Homenagem as mulheres de nossas vidas

Texto de Danielle Cony.

Nesse ano novo eu gostaria de refletir sobre renovação. Vou um pouco além do papo comercial-futurístico-premunitório-charlatão-religioso de fim-de-ano. Quero falar sobre renovação mesmo. Renovação da vida. E não há renovação sem morte.

Passei o natal com meus pais. Em minha despedida, minha avó se despediu de mim como se fosse a última vez em que eu a veria. E talvez ela de fato esteja certa. Ela anda muito fraca e já sofreu dois derrames. O que mais me deixou pensativa foi a sapiência de seu ato. Seria eu tão lúcida ao encarar o fim de minha própria vida de forma tão sensata?

Percebi com essa ação que minha perspectiva de futuro e ano novo é muito diferente de minha avó. Ela sempre foi uma guerreira. Como toda mulher que luta, não frustrou o seu sexo. Encontrou o amor de sua vida aos 29 anos de idade. Casou-se com ele mesmo tendo apenas 19 anos. Um adolescente! Imagino o preconceito que ela não enfrentou! Uma mulher que nasceu em 1918. Se hoje uma mulher enfrenta problemas por se relacionar com um homem mais novo, imagine no início do século xx. Então, minha avó sustentou sua convicção, mesmo contra a família e ficou com meu avô. E dessa relação nasceram três filhos.

Minha avó nasceu em uma família rica que vivera sua fortuna no ciclo da borracha em Manaus. Meu avô era um dos funcionários de meu bisavô. Após o casamento, meu avô esteve relacionado a um acidente com fatalidade a outros funcionários de meu bisavô. Envergonhado (e não sei até que ponto foi uma fuga por medo de processo legal) ele fugiu para o Rio de Janeiro. Veio para cá basicamente com a roupa do corpo.

Minha avó veio para a cidade tentar recuperar seu amor e marido. Não conseguiu convencê-lo a voltar. Decidida resolveu construir sua vida com muita precariedade no Rio de Janeiro. Abandonou a riqueza e os privilégios que sua família fornecia e seguiu destinada a permanecer ao lado de seu marido. Pediu que sua mãe enviasse (até então) suas duas filhas para o Rio de Janeiro.

Foi então que ela seguiu firme e forte com sua função familiar de cuidar de duas filhas, trabalhar silenciosamente todos os dias com uma rotina de acordar as 4h da manhã para fazer a marmita de meu avô, um operário de chão de fábrica que sobrevivia com um salário mínimo.

É óbvio que não foi somente a pobreza. Obviamente, seu marido é também a pessoa mais machista que conheci e convivi. Ela também suportou bebedeiras, traições, abusos psicológicos e mais o que você puder imaginar.

O mais interessante de sua história de vida é a força dessa mulher. Aos 92 anos tem um olhar sorridente e parece sempre saudosa por sua experiência de vida. Sua história. Hoje, porém, vejo que as coisas mudaram um pouco. Quem cuida dela é meu avô. Os dez anos de idade que um dia foi um problema recriminatório, hoje está a seu favor. Meu avô cuida da casa, da comida e de minha avó. E isso o fez refletir sobre sua vida e sua história também. Hoje ele tem uma verdadeira devoção por essa mulher. E acho que nunca é tarde para aprender, não?

Um brinde então a renovação da vida. Um brinde a todas as mulheres que silenciosamente são responsáveis pela vida e por sua continuidade. Um brinde as mulheres guerreiras que mesmo com os cenários mais injustos seguem como formigas na determinação de seus objetivos.

Um brinde ao Ano Novo e a Renovação.