Chico Buarque: trocando em miúdos

Texto de Luciana Nepomuceno.

Uma coisa que sempre fiquei encafifada foi com esse lance de falarem que o Chico entende (ou não) a alma feminina. O primeiro “ué” é porque eu nunca vejo textinhos e textões, elogios ou debates sobre o Chico entender a alma dos trabalhadores, dos exilados, dos malandros ou, vá lá, a alma dos homens. Não. Experimenta aí, coloca no Google: Chico Buarque e a alma masculina; assim, sem aspas. Pra mim o primeiro texto que veio se chama: as mulheres do chico buarque, o segundo foi: sou mulher e o chico buarque não me compreende. Por aí vai. Já virei a página duas vezes e nada da tal alma masculina.

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Do primeiro incômodo decorre o segundo (que qualifica o primeiro). Porque não se fala que ele é um bom contador de histórias de mulheres? Porque não se diz que ele cria bons personagens de mulher? Nananinanão. O foco é na alma. No “mistério feminino”. Se alguém precisa conhecer a alma das mulheres é porque somos complicadas, enroladas. E, CLARO, um grupo homogêneo. Quede, pelo menos, alguém dizendo que ele conhece as almas (no plural) de uma mulher (singular, única, sujeito)? Nopes. É difícil, duro, um trabalho arrojado, mas alguém tem que o fazer (#ironiamodeon): descobrir a alma (singular) das mulheres (comuns, iguais, padronizáveis), fazer um inventário e passar a dica pros demais.

Isso me irrita como mulher e como uma das pessoas encantadas pelo talento do Chico.

Ninguém fala da “alma masculina” porque é o default da nossa sociedade. Aos homens está autorizado serem vários, serem personagens únicos, relevantes, nomes próprios até quando não são nomeados. Se em uma canção não há evidência de gênero, logo se deduz que é um homem o sujeito.

Um exemplo fora do universo da música, mas próximo dele e de nós, é a questão da literatura. Temos a Literatura, que é feita por “pessoas em geral”. E temos a literatura feminina, que é feita por mulheres (e não venham argumentar que o critério é outro, temática ou protagonismo ou whatever, nunca ouvi dizer que Madame Bovary fosse chamada de literatura feminina, por exemplo). Mas, ora, se as mulheres estão fazendo a dita literatura feminina, sobra quem pra fazer a Literatura maiúscula e universal? Ah, os homens. De literatura masculina ninguém quer batizar, né? Se não fosse triste e excludente, seria ridículo e risível (ou talvez seja todas essas coisas).

As mulheres, somos um pacote que precisa vir etiquetado. A essencialização do feminino com sua consequente generalização — a “alma feminina” é suposta estar em todas as mulheres – naturaliza tanto a prescrição de comportamentos (mulher age assim, mulher faz assado) como o julgamento e punições possíveis pra quem sai do padrão (do bem feito, não se dá ao respeito ao quem ele pensa que é tentando ser mulher, passando por todas as ações de exclusão e inferiorização das mulheres negras, com deficiência, índias, gordas, trans, etc.).

Nós, mulheres, podemos ser ditas, narradas, classificadas mas não dizer, narrar, protagonizar. Talvez (e uso o talvez por generosidade) por isso mesmo as canções do Chico onde o sujeito da enunciação é mulher e diz de si mesma não podem ser elogiadas no que são, precisamos ser recordados de que quem escreveu é um homem que “sabe” de todas e todas são uma, ou umas: tipos.

E tudo isso aí eu acho super injusto com a obra do Chico Buarque (sim, escrevi o texto todo só pra protestar no lugar dele). O que ele faz, muitas vezes, são canções sobre pessoas. Algumas canções sobre elas, outras vezes simulando que as pessoas dizem de si. Estamos tão desacostumados a ver mulheres como gente, como iguais, que precisamos (como sociedade) criar uma delimitação a parte para quando, em uma canção, é evidenciado que é uma mulher o sujeito.

Mulher não é isso, homem não é aquilo. Somos, homens, mulheres ou mesmo os que não se identificam com nenhum dos dois gêneros, o que fazemos de nós a partir do que é feito de nós pela época, lugar, contexto, oportunidades em que estamos inseridos. E vamos fazendo nossa época, lugar, contexto e oportunidades a partir do que somos e fazemos.

Eu não acho que o Chico entende a alma feminina porque não há esse objeto “alma feminina” pra ser encontrado, nem entendido, nem descrito, nem nada. O que eu acho é que ele apresenta discursos e personagens de pessoas, ora mulheres, ora homens, ora sem definição de gênero, de uma forma complexa, bela, intrigante e cativante. Acho que ele traz personagens humanos e envolventes, em situações que, vividas de forma particular mas com elementos históricos e contexto, nos tocam e provocam.

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Vídeo – Maria Bethânia entrevista Chico Buarque – 1981

Feminismo não é para mulheres certas

Texto de Bia Pagliarini.

Feminismo não é para mulheres certas, mais verdadeiras, mais revolucionárias que outras. Feminismo não é sobre estabelecer uma divisão estanque e apriorística entre diferentes mulheres, aquelas que estariam mais libertas das amarras de gênero e aquelas que estariam ainda alienadas. Feminismo não deveria servir para corroborar o discurso da legitimação de mulheres mais verdadeiras que outras através de um vetor cisnormativo.

Arte de Amora Ribeiro. Divulgada pela página do Facebook ' Somos Todas Verônica'.
Arte de Amora Ribeiro. Divulgada pela página do Facebook ‘Somos Todas Verônica’.

Não existe possibilidade de estar “mais fora” do sistema de gênero e então alcançar a verdade da luta revolucionária. É justamente quando achamos que estamos pairando acima ou além do social é que estamos chafurdadas/os nele.

Justamente quando achamos que nós, por sermos feministas revolucionárias, descobrimos a verdade escondida sobre o gênero é que mora a armadilha. E com isso estabelecemos exclusões entre nós e as outras. A própria questão da verdade tem que ser problematizada no feminismo.

A verdade não está fora do gênero, não está fora do social, não está fora da luta. Não está fora do mundo.

Não existe verdade fora das relações de poder, tão bem pontua Michel Foucault. Contrapor uma “feminilidade verdadeira” (a das feministas e das mulheres cis) em relação a uma feminilidade tida como “glamorizada”, “artificial”, “delirante”, aquelas que são apontadas nas mulheres trans, é estabelecer um regime de verdade em que a transgeneridade é alocada numa posição de Outra de forma radical.

Ao contrário, desumanizar as pessoas trans através deste imaginário que toma as subjetividades trans como essencialmente “rasas”, “normativas”, “patriarcais” é próprio da transfobia. É culpabilizar uma Outra pela própria opressão de gênero.

Estabelecer critérios normativos para as resistências verdeiras, as identidades e subjetividades verdadeiras é uma forma de excluir sujeitos da luta. É higienizar e idealizar a luta.

Feminismo é a luta de todas as mulheres. Transfeminismo nos mostra que a luta de mulheres trans e travestis também é questão sim feminista.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 20/04/2015.

Ser sexy sendo vulgar

Texto de Sara Joker com a colaboração de Bia Cardoso.

Convivendo nas redes sociais, é comum ver as pessoas compartilhando textos imbecis e, muitas vezes, extremamente machistas. Melhor seria relegar essas falas ao ostracismo. Porém, em grande parte, esses textos são veiculados e corroborados por grandes veículos da mídia. Então, me preocupa ver que julgar mulheres ainda é um esporte bem presente em nossa sociedade, cujo placar é até divulgado em jornais.

Uma amiga compartilhou no Facebook um texto da escritora, redatora e roteirista Tati Bernardi, chamado: ‘Ser sexy dá gases e corrimento’. Acho que nunca tinha lido nada dessa pessoa, nem ouvido falar dela (sorte a minha). Porém, lendo outros textos seus e algumas repercussões é possível perceber que Tati Bernardi vem se esforçando para ser uma colunista #polêmica, como são vários colunistas polemiquinhos do mesmo jornal. Especialmente homens que se sentem a vontade para dizer como o feminismo deve ser, como as mulheres devem se comportar ou como os homens realmente são.

O texto inteiro é problemático, no começo até achei que era só mais um texto caga-regra, mas quando começa a frase: “Mulheres que se arrumam de forma a dar motivo de punheta para o universo…” Péra lá! Se eu uso roupa curta, decote, salto alto, batom vermelho ou qualquer coisa do tipo é por que quero dar motivo de punheta para alguém? Nem sempre. E se sim, qual o problema? Eu e muitas outras mulheres queremos e podemos nos sentir sensuais para nós mesmas. Para que reduzir a mulher a um objeto que existe apenas para dar prazer ao homem?

Em outros trechos do texto, Tati Bernardi relata momentos em que foi assediada numa reunião de trabalho mesmo estando de moletom, sem partes de seu corpo expostas para deleite masculino. E, também o pedido de um amigo para que ela sorrisse mais, porque homens gostam de mulheres simpáticas e alegremente robóticas. Esses relatos mostram que, não importa como você se vista, não importa com que intenção você se produziu para sair de casa, o machismo está aí em nossa sociedade e tentará sempre colocar as mulheres na posição de criaturas dóceis e comportadas. Quando fugimos desses padrões, somos classificadas como agressivas, chatas e mau humoradas.

Por isso, me incomoda e muito quando a autora diz:

“Não tem coisa pior do que ser posta em um lugar de “pessoa com vagina” quando se está focada em, brutalmente se for preciso, monetizar neurônios. Eu toda trabalhada no pau na mesa e o cara enxergando a xana embaixo da calça. É como se mamãe natureza, trajando renda e seda dos pés a cabeça, soprasse no meu ouvido “você é menina! Foi feita pra ser rosa e não cinza chumbo”. Mas eu prefiro ter dinheiro pra reformar a casa do que ter um marido com dinheiro reformando uma casa, mãe natureza, então não enche o saco.”

Para sermos respeitadas precisamos ser vistas como um estereótipo masculino? Ou acreditamos que apenas os homens merecem respeito? Afinal, não ficam andando sem camisa por aí e nem correm apenas de sunga nos parques para serem motivo de punheta ou siririca.

Ser mulher não é necessariamente ser cor de rosa, com todos os estereótipos tão conhecidos do que é ser feminina. Nem ser ou gostar de rosa significa automaticamente não ser independente e não ter dinheiro conquistado com seu próprio trabalho e, muito menos, viver para casa e para a família. Aliás, ter um trabalho não faz de ninguém menos ou mais digna de voz ou respeito. Opção de escolher, aí está um dos meus motivos para lutar! Quero, EU MESMA, escolher minha vida, como dona de casa ou mulher que trabalha fora. Luto para que não apenas eu possa fazer essas escolhas, mas todas as pessoas.

Manifestante na Marcha das Vadias de Brasília/DF 2013. Foto de Foto: Luciana Cobucci / Terra.
Manifestante na Marcha das Vadias de Brasília/DF 2013. Foto de: Luciana Cobucci / Terra.

Ser mulher não é ser um sexo meigo e passivo e, muito menos, fácil! Infelizmente, temos sempre que repetir: precisamos defender a autonomia das mulheres. Quem decide se é fácil, difícil ou se está na promoção é a pessoa, não os outros. E, seja lá o que ela decidir, que não seja julgada e condenada nos tribunais da moralidade, mas sim que as pessoas simplesmente deixem os outros viverem suas vidas.

Mesmo que eu seja rosa e meiga, ou que esteja de decotão e roupa curta, o que faz de mim mulher é o que sou. Uma pessoa única, com qualidades e defeitos, desejos e contradições. Não há características inatas. Você não vai ao mercado comprar meiguice e leva de brinde a passividade. É uma pena que as pessoas tenham essa necessidade de generalizar demais, deixar tudo muito típico e clichê simplesmente para expressarem seus preconceitos.

Bom, agora que tive o desprazer de conhecer Tati Bernardi e seus textos, ficarei de olho. Pois, pelo que notei tem muita gente enxergando esse tipo de atitude como feminismo. Se pegássemos apenas os trechos em que ela reclama do sexismo, até poderia ser, mas há muito slut-shaming em suas palavras, além de transfobia, preconceito de classe e ageísmo. Precisamos deixar claro que isso não é feminismo. Muito pelo contrário!

Quando leio textos que condenam a forma como as mulheres se vestem, penso nas Marchas das Vadias e como ainda temos um longo caminho pela frente. As vadias do Brasil colocaram na pauta que a roupa também é uma forma de libertação. Andar nas ruas como bem entender é ter direito sobre nosso próprio corpo. A Marcha das Vadias foi criada para pedir respeito, independente do que uso ou deixo de usar. Algo que deveria ser básico em nossa sociedade. Então, eu e muitas outras mulheres, não estamos andando por aí vestidas com roupas curtas para ouvir comentários solícitos ou cantadas. Há quem esteja e ninguém tem nada a ver com a vida delas, nem isso deve ser visto como um convite para a violência sexual.

Portanto, e já que o objetivo de um jornal deveria ser informar, gases são causados por fermentação de bactérias do intestino na digestão. E, corrimento é muitas vezes causado pela falta de ventilação nas partes íntimas ou de alterações na flora vaginal.

Esse texto me lembra muito um meme na internet que proclama: “ser sexy sem ser vulgar”. Pois, para mim, é possível ser sexy do jeito que quiser. Tati Bernardi não quer ser encaixada em estereótipos femininos do que é ser sexy. Porém, acha muito fácil colocar as outras mulheres nas caixinhas da generalização. Ainda bem que há mulheres que vão a reuniões de trabalho de shortinho ou de terninho, respeito é para todas!