Representatividade da mulher negra no mercado de trabalho

Texto de Luana Maria de Lima Oliveira para as Blogueiras Feministas.

É difícil ser pessoa negra numa sociedade racista,

É difícil ser mulher numa sociedade machista,

É quase impossível ser mulher negra num mundo do trabalho machista e racista.

Referência: Apesar de ser negra... o tributo pago pela mulher negra ao mercado de trabalho.

Antes de discutir o assunto, gostaria de contar um pouco da minha história que irá refletir o meu interesse sobre a tal representatividade da mulher negra no mercado de trabalho.

Eu me formei em direito no ano de 2015 numa turma de 35 pessoas, dentre as quais, 4 alunos negros. Passei toda a minha graduação sem realizar discussões sobre a questão racial ou igualdade de gênero, mesmo tendo uma grade curricular que continha matérias como direitos humanos, direitos sociais, direitos difusos e coletivos, etc. Ou seja, minha faculdade estava bem mais preocupada em incluir seus alunos no mercado de trabalho.

O impacto foi ainda pior quando comecei a estagiar em escritórios de advocacia e a representatividade era zero. Eu não conhecia advogados negros, eu era a única estagiária negra e atuei nessa época na área corporativa, ou seja, por várias vezes me perguntava se havia feito a escolha certa.

Eu não me via naqueles espaços, principalmente quando ia ao escritório com turbantes, tranças ou assumia meu black power. Era responsável por olhares ou comentários, por várias vezes me senti sozinha durante esses 5 anos de graduação.

Quando me formei, escutei que não tinha cara de advogada, mas minha “colega” branca ao lado tinha, deixei de usar meus turbantes, mudei minhas roupas para “tentar” ser mais corporativa, mas claro que isso passou longe de ser uma solução. Ai, eu me perguntei: O que é “cara” de advogada?

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Por uma (re)construção feminista da democracia a partir do direito à cidade

Texto de Mariana Bonadio para as Blogueiras Feministas.

Em tempos de crise política, um dos grandes desafio para a construção concreta da democracia é dar sentido à diferença. O enfrentamento das formas institucionalizadas de discriminação, (re)produtoras das desigualdades sociais, são absolutamente necessárias. Os recentes acontecimentos, que evidenciam o avanço das pautas conservadoras e neoliberais no Brasil, substanciam a urgência de práticas feministas e antirracistas na gestão pública, na elaboração e implementação das políticas governamentais, à luz dos valores de justiça, igualdade e autodeterminação para os grupos historicamente excluídos do “Estado de Direito”: mulheres, negras e negros, indígenas, quilombolas, pessoas trans, gays, lésbicas, entre outros. Ou seja, os grupos que não se enquadram no panorama social branco, patriarcal, cisgênero, heteronormativo, com poder aquisitivo; quadro institucionalizado pela estrutura atual do Estado.

Essa reflexão não pode reduzir-se aos planos direcionados a esses públicos específicos. Obviamente, a luta e o valor histórico das políticas de discriminação positiva legitimam o princípio constitucional e material da igualdade: democracia não é consenso da maioria – como muitos teimam em afirmar – mas é a garantia da isonomia da igualdade, o que significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de suas desigualdades. Mas, se essas conquistas reforçaram as possibilidades de releitura de construção de políticas públicas, ainda é preciso avançar na intersetorialidade, interseccionalidade e na perspectiva feminista e antirracista neste processo, para avançarmos na construção de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.

Daí a importância de refletir sobre a construção da democracia a partir do direito à cidade. É evidente que a mesma reflexão deve perpassar as múltiplas dinâmicas territoriais, em especial os acessos e direitos campesinos e indígenas. Mas é necessário fazer um recorte para esta análise; e, se considerarmos que as relações políticas tem se construído e se evidenciado midiaticamente no âmbito da ocupação do espaço público urbano, a cidade é o recorte evidente.

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Laverne Cox fica nua e expõe a exclusão do feminismo radical

Texto de Noah Berlatsky. Publicado originalmente com o título: ‘Laverne Cox gets naked, exposes radical feminist exclusionism’, no site da revista Playboy em 24/04/2015. Tradução livre de Daniela Andrade, publicada em seu perfil do Facebook no dia 26/04/2015. Revisão de Bia Cardoso.

Maria Clara Araújo divulgou em seu perfil do Facebook uma outra tradução para o mesmo texto no dia 26/04/2015, com o título: Laverne Cox posa nua e expõe feminismo radical excludente.

Ao site da revista Allure, Laverne Cox disse:

“Passando pela vida, você tenta cobrir e esconder, mas isso realmente não funciona”, diz a estrela de Orange Is The New Black, 30 anos, que a princípio recusou a proposta da  Allure para posar nua. “Eu disse que não, inicialmente, pensei sobre isso, e disse não mais uma vez”, diz ela. “Mas, eu sou uma mulher negra transgênera. Eu senti que isso poderia ser algo realmente poderoso para as comunidades que represento. Mulheres negras muitas vezes não ouvem elogios por nossa beleza, a não ser quando nos alinhamos com determinados padrões. Mulheres trans certamente não ouvem elogios por nossa beleza. Ver uma mulher negra transgênera abraçar e amar tudo sobre si mesma pode ser inspirador para outras pessoas. Não há beleza nas coisas que achamos serem imperfeitas. Isso soa muito clichê, mas é verdade”. Cox queria essas fotos para si mesma, também: “Eu, honestamente, só queria me fazer feliz, e se outras pessoas gostarem, então isso é ótimo. Se não gostarem, então eu ainda estou feliz”.

Laverne Cox em foto para a revista Allure. Imagem: Norman Jean Roy.
Laverne Cox em foto para a revista Allure. Imagem: Norman Jean Roy.

Laverne Cox fica nua e expõe a exclusão do feminismo radical

Quando Laverne Cox decidiu posar nua para a Allure, ela sabia o risco que corria. “Mulheres negras não ouvem frequentemente que são bonitas a menos que estejam dentro de determinados padrões,” disse Laverne à Allure. “Mulheres trans certamente não ouvem que são bonitas.”

Mais que isso, mulheres trans e mulheres negras, também ouvem, frequentemente, que não são mulheres de verdade.

“Quando a imagem da mulher perfeita é traduzida na infância como a Branca de Neve, a mais justa e mais iluminada na terra, a ideia se transforma como se todo o restante de nós estivesse se fantasiando para imitar a verdadeira beleza”, disse a escritora negra e trans Shaadi Devereaux. Laverne, tirando suas roupas e fantasias e posando ao natural, como ela mesma, desafia o espectador a vê-la não apenas como alguém bonita, mas natural.

Ela também, como estou certo que ela saiba, convida à repercussão daqueles que veem o corpo da mulher trans negra como falso de nascença. A repercussão não está vindo devagar.

A feminista Meghan Murphy reagiu à foto da forma como Laverne sugeriu que as pessoas frequentemente reagem à mulher trans negra – com nojo, preconceito e horror. Em um texto pequeno, mas impressionantemente cruel, Murphy zombou de Cox por tentar conseguir um corpo “perfeito”, conforme define o patriarcado/a cultura pornô, por meio de cirurgias plásticas, e então apresentando-se como um objeto sexual para consumo público”.

Ela ridiculariza a ideia de que mulheres trans que tomam hormônios ou se submetem a alguma cirurgia sejam aceitas por elas próprias. Murphy sugere que as mulheres trans estão “gastando centenas e centenas de dólares esculpindo seus corpos para se parecerem com alguma versão caricatural de ‘mulher’, como define a indústria pornográfica e a cultura pop”.

Laverne, para Murphy, é uma caricatura: uma coisa construída com cirurgia plástica, uma paródia sobre a beleza, feia. A aversão e o desprezo são palpáveis. Para a feminista e ativista negra Sojourner Truth, Laverne Cox em sua nudez, pergunta: “Não sou uma mulher?”. E Murphy, com uma fria satisfação responde; “Não”.

A frieza não é novidade. Idealmente, você não a esperaria, o feminismo poderia ser sobre lutar pelos direitos de todas as mulheres e tentar libertar todas as pessoas das opressões dos estereótipos de gênero. Na prática, todavia, o feminismo radical tradicional de Andrea Dworkin e Janice Raymond, que Murphy segue, frequentemente significa mais exclusão que inclusão. O radicalismo das feministas radicais é frequentemente definido pela difamação à outras mulheres – mulheres trans, profissionais do sexo, mulheres negras – que de nos desiludir das tolices feitas pelos homens e pelo patriarcado.

“Essas feministas radicais, na minha opinião, nem mesmo conseguem fingir que são inclusivas,” disse-me a pesquisadora e ativista negra Zoe Samudzi, assistente de projeto na UCSF. “Há muitas pistas que nos dizem o que elas entendem por emancipação e libertação… Mulheres brancas tem historicamente agredido os corpos das mulheres negras e, o mesmo direito e poderio identitário no feminismo lhes habilitou proclamarem a si mesmas como juízas da condição feminina”.

A lógica que conduziu as feministas brancas do século 19 a pedirem o direito de votar apenas para as mulheres brancas ainda é dolorosamente visível no ataque de Murphy à Laverne. Algumas mulheres não são dignas de simpatia, de amor ou de sororidade.

Da mesma forma como as mulheres negras tem sido definidas como pessoas sem feminilidade, o mesmo tem acontecido com as mulheres trans. O Festival Michigan Womyn levou quatro décadas recusando a participação de mulheres trans, ao que parece, as organizadoras decidiram encerrar o evento após este ano, em vez de avançar na questão da inclusão trans.

A transfeminista e autora Julia Serano explicou que a feministas radicais que excluem trans “subscrevem uma única questão de sexismo, em que homens são opressores e mulheres são oprimidas, fim da história… Esse quadro também as conduz a discriminar mulheres trans dizendo que são homens infiltrando-se em espaços de mulheres e parodiando as opressões das mulheres, ou alguém com alguma confusão de gênero ou pessoas andróginas que decidiram transicionar numa tentativa infeliz de ‘assimilação’ do binário de gênero”.

As mulheres trans, que se recusam a conformarem-se com as normas de gênero, estão sujeitas ao ódio, ao desprezo, à difamação e, frequentemente, a violência homicida, são vistas de certo modo criando ou mantendo as normas de gênero. Em nome do radicalismo de gênero, Murphy difama uma mulher pois sua expressão de gênero não é a mesma de Murphy.

Parte do que define a experiência de gênero de Laverne Cox, como ela diz, é que as mulheres negras e as mulheres trans não são vistas como pessoas com beleza. Elas podem ser, frequentemente são, hipersexualizadas – e vendo Laverne como excessivamente sexualizada, e apenas sexualizada, Murphy contribui para o estereótipo. Porém, enquanto elas podem ser objetos sexuais, às mulheres trans e mulheres negras não é permitido serem glamourosas ou amadas.

“Uma das mais poderosas coisas que você pode fazer por uma mulher trans é fazê-la sentir-se benquista, palpável e merecedora de afeto,” postou no Twitter a escritora trans e queer Mari Brighe.

P. Marie, uma ex profissional do sexo disse-me que “ajuda-me como indivíduo quando eu vejo uma mulher negra sentindo-se bonita e compartilhando isso com o mundo – lembrando às pessoas que nós SOMOS bonitas, desejáveis, femininas e fortes, que é exatamente, felizmente, o que Laverne Cox fez por nós”.

Murphy vê a foto de Laverne nua como sendo degradante, da mesma forma como as imagens de mulheres negras são frequentemente percebidas: degradantes, sexuais e repugnantes. P. Marie disse que para ela “quando nossas imagens são sexualizadas, para mim a questão pode ser explicada pela própria agência. Nós consentimos? Nós estamos sendo respeitadas? É nossa escolha? É uma coleção de partes do corpo ou uma humanidade apagada?”.

Murphy não vê humanidade na foto de Laverne, apenas uma mulher trans negra que, pelo simples fato de ser trans, não tem qualquer agência. Mas se você olhar para a foto, o que é mais impressionante na imagem é sua distinção e individualidade. Murphy reclama que a imagem é muito perfeita; de fato, embora a imagem seja marcante, como uma fotografia de moda, houve a disposição de celebrar as “imperfeições” de Laverne.

Laverne Cox não é uma modelo-magra-de-passarela. Não é uma modelo-de-passarela-delicada ou esbelta, tampouco. Ela tem mãos grandes, que não foram escondidas, são corajosamente exibidas. Na foto, Cox está deitada sobre uma manta; seu corpo encontra-se mais tenso que relaxado, sua cabeça em uma grande e forte mão, olhos fechados, um leve sorriso em sua face – como se ela estivesse um pouco envergonhada e gostando de estar envergonhada. Ela está voluptuosa, incomodada e doce, tudo ao mesmo tempo. Em seu simultâneo prazer e desconforto diante da câmera, ela parece, em uma franca pose encenada, surpreendentemente natural – e bonita.

Autor

Noah Berlatsky é autor do livro ‘Wonder Woman: Bondage and Feminism in the Marston/Peter Comics, 1941-1948’. Também é editor de quadrinhos e cultura no site The Hooded Utilitarian e escritor colaborador da The Atlantic.