Não precisamos ser inimigas

Texto de Priscila Messias para as Blogueiras Feministas.

Entendo, por experiência própria, que um processo de separação é muito complicado e doloroso, e dependendo das circunstâncias acabamos carregando mágoas por um longo período de tempo, ou, em alguns casos essas mágoas ficam para sempre.

Assim como tenho direito de viver um novo relacionamento, meu ex também vai fazer o mesmo – isso se ele já não o estiver fazendo enquanto estamos juntos como um casal – e, surgirá uma mulher entre eu e meu ex companheiro, caso essa antiga união tenha gerado filhos, será essa nova pessoa que irá se relacionar diretamente com nossos filhos, pois afinal, o pai precisa estar presente na vida dos filhos e a nova namorada estará junto em alguns passeios e momentos, se não em todos.

Desde criança ouvi das mulheres que me cercavam e pela TV que era impossível manter um relacionamento amigável com a mulher atual de um ex-marido.

Quando passei por esse doloroso processo recebi logo a notícia que meu ex cônjuge estava namorando e isso pra mim inicialmente foi um choque, confesso, mas minha maior preocupação mesmo foi como meus filhos reagiriam a essa notícia. E, para minha surpresa, ela logo os conquistou por sua simpatia e carinho com eles. Mas, minha relação com ela não começou bem, e qual seria o motivo? Simples! O indivíduo que fizera parte de longos anos da minha vida e me conhecia como ninguém, fazia de tudo para que eu a odiasse. Dizia coisas que ela fazia (que sabia que me irritaria), falava coisas que ela havia comentado sobre mim mesmo sem me conhecer, e deixava claro como a família dele a amava. E pasmem! Eu acreditava em tudo.

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Como minha avó contribuiu para o meu feminismo

Texto de Débora V. Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Desde que me lembro de mim, ouvia histórias que pairavam no ar sobre a violência do meu avô, como batera durante décadas, desde o início do casamento, na minha avó, por ciúme, “porque a amava muito”, ouvi muitas vezes. “Ela era tão bonita…”, que talvez ele tivesse medo de a perder, pensavam. Batera também e indiscriminadamente nas filhas e filhos, quando não correspondiam ao seu quadro de valores.

Ele nunca me bateu, nunca gritou comigo, nem precisou, pois o terror familiar velado era tal, que eu sempre me comportei, nunca falhei em nada, não fazia barulho. Podem pensar que ele era um monstro, mas eu não o via assim, nem vejo hoje. Sabe… é que o problema de demonizar os agressores não ajuda em nada a causa, eles são apenas pessoas, com características positivas e negativas, fazem também coisas boas, como más. A questão aqui é a seguinte: são seres humanos que com as suas coisas más danificam irreversivelmente outros seres humanos, que, à luz da atualidade, cometem CRIMES e devem ser responsabilizados social e juridicamente por isso. Não importa se são “boas pessoas”, se “ninguém diria…”, se praticam a caridade… Num dado momento violaram o espaço mental e físico da outra pessoa e ultrapassaram o penúltimo limite da condição humana, o último será obviamente o homicídio/feminicídio.

Quando eu nasci ele já não lhe batia, mas chegou a espancar as filhas adolescentes, como espancou friamente os filhos mais velhos durante décadas, quando estavam sob a sua alçada, porque, mais uma vez, não foram de encontro ao seu quadro de valores.

Ela era a criatura mais bondosa que eu tive oportunidade de conhecer. Numa análise superficial, poder-se-ia dizer que ela era submissa, que devia ter fugido quando era nova, que incentivava outras mulheres a “aguentar”, como ela também tinha aguentado (como lhe ensinaram desde tenra idade). Mas eu vi mais do que isso.

É preciso dizer que ela nasceu e viveu num tempo em que não era possível nenhuma dessas soluções, em que estava completamente dependente financeiramente. E, para além de tudo isso, ela amava-o e, infelizmente, acreditava que o amor era mais importante.

Como disse antes, eu vi mais do que isso, eu vi uma mulher que dentro de todas as limitações contextuais, culturais, sociais, disse sempre o que pensava, mesmo que isso implicasse ser batida, mesmo que isso implicasse ser psicologicamente abusada, como eu assisti muitas vezes com os meus 4, 5 ou 6 anos. Que professou sempre aquilo em que acreditava até à morte, que cedeu em muito mas nunca nos seus ideais pessoais, custasse isso o inferno que custasse. Dizia o que pensava, não importa agora se eu concordaria ou não com ela, o que interessa é que ela era corajosa, valente e defensora dos seus ideais. Sei que ela nunca se iria considerar feminista, até porque as suas crenças religiosas nunca o permitiriam, mas foi isso que eu vi ali.

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Como Nossos Pais: um filme feminino que quer ser feminista

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Atenção! Esse texto contém spoilers!

Na maioria das críticas que li sobre o filme Como Nossos Pais, o feminismo foi pontuado: “anseios e conflitos da mulher neste século”; “os dilemas da supermulher”. Então, começo dizendo que não classifico como um filme feminista, mas isso não é importante. O bom de Como Nossos Pais é que ele é um filme feito por mulheres e onde elas são a história principal. Tudo gira num núcleo familiar, onde sabemos que decisões e ações não são fáceis de serem tomadas.

Ao avaliar o filme por um viés feminista, classifico-o como branco e burguês. Rosa (Maria Ribeiro) vive dramas de uma mulher branca de classe média, alguém que não parece ganhar muito bem, mas tem móveis assinados incríveis na sala. É difícil achar uma pessoa negra no filme, é difícil encontrar diversidade. Mas, dentro de todos os clichês, Rosa poderia ser eu ou uma de minhas amigas. Uma mulher entre 35 – 45 anos que lida com um marido esquerdomacho, uma mãe egoísta, um amante feministo. O filme acaba sendo divertido justamente por condensar tão bem tantos clichês do feminismo da internet atual.

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