Desculpe por estragar o seu céu: machismo no grafitti

Por Panmela Castro.

Eu recebi meus “amigos” em minha casa. Além das tintas, churrasco e cerveja de graça para todos, eu dei uma coisa muito mais importante: meu carinho. Eu, que sempre sou desqualificada como “a exibida” e “a que gosta de chamar atenção”, doei a minha energia para que seu painel ficasse bastante bacana com seus desenhos individuais. Eu pintei todo o fundo enquanto eles pintavam seus personagens e letras. Achei importante esta decisão porque mais do que fazer meu próprio graffiti, eu queria fazer algo pelo coletivo para que meus “amigos” ficassem felizes com os seus próprios desenhos e com o resultado final.

Uma parte desses meus “amigos” resolveu cobrir o céu criado com minhas estrelas com suas próprias, deixando o painel com dois estilos diferentes. Já antes, um deles me dizia como deveria pintar este céu. Veja bem, por estar doando o meu trabalho e tempo para complementar seus trabalhos, o mínimo que esperava ter era a confiança de que acreditariam que eu teria capacidade de criar um fundo bonito ali, e, caso não agradasse, eles deveriam, por respeito, deixá-lo como eu criei. Apagá-lo na situação onde eu dou tudo, e eles nada, é uma forma de impor sua superioridade e demonstrar que em nenhum momento eu teria qualquer tipo de direito, e que, enquanto mulher, eu estaria sempre ali com eles como uma serviçal para cumprir e respeitar os desejos e ordens dos rapazes e não como parte do coletivo com direitos iguais.

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O B, o T e outras letrinhas no mundo nefasto da LGBTfobia

Texto de Bárbara Araújo para as Blogueiras Feministas.

Da sigla LGBT, o B e o T têm algumas coisas em comum. Uma delas é a capa de invisibilidade. O T tem sido sistematicamente abandonado pela letrinha dominante no movimento e pela sociedade como um todo. O desconhecimento e a falta de compreensão social em relação a esse grupo resulta na intolerância, no desprezo e na violência intensa: pessoas transgêneras são proporcionalmente as mais expostas a violência física e assassinatos dentre os grupos representados na sigla.

O B vive essa invisibilidade de outra forma. É simplesmente como se não existisse. Uma pessoa trans pode ser identificada visualmente algumas vezes. Uma pessoa bissexual, não. Não existe nada no jeito, na cara de uma pessoa que a identifique para a sociedade como bissexual. Nem mesmo quando a pessoa se assume verbalmente como bissexual a sociedade a identifica como bissexual. Renato Russo disse naquela música: “eu gosto de meninos e meninas”. Mas a sociedade continuou classificando-o como gay.

Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.
Imagem da página Bissexuais Existem no Facebook.

Quando uma pessoa diz que é bissexual, a sociedade lhe responde que ela está confusa. Mesmo o mais progressista dos grupos, mesmo muitos dos militantes pró-LGBT têm grande dificuldade de aceitar – de enxergar – a bissexualidade. Ou você é hétero ou é gay ou é lésbica. Se a sua vida inteira você é uma mulher que se relacionou com homens e passa a se relacionar com uma mulher, entende-se que você “virou lésbica”. Se você é um homem e a vida inteira se interessou por mulheres, mas percebe que sente desejo por um homem, você certamente “virou viado”. Não é costumeiro considerar que você pode não ter “virado” nada, mas que seja bi. Essa possibilidade é simplesmente invisível. No cotidiano, na mídia, dentro da nossa cabecinha. Quantas pessoas bissexuais você conhece? Quantos personagens de filmes e séries são bi? Quantas vezes a bissexualidade é abordada na mídia?

Isso porque, além de heteronormativa, na nossa sociedade a monossexualidade também é compulsória. Ou seja: só pode gostar de um gênero. Ser bissexual é gostar de mais de um gênero. E isso não pode. Aliás, isso não existe. A proposta de que se pode gostar de vários gêneros – não só dois, mas vários – deixa nossa mentalidade binarista perdidinha.

Recentemente, me reuni com uma amiga que é professora de sociologia para organizarmos nossa fala num debate que ocorreu na escola em que trabalhamos sobre a cultura do estupro. Ela me disse que pensava em falar sobre a importância de nomear as coisas: identificar uma situação de assédio ou abuso sexual e nomeá-la devidamente, não ficar em dúvida ou incerto. Identificar e nomear as coisas é poderoso.

Também recentemente, a escola em que trabalhamos esteve na mídia mais uma vez. Dessa vez, estudantes e professoras/es foram ao programa Encontro com Fátima Bernardes para falar (muito rapidinho, infelizmente) sobre a garantia do uso do nome social por estudantes transgeneres. A fala do Rai, pessoa querida e brilhante com quem tenho o prazer de conviver desde que comecei a trabalhar nessa escola, me fez pensar muito. Ele disse que você nunca imagina que você é trans porque você nunca ouviu falar disso na sua vida. Isso ficou ressoando na minha cabeça e me levou a pensar que é justamente isso que o B e o T têm em comum na sigla, como disse na historinha que abriu esse texto.

Eu nunca tinha imaginado que eu era bissexual durante toda a minha adolescência… porque nunca tinha ouvido falar disso. Não conhecia ninguém que fosse, na escola ninguém falava nisso, minha família nunca mencionou isso; enfim, ninguém nunca tinha me dito que isso era uma possibilidade.

Há pessoas que acham que falar de gênero e sexualidade na escola vai fazer as crianças “virarem” gays ou bi ou trans. Mas pelo contrário. Falar de gênero e sexualidade na escola é apresentar as possibilidades de ser, é mostrar um caminho pra quem sabe que é diferente, pra quem se sente diferente, mas não sabe porquê, não conhece sua própria identidade. E isso traz muito, muito sofrimento. Enquanto entender, conhecer e saber nomear é poderoso, empoderador, é um alívio.

Minha vida teria sido outra se minha escola tivesse discutido sexualidade. Hoje sou professora nessa mesma escola e vejo esse debate acontecendo, como resultado da luta de estudantes e professoras/es. Isso precisa acontecer em todo espaço educativo. Projetos de lei como os da Escola sem Partido e aqueles que denunciam uma “ideologia de gênero” são ameaças graves àqueles grupos que já se encontram minoritários em termos de direitos no espaço escolar e na sociedade como um todo. A educação para a diversidade é urgente num contexto onde um assassinato em massa por homofobia tem sido tratado como um caso de “terrorismo islâmico”. A capa de invisibilidade que cobre a transgeneridade e a bissexualidade é a mesma que cobre a própria homofobia e o sexismo em um caso como o massacre de Orlando.

É por isso que precisamos, urgentemente, falar sobre gênero. Precisamos urgentemente afirmar nossa identidade LGBT. Afirmar nossa existência frente à capa de invisibilidade fornecida pela bifobia e pela transfobia. Para nós existir, sobreviver já são formas de resistência. Nos posicionar publicamente sobre quem somos é um ato de coragem.

A experiência de ser pária social

Texto de Raphaela Comisso para as Blogueiras Feministas.

Não se pode esquecer que rachaduras quase imperceptíveis podem se desdobrar ou se alargar profundamente e produzir efeitos inimagináveis. (LOURO, 2009, p. 141)

Constituir-se como pária social é uma experiência marcada por características específicas, sobretudo pela marginalização e precarização da vida. Isso não quer dizer que seja uma experiência rara, exclusiva a poucas pessoas. Pelo contrário, muitas são destinadas a vivenciá-la – queiram ou não –, já que ameaçam desestabilizar um sistema tão organicamente constituído para ser desigual. A elas, o lugar da contingência é dado como garantia. Genuinamente invisíveis, passam a ser notadas apenas quando se arriscam a sair das margens. Aí, então, são lembradas de que, para que haja um centro, é preciso que tais margens permaneçam intactas e bem povoadas.

Moradores de rua se aquecerem em volta de fogueira em Calcutá, Índia. Foto de Deshakalyan Chowdhur/AFP.
Moradores de rua se aquecerem em volta de fogueira em Calcutá, Índia. Foto de Deshakalyan Chowdhur/AFP.

Desde muito cedo, passam a conhecer e a se acostumar com o (des)gosto social da vergonha, da humilhação, do ultraje, da hostilidade. Há um processo perverso de culpabilização pelo qual elas passam, uma ideia perigosa – e ferozmente cultivada – de que a desigualdade é um dado natural. Por trás ou no cerne desse cenário mascarado, entretanto, há todo um aparelho opressor em funcionamento, que impõe de forma meticulosa regras severas a elas.

O jogo e suas regras guardam em si um propósito central, o de manter cada coisa em seu lugar, tudo dado como está, tudo díspar. Párias só não são tidos/as como impertinentes no reconhecimento de que são fundamentais para que tudo funcione de modo excludente. Se começarem a fazer questionamentos ou a levantar sua voz impostamente emudecida, são então jogados/as à recusa, ao posto de inconveniência. E, para esses lugares, as condições são precárias, os castigos são cruéis.

A culpa, então, faz surgir o imperativo da confissão. Nós, párias, somos frequentemente obrigados/as a nos confessar para os detentores da ordem e da redenção, em um processo explícito de legitimação da submissão. A lei, a medicina e a igreja nos avaliam, nos condenam, nos dizem quem somos. Nossa voz é brutalmente calada. As leis não funcionam, elas não nos englobam, não nos representam. O Estado não reconhece os ataques que sofremos; pelo contrário, legitima nosso predicado de anormalidade. Criam-se ideias e questões controversas, normalizam-se violências e fobias. Tudo isso em um sistema complexo e completo de banalização das subjetividades.

Somos patológicos/as, estamos nos manuais médicos. Somos pecadores/as, estamos nas escrituras. Somos curáveis, corrigíveis. Devemos seguir os padrões do que é ser – e muitas vezes se contentam com as aparências, já que afirmam não se importar com o que fazemos entre quatro paredes. Mas nossas possibilidades e nossos lugares abandonados de (sobre)vivência não mudam, são e estão destinados a ser os mesmos. O importante é nos moldar, nos manter ao alcance das rédeas e do olhar.

A existência do insulto se justifica, assim, pela nossa própria existência. É preciso nomear e desqualificar as pessoas que fogem das normas, é preciso marcar as diferenças que desafiam a estabilidade das coisas. Desde cedo, recebemos nomes que, embora não saibamos ainda seus significados, carregam um peso impronunciável. Há toda uma “pedagogia do insulto” em ação, já que as gerações se renovam com certa rapidez e é preciso investir em sua (de)formação.

Em defesa dessa pedagogia, concretizam-se opressões e vazios, gestos e silêncios. A ridicularização é um alto investimento de todo esse “cistema” – um sistema inteiro construído com base na cisgeneridade, na modelização e normatização dos corpos e das subjetividades. “Injúrias e insultos são jogos de poder que marcam a consciência, inscrevem-se no corpo e na memória e moldam as relações dos sujeitos com o mundo” (JUNQUEIRA, 2015, p. 39). Praticados diariamente e incansavelmente, às vezes de maneira não tão consciente por parte de seus agentes, o sarro e a exclusão têm origem no que há de mais valioso no ser humano: a diferença.

Nesses jogos de poder, estamos todos/as entrelaçados/as. Eles formam uma rede da qual dificilmente conseguimos escapar. E é dentro dessa rede que nos autoconhecemos, que nos relacionamos socialmente, que nos entendemos e nos construímos. Ainda crianças, nós, párias, descobrimos nossas sexualidades no campo da injúria, do vexame, da humilhação. As curiosidades e os achados característicos da infância e da adolescência são sempre vistos por uma lente embaçada, riscada ou trincada. Somos destinados/as a experimentar o desejo em segredo, longe das vias e vistas públicas. Nossa existência se torna pecado, crime. Ainda hoje, em mais de 70 países, a homossexualidade é considerada crime, como no Afeganistão, Irã e Mauritânia, onde se enquadra, respectivamente, nas categorias “pederastia”, “sodomia” e “ato imoral”. Pode ainda levar à prisão inferior a dez anos e a outras penas em países como a Líbia, onde se enquadra na categoria “atos obscenos”. Em países como Índia e Paquistão, onde se enquadra na categoria “delitos contra a ordem natural”, pode levar à prisão superior a dez anos (NEV/USP, 2012).

A linguagem, é preciso atentar, atravessa todas as instâncias sociais, da mais mascarada discriminação à sua vertente mais explícita e virulenta. Quando se refere aos corpos ou ao sexo, ela “não faz apenas uma constatação ou uma descrição desses corpos, mas, no instante mesmo da nomeação, constrói, ‘faz’ aquilo que nomeia, isto é, produz os corpos e os sujeitos” (LOURO, 2004, p. 44).

Os casos de estupro cometidos, em geral, por homens contra mulheres são um exemplo da imposição do sexo como violência e do machismo institucionalizado na nossa sociedade. Entre o assédio verbal e tais ocorrências físicas existe uma ponte facilmente transitável pelos agressores. Essa relação quase sempre direta entre insulto e violência física é propositadamente invisibilizada através de diversos mecanismos. Uma piada, para quem detém o poder ou se mantém confortável no cistema, é apenas uma manifestação da liberdade de expressão. Para os/as párias, é uma violação real, quase palpável. O discurso de ódio, em nossa caminhada, acaba por se tornar um velho conhecido. Dentre os diversos espaços em que ele circula, a escola é um dos principais. Ele se legitima e se perpetua sem limites entre profissionais da educação e estudantes, por isso a passagem pela escola para nós é caracterizada por episódios traumáticos.

Quando qualquer tipo de violência não é considerado algo sério, o preço que se paga é alto demais. A homotransfobia não se refere nem se direciona apenas a pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), mas a qualquer sujeito que, por qualquer motivo, não siga os binarismos que nos dão essa falsa segurança de organização social. Dada sua dimensão em relação a nós, párias, até mesmo um homem branco, cisgênero e heterossexual não pode vacilar, está sempre sob vigilância. É como se subisse a todo custo uma escada rolante que está descendo; qualquer desatenção já compromete sua caminhada e sua dedicação.

Além da escola, de onde somos expulsos/as, vivemos a experiência de ser pária em diferentes instâncias. Na rua, nos apontam como coisas, violam nossos corpos. Na família – quando ainda fazemos parte dela –, falam por nós, inventam histórias, constroem muros de desafeto. Ser pária é uma designação imposta e que não pode ser ignorada. Mas, enquanto há certa liberdade para dizer, não queremos o posto da normalidade, da conformidade, da tolerância. Do insulto nos apropriaremos e faremos a revolução; o que buscamos é o direito legítimo à diferença. Utilizaremos o mecanismo da rachadura que tanto conhecemos – já que insistem em nos quebrar por dentro e por fora – para promover a desconstrução do cistema, e não a destruição de nós mesmos/as. Os efeitos que alcançaremos são inimagináveis.

Referências

JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Pedagogia do armário. In: Revista Cult – Dossiê Ditadura Heteronormativa, São Paulo, 202, ano 18, jun. 2015.

LOURO, Guacira Lopes. Foucault e os estudos queer. In: RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs.). Para uma vida não fascista. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009 (Coleção Estudos Foucaultianos).

LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho – Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2004.

UNIVERSIDADE de São Paulo. Capítulo VII – Integridade física e liberdade de orientação sexual. In: 5º Relatório Nacional sobre Direitos Humanos no Brasil (2001-2010). Núcleo de Estudos da Violência, Universidade de São Paulo, 2012.

Autora

Raphaela Comisso é mestranda em Estudos Culturais na Universidade de São Paulo.