branco, do patriarcado e do sexismo, que fundamenta e dinamiza um sistema de opressões que impõe, a cada mulher negra, a luta pela própria sobrevivência e de sua comunidade. Enfrentamos todas as injustiças e negações de nossa existência, enquanto reivindicamos inclusão a cada momento em que a nossa exclusão ganha novas formas.

Impõe-se na luta pela terra e pelos territórios quilombolas, de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade.

A despeito da nossa contribuição, somos alvo de discriminações de toda ordem, as quais não nos permitem, por gerações e gerações de mulheres negras, desfrutarmos daquilo que produzimos.

Fomos e continuamos sendo a base para o desenvolvimento econômico e político do Brasil sem que a distribuição dos ativos do nosso trabalho seja revertida para o nosso próprio benefício.

Consideramos que, mesmo diante de um quadro de mobilidade social pela via do consumo, percebido nos últimos anos, as estruturas de desigualdade de raça e de gênero mantêm-se por meio da concentração de poder racial, patriarcal e sexista, alijando a nós, mulheres negras, das possibilidades de desenvolvimento e disputa de espaços como deveria ser a máxima de uma sociedade justa, democrática e solidária.

Não aceitamos ser vistas como objeto de consumo e cobaias das indústrias de cosméticos, moda ou farmacêutica. Queremos o fim da ditadura da estética europeia branca e o respeito à diversidade cultural e estética negra. Nossa luta é por cidadania e a garantia de nossas vidas.

Estamos em Marcha para exigir o fim do racismo em todos os seus modos de incidência, a exemplo da saúde, onde a mortalidade materna entre mulheres negras estão relacionadas à dificuldade do acesso aos serviços de saúde, à baixa qualidade do atendimento recebido aliada à falta de ações e de capacitação de profissionais de saúde voltadas especificamente para os riscos a que as mulheres negras estão expostas; da segurança pública cujos operadores e operadoras decidem quem deve viver e quem deve morrer mediante a omissão do Estado e da sociedade para com as nossas vidas negras.

Denunciamos as batalhas solitárias contra a drogadição e a criminalização do nosso povo e contra a eliminação de nossas filhas e filhos pelas forças policiais e pelo tráfico, há muito tempo! Denunciamos o encarceramento desregrado de nossos corpos, vez que representamos mais de 60% das mulheres que ocupam celas de prisões e penitenciárias deste país.

Ao travarmos batalhas solitárias por justiça num quadro de extrema violência racial, denunciamos a cruel violência doméstica que vem levando aos maus tratos e homicídios de mulheres negras, silenciados em dados oficiais. Lutamos pelo fim do racismo estrutural patriarcal que promove a inoperância do poder público e da sociedade sobre a exterminação da nossa população negra .

Estamos em marcha para reivindicamos o livre culto de nossas divindades de matriz africana sem perseguições, nem profanações e depredações de nossos templos sagrados.

Estamos em marcha contra a remoção racista das populações das localidades onde habitam.Lutamos por moradia digna; por cidades que não limitem nosso direito de ir e vir e contra a segregação racial do espaço urbano e rural; por transporte coletivo de qualidade; por condições de trabalho decente nas diferentes profissões que exercemos. Valorizamos nosso patrimônio imaterial em terreiros, escolas de samba, blocos afros, carimbó, literatura e todas as demais manifestações culturais, definidoras da nossa identidade negra.

Estamos em marcha porque somos a imensa maioria das que criam nossos filhos e filhas sozinhas, as chefes de famílias, com parcos recursos e o suor de nosso único e exclusivo trabalho.

Estamos em Marcha:

  • pelo fim do femicídio de mulheres negras e pela visibilidade e garantia de nossas vidas;
  • pela investigação de todos os casos de violência doméstica e assassinatos de mulheres negras, com a penalização dos culpados;
  • pelo fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação promovendo a violência simbólica e física contra as mulheres negras;
  • pelo fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho;
  • pelo fim das revistas vexatórias em presídios e as agressões sumárias às mulheres negras em casas de detenções;
  • pela garantia de atendimento e acesso à saúde de qualidade às mulheres negras e pela penalização de discriminação racial e sexual nos atendimentos dos serviços públicos;
  • pela titulação e garantia das terras quilombolas, especialmente em nome das mulheres negras, pois é de onde tiramos o nosso sustento e mantemo-nos ligadas à ancestralidade;
  • pelo fim do desrespeito religioso e pela garantia da reprodução cultural de nossas práticas ancestrais de matriz africana;
  • pela nossa participação efetiva na vida pública.

Buscamos num processo de protagonismo político das mulheres negras, em que nossas pautas de reivindicação tenham a centralidade neste país. Nosso ponto de chegada e início de uma nova caminhada é 18 de novembro de 2015 dentre as atividades do Mês da Consciência Negra.

Conclamamos, a todas as mulheres negras, para que se juntem a esse processo organizativo, nos locais onde estiverem, e a se integrarem nessa Marcha pela nossa cidadania.

Imbuídas da nossa força ancestral, da nossa liberdade de pensamento e ação política, levantamo-nos – nas cinco regiões deste país – para construir a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, para que o direito de vivermos livres de discriminações seja assegurado em todas as etapas de nossas vidas.

ESTAMOS EM MARCHA !

“UMA SOBE E PUXA A OUTRA!”

Brasil, 25 de Julho de 2014.